terça-feira, 12 de maio de 2026

Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio

 Brasil e México. Amigos Distantes

busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010

 

    Sérgio Abreu e Lima Florencio


Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações. 

Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a Chinauma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80%  .

O México é uma economia muito aberta e competitivaexportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.

A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).

Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.

O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE). 

O fracasso do projetado Acordo Brasil-México 

Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o AcordoA alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do  PAN. 

Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importanteporque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro. 

Quatro razões para não repetir os erros do passado

Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?

primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.  

A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada. 

A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.

A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México.  Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.

A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela -  com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes,  caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.  

Conclusão

A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais  de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas. 

Sergio Florencio.   Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026. 


Dúvidas histórico-metafísicas - Paulo Roberto de Almeida

Dúvidas histórico-metafísicas

Paulo Roberto de Almeida 

Teremos um novo 1917 (fevereiro ou outubro?) ou um repeteco de 1991?

Acho que nem um nem outro: a História não se repete, e a Rússia atual é uma caixa de Pandora. 

Certas coisas são melancólicas: pela primeira vez na História, vemos dois impérios que cresceram paralelamente, na confrontação recíproca, sofrerem um desmoronamento involuntário, causado por duas “almas gêmeas”, aliás amigas, mas unidas numa mesma arrogância desmesurada que leva o nome de hubris. Ambas enredadas em conflitos criados pela prepotência habitual dos que se creem muito poderosos.

Um bom motivo para uma reflexão ponderada dos diplomatas brasileiros sobre aquilo que Hegel chamava de “astúcias da História” (ou seriam armadilhas?). Existe alguma lição a tirar? Provavelmente: nunca confie numa grande potência…

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 12/05/2026


Erro histórico do governo do PT: a recusa do ingresso na OCDE - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião: Erro histórico do governo do PT

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 12/05/2026

Um dos aspectos mais relevantes da política externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.

A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.

Nesse contexto, a suspensão pelo governo Lula dos entendimentos, iniciados por Dilma Rousseff e apoiados por Temer, com vistas ao acesso do Brasil à OCDE só pode ser explicado por restrições ideológicas superadas, visto que o ingresso do Brasil traria benefícios de natureza política, econômica, institucional, estratégica e de cooperação regional e internacional. Não se pode ignorar, como faz Brasília, que existe uma forte convergência de princípios com a OCDE. O Brasil consagra, em sua Constituição federal e ordenamento institucional, os mesmos princípios fundamentais que os membros da OCDE procuram promover, notadamente democracia, direitos humanos, livre empreendimento e economia de mercado, bem como de Estado comprometido com a governança pública pautada em transparência, prestação de contas, combate à corrupção e ilícitos e busca contínua – e sob escrutínio internacional – das melhores políticas públicas – econômicas e sociais, em particular – para o cidadão.

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação. Como membro pleno da organização, o Brasil participaria das deliberações estratégicas e políticas da organização. Por meio dessa atuação, o Brasil influenciaria os consensos internos, construiria pontes com diferentes grupos de países e promoveria os processos de reforma da OCDE, segundo seus interesses. Contribuiria também para a crescente consideração da perspectiva de países em desenvolvimento, trabalhando em conjunto com países da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, com países já membros, em processo de acessão ou com crescente engajamento nos trabalhos da OCDE. Nesses termos, o Brasil poderia melhor projetar não só seus interesses, mas também suas visões sobre variados temas.

Hoje, quase todos os ministérios e agências regulatórias brasileiras atuam na OCDE e conhecem cada vez mais a natureza e os mecanismos de trabalho da organização. O Brasil é visto pelo secretariado da OCDE como o País em desenvolvimento mais preparado para ingressar na organização em toda a sua história, tendo o País ampliado de modo progressivo sua atuação e convergência nas últimas três décadas. Esse esforço está amadurecido, mesmo nas áreas mais sensíveis na adesão, como tributação e movimento de capitais, objeto de recomendações e dos chamados Códigos de Liberalização da OCDE. Ademais, a pedido do Brasil, a própria OCDE tem contribuído para as reformas no País, como nas atualizações sucessivas da legislação de concorrência e na recente reforma tributária. Esse gênero de convergência é promovido com base em diálogos com o secretariado e com os países-membros, que promovem a internalização e a racionalização das circunstâncias nacionais, bem como o exame da pluralidade de soluções cabíveis, em particular, na medida em que a organização se torna mais diversa no quadro de seus membros.

A participação plena e regular do Brasil na OCDE serviria de sinal significativo sobre a qualidade da regulação doméstica e dos padrões adotados pelo País em áreas como tributação, concorrência, comércio, agricultura, investimentos, serviços, governança pública, combate à corrupção, supervisão financeira, mercados de capitais e governança corporativa, empresas estatais e multinacionais, educação, saúde, emprego e trabalho. A OCDE mantém códigos técnicos também nas áreas de tratores, sementes, químicos e créditos à exportação. Muitos dos padrões da OCDE são reconhecidos internacionalmente, inclusive por países não membros, e sua adoção facilita a compreensão das práticas empregadas pelo país em avaliações e decisões comerciais, financeiras, de investimentos e negócios em geral. O ingresso do Brasil seria um elemento adicional de convergência regional. A América Latina, com México, Chile, Colômbia e Costa Rica, é a região em desenvolvimento que mais tem participado dos trabalhos da OCDE. A Argentina reviu sua posição e voltou a se interessar pelo ingresso. Outros países da região têm manifestado interesse em considerar a adesão futura à OCDE, como Paraguai, Panamá e República Dominicana.

Do ângulo geopolítico, o Brasil seria o único país membro do Brics e da OCDE. O futuro governo deveria reexaminar a decisão de manter o Brasil fora da OCDE, apenas por razões ideológicas, sem levar em conta o interesse nacional.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)


O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação - Rubens Barbosa )O Estado de S. Paulo)

O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação
Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/04/2026

Nos dias 8 e 9 de abril, o Brasil foi sede da 9.ª Reunião Ministerial e assumiu pela terceira vez a Presidência Pro Tempore da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
A Zopacas foi criada – por iniciativa do Brasil, apoiado pela Argentina – pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram ao projeto. Estabelecida em 27 de outubro de 1986, este fórum se propôs a ser o principal mecanismo de articulação, no Atlântico Sul (área compreendida entre o paralelo 16.° N e a Antártida), buscando promover uma maior cooperação regional para o desenvolvimento econômico e social, a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos vivos e não vivos e a segurança de toda a região, sob a perspectiva da integração multilateral, permeada pelo pano de fundo das iniciativas relacionadas à não proliferação de armas nucleares e de destruição em massa.
Em seus primeiros anos, a agenda política da Zopacas esteve voltada a projetos de cooperação para o desenvolvimento socioeconômico. As preocupações eram associadas à percepção de ameaça oriunda da confrontação entre as duas superpotências; e do regime sul-africano que, além de institucionalizar políticas discriminatórias, ocupava ilegalmente o território da Namíbia, influenciava a guerra civil angolana e perseguia um programa nuclear para fins militares, conflitante com a proposta de uma zona de paz livre de armas nucleares no Atlântico Sul. Com o fim da guerra fria e do regime do apartheid sul-africano, a Zopacas esgotou suas pautas principais, correndo o risco de avançar rumo à irrelevância. Em 1992, visando a recuperar o projeto regional de iniciativa brasileira, foi lançado o projeto de atualização da zona que propunha a inclusão da pauta de proteção do meio ambiente marinho como meio de mantê-la como um fórum relevante internacionalmente.
A partir dos anos 2000, com as descobertas de petróleo offshore em ambas as margens do Atlântico Sul, a Zopacas passou a se apresentar como um dos meios para governança deste espaço e para evitar ingerência externa e proteger os recursos energéticos. Em 2021, ficou decidida a convocação de reuniões anuais à margem da reunião da Assembleia-Geral da ONU e a necessidade de criação de um mecanismo de acompanhamento. Os principais objetivos da retomada das reuniões ministeriais foram: 1) reforçar a ideia do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação, livre de armas de destruição em massa e de rivalidades e conflitos que lhe sejam alheios; 2) aumentar o engajamento dos membros africanos com o agrupamento; e 3) desincentivar a presença militar de Estados das demais regiões no Atlântico Sul.
Do ângulo brasileiro, a Zopacas passou a se integrar ao conceito de entorno estratégico, incluído na Política de Defesa Nacional desde 2005, mantendo-se nos documentos seguintes a prioridade do entorno estratégico, da América do Sul à Costa Ocidental da África, englobando o Atlântico Sul e a Antártida, já presente no texto desde a primeira versão. Dentro do novo quadro geopolítico, a instabilidade internacional e a reconfiguração de alianças observadas nos últimos anos reforçam a importância de fortalecimento da Zopacas como contrapeso ao aumento de pressões extrarregionais no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, ameaças à região e aos recursos marinhos nela existentes, incluindo a poluição do meio ambiente marinho, ameaças à segurança marítima, especialmente no Golfo da Guiné, o crime organizado transnacional, a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, dentre outros, demandam respostas coletivas e estreita coordenação regional.
Nos últimos 20 anos, o governo brasileiro assinou acordos-quadro de cooperação em defesa com alguns dos Estados-membros da Zopacas, sendo África do Sul; Guiné-Bissau; Namíbia; Angola; Guiné Equatorial; Nigéria; São Tomé e Príncipe; Senegal; Uruguai; Cabo Verde; e Benin. Foram igualmente assinados o Acordo Operacional entre o Centro de Controle de Área Atlântico e o Centro de Controle de Área Abidjan (2010) e um Memorando de Entendimento entre a Marinha do Brasil e a Marinha Nacional de Camarões (2018).
Caso a Zopacas não seja capaz de responder a essas demandas, outras iniciativas e atores podem se impor à região. É oportuno lembrar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mudou sua doutrina ampliando seu raio de ação para o Atlântico Sul e mais recentemente para “as áreas de interesses dos países membros”, referência indireta ao mar do Sul da China.
A 9.ª Reunião Ministerial apresentou como resultados uma declaração política com compromissos sobre a manutenção da paz e segurança e cooperação para o desenvolvimento sustentável no Atlântico Sul, a apresentação de uma estratégia de cooperação entre os países participantes, cobrindo a governança dos oceanos, segurança e defesa marítima e desenvolvimento sustentável do meio ambiente e uma convenção sobre proteção do meio ambiente no Atlântico Sul. Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico.
 
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)
 

A visita de Trump a Xi Jinping: - Paulo Roberto de Almeida

A visita de Trump a Xi Jinping:

Paulo Roberto de Almeida 

Uma agência de noticias me formulou três perguntas sobre o significado dessa entrevista entre os dois dirigentes mais poderosos do mundo.

Tinha hora para responder, assim que tive de comentar apressadamente. Se postarem as respostas vou reproduzir aqui. Mas esqueci de dizer uma coisa relevante:

Xi formula seus argumentos depois de ouvir a nata do mandarinato do PCC mais tecnicamente preparado nos temas do encontro. 

Trump, por sua vez, não ouve ninguém, atua totalmente sozinho, com frases desconexas, numa linguagem muito semelhante à de uma criança de 5 anos.

Na verdade, não espero nada de muito significativo saindo desse encontro.

Paulo Roberto de Almeida

12/05/2026

Um dia que vai ficar na História - Paulo Roberto de Almeida, Anton Gerashchenko

 Um dia que vai ficar na História 

O evento geopoliticamente MAIS IMPORTANTE neste quinto mês de 2026 foi o fato de Zelensky ter concedido autorização a um Putin atemorizado para que este pudesse realizar uma parada pífia no dia 9 de maio, a data politicamente mais relevante no calendário mistificador da “Grande Guerra Patriótica”, que só assumiu essa qualificação porque o idiota do Hitler impediu que o tirano Stalin continuasse como seu aliado na destruição das democracias ocidentais da Europa.

Essa data precisa ser marcada, porque ela representa o começo do fim do tirano de Moscou.

Leiam esta matéria de Anton Gerashchenko (X, 11/05/2026)

“In my opinion, yesterday a turning point in the war took place.

Perhaps we still do not fully grasp the significance of what happened.

For the first time, Putin publicly showed his weakness and inability to independently protect his capital, his parade, and himself from our strikes. Because of this, a frightened Putin was forced to publicly humiliate himself and ask Trump, as a mediator, to help stop a strike on Moscow.

De facto, Putin asked Trump to protect him from the Ukrainians.

I consider President Zelenskyy’s order a brilliant informational slap in the face and an additional public humiliation.

It is obvious that before and during the parade, Putin was physically afraid - he felt vulnerable and threatened.

Putin publicly appeared weak and humiliated, and in Russia’s "prison-style" political culture, such things are not forgiven.

A weak "tsar," mocked by everyone, cannot remain a tsar in Russia.

These are very, very hard times for Ukraine. However, Ukraine is strong, resilient, and continues the fight.

Slava Ukraini!”

O que pode fazer a estupidez humana? - Paulo Roberto de Almeida

 O que pode fazer a estupidez humana?

O caso do frenesi bolsonarista em defesa de um detergente objeto de um parecer técnico da Avisa representa um degrau abaixo da mesma doença mental que atingiu quase todos os seguidores de um presidente negacionista durante a pandemia da Covid, como escreveu um jornalista sensato:

“Talvez seja justamente esse o maior dano produzido pelo bolsonarismo nos últimos anos: a corrosão deliberada da confiança pública em qualquer instituição técnica, que não funcione como braço de militância. Pode ser uma empresa, um laboratório, uma agência e, principalmente, a imprensa. A consequência é um país onde evidência científica perde para opinião, fiscalização vira conspiração de esquerda e bom senso, a encarnação de todo o mal.” (“O detergente Ypê é a nova cloroquina”, Ricardo Kertzman, O Antagonista, 11/05/2026)

Na pandemia tivemos um número excedentário de mortes (no confronto com o volume de contaminados) exatamente porque o débil mental do presidente levou uma guerra insana contra medidas profiláticas e vacinas. Até quando brasileiros normais se deixarão contaminar pela nova luta ideológica contra recomendações técnicas de cientistas?

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 12/05/2026

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco - Edmar Bacha (in: Afonso Arinos de Melo Franco)

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco

Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco*. Org. Arno Wehling e Rogério Faria Tavares. Editora Miguilin, 2026. 

Jurista, político, memorialista, ensaísta — Afonso Arinos de Melo Franco é figura das mais versáteis da cultura brasileira do século XX. Menos lembrado é o fato de que ele deu contribuições duradouras à historiografia econômica do país. São três os livros nesse campo: uma breve síntese da história econômica do Brasil, que chegou aos bancos escolares país afora; um estudo sobre a formação do patrimônio histórico-material do país, que se tornou referência para o Iphan; e uma história do primeiro Banco do Brasil, amplamente considerada o principal registro da fase inicial das finanças brasileiras.

## Das aulas na UDF às conferências em Montevidéu

Em 1936, Arinos aceitou o convite do reitor Afonso Pena para lecionar História do Brasil na recém-criada Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira. Após debater o programa com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, seus colegas na UDF, Arinos estruturou a história do Brasil em ciclos econômicos: pau-brasil, açúcar, ouro, café e, finalmente, indústria. Dois anos depois, em janeiro de 1938, Arinos foi a Montevidéu representar o Brasil num curso internacional de férias organizado pelo Ministério da Instrução do Uruguai. San Tiago Dantas fazia parte da mesma delegação — dois intelectuais, não diplomatas de carreira, como Arinos fez questão de sublinhar. De suas três conferências, baseadas no curso para a UDF, resultou, ainda naquele ano, a *Síntese da história econômica do Brasil*.

Em 1941, Rodrigo Melo Franco de Andrade — primo do autor e criador do Sphan (atual Iphan) — o convidou a ministrar cinco conferências para os técnicos do serviço. Delas nasceu, em 1944, o *Desenvolvimento da civilização material no Brasil*.

O terceiro livro tem origem peculiar. Ao ingressar no Banco do Brasil também em 1936 como advogado, Arinos recebeu, em fins de 1942, a incumbência de escrever a história da instituição. O trabalho foi árduo: dois assistentes pesquisaram jornais, avulsos e publicações do Primeiro Reinado e da Regência. Mas a publicação foi interrompida: Arinos foi um dos idealizadores do *Manifesto dos mineiros* de 1943, que defendia a restauração da democracia, e Getúlio Vargas o aposentou compulsoriamente do banco. O livro só saiu em 1947.

## *Síntese da história econômica do Brasil* (1938): os ciclos que foram à escola

A *Síntese* é um livro enxuto — 65 páginas na edição original —, mas com grande apelo pedagógico. Nela, Arinos propõe que a economia brasileira pode ser considerada em ciclos sucessivos, cada um com um núcleo dominante: pau-brasil, açúcar, ouro, café. A abordagem facilitou a organização da história do Brasil em fases claras, e sua adoção em livros escolares foi ampla.

Arinos acreditava ser pioneiro nessa abordagem. Não era inteiramente: Normano, em 1935, já falava em “produtos-rei”, e Simonsen usava livremente o termo “ciclo” em seu curso na Escola Livre de Sociologia na década de 1930. A originalidade de Arinos foi centrar toda a análise da história econômica brasileira na sucessão desses ciclos.

Seja como for, obras posteriores trilharam caminhos distintos e de maior impacto intelectual. Caio Prado Jr., em *Formação do Brasil contemporâneo* e em *História econômica do Brasil*, deslocou o foco para a evolução dos modos e relações sociais de produção — com a marca marxista que o caracterizava.Celso Furtado, em *Formação econômica do Brasil*, foi ainda mais “economicista”, organizando o livro estritamente em torno de conceitos econômicos, sem qualquer referência a “superestrutura política”.

Ainda assim, a *Síntese* de Arinos foi um marco. Antecipou estudos mais abrangentes, destacou a complexa relação entre economia, sociedade e política na formação do Brasil, e ofereceu uma visão integrada e acessível que permanece de interesse para os estudiosos da historiografia econômica.

## *Desenvolvimento da civilização material no Brasil* (1944): pedra e cal

O título pode enganar o leitor contemporâneo. “Civilização material” hoje remete à obra monumental de Fernand Braudel, que a usou para designar a economia de subsistência e o cotidiano pré-mercantil. Caio Prado Jr. usou a expressão em sentido diferente: o conjunto das atividades econômicas do país.

Arinos a usa em sentido distinto de ambos. Para ele, “civilização material” é o objeto de trabalho do Sphan: o patrimônio histórico material do país — engenhos, igrejas, fortes, armazéns, casas rurais e operárias, câmaras e fazendas de café, caminhos e estradas. “Pedra e cal”, no jargão patrimonialista.

O livro conduz o leitor por uma viagem do século XVI ao século XIX, mostrando o lento povoamento do país, o surgimento de feitorias e cidades, o desenvolvimento das técnicas de produção e dos transportes. O tom coloquial do texto é convite à leitura.

Há um ponto discutível: na primeira conferência, Arinos afirma que o desenvolvimento da civilização material do país é de base portuguesa, pois os elementos negro e indígena seriam de difícil identificação. Essa conclusão soa estranha do ponto de vista econômico, pois desconsidera que foi com a mão de obra escravizada de indígenas e africanos que se construiu, em larga medida, o patrimônio material do país. A arquitetura poderá ter sido portuguesa, mas a engenharia foi obra das três raças — para usar a terminologia inadequada dos anos 1940.

As conferências de Arinos impactaram fortemente a gestão do patrimônio no Brasil. Permitiram visualizar os bens e conjuntos urbanos a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes regiões do país, orientando os técnicos do Sphan na seleção do que deveria integrar o patrimônio histórico e artístico nacional.

## *História do Banco do Brasil (Primeira fase: 1808-1835)* (1947): crônica de um fracasso anunciado

É o mais encorpado dos três livros — 279 páginas, afora cinco grandes tabelas em anexo — e o único que envolveu pesquisa original extensiva. Nas palavras do historiador português José Luís Cardoso, oferece “um dos mais rigorosos e completos registros sobre a primeira fase da história bancária brasileira”. Caio Prado Jr. o definiu como “trabalho minucioso, que oferece um histórico seguro e bem traçado da fase inicial das finanças brasileiras”.

O banco foi criado por D. João VI em 1808 como banco emissor e de crédito — mas, na prática, serviu essencialmente para financiar a Coroa. Os poucos balanços disponíveis demonstram que o grosso de suas atividades consistia em empréstimos ao governo, financiados pela emissão de suas próprias cédulas. Era reduzida a atividade de desconto de letras privadas, o que lhe rendeu pouco apoio político e imprensa francamente desfavorável.

Dado o estado fortemente deficitário das contas do governo — tanto sob D. João VI quanto sob D. Pedro I —, a emissão de cédulas para financiar déficits levou à depreciação progressiva do papel-moeda. Em 1821, as moedas de ouro tinham um prêmio de 28% em relação às cédulas do Banco. Em 1831, por ocasião da liquidação, esse prêmio havia chegado a 210%.

A desvalorização dos bilhetes veio acompanhada de corridas ao banco, intervenções policiais e enorme alvoroço parlamentar. O desfecho foi a liquidação em 1829, processo que se arrastou por mais seis anos.

Arinos acompanha essa odisseia passo a passo, com riqueza de detalhes sobre os debates parlamentares, sua repercussão na imprensa, e algumas histórias paralelas deliciosas. Sua conclusão é que o progresso econômico do país não poderia prescindir de institutos provedores de crédito — e que a liquidação do banco foi um grave erro. Já em 1833 o governo tentou criar um segundo Banco do Brasil, sem sucesso; o segundo banco só viria em 1853, em condições políticas e econômicas mais propícias.

## Conclusões

Cada um à sua maneira, os três livros de Arinos deram contribuições importantes para o conhecimento do passado brasileiro. A *Síntese* mantém seu interesse para os estudiosos da historiografia econômica. O *Desenvolvimento* continua a ser saborosa viagem de descoberta do patrimônio material do país. A *História do Banco do Brasil* impressiona por sua pesquisa original e por nos expor, na pena leve e culta de Arinos, as entranhas financeiras e políticas do turbulento período em que a colônia se fez nação.

Jurista, político, memorialista e ensaista consagrado, Arinos deixou um legado sobre a história econômica do Brasil menos celebrado do que merece. Vale a pena redescobri-lo.


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Stephen Kotkin: "Internal Challenge of US Global Leadership"

 Estou assistindo a mais uma das preleções, no Hoover Institute, de Stephen Kotkin, o historiador mais inteligente (e bem humorado) dos tempos presentes. Ele acaba de dizer uma coisa das mais elementares, mas que precisam ser ditas:

"Sociedades bem-sucedidas dependem de duas coisas: lideranças competentes e compassivas, e coesão social e solidariedade no resto da sociedade".
Acho que é isso; não sei se o Brasil, nós brasileiros, contamos com isso...

Stephen Kotkin: "Internal Challenge of US Global Leadership"
https://www.youtube.com/watch?v=xSbsfK_yvEw

White House Blues - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 White House Blues

Jorio Dauster
Relatório Reservado, 11/05/2026
Sobre o encontro Lula-Trump

Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.

Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo? Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.

Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão. Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.

A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.

A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.

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Meu comentário direto a Jorio Dauster:

Excelente descrição de uma discussão que de fato não ocorreu, apenas figuração de uma parte e outra. Os perdedores foram os bolsonaristas e a turma da direita de modo geral, que esperavam nova ofensiva contra Lula e o Brasil, agora elevados à condição de interlocutores quase de par a par.
Mas, ainda não temos informações sobre o que de fato ocorreu, todos os jornalistas frustrados, e apenas o relato de Lula na embaixada. O que temos, portanto, são narrativas, e já ouvi o porta-voz da extrema direita, Paulo Figueiredo, querendo afirmar que a visita foi um fracasso completo.
Não foi, apenas permanece um impasse, mas amplamente favorável ao Brasil, pois que se desarmou o tacape trumpista. Mas, provavelmente haverá alguma maldade na 301, que terá de ser absorvida por nós, pelo Alckmin.
Se assegurou que não haverá intervenção trumpista nas nossas eleições, o que é um zero a zero. Repare que em 1964 (e até antes) eles interviram para favorecer os golpistas. Em 2022, Biden fez a sua pequena intervenção (Sullivan e Burns vieram ao Brasil) para evitar um golpe em preparação. Já é um progresso. Com Trump, havia anúncios de borrasca. Agora acho que não virá mais, mesmo que a dupla Bananinha-Figueiredo atue junto ao Departamento de Estado para acirrar os ânimos.
Stalemate por enquanto, vamos ver quanto tempo dura…
O abraço do
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/05/2026

PREFÁCIO DE WILSON GOMES AO LIVRO DE ANTONIO RISÉRIO: "ADEUS, IDENTITARISMO"...

 PREFÁCIO DE WILSON GOMES AO LIVRO  DE ANTONIO RISÉRIO: "ADEUS, IDENTITARISMO"...


Recebi com verdadeira lisonja o convite para prefaciar este livro. Não apenas pela honra formal do gesto, mas sobretudo pelo que ele implica: apresentar ao leitor uma obra de Antonio Risério, autor que admiro há muito tempo pela vastidão incomum de sua cultura, por uma erudição que não se deixa aprisionar por especializações estreitas nem pela compartimentação acadêmica e que se estende, com a mesma familiaridade, da tradição intelectual erudita à cultura popular brasileira. Há, em Risério, algo cada vez mais raro: uma curiosidade intelectual sem cercas, uma inteligência que transita com igual desenvoltura pela antropologia, pela história, pela crítica cultural, pela música, pela literatura e pela política, sem jamais converter essa circulação em exibicionismo ou capital simbólico de ocasião. Some-se a isso uma coerência intelectual que é pouco frequente em tempos de oportunismo moral, uma honestidade que não se ajusta às conveniências do momento e um brilho de escrita que combina precisão conceitual, ritmo, ironia e coragem. Prefaciar este livro, portanto, não é um gesto protocolar nem uma deferência amistosa, mas um exercício de responsabilidade intelectual diante de uma obra que não pede cumplicidade confortável nem adesão automática e que tampouco oferece ao leitor a tranquilidade enganosa das posições consensuais.

Adeus, Identitarismo é, antes de tudo, um gesto. Um gesto intelectual e político no sentido mais forte do termo: uma intervenção deliberada no debate público, feita sem cálculo de recepção, sem anestesia retórica e sem concessões ao clima moral dominante. Não se trata de um texto concebido para agradar, seduzir ou pacificar, tampouco de um livro que aspire a reconciliar posições inconciliáveis. Ao contrário, é uma obra que assume desde a primeira página o risco do confronto e da impopularidade e que faz disso não um efeito colateral indesejado, mas parte constitutiva de sua estratégia discursiva. O livro não pede licença para existir nem se justifica preventivamente diante de seus possíveis acusadores; escreve como quem já não reconhece a legitimidade do tribunal moral que se pretendeu instalar como instância suprema de julgamento intelectual.

Sob esse aspecto, trata-se de um último gesto de insubordinação diante da hegemonia identitária, que considera declinante: uma recusa a que a lida intelectual com o identitarismo continue a merecer seu tempo e esforço; uma rejeição à ideia de que a oposição ao autoritarismo identitário deva definir sua identidade. Nesse sentido, o livro parece dizer, da primeira à última seção: “encerramos aqui; basta disso”.

No plano explícito, a obra se propõe a uma crítica frontal do identitarismo contemporâneo, especialmente em sua versão universitária, moralizante e punitiva, frequentemente designada pelo rótulo woke. Risério interpreta esse fenômeno como uma forma específica de autoritarismo político-cultural, importada do ambiente acadêmico norte-americano e transplantada para o Brasil de modo acrítico, como se experiências históricas, sociais, culturais e políticas profundamente distintas pudessem ser substituídas por esquemas conceituais prontos, slogans morais e categorias simplificadoras. O próprio autor define o texto como um réquiem, ainda que “abrindo-se ao final à esperança”: uma tentativa de registrar o esgotamento histórico de um movimento que, depois de duas décadas de hegemonia simbólica em universidades, redações, setores culturais, fundações, empresas e parte do aparato estatal, começa a dar sinais claros de fadiga, erosão e perda de legitimidade social.

Mas o livro entrega mais do que anuncia. Para além da crítica ideológica, Adeus, Identitarismo funciona como documento de época, como dossiê comentado e como testemunho intelectual. Ao reunir fragmentos de textos, citações extensas, episódios públicos, polêmicas, nomes próprios, campanhas de difamação, perseguições e cancelamentos, Risério constrói um arquivo crítico de um ciclo histórico específico do debate público brasileiro. O livro registra práticas e discursos que dificilmente sobreviveriam ao apagamento seletivo da memória pública ou à reescrita moralizante da história recente, sempre pronta a absolver os vencedores simbólicos do momento. Nesse sentido, ele não apenas argumenta contra o identitarismo, mas preserva evidências do modo como esse fenômeno operou concretamente, com seus dispositivos de intimidação, silenciamento, chantagem moral, coerção simbólica e corrosão deliberada das condições mínimas do pluralismo democrático.

Há também, de maneira indissociável, uma dimensão autobiográfica e testemunhal. O autor não se esconde atrás de abstrações nem fala de um lugar neutro ou asséptico. Ao contrário, assume explicitamente o lugar de quem foi alvo de ataques, ameaças, exclusões e tentativas sistemáticas de silenciamento. Quando escreve sobre cancelamento, por exemplo, não o faz como categoria sociológica distante, mas como experiência vivida, observando que “cancelar” é tentar “sepultar uma pessoa ainda em vida”. Essa dimensão confere ao livro uma densidade existencial particular: não estamos diante de ressentimento, mas de estupefação e desalento — o espanto legítimo de qualquer liberal-democrata ao constatar o grau de brutalidade, intolerância e toxicidade moral que passou a caracterizar práticas identitárias apresentadas como progressistas, emancipadoras ou humanistas.

É justamente nesse ponto que se revela, de modo exemplar, o método ensaístico e imaginativo de Risério, baseado na bricolage de citações e na montagem de vozes diversas para iluminar um mesmo fenômeno. Um dos trechos mais expressivos do livro surge quando o autor discute o cancelamento. Partindo de um artigo de Laura Greenhalgh, no Valor Econômico, Risério destaca a observação de que “nessa máquina de triturar reputações, quem é cancelado, de fato, é o indivíduo, não uma ideia, uma tese, uma visão de mundo”. Em seguida, incorpora uma advertência de Barack Obama, dirigida a jovens norte-americanos, segundo a qual “cancelamentos não são uma forma de ativismo. Nem um chamado para a mudança. […] Apontar falhas alheias, apenas para se sentir bem, não faz sentido”. A montagem se completa com o raciocínio de Utpal Dholakia, para quem o cancelamento não se baseia em critérios equilibrados de transgressão, nasce enviesado ao admitir apenas um ângulo moral, restringe a liberdade de expressão por coerção ou censura, gera punições desproporcionais e alimenta a intolerância, constituindo “uma grave ameaça para as sociedades democráticas”. O fechamento interpretativo é todo de Risério: o cancelamento como gozo perverso de destruir o outro, prazer em humilhar, sadismo social, reação patológica à frustração e à humilhação. Nesse pequeno mosaico, vê-se condensado não apenas o argumento, mas o próprio estilo do livro: pensar por montagem, iluminar por contraste, fechar com uma interpretação desassombrada.

Outro eixo decisivo da obra — e talvez um dos mais importantes politicamente — é a crítica à renúncia progressiva, por parte da esquerda identitária, à ideia mesma de país. Risério insiste, em vários momentos, na defesa de soluções tipicamente nossas para a convivência das diferenças, historicamente construídas no Brasil, em contraste com modelos importados que tratam a sociedade como campo de guerra moral permanente. É nesse contexto que surge uma frase lapidar, quase um aforismo civilizacional: “É tarde demais, muito tarde, para abrir mão de nosso país”. A frase concentra uma posição intelectual e política clara: não se trata de negar conflitos, desigualdades ou injustiças históricas, mas de recusar a tentação destrutiva de abandonar o país real em nome de abstrações morais importadas. Abrir mão do país — de sua história, de suas ambiguidades, de suas formas imperfeitas, porém efetivas, de convivência — é, para Risério, um gesto de desistência política e cultural.

Essa crítica se articula de maneira particularmente feliz com uma citação de César Benjamin, incorporada pelo autor, que ajuda a compreender o mecanismo pelo qual parte da esquerda construiu identidades reativas, definidas menos por projetos afirmativos do que pela negação sistemática de tudo o que soa como comum, nacional ou compartilhado. Benjamin observa que, para nos diferenciarmos do mito do brasileiro pacífico e cordial, inventamos frequentemente o contramito do brasileiro violento e sanguinário; que, em reação ao mito do Brasil Grande, caro ao regime militar, jogamos fora o próprio conceito de nação; que ao mito da democracia racial respondemos com o contramito de uma sociedade essencial e visceralmente racista. Constitui-se, assim, um olhar carregado de negatividade — pois as identidades reativas são, por definição, negativas — e essa negatividade passa a se apresentar como radicalidade. O resultado, conclui Benjamin, é um “círculo de ferro” que interdita qualquer aproximação amorosa com o Brasil.

Essa passagem é central para compreender o alcance do livro. O que Risério denuncia não é apenas um conjunto de excessos discursivos, mas um verdadeiro empobrecimento da imaginação política, incapaz de pensar o país fora do registro da culpa, da denúncia e da acusação permanente. Ao romper com esse circuito negativo, Adeus, Identitarismo reafirma a possibilidade — e a necessidade — de uma relação crítica, mas não hostil, com o Brasil real, com sua história concreta e com suas formas próprias de administrar conflitos e diferenças.

Do ponto de vista formal, tudo isso se inscreve num livro deliberadamente difícil de classificar segundo os gêneros tradicionais. Não é um tratado, não é um ensaio acadêmico clássico, tampouco uma monografia organizada por hipóteses e demonstrações lineares. O próprio Risério descreve o texto como um “ensaio-colagem”, quase um mosaico, em que fragmentos se justapõem segundo um princípio não linear. O leitor encontrará uma bricolagem de reflexões, citações, comentários, memórias pessoais, ataques frontais e diagnósticos culturais, articulados menos pela progressão lógica do argumento do que pela acumulação insistente de exemplos e retornos temáticos.

Há algo de ensaio, algo de panfleto culto, algo de libelo — no sentido clássico do termo, como escrito de acusação pública — e algo de escrita de maturidade radical, própria de um autor que já não escreve para preservar capital simbólico, agradar pares ou negociar posições institucionais. A linearidade cede lugar à recorrência; a diplomacia, à franqueza; a mediação, ao enfrentamento. O efeito buscado não é o da persuasão gradual, mas o da interpelação direta.

Não se trata, contudo, de um livro escrito para qualquer leitor. O leitor implícito da obra não é o militante identitarista, mas aquele que ainda acredita na democracia liberal, no pluralismo, no dissenso legítimo e na possibilidade de convivência entre diferenças sem recorrer à coerção moral. Um leitor simpático às premissas encontrará prazer intelectual na leitura; um leitor adversário tenderá a rejeitá-la. Ainda assim, o livro cumpre sua função maior: dizer com clareza onde estamos e com quem já não podemos contar.

Não há dúvida de que se trata de uma obra de maturidade. Mas não no sentido de um livro que fecha portas. As portas já foram fechadas, as pontes demolidas, os navios queimados. O livro apenas registra, com lucidez e sem autoengano, essa clausura já consumada — e afirma algo ainda mais importante: que é possível manter autonomia intelectual e moral mesmo quando já não se pode contar com os identitarismos de esquerda, definitivamente perdidos para o autoritarismo e a intolerância, na reconstrução de um debate público baseado em pluralismo, dissenso e tolerância ou na elaboração de um projeto comum para o futuro.

Trata-se, por fim, de um livro honesto, franco e desassombrado. Um livro que não disfarça suas teses, não recua diante das consequências e não aceita o enquadramento moral imposto pelo próprio objeto que critica. Ao recusar a linguagem, os pressupostos e as chantagens simbólicas do identitarismo, Risério preserva algo cada vez mais raro: a independência intelectual. Concorde-se ou não com suas conclusões, é difícil negar que estamos diante de uma obra que diz claramente o que pensa, assume o preço disso e se recusa a pedir desculpas por pensar. Em tempos de prudência excessiva e medo de desagradar, essa clareza talvez seja, ela própria, uma das razões mais fortes para ler este livro.

Putin’s regime will 'end suddenly' - Why Russian victory is now impossible - Major General Chip Chapman (The Sun)

Putin’s regime will 'end suddenly' - Why Russian victory is now impossible
The Sun, May 10, 2026

Is Vladimir Putin’s grip on power slipping?

In this exclusive interview, Major General Chip Chapman, former Senior British Advisor to US Central Command, reveals why the Kremlin is more fragile than it appears.

As Russia faces staggering losses of over 1,400 men per day and a 'transparent battlefield' that has rendered traditional military manoeuvres impossible, Chapman argues that the regime is entering a 'death spiral'

We dive deep into the 'mafia state' dynamics of the FSB, the likelihood of an elite-led coup, and the terrifying prospect of a 'Bosnia with nukes' should the Russian Federation fracture. Chapman breaks down the three conditions that lead to a regime’s sudden collapse and explains why the person who replaces Putin might be even more dangerous for the West.
https://www.youtube.com/watch?v=KBXGlfe9PW8

Palestra de Edmar Bacha sobre reformas na economia brasileira - Projeto Brasil (Instituto Ética e Democracia)

 Nesta segunda-feira, dia 11 de maio, o economista Edmar Bacha deve participar de um debate sobre a economia do Brasil e o futuro da nação. Não tenho certeza de, estando em viagem, poder seguir esse debate – cujo texto-base, preparado por Edmar Bacha, e os dados do evento seguem abaixo – mas gostaria de oferecer minhas observações sobre suas propostas.

Elas são basicamente três: o acordo Mercosul-UE como ponto de partida para acordos comercias mais amplos com outros países; a abertura econômica e a liberalização comercial, no Brasil e no Mercosul, e uma reforma tributária para reduzir a carga fiscal sobre as atividades produtivas. Tenho dúvidas de que essa tripla reforma seja conduzida no próximo governo, qualquer que seja ele, de esquerda ou de direita.
Mas, vou elaborar mais a respeito. PRA

*Edmar Bacha – palestrante*

Debatedores:

• *Sérgio C. Buarque*

• *Jorge Jatobá*

Segue o link da live:

https://www.youtube.com/live/cace95aw9Gk

Segue o link, para a leitura do texto-guia do debate:

https://bit.ly/3RoaA7a



Os Coordenadores

*IED | Instituto Ética e Democracia*

Conhecimento para o Fortalecimento da Democracia

www.eticademocracia.org

*Movimento Roda Democrática*

https://web.facebook.com/groups/1699905363358128

*Ateliê de Humanidades*

https://ateliedehumanidades.com/

O relatório secreto de Nikita Khrushchev sobre os crimes de Stalin - Fevereiro 1956

O relatório secreto de Nikita Khrushchev

Fevereiro 1956

 

- The absolute most devastating weapon deployed during the early Cold War was not a thermonuclear warhead, but a stolen stack of papers casually left on a secretary's desk. In the freezing midnight hours of February 25, 1956, the heavy oak doors of the Grand Kremlin Palace were slammed shut and locked from the inside. Nikita Khrushchev, the First Secretary of the Soviet Union, stood alone at the wooden podium. He had explicitly ordered all foreign journalists and visiting diplomats to be aggressively removed from the grand hall. Exactly 1,436 elite Soviet delegates remained trapped in the suffocating silence, completely unaware that their entire reality was about to shatter.

- The speech he delivered that night lasted for four agonizing hours and shattered all diplomatic protocol. Khrushchev began methodically dismantling the sacred, god-like mythology of Joseph Stalin, the dictator they had blindly worshipped for three decades. He read directly from classified state archives, clinically detailing the horrific, paranoid madness of the Great Purge, the fabricated treason trials, and the midnight executions of completely innocent party loyalists. He explicitly exposed how the supreme leader had casually signed the death warrants of their closest friends and colleagues, driven by sheer, unchecked sociopathy. The absolute truth was finally spoken aloud in the dark.

 

- The psychological reaction of the captive audience was unprecedented in Soviet history. The massive auditorium descended into an absolute, terrifying silence so profound that a dropped pin could be heard. As Khrushchev systematically read the names of innocent men tortured into confessing absurd crimes, the heavy atmospheric tension became physically unbearable. Loyal, battle-hardened military generals openly wept into their hands, while several deeply devoted communist officials suffered sudden, violent heart attacks right in their velvet seats. They were listening to a terrifying autopsy of their own complicity, realizing their utopian empire was built entirely on a mountain of innocent corpses.

 

- Khrushchev explicitly designed this monumental address to be an absolute state secret. It was a calculated surgical strike meant exclusively for the highest echelons of the ruling party, an attempt to cleanse the deeply stained Soviet leadership without destroying the global communist movement. Physical copies of the explosive transcript were numbered, stamped with heavy security classifications, and distributed under armed guard to trusted satellite states. The Soviet intelligence apparatus was highly confident the dark confession would never breach the heavily fortified Iron Curtain. They were catastrophically wrong.

 

- The American intelligence community was desperate to acquire the highly classified text, offering massive financial bounties to anyone who could smuggle a copy to the West. Yet, the greatest espionage coup of the entire twentieth century did not require a sophisticated network of undercover operatives. It happened simply because a Polish-Jewish journalist named Viktor Grajewski decided to visit his girlfriend at her government office in Warsaw. While she casually stepped out to make tea, he noticed a thick, red-bound booklet resting unguarded on her desk. He quietly slipped the explosive state secret into his coat pocket, borrowed it for two hours, and walked directly to the Israeli embassy.

 

- The Shin Bet rapidly photographed every single page and immediately forwarded the undeveloped film to an ecstatic CIA in Washington. When the New York Times boldly published the fully translated speech on its front page a few weeks later, the geopolitical shockwave was absolutely catastrophic for Moscow. The sudden public revelation that the Soviet paradise was actually a murderous slaughterhouse instantly triggered massive anti-communist uprisings across the Eastern Bloc, permanently igniting the Hungarian Revolution and the Polish October. The guarded secret fractured the global communist illusion, proving that empires built on terror are fragile.

 

- Yet, the most shocking historical hypocrisy of that legendary midnight speech was hidden in the very hands of the man delivering it. While Nikita Khrushchev stood at the grand podium shedding genuine tears for the millions of innocent citizens slaughtered by Stalin's psychotic paranoia, he was aggressively rewriting his own dark history. The new Soviet leader conveniently forgot to mention to the weeping audience that during the height of the horrific terror in the 1930s, he himself had enthusiastically signed the execution lists for tens of thousands of innocent Ukrainians just to impress Stalin. The man who bravely exposed the monster to the world was actually his most obedient, blood-soaked apprentice, desperately burning the historical evidence before the flames could reach him.

 

The Iran War Is Bleeding India’s Economy Anisha Dutta (World Politics Review)

 The Iran War Is Bleeding India’s Economy

Anisha Dutta
World Politics Review, May 6, 2026

The main industry group representing India’s aviation sector, once among the fastest-growing in the world, issued an extraordinary warning last week: It may be forced to shut down operations due to higher fuel costs stemming from the Iran war.
The Federation of Indian Airlines has warned the government that recent price increases could lead to “insurmountable losses,” resulting in grounded aircraft and flight cancellations. The Air India group, the country’s flagship carrier, has revised its fuel surcharge on both domestic and international routes following a sharp rise in
global jet fuel prices.
The war in the Middle East has disrupted global energy flows, driven up oil prices and triggered cascading effects across South Asia’s largest economy, from airlines and pharmaceuticals to household cooking gas and food costs.
The shock has begun to drive inflation, causing the rupee to weaken and weighing on India’s growth outlook, while also heightening political tensions around energy security and foreign policy.

A Multisector Crisis
The most immediate pressure point is jet fuel, the price of which has nearly doubled since the start of the war in late February and now accounts for between 40 percent and 45 percent of operating costs for Indian carriers.
Airlines are also grappling with airspace restrictions across the Middle East, a critical corridor connecting India to Europe and North America. Flights are being rerouted along longer, more costly paths to avoid Iranian airspace, resulting in increased fuel consumption and operational strain.
That pressure on the sector adds to earlier disruptions from Pakistan’s airspace closures for Indian airlines since last May, following the brief war between the two countries.
The aviation sector is not the only one that has been hit as a result of the Iran war; India’s pharmaceutical industry, often described as the backbone of the global generic drug supply, is also under mounting stress due to the disruption in energy markets and critical supply routes.
India produces roughly 20 percent of the world’s generic medicines, including nearly half of all prescriptions filled in the United States. Yet its manufacturing base is heavily dependent on imported inputs, with between 60 percent and 70 percent of active pharmaceutical ingredients coming from China. Rising oil prices are now pushing up the cost of chemical solvents, freight and packaging needed for these inputs, while logistics disruptions and higher insurance costs due to the war in the Middle East have doubled freight costs and delayed the delivery of crucial raw materials needed for drug production. While companies still have some inventory buffers, executives warn that sustained disruptions could begin to affect supply chains within months.

The Dependence Trap
At the center of this crisis lies a familiar vulnerability: India’s heavy reliance on imported energy, which means any disruption in the Middle East can have immediate consequences.
The de facto closure of the Strait of Hormuz, through which one-fifth of the world’s oil and natural gas normally flows, has exposed how deeply India relies on Middle Eastern energy. The region accounts for roughly 40 percent of India’s oil imports and up to 80 percent of its gas supply.
When it comes to crude oil, there are alternative suppliers to tap, including Russia and the United States. But gas presents a deeper structural concern. India imports roughly half its liquefied natural gas (LNG), with much of it coming from Qatar, where war-related damage has caused supply disruptions.
At the center of this crisis lies a familiar vulnerability: India’s heavy reliance on imported energy.
The situation is even more dire for liquefied petroleum gas (LPG), which is a basic necessity for millions of Indian households that rely on it for cooking. Nearly two-thirds of India’s LPG supply is imported, 90 percent of which has historically been sourced from the Gulf. In March, India faced its worst LPG shortage in decades, forcing the government to divert supplies to households and leaving commercial users scrambling.
Debashish Mishra, of Deloitte South Asia, said India’s primary vulnerability amid the ongoing conflict is not price volatility, but supply disruption, especially of cooking gas. While domestic refineries have ramped up output by as much as 40 percent, they cannot fully offset a prolonged disruption.
In the short term, Mishra said, “the system is holding, panic buying has eased and incoming LPG shipments, combined with higher refinery output, have stabilized supply,” he said. “But the margins are thin.”
Even with immediate supply concerns mitigated, the margin for error is thin: A single tanker meets barely half a day’s demand. Any sustained disruption could quickly tip the balance back into shortage.

A Combustible Situation
The economic impact is also being felt on the ground. Rising fuel costs are feeding into inflation, pushing up transport and food prices. In industrial hubs like Noida, one of Asia’s largest industrial townships just outside New Delhi, protests erupted earlier this month, with workers demanding higher wages to cope with surging living costs. Police responded with tear gas, highlighting the growing social tensions tied to the crisis.
Remittances are also at risk. Indians form the largest expatriate community in the Middle East, sending home over $50 billion annually. Since the outbreak of the war, nearly 1 million Indian nationals have returned, including workers, students and other vulnerable groups, raising concerns about income losses and domestic unemployment pressures. The government has done little in response, save for arranging repatriation flights for foreign workers.
Beyond the headline numbers, the microeconomic consequences will be dire, especially for the poor. A recent report by the United Nations Development Program warns that up to 8.8 million people across 14 countries could fall into poverty under current conflict scenarios, including more than 2.5 million in India alone. The report
describes a widening “human development crisis” across Asia and the Pacific, driven by energy shocks and rising living costs.
The political fallout is already being felt at the highest levels. India’s opposition leaders have framed the situation as a foreign policy failure by Prime Minister Narendra Modi, pointing to his visit to Israel just days before the war, as evidence of a drift away from India’s long-standing strategic balance in the region, particularly its ties with Iran.
New Delhi has since moved to recalibrate, quietly rebuilding channels of communication with Tehran through diplomatic outreach and sustained engagement with Iranian officials. An outpouring of solidarity with Iran among the Indian public, particularly in Muslim-majority Kashmir, has helped those efforts. At the same time, the emergence of Pakistan as a key intermediary between the United States and Iran has sharpened opposition attacks and exposed the limits of the Modi government’s influence to resolve a crisis unfolding in its neighborhood.
Even as its foreign policy choices become increasingly entangled with economic strain, the domestic political fallout seems contained for now, as evidenced by the BJP’s strong showing in recently concluded state elections in West Bengal and Assam. However, if the war continues, Modi’s government could come under further economic and political pressures.

Anisha Dutta is an award-winning journalist based in New York with over a decade of experience reporting on politics and foreign policy. She holds a master’s degree in political journalism from Columbia University and was a 2024 Chevening
fellow.
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