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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve' - Vinícius Mendes BBC Brasil

 Minha introdução a esta importante matéria, mas infelizmente totalmente equivocada quanto à substância dos problemas reais da humanidade.

Maurício David introduz o envio deste artigo sobre  o incurável socialista francês. Sinto muito discordar dele: não acredito que a função mais nobre dos economistas seja a de empobrecer os ricos, como o meio privilegiado de criar essa ilusória igualdade num nível de renda per capita muito abaixo das possibilidades gerais de cada economia nacional, supostamente funcionando em regime de livres mercados.

O que Piketty deveria buscar, como a mais nobre missão dos economistas, seria estimular os meios de ENRIQUECER OS MUITO POBRES, em lugar de buscar uma igualdade impossível. A experiência terrível do socialismo bolchevique não foi suficiente para convencê-los de que a tentativa de equalizar a riqueza geral necessitaria de uma incrível violência social? Basta olhar para Cuba e Coreia do Norte, os fenômenos resilientes do socialismo marxista (na verdade oligárquico). PRA

 

O fenômeno Piketty estourou no mercado de idéias logo depois que eu terminei o meu doutorado na França. De algum modo, o Thomas Piketty fomos colegas ou contemporâneos na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, uma muito prestigiosa instituição francesa de estudos de pós-graduação ( o Piketty cursando o doutorado em Economia, eu trabalhando na “École”- como é conhecida na França a EHESS- junto a Ignacy Sachs e Michel (ambos lamentavelmente falecidos recentemente recentemente). Muito aprendi na França com o grande Sachs (discípulo). 

Maurício David

 

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Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve' 

 Vinícius Mendes

BBC Brasil, quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.

O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.

Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.

E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

 

BBC News Brasil - Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?

Thomas Piketty - Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centersem todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.

Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.

BBC News Brasil - Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?

Piketty - Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.

BBC News Brasil - Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?

Piketty - A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.

Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.

BBC News Brasil - O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?

Piketty - Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.

E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.

BBC News Brasil - Por serem políticas bélicas?

Piketty - A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.

Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.

BBC News Brasil - O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?

Piketty - Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.

BBC News Brasil - Teria um exemplo de como isso funcionaria?

Piketty - Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.

A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.

Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.

BBC News Brasil - As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?

Piketty - Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.

Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.

BBC News Brasil - Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?

Piketty - Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.

Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.

Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.

BBC News Brasil - Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?

Piketty - Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.

Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.

Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.

BBC News Brasil - Qual é o papel do Brasil em tudo isso?

Piketty - Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.

Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".

BBC News Brasil - Por quê?

Piketty - Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.

Eu vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.

BBC News Brasil - Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?

Piketty - A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.

Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.

BBC News Brasil - É uma questão de repetição das propostas, portanto?

Piketty - Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.

Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.

BBC News Brasil - Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?

Piketty - Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.

Eu escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.

BBC News Brasil - Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?

Piketty - Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.

 



terça-feira, 8 de setembro de 2026

Quais as propostas em política externa dos candidatos à Presidência do Brasil em 2026? - BBC Brasil

 

Quais as propostas, especificamente em política externa, dos candidatos à Presidência do Brasil em 2026? No site BBC News Brasil, link https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm2gryker9mo ("Eleição 2026: quais são as propostas dos candidatos?"), selecionando os botões "Política externa" e em seguida "Todos candidatos", obtemos o resultado do filtro. Os candidatos aparecem em ordem alfabética. Veja: 

Augusto Cury (Avante):
Ainda não apresentou propostas nesta categoria.

Clariana Barão (DC):
Cooperação internacional contra o narcotráfico e o tráfico de armas.

Edmilson Costa (PCB):
Solidariedade a Cuba;
Enfrentamento do "imperialismo estadunidense".

Flávio Bolsonaro (PL):
Retomar o cronograma interrompido de adesão à OCDE, incluindo o fim gradual do IOF sobre o câmbio;
Plano nacional de integração às cadeias globais de valor;
Posicionar o Brasil entre os principais destinos de investimento em transição energética.

Hertz Dias (PSTU):
Aumento dos investimentos em defesa nacional;
Converter parte do contingente de reservistas em uma força de defesa nos moldes do modelo suíço.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT):
Política externa “ativa e altiva”;
Fortalecer a presença brasileira em organismos multilaterais;
Liderar a agenda climática e de desenvolvimento sustentável nos foros internacionais;
Diversificar as parcerias comerciais, tecnológicas e financeiras do Brasil;
Investir nas “capacidades das Forças Armadas” e na Base Industrial de Defesa.

Pablo Marçal (PRTB):
Ainda não apresentou propostas. Elas serão inseridas assim que forem divulgadas pelo candidato.

Renan Santos (Missão):
Brasil liderando combate ao crime organizado na América do Sul;
Bloqueio e proibição de "financiamento estrangeiro, especialmente de fundações como a Open Society de George Soros, para ONGs que promovem agendas pró-crime e garantismo penal";
"Diplomacia do churrasco", usando a refeição em encontros internacionais;
Aliança estratégica com os EUA, para substituir importações chinesas por brasileiras;
Integração Lusófona, reposicionando países de língua portuguesa como bloco geopolítico coeso;
Propõe que o Brasil tenha armas nucleares*.

Ronaldo Caiado (PSD):
Fomentar abertura comercial e explorar novos mercados para o Brasil no exterior*.

Romeu Zema (Novo):
Abertura ao comércio exterior com redução gradual de tarifas.

Rui Costa Pimenta (PCO):
Apoio à Rússia na disputa com a Otan, ao governo venezuelano, à República Islâmica do Irã e à resistência palestina.

Samara Martins (UP):
Ainda não apresentou propostas nesta categoria.

Wilson Grassi (Democrata):
Atuação internacional baseada no interesse brasileiro, inclusive em negociações comerciais, ambientais, sanitárias, tecnológicas e de defesa;
Cooperação com países vizinhos para combater crimes transfronteiriços;
Fortalecer a defesa sanitária, acelerar a rastreabilidade da produção agropecuária e adotar padrões de bem-estar animal compatíveis com as exigências internacionais, além de ampliar a diplomacia sanitária para abrir e reabrir mercados para produtos brasileiros.

I) Consulta [ao link citado acima] realizada [por ADL] em 20/08/2026 às 14h05. 
II) Conteúdo sujeito a alterações/atualizações posteriormente. 

Até agora, disputam a Presidência, em ordem alfabética: Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Flávio Bolsonaro (PL), Hertz Dias (PSTU), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Pablo Marçal (PRTB), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata). 

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terça-feira, 4 de junho de 2024

Quem compete com o Brasil pela liderança do 'Sul Global'? - Julia Braun (BBC Brasil)

 Quem compete com o Brasil pela liderança do 'Sul Global'?

Julia Braun

 Role, Da BBC Brasil em Londres

 Twitter, @juliatbraun

BBC-Brasil, 28 maio 2024, Atualizado 31 maio 2024

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0kl44720r5o


Em seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido apontado como um dos principais candidatos para liderar o chamado 'Sul Global' em sua busca por mais prestígio para países em desenvolvimento, principalmente da América do Sul, África e Ásia. 

Ao longo do segundo semestre de 2023, o Brasil ocupou a presidência temporária do Mercosul. Até novembro deste ano, o país também ocupa a liderança rotativa do G20, grupo que reúne as 19 principais economias do mundo, além da União Europeia e União Africana.


Em 2025, o governo brasileiro ainda assumirá a presidência do Brics e sediará a 30ª Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP-30).

Todas essas plataformas são vistas como oportunidades para que o país avance sua agenda — e de seus aliados. 

Essa imagem, entretanto, tem sido desafiada por um cenário internacional marcado por guerras e disputas geopolíticas e um contexto doméstico que requer cada vez mais atenção.

E críticos apontam que posicionamentos recentes de Lula, em especial sobre a guerra na Ucrânia, podem ser travas para a ambição do Brasil em se tornar uma ponte entre os países em desenvolvimento e as superpotências.

Nesse contexto, qual a força do Brasil nessa batalha pela liderança do 'Sul Global'? E quem são os outros concorrentes ao posto de 'capitão' desse grupo tão heterogêneo e etéreo?


O que é o 'Sul Global'?

Apesar do nome, o 'Sul Global' nada tem a ver com uma divisão geográfica, mas sim com as estruturas socioeconômicas, aponta Sara Stevano, professora da Universidade de Londres e economista especializada em desenvolvimento.

Eu consideraria como parte do 'Sul Global' um país que tem uma estrutura econômica típica de contextos pós-coloniais, o que significa que a economia é normalmente baseada na exportação de commodities primárias ou mesmo bens manufaturados considerados de menor valor agregado", diz.

O conceito também inclui as nações consideradas parte da "periferia da economia global" ou que mantêm uma certa dependência em relação aos países do 'Norte Global', em especial, Estados Unidos e Europa. 

"O espaço que os tomadores de decisões políticas têm nos países do 'Sul Global' tende a ser mais estreito do que nos países do 'Norte Global'", afirma Stevano. 

O termo é muito usado no contexto da mobilização de alguns países em torno de preocupações e interesses comuns, especialmente diante da relação com as grandes potências em questões como comércio ou mudanças climáticas. 

Na prática, atualmente tais interesses se manifestam principalmente por meio do Grupo dos 77 (G77) nas Nações Unidas. 

Formado por 134 países, o grupo afirma fornecer os meios "para os países do Sul articularem e promoverem os seus interesses econômicos coletivos e reforçarem a sua capacidade de negociação conjunta em todas as principais questões econômicas internacionais dentro do sistema das Nações Unidas e promover a cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento".

China e Brasil, por exemplo, estão entre os que defendem uma reforma da ONU para aumentar a representatividade e o direito à voz das nações do 'Sul Global'. 

Sara Stevano ressalta, porém, que há diferenças muito grandes entre os países que pertencem ao grupo que não devem ser ignoradas.

Brasil e Moçambique, por exemplo, são ambos considerados parte do 'Sul Global' e possuem economias baseadas na exportação de commodities.

Mas enquanto o Brasil é um ator de influência no grupo, cujo PIB (produto interno bruto) chegou a US$ 2,17 trilhões em 2023, o país africano terminou o ano com US$ 20,8 bilhões, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Há países que estão na periferia da periferia", diz Stevano. 

Da mesma forma, os interesses e as bases das relações cultivadas por cada uma das nações com seus parceiros do Sul — e as potências do Norte — diferem profundamente. 

Essa heterogeneidade está no cerne dos argumentos dos críticos ao termo, que temem que seu uso possa reforçar dicotomias e estereótipos imprecisos e ultrapassados.

Antes do termo 'Sul Global', a expressão '3º Mundo' era usada com frequência. 

O conceito surgiu durante a Guerra Fria e englobava as nações que não pertenciam nem ao chamado '1º Mundo' (nações ocidentais e desenvolvidas) nem ao '2º Mundo' (composto pelas nações socialistas e comunistas).

Outros conceitos, como 'país desenvolvido' ou 'em desenvolvimento', também ganharam mais espaço nas discussões internacionais. 

No entanto, segundo Sara Stevano, são expressões associadas a uma ideia de desenvolvimento linear que raramente é verdadeira. 

"Essa linguagem tem um ponto cego muito significativo, que é o fato de existirem relações de poder em jogo na economia global", diz. "De certa forma, a terminologia 'Sul Global' deixa isso mais claro."

Quais são, então, os países que se destacam no 'Sul Global' — e por quê?


China: força econômica e política

A China, segunda maior economia do mundo, é um caso bastante único — e por isso está no foco de muitos dos críticos da expressão 'Sul Global'.

O país passou por acelerado crescimento econômico a partir da década de 80. Entre 1994 a 2022, teve uma alta média anual de 8,7% no PIB, com um pico em 2007 (+14,2%).

Há quem aponte que não só a posição econômica da China diante da economia global, mas também os níveis de influência geopolítica exercidos pelo país atualmente, são incompatíveis com os conceitos do 'Sul Global'. 

Mas para Nikita Sud, professora da Universidade de Oxford (Reino Unido) e especialista no tema, as experiências passadas com o imperialismo justificam a inclusão no grupo. 

O grande período de influência europeia na China começou com as chamadas Guerras do Ópio entre 1839 e 1860, travadas contra o Império Britânico e motivadas principalmente pelo comércio do ópio. 

"As ideias pregadas (pelo colonialismo) de dominação racial e civilização continuam até hoje. E é por isso que a China se vê como parte do 'Sul Global' apesar de competir economicamente com os EUA atualmente", diz Sud. 

"Mas a política local, a origem do país e a hierarquia baseadas no racismo alinham a China mais com o Sul do que com o Norte."

O próprio governo chinês só passou a falar com mais frequência sobre o assunto e a se definir como parte do grupo recentemente (antes usava o termo "família de países em desenvolvimento").

Em setembro de 2023, durante o discurso anual na Assembleia Geral das Nações Unidas, o vice-presidente chinês, Han Zheng, disse que a China é um membro natural do Sul Global pois "respira o mesmo ar que outros países em desenvolvimento e partilha com eles o mesmo futuro".

Há quem veja nesse posicionamento mais uma estratégia para se opor à "hegemonia do Oeste" e disseminar uma imagem de grandeza. 

"Para concretizar o sonho do presidente Xi de rejuvenescer a grande nação chinesa, a China precisa assumir um papel de liderança no mundo e o Sul Global serve de veículo para isso (...)", afirmou Robin Schindowski, analista do think tank Bruegel, em um artigo de 2023. 

No entanto, segundo o especialista em China, "preocupações internas" do governo Xi também levaram o governante a impulsionar essa agenda. 

"Embora os fatores estratégicos não devam ser negligenciados, as preocupações internas mais humildes desempenham um papel igualmente importante na procura da China por mais oportunidades nas economias emergentes, especificamente os problemas de longa data do país com o excesso de capacidade industrial."

Mas são justamente a força econômica e política da China que colocam o país como uma das lideranças do 'Sul Global'.

Em uma reportagem publicada em abril, a revista inglesa The Economist utilizou um índice produzido pelo Centro Pardee para Futuros Internacionais (PCIF, na sigla em inglês), da Universidade de Denver, nos Estados Unidos, para comparar o nível de influência de alguns países entre os membros do G77.

Os Estados Unidos têm se destacado como o país com maior influência nas nações do grupo desde a década de 1970, mas a China aparece cada vez mais como um rival de peso, de acordo com o levantamento.

Segundo o Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) do PCIF, a influência chinesa começou a crescer a partir dos anos 2000 e deve ultrapassar a americana nas próximas décadas. 

Ainda de acordo com o índice, a "capacidade de influência" da China sobre o G77 é aproximadamente o dobro da exercida pela França, o terceiro país mais influente entre o grupo, e cerca de três vezes a do Reino Unido, da Índia ou dos Emirados Árabes Unidos. 

O índice é calculado com base em dados que abrangem as dimensões econômica, política e de segurança da influência bilateral formal. Isso inclui interações como intercâmbio diplomático, transferências de armas e comércio de mercadorias, mas não ações menos transparentes, como o financiamento de atores não estatais ou tentativas de interferir em eleições.

Os dados do FBIC apontam maior influência chinesa em 31 países do G77, com destaque para Paquistão, Bangladesh, Rússia e outros Estados do Sudeste Asiático. 

Outro foco da influência chinesa é a África. 

A China apoiou vários movimentos de independência africanos durante a Guerra Fria e, atualmente, a presença da potência asiática no continente se manifesta principalmente por meio de investimentos externos diretos, ajuda financeira, projetos de infraestrutura e empréstimos. 

Em 2013, a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China foi lançada por Xi Jinping, apresentando a ambição de revigorar a antiga rota comercial da seda ao longo de parte da costa da África Oriental. 

Teoricamente, isso deveria ter concentrado o investimento chinês na África Oriental, mas muitos outros Estados africanos também procuraram oportunidades através da BRI, fazendo com que a iniciativa se expandisse rapidamente.

Desde então, a BRI assistiu à construção de inúmeros projetos de infraestruturas em toda a Ásia e África, financiados por empréstimos chineses.

O projeto também chegou a países latino americanos: atualmente, 22 nações da América Latina e Caribe fazem parte da BRI.

O comércio entre a China e os países latino-americanos, aliás, bateu um recorde histórico em 2023.

A troca de mercadorias entre a região e o gigante asiático ultrapassou US$ 480 bilhões, segundo cálculos da BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, com base em dados da Administração Aduaneira da República Popular da China (AGA, na sigla em inglês).

A balança comercial foi relativamente equilibrada, com um ligeiro superávit favorável à América Latina, de US$ 2 bilhões.

O novo recorde no comércio de mercadorias com a China constitui mais um passo em uma tendência ascendente que tem sido registrada ao longo deste século. 

O intercâmbio bilateral do país asiático com a América Latina e o Caribe (ALC) mal girava em torno de US$ 14 bilhões no ano 2000, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

A China também assinou nos últimos anos tratados de livre comércio com Chile, Costa Rica, Equador, Nicarágua e Peru, e já negocia com outras nações da região. 


Índia e a 'ponte entre o Sul e o Ocidente'

No bloco informal, a Índia é a grande concorrente da China e aparece no Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) como o país mais influente para seis nações do G77 — entre elas, vizinhos como Sri Lanka e Butão. 

Mas assim como Pequim, Nova Déli também tem buscado expandir sua influência para além de seus arredores, com foco especial na África. 

O número de embaixadas indianas no continente passou de 25 para 43 entre 2012 e 2022, segundo a The Economist.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirma ainda que o país é o quarto maior parceiro comercial africano e a quinta maior fonte de investimento direto estrangeiro na região.

O país também se destaca na área da tecnologia, com importação de sistemas e plataformas digitais, incluindo tecnologias de identidade biométrica.

Segundo um relatório do Centro de Investigação Econômica e Empresarial (CEBR, na sigla em inglês), uma empresa de consultoria com sede em Londres, a Índia deverá manter um forte crescimento de cerca de 6,5% ao ano entre 2024 e 2028, e tornar-se a terceira maior economia do mundo até 2032, ultrapassando o Japão e a Alemanha.

Apesar da ascensão meteórica de sua economia, a Índiacontinua a se classificar como parte do 'Sul Global' e impulsiona sua posição de liderança no bloco informal. 

O país organizou e presidiu em 2023 dois encontros da cúpula Voz do Sul Global, criada por Modi para realizar encontros online sobre desenvolvimento financeiro, crise climática e outros temas de interesse.

A abordagem indiana, porém, é distinta da chinesa. 

Enquanto Pequim se projeta como uma alternativa clara aos Estados Unidos, Nova Déli busca angariar influência se posicionando como um intermediário ou uma ponte entre seus aliados do Sul e o Ocidente.

O governo Modi mantém uma relação especialmente próxima com os EUA, mas, ao mesmo tempo, adota posições bastante pragmáticas em política externa, se recusando, por exemplo, a condenar a Rússia pela invasão à Ucrânia. 

"Só porque o país se identifica com o 'Sul Global' e é conveniente formar um bloco de aliados para negociar, por exemplo, questões climáticas, não significa que na hora de fazer comércio, atrair investimentos ou contrair empréstimos, ele não possa procurar um país do Norte", diz Nikita Sud.

Quando se trata da defesa por reformas no sistema internacional, a posição indiana também reflete sua postura pragmática. 

Na última reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizada em outubro passado, China e Índia tomaram posições opostas na discussão sobre a reforma das instituições financeiras multilaterais e as cotas de voto dos países-membros no FMI. 

Enquanto o governo indiano apoiou a proposta dos EUA para um aumento "equiproporcional" das cotas de contribuição financeira sem alteração no poder de voto dos países-membros, a China defendeu um aumento de ambas as cotas como forma de refletir a crescente participação dos países em desenvolvimento na economia global.

Em tese, as cotas dos países no FMI estão relacionadas à participação de cada um deles na economia mundial. Essas cotas determinam, entre outros fatores, o poder de voto dos países dentro do organismo internacional e a possibilidade de acesso a financiamentos de emergência.

Atualmente, China e Índia possuem, respectivamente, 6,4% e 2,75%. O Brasil detém 2,32% das cotas. Os Estados Unidos têm 17,43% das cotas, enquanto Alemanha e Reino Unido detêm 5,59% e 4,23%, respectivamente.


Brasil e as agendas prioritárias de Lula

Para muitos analistas, o Brasil também é um candidato forte ao posto de "líder" do 'Sul Global'.

A ideia foi bastante debatida durante os dois primeiros governos do presidente Lula, que sempre teve essa como uma de suas agendas prioritárias em termos de política externa. 

Com a volta do petista para um terceiro mandato, o país voltou a ser apontado pela imprensa internacional como uma voz nesse debate. 

"Lula está se autodenominando o novo líder do Sul Global – e desviando a atenção do Ocidente", diz uma matéria de abril do jornal britânico The Guardian.

A reportagem afirma que 2024 será um teste para a ambição do presidente, já que o Brasil está na presidência rotativa do G20 e sediará a reunião de cúpula do grupo em novembro (além da COP30 em 2025).

Um dos pontos principais da política de Lula para o 'Sul Global' é a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a criação de assentos permanentes para nações em desenvolvimento, além de equilíbrio do poder de veto.

Em uma entrevista no início do mês, Lula advogou por uma ampla reforma nos organismos financeiros multilaterais, como o FMI. E que os países que têm grandes dívidas externas possam pagar apenas parte delas, usando o restante em investimentos em suas infraestruturas nacionais.

"Uma coisa que queremos defender (no G20) é a mudança no sistema financeiro, criado após a Segunda Guerra. Aquelas instituições não funcionam mais. Elas sufocam os países", afirmou o presidente.

O petista também defende que os países mais ricos e desenvolvidos colaborem mais e financeiramente com os países pobres na luta contra o aquecimento global e desmatamento. 

Essa ideia é apoiada por outras nações do 'Sul Global', mas tem encontrado obstáculos nas últimas negociações. 

Os países industrializados têm se mostrado relutantes em se comprometer financeiramente, preocupados especialmente com a possibilidade de serem responsabilizados legalmente pelos impactos da mudança climática no processo.

Em um artigo publicado no final de 2023, os pesquisadores Christopher S. Chivvis e Beatrix Geaghan‑Breiner, do think tank Fundo Carnegie para a Paz Internacional, afirmaram que apesar da tradição brasileira de independência e não-alinhamento em termos de política externa, a autonomia do país se fortalece à medida que o impasse entre EUA e a China se amplia e o peso político e econômico da nação cresce.

"O Brasil quer evitar uma ordem mundial estruturada apenas pela competição entre grandes potências e, em vez disso, espera uma ordem multipolar onde os Estados do seu tamanho tenham mais voz nas instituições internacionais e maior influência em geral. Na opinião do Brasil, o surgimento de novas potências, especialmente a China, promete uma era de 'multipolaridade benigna', na qual o poder do Ocidente será reduzido e a influência das nações em ascensão será reforçada", argumentaram os pesquisadores. 

Mas para Laura Trajber Waisbich, diretora do programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, falta ao Brasil protagonismo e capacidade de liderança em algumas áreas.

"O Brasil tem capacidade de liderar em algumas agendas, mas em outras não", diz a especialista. "E em quais áreas apostar deve ser uma decisão estratégica e pragmática".

Para Waisbich, o país se destaca quando o assunto é a agenda ambiental e a reforma das organizações ambientais, dois temas que fazem parte do programa de política externa brasileiro há anos. Por outro lado, quando assuntos de segurança com menor proximidade ao Brasil estão em discussão, o país pode escorregar ao tentar se colocar como protagonista.

"Existe capacidade de liderança, de articulação e de ser uma fonte de inspiração para discussões sobre problemas globais, mas [o Brasil] não deveria ter a pretensão de ser um modelo ou líder para tudo", diz. 

Leonardo Ramos, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), explica que o desafio de Lula em avançar com a agenda relativa ao Sul é maior hoje do que no passado.

"O mundo mudou e muitas questões delicadas surgiram desde a última presidência do Lula, como as tensões entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e a ascensão da nova direita", diz.

Segundo o especialista, em alguns momentos a política externa obriga os países a se alinharem ou condenarem um dos lados envolvidos nos confrontos, causando constrangimentos e prejudicando a ideia de não alinhamento defendida por muitas das nações do Sul.

"E as próprias tensões domésticas e a polarização extrema têm ocupado mais a atenção hoje do que no passado. Com tudo isso, ele tinha mais margem de manobra e respaldo interno."

Para Nikita Sud, nos últimos meses, dois países chamaram a atenção por seu posicionamento mais assertivo do que o normal frente à guerra em Gaza: Brasil e África do Sul.

Enquanto o governo sul-africano apresentou uma acusação de genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), a diplomacia brasileira tem sido bastante crítica à atuação de Israel no enclave palestino e chegou a votar a favor de uma resolução da ONU que conclama o fim da venda e transferência de armamentos aos israelenses.

Segundo a professora da Universidade de Oxford, por terem se posicionado de forma distinta daquela incentivada pelos Estados Unidos, as nações se projetaram como "vozes" mais relevantes na disputa pela liderança de uma nova ordem global, apesar de terem sido alvo de muitas críticas.

Mas para o diplomata Paulo Roberto de Almeida, ex-ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington e ex-assessor especial do núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, os posicionamentos pouco neutros do Brasil têm justamente o efeito contrário e prejudicam sua busca por liderança. 

Segundo Almeida, o governo do presidente Lula tem investido em uma política externa excessivamente "partidária e personalista" que causa fricções com as grandes potências do Ocidente.

O diplomata cita, em especial, a posição em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Apesar de defender uma mediação pela paz, o presidente brasileiro fez declarações que foram entendidas como uma forma de apoio brando à Rússia. 

Em janeiro de 2023, durante visita do chanceler alemão Olaf Scholz ao Brasil, Lula chegou a dizer que a Rússia estava errada em invadir a Ucrânia, mas também sinalizou para culpa do próprio país invadido. “Continuo achando que quando um não quer, dois não brigam”, afirmou. Em maio do ano passado, ao participar do G-7, no entanto, Lula disse que condenava a violação da integridade territorial da Ucrânia.

"A insistência do Brasil em considerar todas as partes legítimas e a falta de neutralidade recente têm minado a posição do Brasil como líder", diz Almeida. 

Ainda segundo Paulo Roberto de Almeida, a busca por uma maior cooperação com outros países em desenvolvimento não deve vir em detrimento da relação com Estados Unidos e Europa - algo que tem acontecido, segundo ele.

"Essa aproximação de Lula com os países proponentes de uma nova ordem global tem causado alguns problemas com os tradicionais parceiros do Brasil no Ocidente, Estados Unidos e Europa Ocidental basicamente."

Laura Trajber Waisbich, de Oxford, discorda. "Não precisa ser um ou outro", diz. "Às vezes pode haver uma decepção ou um desacordo mútuo, mas na minha percepção é um desacordo que afeta apenas partes da relação bilateral, não o todo."

Segundo a especialista, países como Reino Unido, EUA, Japão e Noruega, por exemplo, têm demonstrado confiança em relação à liderança do Brasil na área ambiental, apesar de tomarem posições distintas em relação a temas como a guerra na Ucrânia. 

Para além da política externa, o cenário econômico mundial mudou profundamente desde os primeiros governos de Lula. 

Entre 2002 e 2010, o PIB brasileiro teve um crescimento médio de 4,1%, ancorado, sobretudo, no crescimento das exportações de matérias-primas e commodities do Brasil para nações em vertiginoso crescimento, como a China.

Já em 2023, Lula assumiu em um momento de crescimento menor, inflação persistente e contas públicas afetadas pela pandemia de covid-19.

Ao mesmo tempo, há sinais de que o legado construído pelo atual presidente e pelo Brasil de forma geral ainda garante uma boa posição, segundo analistas. 

"O Lula foi o único chefe de Estado de país emergente que participou das reuniões de cúpula do G77, do G20 e do Brics ano passado, certamente já pensando em reforçar essa posição de liderança", diz Leonardo Ramos, professor da PUC-Minas. 

Os dados do índice elaborado pelos pesquisadores da Universidade de Denver mostram que o Brasil é o campeão de influência em três países do G77: Bolívia, Paraguai e Uruguai. O cálculo considera o ano de 2022 como referência.

O Brasil foi o país com maior influência sobre a Argentina até 1997, segundo o FBIC, mas ficou atrás dos Estados Unidos nos últimos anos. 


África do Sul: 'líder moral'

Correndo nas margens da disputa, está mais um dos membros "mais antigos" dos Brics, a África do Sul. 

O país se juntou em 2011 ao grupo que começou com Brasil, Rússia, Índia e China em 2008, mas é atualmente considerado um dos integrantes mais antigos, já que Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita foram convidados a aderir ao bloco.

A aliança, aliás, tem papel central no avanço da ideia do 'Sul Global' atualmente. 

A própria expansão do grupo após a 15ª Cúpula do Brics, em 2023, foi considerada um enorme passo para que o 'Sul Global' tome o centro do palco da política global.

O presidente da África do Sul e anfitrião daquela reunião de cúpula, Cyril Ramaphosa, disse à imprensa que uma ampliação ainda maior é esperada para os próximos anos.

Segundo ele, os Brics "embarcaram em um novo capítulo no seu esforço para construir um mundo que seja mais justo, honesto, inclusivo e próspero".

Sob a liderança de Ramaphosa, a segunda maior economia da África (atrás apenas da Nigéria, segundo dados de abril de 2024 do FMI) tem expandido sua força de liderança. 

Para Anthoni van Nieuwkerk, professor da Universidade da África do Sul, o presidente "está restaurando a posição e o papel do país como líder moral global".

"As mensagens e o tom usado por Ramaphosa sugerem um líder assertivo do Sul que compreende como o mundo funciona. Ele não tem medo de desafiar a narrativa dominante e está preparado para colocar sobre a mesa as exigências do Sul Global", afirmou, em um artigo publicado no portal The Conversation em dezembro de 2023.

Essa ideia foi reforçada especialmente pela apresentação da denúncia à Corte Internacional de Justiça em Haia contra Israel e pelo posicionamento da diplomacia sul-africana frente ao conflito na Ucrânia. 

Segundo Van Nieuwkerk, quando se trata da guerra travada no Leste Europeu, a África do Sul é especialmente motivada a advogar pela paz diante das consequências econômicas do confronto na África, que já sofre com a insegurança alimentar e energética.

Ramaphosa liderou uma missão de paz africana para o confronto, que apesar de ter fracassado em seus esforços de negociação, foi interpretada como um sinal da busca por liderança regional e global do presidente sul-africano, diz. 

Ao lado do Brasil, a África do Sul também é uma voz importante nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre agricultura e um intermediário entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.


Rússia: o debate sobre o 'R' dos Brics

Em agosto de 2023, durante o Fórum Empresarial do Brics em Joanesburgo, na África do Sul, o presidente Lula destacou a importância do bloco para o avanço dos países em desenvolvimento, classificando o grupo como a "força motriz" do 'Sul Global'. 

Mas há grande discussão em torno do papel do 'R' dos Brics entre os países em desenvolvimento.

Apesar de sua clara oposição às potências do Ocidente, há quem questione a inclusão da Rússia entre os países do 'Sul Global'.

"Assim como a China, a Rússia se encaixava nas leituras de potência média ou potência emergente quando esses conceitos se popularizaram. Mas vai ficando cada vez mais claro que são potências 'reemergentes' — foram grandes no passado, tiveram problemas e depois voltaram a crescer", diz Leonardo Ramos, da PUC-Minas.

O especialista ressalta, porém, que enquanto a China se alinhou mais ao 'Sul Global' por muitos anos — por sua política de não interferência —, a tensão da Rússia com o chamado "mundo Ocidental" sempre foi mais inflamada. 

Ao mesmo tempo, o governo russo parece interessado em promover a ideia de uma aliança contra o 'Norte Global' e usar alianças com o Sul a seu favor. 

"A Rússia vem se engajando de maneira explícita com alguns países do Sul Global nas últimas décadas, de forma a tentar desempenhar algum papel importante para que esses países votem com a Rússia em fóruns internacionais", diz Ramos. 

Em fevereiro, Moscou organizou o primeiro "Fórum pela Liberdade das Nações", com 400 delegados de 60 nações, para reunir os países do 'Sul Global' contra o que chamou de "neocolonialismo Ocidental".

No ano anterior, sediou uma reunião de cúpula entre Rússia e África, durante a qual o presidente Vladimir Putin anunciou o cancelamento de mais de US$ 20 bilhões em dívidas históricas de nações africanas, segundo a agência de notícias estatal Tass. 

O governo russo também fez lobby pela expansão dos Brics e enviou o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, em várias viagens pelo 'Sul Global'.

Mas quando o tema é o confronto com a Ucrânia, o alinhamento absoluto não é a realidade.

China, Índia e Brasil adotaram uma posição mais neutra. Mas outros integrantes do 'Sul Global' têm demonstrado inclinação maior a apoiar o lado ucraniano, especialmente em votações nas Nações Unidas. 

Ainda assim, segundo o professor da PUC-Minas, os países do sul não deixam de ter um papel importante na política externa russa por representarem uma alternativa para importações e exportações em um momento de tensão e sanções internacionais. 

Os dados compilados pelo Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) também mostram um crescimento da influência de Moscou sob o G77 nas últimas décadas, com previsão de expansão ainda maior até 2035.

 

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