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domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Ou foges ou morres": estes homens dizem ter sido enganados pela Rússia para lutarem na Ucrânia - Larry Madowo e Katharina Krebs CNN

"Ou foges ou morres": estes homens dizem ter sido enganados pela Rússia para lutarem na Ucrânia

CNN , Larry Madowo e Katharina Krebs
7/02/2026
https://cnnportugal.iol.pt/guerra/guerra-na-ucrania/ou-foges-ou-morres-estes-homens-dizem-ter-sido-enganados-pela-russia-para-lutarem-na-ucrania/20260207/69838cb7d34e92a344986fb6

Documentos do exército russo de Patrick Kwoba (CNN)
Primeiro são forçados a alistar-se no exército, depois recebem treino militar - pouco - e, num espaço de semanas, são enviados para a linha da frente com ordens para combater o exército ucraniano. Os contratos são assinados sem direito a advogados ou tradução. Esta é a estratégia da Rússia para recrutar civis vindos de África e torná-los em mercenários.
Anne Ndarua luta para conter as lágrimas quando fala sobre o seu único filho. Há seis meses, Francis Ndung'u Ndarua foi para a Rússia com a promessa de um emprego como engenheiro elétrico. A mãe não consegue entrar em contacto com ele desde outubro e já não consegue ter certezas de que o filho esteja vivo.
Em dezembro, alguém enviou a Anne um vídeo do seu filho a alertar outros africanos para não viajarem para a Rússia por causa de ofertas de emprego. “Vão acabar por ser levados para o exército, mesmo que nunca tenham servido nas forças armadas, e serão postos na linha de frente da batalha. E há mortes reais”, diz ele no vídeo, enviado de um número queniano desconhecido. “Muitos amigos morreram em nome do dinheiro”, acrescenta.

Cerca de uma semana depois, um vídeo perturbador de Francis viralizou nas redes sociais. De uniforme, com uma mina terrestre amarrada ao peito, o homem tem uma expressão assustada enquanto um russo, usando insultos racistas, diz que ele será usado como um “abridor de latas” para romper as posições do exército ucraniano.

“É tão traumatizante”, disse Anne à CNN, acrescentando que não assistiu ao vídeo depois de a sua filha lhe descrever o que se via nele. Desolada com a situação do filho, Anne só concordou em ser entrevistada como um último recurso para tentar levar os governos do Quénia e da Rússia a agir.

“Apelo aos governos do Quénia e da Rússia para que trabalhem juntos para trazer aquelas crianças de volta para casa”, pediu. “Eles mentiram-lhes sobre empregos reais e agora estão na guerra com as suas vidas em perigo.”

Um vídeo viral perturbador mostra Francis Ndung'u Ndarua de uniforme com uma mina terrestre amarrada ao peito enquanto um agente russo profere insultos racistas. (CNN)
Francis, de 35 anos, estava desempregado e morava com a mãe numa pequena comunidade nos arredores de Nairóbi antes de partir, tendo pagado cerca de 620 dólares a um agente para facilitar a oportunidade. Anne ficou surpreendida quando Francis informou a família de que estava a ser forçado a fazer treino militar ao chegar à Rússia. Depois de três semanas de treino básico, o jovem do Quénia foi enviado para a Ucrânia, conta Anne.

Francis é apenas um dos cada vez mais numerosos africanos que lutam pela Rússia na Ucrânia, embora os números exatos não sejam conhecidos.

Uma investigação da CNN revelou novos detalhes sobre as táticas de recrutamento de agentes russos no continente, expondo as promessas otimistas feitas a africanos à procura de emprego, a realidade do serviço militar obrigatório e dos combates sangrentos que acabam por ser o destino de muitos deles na linha de frente. A CNN analisou centenas de conversas em aplicações de mensagens, contratos militares, vistos, voos e reservas de hotéis, além de reunir relatos em primeira mão de combatentes africanos na Ucrânia, para entender como a Rússia atrai homens africanos para reforçar as suas fileiras.

Francis Ndung'u Ndarua é retratado em uniforme militar. (Família de Francis Ndarua)
Vários governos africanos, do Botsuana, do Uganda, da África do Sul e do Quénia, já reconheceram a dimensão do problema. A imprensa local tem demonstrado como os cidadãos foram enganados para se tornarem mercenários da Rússia na Ucrânia, e as autoridades já alertaram outros para não seguirem o mesmo caminho.

Os Ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da Rússia não responderam ao pedido da CNN para comentar as alegações de que alguns recrutas foram enganados ou coagidos. A CNN também tentou entrar em contacto com a embaixada russa em Nairóbi para comentar o assunto.

“Não recebi um único cêntimo”
A CNN falou com 12 combatentes africanos que ainda estão na Ucrânia – do Gana, Nigéria, Quénia e Uganda – que disseram que lhes foram oferecidos empregos civis, como motoristas ou seguranças. A maioria garantiu que lhes foi prometido um bónus de assinatura de 13.000 dólares, salários mensais de até 3.500 dólares e a cidadania russa no final do serviço.

Mas quando aterraram na Rússia, foram forçados a alistar-se no exército e receberam pouco treino antes de serem enviados para a linha da frente. De acordo com os testemunhos, foram obrigados a assinar contratos de serviço militar em russo, sem advogados ou tradução. Alguns tiveram os passaportes confiscados, tornando efetivamente impossível a fuga.

Embora a lei russa estabeleça que só se podem tornar soldados aqueles que conheçam o idioma, nenhum dos africanos entrevistados pela CNN falava russo. Os seus salários e bónus diferiam dos oferecidos aos soldados russos e variavam de recruta para recruta. Alguns dos entrevistados, também acusaram agentes de recrutamento ou colegas russos de roubar as suas contas bancárias. A CNN solicitou comentários ao Ministério da Defesa russo.

“Enquanto estávamos na linha de frente, um soldado russo obrigou-me a entregar o meu cartão bancário e a senha sob a mira de uma arma”, disse um combatente africano à CNN, sob condição de anonimato. Quando foi verificar, quase 15 mil dólares do seu bónus tinham sido roubados, deixando a sua conta quase a zeros, afirmou a vítima. “Estou aqui há sete meses e não recebi um único cêntimo. Eles continuam a prometer que vão verificar a situação, mas nada acontece.” Quatro outros que vieram para a Rússia com ele morreram, disse, enquanto lutava para conter as lágrimas.

As cláusulas traduzidas do contrato de serviço militar russo obtido pela CNN mostram uma imagem muito mais vinculativa e de longo prazo do serviço do que os agentes de recrutamento normalmente anunciam: além da promessa principal de um salário e benefícios, o contrato vincula o militar a obrigações amplas e indefinidas, incluindo a participação em operações de combate e destacamentos no exterior, requisitos rigorosos de lealdade e a obrigação de reembolsar o Estado pelo treinamento militar, se necessário, com o valor real deixado em branco na assinatura. As letras miúdas também se estendem à vida civil: o acesso a segredos de Estado pode acionar proibições de viagens ao exterior, entrega obrigatória de passaportes, limites à privacidade e restrições vitalícias à divulgação de informações confidenciais.

Embora os agentes de recrutamento anunciem caminhos rápidos para o emprego civil, o contrato estabelece que a ajuda significativa com empregos pós-serviço - através de uma reconversão profissional gratuita numa especialidade civil - só se torna disponível após pelo menos cinco anos completos de serviço (excluindo o tempo gasto na educação militar) e apenas se a demissão ocorrer por motivos específicos, como idade, saúde ou expiração do contrato.

Captura de ecrã de uma mensagem nas redes sociais entre um agente e um potencial recruta em África. (CNN)
Recrutas africanos alegam racismo e abuso
A imagem retratada nas redes sociais é muito diferente. “Para aqueles que estejam em África, na Nigéria, que se querem alistar no exército russo, é muito, muito fácil e muito bom, sem stress”, diz um homem nigeriano não identificado, vestindo um uniforme militar russo, num vídeo com várias partilhas. Menciona o seu estado natal na Nigéria, apresenta um homem venezuelano que está sentado ao seu lado e afirma que sua experiência é boa.

“Como é que perguntas a um militar internacional qual é o meu salário?”, alerta o soldado ganês Kwabena Ballo na sua página na rede social TikTok, também vestindo um uniforme do exército russo. “O meu salário pode alimentar o teu pai, a tua mãe e toda a tua família durante dois ou três anos”, diz em inglês pidgin. Embora alguns dos vídeos publicados nas redes sociais por africanos sejam em inglês e francês, muitos são em línguas como o igbo, suaíli e twi, para atrair diretamente o público dos países-alvo.

Mas todos, exceto um, dos doze recrutas africanos atualmente na Ucrânia que falaram com a CNN estavam desesperados para sair, incluindo aqueles que já tinham servido nas forças armadas dos seus próprios países.

A maioria descreveu um alistamento forçado numa guerra mortal com inúmeras baixas, racismo por parte dos comandantes russos, salários não pagos e nenhuma saída. Alguns contaram ter visto os corpos de outros africanos deixados a apodrecer no campo de batalha durante meses. Compatriotas a perderem membros sem compensação e sofrerem abusos psicológicos constantes por parte dos soldados russos, lamentam as testemunhas.

“A guerra aqui é muito intensa e muitas pessoas estão a morrer em ambos os lados”, disse o único combatente africano que admitiu à CNN que queria cumprir o seu contrato numa mensagem de vídeo. “Esta não era a expectativa destes rapazes que vieram para lutar. Eles pensavam que seria um pouco mais fácil para eles como mercenários.”

Enfrentando enormes pressões de mão de obra à medida que a guerra na Ucrânia se aproxima dos quatro anos, a Rússia promove ativamente a participação de recrutas africanos no seu exército como parte de uma narrativa de relações públicas mais ampla.

A televisão estatal e os legisladores regionais destacam histórias individuais - como combatentes nascidos em África que recebem a cidadania russa, felicitações públicas de legisladores e despedidas transmitidas pela televisão apresentadas como ordeiras e honrosas - para retratar os recrutas estrangeiros como colaboradores comprometidos e gratos ao esforço de guerra da Rússia.

Patrick Kwoba mostra a sua identificação militar russa, recebida após três semanas de treino militar básico antes de ser enviado para a Ucrânia. (CNN)
“Ou foges ou morres”
Patrick Kwoba tem 39 anos e foi convencido por um amigo africano no exército russo a alistar-se, depois de ver como a vida do colega parecia boa nas redes sociais. Carpinteiro, com experiência de trabalho em estaleiros de construção no Catar e na Somália, pagou a um agente queniano cerca de 620 dólares sob a promessa de que receberia um bónus de assinatura de 23 mil dólares em Moscovo.

“Pensei que ia ser guarda de segurança no exército, não um combatente”, disse Kwoba à CNN em Nairóbi, para onde regressou após desertar. Em declarações à CNN descreve os quatro meses que passou na Ucrânia como “um inferno” e considera o seu regresso a casa um milagre. Segundo Patrick Kwoba, recebeu apenas três semanas de treino militar básico e manuseamento de armas de fogo antes de ser enviado para a Ucrânia.

Algumas semanas depois, Kwoba foi ferido numa emboscada por um drone ucraniano e num ataque com granadas, mas disse que o seu parceiro russo se tornou hostil em vez de o ajudar. “Quando se está ferido, o código é ‘3 estrelas’ quando se pede primeiros socorros. Eu disse isso ao meu parceiro russo, mas ele expulsou-me e começou a disparar sobre mim”, lembrou Kwoba, que acabou por receber ajuda, mas, admite, sabia que precisava de fugir antes que fosse enviado de volta para lutar.

Patrick Kwoba, na foto com uniforme militar, diz que ficou ferido enquanto estava destacado na Ucrânia. (Patrick Kwoba)
“A partir do momento em que te alistas no exército russo, ou foges ou morres”, disse o antigo soldado. “Não há como ir para a Rússia e voltar vivo. Porque, se terminar o contrato, essas pessoas obrigam-te a ficar lá. Não te podem libertar.”

Kwoba fugiu quando lhe deram uma licença para recuperar em São Petersburgo, conseguindo chegar à embaixada do Quénia em Moscovo e apanhar o primeiro voo para casa. O pessoal da embaixada emitiu-lhe um documento de viagem temporário para evitar que fosse detetado, contou, uma vez que tinha excedido o prazo do visto de turista de entrada única que utilizou para entrar na Rússia em setembro de 2025.

Kwoba ainda precisa de ser submetido a cirurgia para remover fragmentos das nádegas e da parte de trás das coxas. Mas sabe que tem sorte em estar vivo.

Patrick Kwoba mostrou à CNN a sua documentação do exército russo. (Patrick Kwoba)
Ucrânia: interrompam o fluxo
O fotógrafo queniano Charles Njoki, de 32 anos, também descobriu os horrores da guerra em primeira mão. Na esperança de ganhar mais para sustentar a sua esposa grávida e a sua família, candidatou-se diretamente a um portal de recrutamento do exército russo para uma vaga de operador de drone e recebeu uma resposta em duas horas, explicou à CNN.

Vendeu o seu carro para pagar o voo e a acomodação e aterrou na Rússia, tudo no espaço de uma semana, planeando surpreender os pais com uma grande quantia de dinheiro e a cidadania russa ao final do seu serviço. Mas os seus planos foram rapidamente por água abaixo.

A mulher de Charles Njoki abortou enquanto decorria o treino. O marido só descobriu alguns dias depois, uma vez que os telemóveis dos recrutas tinham sido confiscados. Njoki aprendeu a montar e desmontar drones, mas nunca chegou a pilotá-los quando foi enviado para a frente de batalha.

Charles Njoki é fotografado com uniforme militar russo na Ucrânia. (Charles Njoki)
Algumas semanas depois, um ataque com drones ucranianos deixou-o com a mão esquerda ferida e um problema na coluna que requer cirurgia. “Um médico russo disse-me que eles só estão interessados nos dois dedos que uso para atirar”, disse o combatente à CNN em Nairobi.

Njoki afirma que os combatentes africanos foram deliberadamente expostos a situações perigosas, servindo de isco para os drones ucranianos. “Eles dizem às pessoas que vais guardar o local, que não vais para a linha da frente, mas dás por ti e estás na linha da frente, a lutar.” Também Njoki fugiu de São Petersburgo, recorrendo à embaixada do Quénia em Moscovo, de onde regressou a casa.

“Eles estão a mentir às pessoas. O dinheiro que dizem que vão pagar às pessoas, não é verdade”, sublinhou.

A Ucrânia instou as nações africanas a interromperem o fluxo de homens para as fileiras russas.

“Se eles estão na linha da frente, são nossos inimigos e a Ucrânia defende-se”, disse o embaixador ucraniano no Quénia, Yurii Tokar, à CNN. “Este fluxo deve ser interrompido”, reforçou.

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