sábado, 18 de julho de 2026

Memórias da Biblioteca do Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida

Memórias da Biblioteca do Itamaraty 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre meu segundo exílio, passado num ambiente de leitura e de reflexão.

  

Dos meus 44 anos de carreira diplomática, treze anos e meio foram perdidos para o próprio Itamaraty, como sabem todos aqueles que seguem – dezoito leitores, calculo – minhas postagens neste quilombo de resistência intelectual que é o Diplomatizzando.

Perdidos no sentido em que, no momento mais crucial e supostamente mais produtivo da carreira, a de ministro de segunda classe, eu não tive nenhum cargo na Secretaria de Estado, efetuando, a partir de 2003 até meados de 2016, uma longa travessia do deserto burocrático e corporativo da Casa de Rio Branco, na qual ingressei em plena ditadura militar, mais exatamente no final de 1977, e da qual me aposentei no final de 2021.

A maior parte dessas "férias forçadas", ou ostracismo político, eu passei na Biblioteca do Itamaraty, da qual tenho gratas lembranças (mas que frequento ainda atualmente), como tenho gratas lembranças de todas as bibliotecas que frequentei, desde a mais "tenra infância", se ouso dizer, e em muitos países, já na fase adulta.

Um dia vou escrever mais detidamente sobre esse exílio involuntário que me foi imposto em circunstâncias que também merecem esclarecimento – sobre as quais já me pronunciei brevemente em algumas ocasiões –, um exílio forçado que completou um primeiro exílio, mas voluntário, em minha primeira maturidade, ou forçado pelas circunstâncias do momento, os anos de chumbo da ditadura militar, da qual escapei num dos momentos mais sombrios da luta política contra o regime.

No primeiro exílio, passado na Europa, foram quase sete anos, mais exatamente 6 anos e quatro meses. O segundo, passado no próprio Brasil, com uma estada no exterior, para dar aulas na Sorbonne durante um semestre, foi o dobro do primeiro, foram 13 anos e oito meses, até ser reintegrado como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais.

Os anos de biblioteca, no Bolo de Noiva (anexo II do Itamaraty) foram extremamente gratificantes, pois além de todos os periódicos (já poucos, comparativamente aos anos anteriores, quando o Itamaraty tinha recursos para fazer muitas assinaturas) e da imensa coleção de livros no acervo geral, eu ficava lendo e retirando manualmente muitos livros das coleções particulares que diplomatas doaram antes de mim (sim, a biblioteca agora tem uma coleção PRA), verdadeiras preciosidades, de outras eras, algumas até recuadas. Além da imensa coleção de Ronald de Carvalho (mais literatura do que história), eu olhava a do Dario de Castro Alves (casado com a Dinah Silveira de Queiroz), a de Teixeira Soares, Jayme de Azevedo Rodrigues, Mario de Pimentel Brandão, Miguel Ozório de Almeida, ademais de dois outros que foram justamente os responsáveis pelo meu segundo exílio forçado. Em todas as coleções eu encontrei munição para escrever muitos artigos, até livros, além de centenas de notas postadas no meu próprio quilombo particular.

Além de consultar sur place, pois eu era um habitué, quase um residente local, eu tinha mandato para emprestar quantos livros eu desejasse, e também ficar com eles o tem que quisesse.

Como disse, encontrei preciosidades, às quais ainda vou retornar para, provavelmente, traças muitas páginas desse capítulo que figura acima, memórias de uma biblioteca, provavelmente rememorando também todas as demais que frequentei ao longo de uma vida dedicada aos livros talvez pela metade do meu tempo útil, mais do que qualquer outro lazer ou atividade.

Devo aos agentes do SNI, durante a ditadura, a preservação de um texto meu escrito aos poucos meses de carreira, o que me levou a um registro no Diretório vivo da agência de informação (hoje preservado no Arquivo Nacional de Brasília) como sendo um "diplomata subversivo", com menos de seis meses de serviço ativo. Devo também aos responsáveis pelo segundo exílio o "favor" de me concederem tempo livre para escrever muito, geralmente no sentido contrarianista, que sempre me foi, também, habitual numa trajetória feita de leitura, conhecimento, reflexões, ceticismo sadio sobre as "verdades reveladas" e um certo caráter frondeur, ou anarquista, o que virou traço quase permanente de uma carreira autrement muito feliz e bem-sucedida. Fiz o que eu teria feito em qualquer outra profissão: além do trabalho regular, burocrático, a dedicação às leituras, às notas e à escrevinhação (como eu designo a minha segunda, talvez primeira, profissão).

Voltarei ao assunto...


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5404, 18 julho 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: ).

 

 


China Is Sabotaging the World That Enables Its Rise - Enrico Fardella and Sergey Radchenko (Foreign Affairs)

China Is Sabotaging the World That Enables Its Rise

Beijing’s Risky Bet Against the West

Enrico Fardella and Sergey Radchenko

Foreign Affairs, July 15, 2026

https://www.foreignaffairs.com/china/china-sabotaging-world-enables-its-rise 


ENRICO FARDELLA is a Professor at University of Naples “l’Orientale,” Adjunct Professor at Johns Hopkins University (SAIS-Europe) and Associate Director of the Guarini Institute for Public Affairs at John Cabot University.

 

SERGEY RADCHENKO is a Professor at Johns Hopkins University (SAIS-Europe).

 

Following the back-to-back state visits to China in May by U.S. President Donald Trump and Russian President Vladimir Putin, many U.S. and European commentators noted that the summit meetings yielded little of real substance. But from a Chinese perspective, that didn’t matter. What mattered were the visuals, broadcast in the Chinese state media: like the emperors of old, Chinese leader Xi Jinping was receiving tribute missions from the most important foreign potentates. In symbolic terms, the visits reinforced Beijing’s narrative that China has overtaken its rivals and is once again at the center of the world.

Underlying this triumphant vision is the Chinese claim that where the Soviets mismanaged socialism and the Americans corrupted capitalism, only China has discovered the formula capable of reconciling state authority with market dynamism and restoring international harmony. But this nationalist story risks obscuring a fundamental historical reality: China’s rise has not happened outside the systems its rivals built, but through Beijing’s skillful exploitation of them. In its early decades, Communist China relied on the Soviet Union to help construct its foundations. And ever since Deng Xiaoping’s “reform and opening” policies connected China to the world economy in the late 1970s, China has used its access to Western markets to forge itself into an economic and military superpower.

Yet Beijing seems strikingly unaware that its continued success depends on the U.S.-led order. In recent years, Beijing has consolidated its control over supply chains and acquired unprecedented leverage over its trade partners. It has also become increasingly brazen in its bid for industrial dominance, brushing off complaints in Europe and the United States that its overproduction is undermining their industries. For example, at the World Economic Forum session in Dalian in June, instead of acknowledging that China relies on the willingness of (mainly Western) countries to continue absorbing the Chinese surplus, Chinese Premier Li Qiang asserted that China is simply more competitive because it invests in innovation. Beijing’s failure to acknowledge, let alone address, its overcapacity problem has driven China’s key trading partners—all of them major Western economies—to the point of exasperation.

For now, it may seem that China has the upper hand, having secured a dominant position in a number of key global industries and supply chains. European countries in particular have been weakened by Chinese competition, and the failure of the EU to muster a unified strategy toward Beijing risks eroding its internal economic, and even political, cohesion. But the long-term outcome may be very different from what China’s leaders assume. Growing frustration with China is already prompting the United States and Europe to take stringent countermeasures to protect their industries. Beijing is thus overlooking the defining paradox of its own success: China’s rise remains tied to the openness of the economies it hopes to surpass. Its road to a post-Western order still runs through the West.

ASCENDANCE DEPENDENCE

A great power’s ambitions are reflected in the way it perceives its place within the world. Since the founding of the People’s Republic of China in 1949, China’s strategic ambition has been to restore the country to what its leaders regard as its rightful place at the center of the international order. In this worldview, Western hegemony represents the principal obstacle to the return of Chinese civilization to its natural centrality and, with it, to the restoration of global harmony.

Yet Beijing did not pursue this objective by rejecting existing international orders outright. Instead, it first exploited them to accelerate China’s rise and then progressively challenged them from within as its own power expanded. Both the Soviet- and the U.S.-led orders were treated as a means to an end and used pragmatically and selectively to maximize political and economic gains even while preserving and widening China’s space for maneuver.

Nowhere has this strategy been more evident than in China’s participation in the Western liberal order. Deng’s “reform and opening” entailed a pragmatic decision to exploit the liberal order for China’s benefit. From the 1990s onward, however, even as Beijing deepened its integration with the world economy, Chinese leaders increasingly came to view American primacy as the principal long-term obstacle to China’s national rejuvenation. They feared that sustained engagement with the West could encourage political liberalization and ultimately undermine the Chinese Communist Party’s monopoly on power.

Beijing therefore embraced a dual strategy: exploiting the openness of the existing order while gradually eroding its foundation. Under Xi, this tendency became even more explicit. Take the Belt and Road Initiative, the enormous international economic development and infrastructure program launched by Beijing in 2013 and now extending to more than 150 countries. By connecting developing and advanced economies—including some in Europe—through a vast China-centered network, underpinned by Chinese standards, supply chains, and financial networks, Beijing has sought to shift the center of gravity of the international economy away from the institutions that have underpinned U.S. leadership since World War II.

The rapid growth of China’s economic and political influence has also reinforced the conviction among Chinese leaders that U.S. hegemony over the international order was entering a period of irreversible decline. In recent years, Xi has publicly adopted the mantra, “the East is Rising, the West is declining” (东升西降), but the intellectual foundations of the slogan can be dated to the 2007–08 global financial crisis, which many Chinese analysts interpreted as evidence of the structural weaknesses of the Western liberal order.

China’s rise remains tied to the openness of the economies it hopes to surpass.

Since late 2025, viral Chinese memes such as the “American kill line”—the idea that ordinary Americans are living one crisis away from collapse—have helped spread the perception in China of U.S. economic, social, and political decline. For many younger Chinese facing a slowing economy and fewer opportunities, stories of American decline provide reassurance that China’s problems are temporary while the West’s are structural.

Meanwhile, Chinese strategists and foreign policy experts portray the West as morally and politically exhausted while presenting China as a source of stability, order, and civilizational renewal. Scholars such as Jin Canrong of Renmin University in Beijing assert that the world’s center of gravity is progressively shifting from the transatlantic region toward Asia, particularly China. Indeed, this argument has gained some traction across the non-Western world, in countries as dissimilar as Cambodia, Zimbabwe, Iran, and even Saudi Arabia, where some political elites have portrayed Western liberalism as intrusive, hypocritical, or exhausted while presenting China as a partner of stability, sovereignty, and development.

The Chinese argument has also gained a foothold among some segments of Western societies. Leaders such as Hungary’s former Prime Minister Viktor Orban and Slovakia’s Prime Minister Robert Fico have portrayed China as a model of stability and a strategic alternative to Western liberalism, while in France and Italy influential business and political circles have long advocated closer ties with Beijing as a source of economic opportunity and strategic autonomy. Even in Germany, where attitudes toward China have hardened, parts of the industrial establishment continue to favor economic engagement over confrontation. Recurrent tensions between Trump and European leaders—over trade, defense spending, NATO, and tariffs—have further strengthened Beijing’s perception that the transatlantic relationship is fragile and that Europe may eventually seek greater distance from Washington.

In Beijing’s view, China can supplant the U.S.-led order not by direct confrontation but by outlasting and out-adapting the United States, and, over time, persuading a growing number of states that Chinese leadership offers a more legitimate basis for international order. In Xi’s strategic calculus, the so-called Thucydides Trap can be avoided precisely because the United States is expected to weaken internally before any catastrophic conflict becomes unavoidable. Buttressing these assumptions is Beijing’s belief that China can succeed in ways that its Soviet analog could not: where the Soviets failed because they proved incapable of sustaining the economic and ideological struggle needed to defeat the United States, China, by harnessing “Socialism with Chinese Characteristics,” has the civilizational depth, political resilience, and economic dynamism necessary to supersede American hegemony and shape a new global order.

Yet China’s glorious narrative has a fundamental blind spot. The success of China’s rise has overwhelmingly depended on the existing order for access to aid, technologies, expertise, and ultimately markets. Unlike the Soviet Union, China has never constructed a comprehensive alternative order capable of replacing the institutions underpinning the U.S.-led international system. Instead, it has relied on the openness of the existing order while gradually challenging its rules and institutions from within. As a result, the more that China is able to weaken the liberal order that enabled its rise, the greater the risk that it undermines the very foundations on which its own prosperity still depends.

BITING THE HAND

China’s leadership is not entirely unaware of the large-scale economic distortions the country’s export-driven rise has produced. In recent months, leading Chinese economists and former central bankers have converged on the idea that China’s main economic challenge is insufficient domestic demand. They argue that China’s investment-led growth model has resulted in excess savings, weak household consumption, and chronic demand deficiencies. There is a growing consensus across their writings that unless Chinese household income rises and consumption assumes a larger role in growth, China will continue to generate excess production and excess savings, thus sustaining huge current-account surpluses and reinforcing dependence on foreign demand.

Yet Chinese economists are mostly silent about China’s dependence on foreign markets’ willingness to absorb its excess output and savings. Many of their foreign counterparts, by contrast, converge on a similar domestic diagnosis but also point to the profound international consequences of China’s imbalanced economy. For example, Michael Pettis, a Beijing-based economist, has long argued that suppressed consumption and excess domestic savings have forced China to export both goods and capital, requiring other economies—historically, above all, the United States—to absorb Chinese surpluses through trade deficits and capital inflows.

European analysts are now extending this argument to the EU. By diverting excess Chinese production toward European markets—a practice that has been accelerated by U.S. efforts to reduce dependence on Chinese imports—Beijing could expose the EU to rising deindustrialization pressures and deflationary competition. Left unaddressed, these dynamics will lead to higher unemployment, widening social inequalities, and growing economic insecurity, fueling support for nationalist and far-right political movements across Europe.

The mechanisms that sustained China’s ascent constrain its future development.

Already, Beijing’s approach has accelerated protectionist responses from both the United States and Europe. In Washington, a bipartisan consensus has emerged around the need to reduce dependence on Chinese supply chains and to counter the effects of Chinese subsidized overcapacity. And in Brussels, the European Commission has decreed the current state of EU-China economic relations as “unsustainable.” Europe is now mulling sweeping coordinated measures, aimed at addressing China’s challenge in systemic terms.

Even countries outside the West are beginning to follow suit. While it competes with the United States in high-tech industries, China continues also to aggressively support low- and mid-tech Chinese manufacturing, constraining the growth of countries like Brazil, India, Indonesia, and Turkey. This has already led to policy responses, with India expanding trade-defense instruments and investment screening mechanisms vis-à-vis Chinese firms, and Brazil and Turkey intensifying anti-dumping investigations and debating safeguards for strategic industrial sectors. Similar trends can be observed in Indonesia, where policymakers have increasingly sought to reduce dependence on imported Chinese manufactured goods and strengthen domestic value chains.

The more Beijing seeks to increase industrial dominance, the more it fuels protectionism, de-risking strategies, and fragmentation of the very international economic system that has enabled its rise. China’s economic model now appears trapped in a self-reinforcing contradiction: the mechanisms that sustained its extraordinary ascent are simultaneously generating the international resistance and systemic fragmentation that will constrain future development.

MOST FAVORED DUMPING GROUND

Thus far, Beijing has dismissed U.S. and European concerns as an attempt to blame China for their own economic difficulties. Chinese officials argue that the country’s trade surplus is not the result of domestic unbalances but of genuine comparative advantages and the voluntary choices of Western consumers and businesses. From this perspective, Western resistance to Chinese industrial expansion is merely a futile attempt to obstruct an irreversible shift in the global balance of power. The implication is unmistakable: the United States and Europe should adapt to China’s rise rather than seek to constrain it.

Beijing’s response reflects a subtle but significant attempt to transform China’s identity: from an anti-hegemonic power challenging an existing order to a de facto hegemonic actor seeking acceptance of the new hierarchy it has asserted. But Beijing’s expectation that the rest of the world will indefinitely accommodate an ever-deepening dependence on Chinese industrial capacity is unrealistic. If China continues on its present course, the backlash against its industrial hegemony will only intensify. At best, China can delay the inevitable adjustment by making diversification away from Chinese supply chains more costly for its trading partners. At the same time, Beijing can try to erode support for tougher trade and investment policies by leveraging access to its vast domestic market and mobilizing foreign firms and political constituencies that continue to benefit from economic engagement with China.

Still, despite the growing pressure on European economies, Europe may find it more difficult than the United States to push back against China. As Michael Pettis and Enrico Fardella have argued, the European Union remains structurally vulnerable to continuing to absorb China’s imbalances. The eurozone combines export-driven surplus economies such as Germany and the Netherlands with more import-dependent economies in Southern Europe, creating a divergence of interests over economic relations with Beijing. China can therefore transform external economic leverage into internal European political divisions. The prospect of retaliation against highly exposed sectors—not least Germany’s automotive industry, but also luxury goods, machinery, and advanced manufacturing—has further weakened Europe’s ability to adopt a coherent economic strategy toward China.

Beijing’s pursuit of global industrial dominance will likely prove self-defeating.

The growing dispute between Brussels and Beijing reflects the need for a better European strategy. The European Commission is increasingly seeking to strengthen its capacity to manage external imbalances and protect Europe’s economic stability. But China views continued access to the European market as strategically vital. As the United States moves to limit China’s access to its market and reduce strategic dependence on Chinese imports, Europe is becoming the last major dumping ground for China’s surpluses. If trade imbalances with China persist, they will continue to generate debt and accelerate deindustrialization, speeding up the political fragmentation already visible across the continent.

It should be noted that Beijing has not been entirely unresponsive to these concerns. It has repeatedly promised to strengthen domestic demand, introduced limited measures to support consumption, and softened parts of its diplomatic messaging to reassure foreign governments and investors. Yet these adjustments remain far too modest to change the underlying problem: China continues to privilege production over consumption, industrial policy over household income, and export expansion over genuine domestic rebalancing.

China thus risks deepening its dependence on external demand for its surplus at the very moment when the world is becoming less willing to absorb it. And so, Beijing’s pursuit of global industrial dominance will likely prove self-defeating. Rather than facilitating a smooth transition toward a post-American order, it may well erode the global conditions that have sustained China’s rise. The most urgent challenge confronting China’s leadership may not be how to surpass the West but how to rebalance its economy before the world forces it to.

CHANGING THE MODEL

If Europe and the United States decisively reassert control over their external accounts, China would face a fundamental constraint: the external markets for its excess production would be closed off. Other advanced economies are unlikely to offer alternative markets, while most developing countries lack the financial capacity to sustain the deficits required. Under such conditions, China would sooner or later be forced to reconfigure its economic model at home.

In principle, this could produce the most constructive outcome for all sides. A successful reorientation of China’s growth model would require a substantial transfer of income toward Chinese households, boosting consumption, reducing domestic inequalities, and making growth less dependent on exports and industrial investment. These redistributive policies would ensure that a larger share of the gains from economic growth accrues to ordinary households rather than to businesses, local governments, and state-favored sectors. Paradoxically, to safeguard the long-term well-being of its people, China may have to become more socialist again: this time, not by socializing production but by socializing prosperity.

Such a shift would also ease tensions with the United States and Europe, reduce global imbalances, and weaken the logic of Beijing’s beggar-thy-neighbor economic nationalism. In practice, however, changing China’s economic model would be an immense undertaking. Moreover, in order to raise household income significantly as a share of GDP, China’s leaders would need to make a corresponding reduction in the resources currently controlled by businesses and local governments, a shift that would be economically and politically costly for Beijing.

If Beijing’s immediate problem is how to persuade the world to continue absorbing its excesses, its longer-term challenge is finding a path to prosperity that no longer depends on them. If the immediate question for the United States and Europe is how to regain control over their external balances and rebuild their productive economies, their own longer-term task is figuring out how to engage China in redefining its rise in a manner that is more compatible with a sustainable international order.

Ultimately, the future of global economic stability may depend on China’s willingness to reconsider the logic that has underpinned its ascent. Since 1949, the Chinese Communist Party’s anti-hegemonic strategy has been remarkably successful in reshaping the international environment and creating space for China’s extraordinary rise—an achievement rooted above all in the hard work, discipline, and resilience of the Chinese people. Yet history offers a cautionary lesson. Great powers encounter danger when they cease to view success as the product of contingency and effort and begin to view it instead as the expression of historical destiny. If Beijing falls into this trap, and refuses to heed Western warnings, it will trigger a vicious trade war that will leave the world much worse off, and the dream of China’s national rejuvenation in tatters.

Economia do Brasil Imperial cresceu quatro vezes mais do que se dizia, pesquisa da FGV - Bruna Castro (Diário do Rio)

Coincide com a revisão da história econômica do Brasil enunciada por Edmar Bacha.

Pesquisa da FGV revela que economia do Brasil Imperial cresceu quatro vezes mais do que se dizia

Estudo de Thales Zamberlan Pereira reconstruiu os preços entre 1824 e 1889 com mais de 20 mil registros de instituições cariocas, muitos deles publicados pelo próprio Diário do Rio de Janeiro, e valorizou fontes preservadas pelo Jornal do Commercio, pela Santa Casa da Misericórdia e pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência

Durante décadas, estudos, livros e bancos de dados internacionais repetiram que a economia brasileira havia crescido muito pouco durante o Império. O fato causava estranheza em quem lia sobre a pujante exportação de café e sobre a estabilidade econômica e prosperidade de grande parte do período imperial em fontes mais históricas do que econômicas, e na literatura. Mas segundo as estatísticas que eram tidaa como reais até agora, a renda por habitante teria avançado somente 0,3% ao ano entre 1850 e 1889, desempenho difícil de conciliar com a expansão do café, o desenvolvimento das ferrovias, o crescimento das cidades, a ampliação do comércio e a modernização observada durante o bem sucedido reinado de Dom Pedro II.

Agora, uma nova e verdadeiramente minuciosa pesquisa da Fundação Getulio Vargas mostra agora que a economia do Brasil Imperial cresceu, na realidade, quatro vezes mais do que se dizia.O trabalho é do professor Thales Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, e foi publicado em 19 de maio de 2026 pela European Review of Economic History, revista científica da Universidade de Oxford e da European Historical Economics Society. O artigo, intitulado Inflation and Economic Growth in Imperial Brazil — 1824-1889, foi recebido em maio de 2025, revisado e finalmente aceito pela comunidade científica agora em março de 2026. 

Com um novo e minucioso índice de preços, construído a partir de uma extensa é inédita pesquisa por mais de 20 mil cotações mensais, Pereira concluiu que a renda por habitante no Brasil aumentou aproximadamente 1,2% ao ano entre 1850 e 1889 — e não apenas os irrisórios 0,3%, como apontavam as estimativas tradicionalmente utilizadas.

Não se trata de uma alteração pequena. A taxa quadruplicada muda completamente a posição brasileira nas comparações internacionais e coloca o crescimento do Império em linha com a média da América Latina naquele período, e finalmente casa a estatística econômica com a literatura e a história política. O interessante é que o próprio DIÁRIO ajudou a contar essa história: a descoberta tem um sabor especialmente carioca — e particularmente especial para o Diário do Rio.

Para reconstruir os preços praticados durante o Império, o pesquisador recorreu principalmente a jornais publicados na Corte. Nas décadas de 1820 e 1830, sua fonte principal foi o próprio Diário do Rio de Janeiro, em sua fase original do século XIX. Para os anos posteriores, o estudo utilizou predominantemente o Jornal do Commerciorecorrendo ainda a outros periódicos para preencher eventuais lacunas. 

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O Diário do Rio de Janeiro, ou Diário do Rio, como carinhosamente o carioca se acostumou a chamá-lo, foi o primeiro jornal diário do país, começando a circular em primeiro de junho de 1821, antes mesmo da independência do Brasil. Agora, em 2021, completou 200 anos. Isso mesmo, 200 anos! Inicialmente impresso na sua própria … Continue lendo: https://diariodorio.com/historia-e-antecedentes/  

Demissão do ministro da Defesa da Ucrânia; Mykhailo Fedorov, uma personalidade feita de "material presidencial", como se costuma dizer...

 Uma importante mudança política na Ucrânia, que vai impactar o seu futuro político, talvez militar, mas a Ucrânia já venceu esse confronto com o seu agressor muitas vezes maior. O ministro da Defesa demitido por Zelensky é um futuro presidente, numa Ucrânia cuja nova identidade política nacional e internacional ele ajudou a criar e a reforçar. Continuo seguindo os assuntos da Ucrânia e mais uma vez gostaria de deixar registrado minha tremenda decepção com a política externa do Brasil em relação a essa guerra de agressão, não envolvo a diplomacia brasileira nessa decepção, mas a postura indigna do governo Lula em face de uma violação brutal da Carta da ONU e dos princípios mais elementares do Direito Internacional que esse governo não respeita, e até colabora com o agressor.
Como sempre, assino embaixo do que escrevo:
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 18/07/2026

volodymyr zelensky
Julio Tuazon

Yesterday [16/07/2026], Ukraine lost its best Minister of Defense—but gained its strongest presidential contender. In full view of the public, Mykhailo Fedorov demonstrated that he is no longer just a top manager or a brilliant technocrat—he has become a seasoned politician. So, thank you, President Zelensky.
Yesterday, Mykhailo Fedorov held a press briefing.
The key takeaway: he handled everything intelligently.
He thanked President Zelensky in a restrained manner, made no accusations, did not complain, and repeatedly emphasized: “This is not about me. This is about the Ukrainian soldiers who will die if reforms do not continue.”
Using a professionally prepared presentation, he explained his reforms in great detail.
He outlined what he had not yet managed to accomplish during the six months he served in office.
He explained his disagreements with Commander-in-Chief Oleksandr Syrskyi in a way that, in the author's view, left little room for rebuttal.
Overall, Fedorov came across as an experienced politician with a fully formed public image—someone who could run for office tomorrow. At just 35 years old, he has no need to rush. He avoided confrontation and expressed his willingness to continue working even with General Syrskyi.
Most remarkably, he delivered the briefing almost entirely off the cuff, having had only one day to prepare. To make things even more unusual, not only journalists but also members of parliament showed up. That is virtually unheard of, since press briefings are normally intended for the media. Petro Poroshenko, meanwhile, appears eager for Fedorov to become the leader of his political camp, seemingly ready to shift his support away from Valerii Zaluzhnyi. But Fedorov joked about it himself: “What’s going on? People will think I’m a Poroshenko supporter...”
According to online polls cited by the author, Fedorov's approval rating yesterday surpassed President Zelensky's. Whether that surge lasts or not remains to be seen, but the author argues that, as of yesterday, the ranking of Ukraine's leading politicians looks like this:
1. Volodymyr Zelensky
2. Mykhailo Fedorov
3. Valerii Zaluzhnyi
4. Kyrylo Budanov
In the author's view, Mykhailo Fedorov has now become an independent political figure. Professionally, he may still be part of the president's team—if he chooses to remain—but politically, they are now competitors. The author believes President Zelensky failed to anticipate this outcome and that dismissing Fedorov was a major political mistake with serious consequences for his own position.
Can the situation still be reversed? Fedorov says it can. He wants to preserve at least some chance of continuing military reforms and may even be willing to sacrifice a political career for that goal. But, as the author concludes, life rarely offers the chance to undo such turning points.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Uma Madame IA caipira comenta certos causos do presente, fazendo troças de todos…

Meu tutor em Inteligência Artificial, Airton Dirceu Lemmertz, faz com qyue Madame IA reproduzisse meus argumentos, mas em estilo caipira, contra os dois opostos na presidência, cada um provocando o outro como adversário político. PRA

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Apresente um resumo para cada resposta (dada pela Gemini AI) nesta linha de interações. O resumo deverá ser escrito em linguagem popular/coloquial do interior do Brasil (mas tenha cuidado para não exagerar na caricatura do linguajar). Mostre cada resumo na ordem que cada resposta foi dada. Cada resumo deverá ter, no máximo, 1100 caracteres. 

Capítulo I: O Balaio de Gato da Política e do Itamaraty
No primeiro causo, o diplomata Paulo Roberto de Almeida lavou a roupa suja da nossa política. Ele desceu a lenha sem dó nem piedade no governo passado de Jair Bolsonaro e no atual de Lula. Sobre o home do PL, o homem disse que o negócio foi feio, uma ruína só, com fanatismo na internet, desmonte da natureza e aquele isolamento do Brasil no estrangeiro, virando as costas para os parceiros de peso. Do outro lado, o diplomata puxou a orelha do Lula, dizendo que o governo dele vive com a cabeça no passado, gastando o que não tem e inventando imposto. Criticou demais a amizade com as ditaduras de fora e o bate-boca com os americanos, que só faz o nosso agronegócio perder e a lavoura amargar o prejuízo.
Capítulo II: A Briga do Pix com os Americanos
Depois, o assunto foi a encrenca do Pix com o governo do Donald Trump. Os americanos cismaram com o nosso sistema de pagamento, dizendo que a ferramenta é injusta porque dá rasteira nas bandeiras de cartão de lá, como a Visa e a Mastercard. O tal do relatório deles chamou o Pix de discriminatório. No meio dessa confusão, o Lula bateu no peito falando em soberania nacional, enquanto o Flávio Bolsonaro foi até os Estados Unidos prosear com o Trump para tentar adiar o prejuízo das taxas comerciais na nossa cabeça, já de olho na eleição que está chegando. No fim das contas, quem paga o pato da briga de ego desses grandões é o povo trabalhador e as empresas daqui.
Capítulo III: O Tarifaço de Trump e a Resposta de Brasília
Nesse trecho, o embaixador Rubens Barbosa explicou o tamanho do prejuízo do novo tarifaço de 25% que os americanos socaram nas nossas exportações, sumindo com uns 11 bilhões de dólares do nosso comércio. O governo Lula soltou uma nota braba contra os tecno-oligarcas e ameaçou dar o troco na mesma moeda usando a Lei de Reciprocidade do Congresso. A Fiesp achou ruim a prosa do governo e levou uma invertida do Planalto. O embaixador avisou que o Brasil não tem esse cacife todo para brigar com os Estados Unidos no comércio e que revidar pode piorar a empanada, trazendo mais taxas e fazendo as fábricas nacionais chorarem as pitangas.
Capítulo IV: O Rombo da Previdência e a Pauta-Bomba
Aqui a prosa foi sobre a conta que não fecha de jeito nenhum: a Previdência Social. O Ricardo Bergamini mostrou que o sistema é uma injustiça danada, dividindo o povo em dois. De um lado, os trabalhadores comuns da iniciativa privada, que dão um duro danado e geram um prejuízo menor por cabeça. Do outro, os servidores públicos, os trabalhadores de primeira classe, com um rombo per capita que é um acinte, sete vezes maior. E para cobrir essa festança, o governo cobra imposto no consumo até de quem está desempregado. Para acabar de empenar a carroça, o Senado ainda aprovou uma pauta-bomba de 27 bilhões de reais para o futuro.
Capítulo V: A Saga de Roberto Campos na Academia
Este causo contou as cabeçadas de Roberto Campos, o Bob Fields, para conseguir uma cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras. O homem era um economista liberal de primeira, trabalhou com o Getúlio, com o Juscelino e no regime militar. Por causa desse passado com os quartéis, a turma da cultura torcia o nariz para ele e o Rouanet acabou ganhando a primeira disputa. Roberto Campos ficou na bronca, escreveu um livrão de memórias e, depois de muita peleja e da morte trágica do dramaturgo Dias Gomes num acidente de táxi, ele finalmente conseguiu entrar na Academia, debaixo de muito protesto e confusão com a viúva do falecido.
Capítulo VI: A Vigilância sobre as Bets e as Casas de Jogo
O Oscar Filho fez uma crônica caustica sobre as novas regras que o governo arrumou para as bets, aquelas plataformas de aposta na internet. Agora, os anúncios são obrigados a vir com alertas avisando que o jogo vicia e não é investimento, bem parecido com o que fazem nas carteiras de cigarro. O jornalista achou uma tremenda hipocrisia, porque o governo mete a mão na grana dos impostos dessas apostas para fechar as contas públicas. Além disso, as regras novas só apertam o calo de quem está legalizado e paga imposto certinho, enquanto mais da metade do mercado continua na ilegalidade, pulando a cerca sem ninguém fiscalizar.
Capítulo VII: O PL de Valdemar no Jogo de Compadrio
Este resumo tratou do nó cego da política partidária. O site Não É Imprensa revelou o pragmatismo de Valdemar Costa Neto, o chefe do PL, partido do Bolsonaro. O homem proibiu alianças oficiais com o PT nas cidades, mas vive rasgando elogios para o ministro Fernando Haddad e para o passado do governo Lula. O artigo relembrou que a amizade de Valdemar com os petistas é antiga, do tempo do Mensalão e do impeachment da Dilma. A análise concluiu que, no tabuleiro de 2026, o PL pode ter empurrado o Flávio Bolsonaro para a disputa presidencial justamente por ser o adversário perfeito que o Lula queria enfrentar para manter o país polarizado.
Capítulo VIII: O Autoritarismo Líquido e a Censura Digital
No último causo, o escritor Renato Corrêa fez uma mea culpa por ter errado feio na sua profecia política e usou o tropeço para defender o direito de as pessoas estarem erradas sem serem canceladas ou processadas. Ele denunciou o autoritarismo líquido, uma censura moderna e invisível comandada pelo STF, pelas plataformas e pelos algoritmos de internet. O autor criticou a mudança no Marco Civil e a punição contra comediantes, dizendo que isso assusta o povo e cria o tal do chilling effect, que é quando as pessoas se calam por medo do chicote da justiça, rasgando o que está garantido na nossa Constituição.

Mini reflexão sobre uma crise comercial e diplomática alimentada politicamente - Paulo Roberto de Almeida

Mini reflexão sobre uma crise comercial e diplomática alimentada politicamente

Paulo Roberto de Almeida

Relações diplomáticas e comerciais entre dois paises soberanos deveriam ser conduzidas nos termos previstos no Direito Internacional e nas regras aplicáveis previstas nos instrumentos específicos que regem essas relações. Estamos falando da Carta da ONU (1945), da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961) e nos acordos de Marrakesh (1993) que criaram a Organização Mundial do Comércio e outras ferramentas conexas a esse ambiente, inclusive sobre solução de controvérsias entre partes contratantes ao Gatt.

Infelizmente não é o que ocorre atualmente entre os Estados Unidos do governo Trump e o Brasil do governo Lula e, em cada lado dos atuais conflitos, grupos politicos e interesses pessoais envolvidos não exatamente numa condução serena das mais diversas interações entre os dois mais importantes Estados do hemisfério americano, mas num enfrentamento político-eleitoral em vista dos pleitos eleitorais que ocorrerão nos dois países em outubro (eleições presidenciais no Brasil) e em novembro (eleições congressuais nos EUA).

A responsabilidade maior pela emergência dos conflitos e pelo agravamento e recrudescimento de medidas e opiniões emitidas desde 2025 (talvez até antes) entre lideranças e figuras representativas dos dois paises incumbe, em primeiro d mais importante lugar, ao governo Trump, ao presidente e seus principais assessores na diplomacia e no comércio, por terem deliberadamente passado à ofensiva unilateral, de forma truculenta e ilegal, não só contra o Brasil, mas praticamente contra o mundo inteiro — à exceção de Israel do premiê Netanyahu e à Rússia do ditador Putin —, segundo o modus operandi brutal e desrespeitoso normalmente exibido pela personagem claramente desequilibrada do presidente americano (o que é apenas uma constatação objetiva).

Do lado brasileiro não se pode deixar de notar uma postura mais politizada do que diplomática adotada pelo presidente Lula contra Trump, aliás desde a campanha presidencial americana de 2024, quando declarou abertamente sua simpatia pela candidata Democrata, numa clara derrogação da cláusula constitucional e das regras diplomáticas aplicáveis, a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados (o que sempre ocorreu, deve ser dito, em outras ocasiões anteriores no caso de eleições nos paises vizinhos, quando o presidente Lula, em seus dois primeiros mandatos, e até como figura politica fora deles, em apoio a candidatos de esquerda).

Infelizmente, dois personagens relevantes na liderança dos dois Estados acabam agindo politicamente, segundo suas inclinações pessoais e ideológicas, em detrimento dos interesses objetivos de milhares de empresas e dos de milhões de trabalhadores envolvidos nas relações comerciais e em todos os outros tipos de transações bilaterais dos dois países (e até em escala mais ampla, afetando o próprio equilibrio das relações diplomáticas mais gerais, hemisféricas e mundiais, como nessa luta insana por uma mirífica e inviável “nova ordem global multipolar”, impossível de ser implementada num ambiente dominado por egos extremados e não por estadistas responsáveis).

Lamento pessoalmente, não como diplomata, mas como simples cidadão brasileiro, que se tenha chegado a tal nível e intensidade de desentendimentos politicos e pesdoais entre as duas lideranças, o que redunda em retaliações indesejáveis e prejudiciais aos interesses concretis de milhões de agentes econômicos, empresas e trabalhadores, simples turistas, educadores, cidadãos dos dois países. É deplorável que se tenha chegado a uma situação de enfrentamento e não de cooperação e de entendimento entre dois grandes paises, afetando a vida de centenas de milhões de pessoas desprovidas de cargos politicos servindo não ao bem-estar dos povos respectivos, mas às idiossincrasias de duas personalidades desprovidas das qualidades experadas de estadistas.


Confrontação política e econômica com os EUA - Rubens Barbosa (Portal Interesse Nacional)

 O embaixador Rubens Barbosa, no portal Interesse Nacional, apresenta uma síntese objetiva dos fatos e opiniões envolvidos na mais grave crise político-diplomática entre os governos de Trump dos EUA e Lula do Brasil em mais de dois séculos de relações bilaterais. Os embates politicos e comerciais podem escalar de forma ainda mais grave no plano econômico e diplomático caso o governo Lula adote retaliações contra os EUA baseadas na Lei de Reciprocidade já adotada no Congresso brasileiro, ou caso o governo Trump resolva acrescemtar novas restrições às exportações brasileiras, inclusive mediante novas sobretaxas baseadas na Seção 301 de sua Lei Comercial, que prevê retaliações unilaterais. PRA


Confrontação política e econômica com os EUA

Rubens Barbosa 

Portal Interesse Nacional, 17/07/2026


O novo pacote tarifário dos EUA ameaça reduzir exportações brasileiras em até US$ 11 bilhões e inaugura uma fase inédita de confronto político entre Brasília e Washington, em meio à campanha eleitoral e ao debate sobre uma eventual retaliação comercial do Brasil. 


Como era esperado, o governo de Washington confirmou o novo tarifaço de 25% sobre produtos exportados para os EUA por práticas desleais a partir de 22 próximo. Ainda deverão ser anunciados mais 12,5% relacionados com a importação de produtos de países com trabalho forçado. 


Essas tarifas se aplicam em mais de 80 países que não têm acordo comercial com os EUA, em substituição às tarifas que tiveram de ser suspensas em função da decisão da Suprema Corte que considerou ilegal a base legislativa (IEEPA) que as respaldavam.


‘Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados’


O tarifaço vai afetar cerca de 2.900 produtos, especialmente industriais, vai prejudicar muitas empresas nacionais e vai reduzir ainda mais o intercâmbio bilateral. Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados.


Foram mantidas as exceções para café em grão, carne bovina, suco de laranja, produtos aeronáuticos, petróleo, castanhas e algumas frutas. A lista de exceções foi ampliada (2.100) com relação àquela proposta em 1º de junho. Essas exceções foram consideradas “insumos essenciais para a economia americana”; “produtos cuja taxação poderia gerar interrupções de abastecimento” e “bens sem fontes alternativas adequadas de fornecimento”.


Segundo cálculos preliminares, o número de linhas tarifárias passou de 1.698 em junho para 2.126. Foram incluídos diversos produtos de interesse dos exportadores brasileiros na lista de exceções. Destacam-se, entre eles, mel orgânico, ferro-gusa e café solúvel; mel orgânico; ferro-gusa; café solúvel sem sabor; ⁠alguns tipos de pescado (tilápia e atum); hidróxido de alumínio; antiguidades, itens de colecionador e arte; cinzas contendo metais preciosos ou compostos de metais preciosos; certas peles de animais, peles com pelo e couros – certos produtos de frutos do mar; certos produtos de madeira adicionais; resíduos e sucatas de ferro e aço; roupas usadas.


Logo em seguida o Palácio do Planalto circulou nota dura em que afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável. O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais. O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”.


Os dois lados dizem que não houve empenho da outra parte em uma efetiva negociação para superar as dificuldades. 


É compreensível a politização interna dessa questão pelo envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, acusado de traição à Pátria, quando se inicia a campanha para as eleições de outubro. 


‘É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro’


É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. 


A Fiesp, em nota, critica fortemente o Governo Lula afirmando que “em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamentos políticos com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”. A posição da Fiesp foi considerada “vergonhosa e estarrecedora” pelo Planalto.


A grande novidade está no ataque político de Washington ao governo de Brasília. Depois de 62 ataques de Lula a Trump nos últimos três anos, a Nota de Rubio dá início ao ataque político de Washington ao presidente brasileiro. Essa novidade deve continuar com crescente interferência norte-americana durante a campanha eleitoral. 


Chama a atenção a ênfase política que essa decisão está ensejando e o eventual confronto político entre os dois países. Ao anunciar a decisão, a Casa Branca divulgou nota de Marco Rubio em que afirma que o presidente Trump decidiu impor 25% em muitos produtos importados do Brasil, mas, “não deve haver confusão nas razões dessa decisão: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA em boa fé. Suas políticas econômicas são contrárias aos interesses norte-americanos e brasileiros. Desde o ano passado, Lula colocou seu ego à frente dos entendimentos para benefício do povo brasileiro e essas tarifas são o preço por isso”. 


A resposta de Mauro Vieira escala a crise política ao chamar o pronunciamento de Rubio de “grosseiro e arrogante” e “inaceitável e ofensivo ao povo e ao governo brasileiro”. “O que incomoda ao governo dos EUA é o fato do Brasil não ter se curvado às demandas irrazoáveis”.


A questão mais grave e preocupante é a possibilidade de retaliação comercial contra os EUA anunciada pelo Planalto. Haverá um período de 30 dias para a confirmação da medida. Nenhum outro país no mundo (com exceção da China por curto período, logo corrigido) ameaçou retaliar os EUA. O governo de Washington divulgou que nas negociações as tarifas sobre os produtos brasileiros poderão subir ou descer, dependendo da reação do governo brasileiro. 


O custo para o Brasil e para as empresas brasileiras pode ser enorme. A retaliação de Washington pode ocorrer em qualquer outra área, prejudicando setores econômicos inteiros. 


O Brasil não tem cacife para enfrentar comercialmente os EUA. Nenhuma retaliação contra produtos norte-americanos exportados para o Brasil afetará significativamente os interesses do governo Trump. Uma decisão nessa direção poderá trazer ganhos políticos internos, mas será certamente contra o interesse nacional, a médio e longo prazo. O programa de apoio às empresas afetadas, prometido pelo governo, vai ser muito importante nesse momento.


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Rubens Barbosa

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

A imortalidade de Roberto Campos - Daniel Afonso da Silva (Jornal da USP)

 

A imortalidade de Roberto Campos

Por Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

  Publicado: 14/07/2026 às 19:25
Angústia e aflição inundavam a cobertura daquele conhecido edifício à rua Francisco Otaviano em Copacabana onde residia a família Campos, Roberto e Stella. Era quinta-feira, fim de tarde, dia bom. 23 de setembro de 1999. O imponente deputado e seus convivas aguardavam apreensivos as novidades da Academia Brasileira de Letras. Pela terceira vez, Roberto Campos apresentara a sua candidatura. Queria, a todo custo, virar imortal. Não por vaidade nem por precisão.

Sua vaidade – como a de Santo Agostinho – era não ter vaidade. A sua vida e a sua obra diziam por si. A Lanterna na Popa realçava a perenidade de seus feitos. Saíra mais que traço de vida. Mais que confissão e memórias. Chegou bem perto de testamento. Impedindo a indiferença do público e impondo o seu protagonista fato consumado incontornável. Por amor ou ódio. Amizade ou desafeição. Encontros e despedidas. Restando a Academia como derradeira consagração.

Em 1991, ao lado de Celso Lafer, ele havia aplicado para a imortalidade acadêmica ante João de Scantimburgo, conhecido professor e jornalista paulista. Era uma disputa complexa. Os acadêmicos eram, em maioria, declarados por João de Scantimburgo. Inibindo quaisquer concorrentes. Levando, assim, Lafer e Campos a abdicar da disputa.

Meses depois, a vaga de Francisco de Assis Barbosa vagou e Roberto Campos voltou a aplicar. Desta vez ante Sérgio Paulo Rouanet, seu colega de Itamaraty. A refrega retornou em desafio. Rouanet era ministro da Cultura e havia lançado uma Lei de Incentivos Fiscais que levava seu nome. Era – não só por isso, mas também por isso – muito querido em todos os círculos. Especialmente entre os culturais. Era quase vinte anos mais moço que Roberto Campos, mas centenas de anos mais límpido de contratempos, cabeçadas, polêmicas e mal-estares que seu concorrente. Antonio Houaiss, também diplomata, era o seu “padrinho” na Academia e oposição latente a Roberto Campos. Primeiro pelo estilo. Depois pela ojeriza ao regime militar que o antigo seminarista vindo do Mato Grosso havia servido e exonerado Houaiss.

O país vinha recém-redemocratizado. A Constituição de 1988 tinha pouquíssimos anos. A primeira presidência civil após os militares reunia poucos pares de meses. Queria-se tudo menos o passado. Exigia-se tudo menos conivência com os militares. Roberto Campos foi expoente do período Castelo Branco. Impôs modernizações determinantes para o aperfeiçoamento do país. Mas, agora, todos preferiam esquecer. Tudo e todos relacionados aos militares eram jogados no mesmo saco. Na mesma vala comum. Colocando Roberto Campos em franca desvantagem frente a Rouanet. Levando-o, assim, sans merci, à derrota.

Foi por pouco. Cinco votos. Mas o suficiente para retirar o embaixador-deputado dos trilhos da imortalidade acadêmica e lançá-lo aos braços da desilusão. Contrição profunda. Apenas superada na composição de A Lanterna na Popa. Livro memorial testamento. Com mais de mil páginas. Concluído e lançado em 1994.

1994 teve de tudo: Plano Real, Copa do Mundo, eleições, vitória de Fernando Henrique Cardoso e a publicação de A Lanterna na Popa.

A Lanterna na Popa surgiu despretensioso, mas transformou-se num acontecimento cultural no país. Roberto Campos conseguiu o impensável: humanizar Bob Fields. Ou vice-e-versa. Levando o público ao delírio.

Era imensa – e não se sabia – a curiosidade geral sobre aquela personagem eternamente cuiabana tornada diplomata, embaixador, ministro de estado, senador, deputado, professor, provocador, construtor do Brasil. Não necessariamente nessa ordem.

Os mais moços poderiam não saber, mas os mais vividos facilmente conseguiam se lembrar que Roberto Campos representara o Brasil em Bretton Woods. Participara da criação do BNDE – depois, BNDES – sob Getúlio e do Plano de Metas sob Juscelino. Fora decisivo nas reformas institucionais e bancárias do primeiro ciclo dos militares, além de reputadíssimo embaixador do Brasil em Washington e Londres.

Autodeclarado discípulo de Eugênio Gudin e de Otávio Gouveia de Bulhões e segunda face de José Guilherme Merquior e Mário Henrique Simonsen, ele, Roberto Campos, Bob Fields, nutria o prazer de ser impopular. E, agora, depois dos temporais da redemocratização, mais que nunca seguia longe da unanimidade.

Quando eleito presidente, Fernando Collor convocou-o para uma conversa em Brasília. Ambos cultivavam o pensamento liberal que Roberto Campos era dos maiores expoentes no país. Collor queria o apoio de Campos. E conseguiu. O nobre embaixador ficou entusiasmado com o rapaz das Alagoas. Acreditava que o Brasil com ele, enfim, poderia começar a assemelhar-se aos seus livros, ideias e ideais.

Tudo ia bem até que veio o confisco da poupança que reverteu todas as expectativas e humores. Roberto Campos caiu irritado, irritadíssimo. Não sabia o que pensar nem dizer.

Almoçava em casa à sós com dona Stella quando o telefone tocou. Era de Brasília. Do outro lado, Fernando Collor querendo explicar o inexplicável. Campos resistiu muito antes de ceder e ir conversar com o presidente. Deixou, assim, a mesa e foi ao aparelho. Disse “alô” com rudeza. Collor começou a explicar a essência do plano. Campos não queria ouvir. O silêncio reinava. Suas feições eram só grimaces. Como pinturas de Breton. Até que Campos rompeu a monotonia com a expressão “E bota improviso nisso!, p…”.

Reconectou o aparelho. Lançou ao ar outra expressão precisa, forte e usual como síntese de rejeição. Lia-se em seu semblante. Ele estava irado. Conseguintemente, deu por encerrado o seu apoio ao governo. Reconhecia nele méritos. Sabia que Collor e os seus tinham se empenhado na modernização da economia brasileira. Mas estava convencido que aquele confisco fora longe demais. Corroera as frentes de governabilidade do antigo governador de Alagoas. Destruindo a sua credibilidade. Restando o impeachment como antídoto. Dilúvio ou caos. Melhor dilúvio. A entropia era sem fim. Nada conseguiria conter a sangria.

Às vésperas da votação do impeachment, Roberto Campos caiu em desarranjo. Sucumbira a uma intoxicação alimentar e seguia internado em clínica do Rio de Janeiro. O seu quadro era grave. O seu semblante ficou frio. O seu corpo, trêmulo. A sua aparência, frágil. Os seus movimentos, sem ação. Mesmo assim, num momento de suspiro, mandou dizer ao líder do PMDB, Ulysses Guimarães, que iria, a qualquer custo, votar e ajudar a derrubar o presidente. E foi. Em cadeira de rodas. Chegando ao Congresso naquele 29 de setembro de 1992 simplesmente para dizer “voto com o relator”. Quatro palavras. Imenso gesto. Quatro estações. E retorno às pressas para o Rio. Ele seguia febril e sua condição demandava atenção.

Superado, sem Collor nem a Academia, restou-lhe, então, dedicar-se à sua obra-fim, A Lanterna na Popa.

Demorou poucos meses. De inícios de 1993 a meados de 1994. Escrevia rápido e com convicção.

Dez meses depois, a publicação recebeu o prêmio José Ermírio de Morais da Academia. Um prêmio relevante e de alto reconhecimento. Que chegou em bom momento e caiu como bálsamo. Levando o embaixador a reconquistar ânimo para voltar a sonhar com a Academia.

Seus eternos incentivadores – Raquel de Queiroz, Jorge Amado e Antonio Olinto – reforçaram o ímpeto para Roberto Campos voltar a novamente se candidatar.

Aguardava-se apenas uma vaga vagar. Esperava-se apenas um imortal partir. O que aconteceu em 1999. Quando Alfredo Dias Gomes nos deixou.

Foi num dia ameno e feliz em São Paulo. 18 de maio de 1999. Uma terça-feira. O dramaturgo e sua nova mulher nova tinham vindo do Rio para acompanhar um espetáculo na capital paulista. Contemplaram a obra e foram jantar em restaurante popular na região central. Tudo ia bem e tranquilo. O autor de Bandeira DoisSaramandaia, Roque SanteiroBem-Amado era só risos. Estava nitidamente no melhor de sua vida e arte. Completava 76 anos de idade e 60 anos de composições. Fora precoce. O seu primeiro escrito foi gestado quando ele tinha apenas 15 anos. O Pagador de Promessas seguia o seu trunfo mais memorável. Mas o seu próximo texto prometia superar todos os demais.

Ele acabou de jantar e tinha pressa de ir embora. Queria voltar logo para a hospedagem. Um hotel nas imediações da avenida Paulista. A sua cabeça também estava no Rio, para onde queria voltar logo. Regressaria na manhã seguinte. Não quis, assim, após aquele jantar, aguardar o táxi credenciado do restaurante. Pediu um qualquer por conta própria. Queria colocar no papel outra crônica e novos escritos. Sempre sonhando o futuro. Entrou no carro e pediu para o motorista acelerar. O motorista respeitou.

Numa travessa da 9 de julho, sugeriu um atalho. O motorista também anuiu. Era uma conversão arriscada e proibida. Passava da meia-noite. O motorista aceitou a contravenção. Queria por tudo agradar o criador de Senhorzinho Malta. Tornou à esquerda sem notar o perigo. Cruzou à frente de um ônibus. Não conseguiu frear nem avançar. Colidiu forte. Foi lançado bem longe. O dramaturgo nada viu. Foi tudo muito rápido. Dias Gomes estava sem cinto de segurança. Bateu cabeça e membros.

Morreu ali mesmo. Subitamente. Sem suspirar nem de ninguém se despedir. Foi o seu fim. Triste fim de Dias Gomes. Notável baiano e brasileiro. Ocupante da cadeira 21.
Retornou ao Rio apenas para seus funerais. Sóbrios funerais que anunciaram o início de sua sucessão.

Roberto Campos estava na fila. Arnaldo Niskier, Tarcísio Padilha e Antonio Olinto somaram-se a Raquel de Queiroz e Jorge Amado para incentivar.

Roberto Campos superava os 80 anos. Seguia aguerrido, mas frágil. Seu coração já não era o mesmo. Infartos sucessivos insistiam em conclamar o seu retorno ao Pai. Vivia um dia ante o outro. A todo vapor. Com e sem sobressaltos. Era indiferente a tudo e todos. Vivia como quem não tem mais nada a perder. Lançou-se nesse espírito à vaga de Dias Gomes. Queria ser imortal.

Tornado candidato, surpreendeu-se. A resistência ao seu nome foi imensa. A virulência foi sem paralelos. Jamais se vira algo similar. Setores da imprensa e da Cultura consideravam um escárnio a sua intenção. Bernadeth Lyzio, viúva de Dias Gomes, prometeu retirar os restos mortais do marido do mausoléu da Academia caso Roberto Campos fosse eleito. Os filhos do dramaturgo seguiram em linha com a madrasta. A situação inflamou-se. A diatribe monopolizou o noticiário. Roberto Campos hesitou em manter a candidatura. O constrangimento tomou dimensões gigantescas. Roberto Campos foi, então, parlamentar com o presidente da Casa de Machado de Assis, Arnaldo Niskier. Pretendia abandonar a candidatura. Arnaldo Niskier convenceu-o a mantê-la. Roberto Campos aquiesceu. Seguiu na disputa e terminou eleito. Ingressou, enfim, nessa imortalidade. Para o bem da Academia, para o bem da Cultura e para o bem do Brasil. Morreria meses depois. No 9 de outubro de 2001. Mas conseguiria, antes, ser empossado.

*

PS: agradeço ao embaixador Paulo Roberto de Almeida pela leitura atenta e generosa da versão inicial deste texto.

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