Venezuela

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Os pronunciamentos de Trump e da nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, após o sequestro de Nicolás Maduro, contêm indícios de uma humilhante capitulação do bolivarianismo venezuelano à pirataria política do presidente dos Estados Unidos. Em troca do domínio sobre o petróleo venezuelano, Trump não interferiria na estrutura de poder montada pelo chavismo, agora dirigida pela presidente encarregada. Ao menos por enquanto, o prepotente presidente estadunidense estaria satisfeito com a implantação de uma espécie de protetorado bolivariano.

Ou seja, os herdeiros de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro permaneceriam no poder sob a tutela de Washington, de modo que, como anunciado pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, as decisões da presidente Delcy estariam — e continuariam estando — sob orientação direta dos Estados Unidos. Trump tem repetido que os EUA governarão o país e tomarão conta das reservas de petróleo venezuelanas, e já estaria convidando empresas petrolíferas norte-americanas para explorar o petróleo da Venezuela.

Ao mesmo tempo, o secretário de Energia afirmou, esta semana, que os Estados Unidos controlarão indefinidamente a venda de petróleo e que pretendem adquirir entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo cru venezuelano. “Este petróleo — disse Trump — será vendido a preço de mercado, e o dinheiro será controlado por mim, como presidente dos EUA, para garantir que seja usado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos.” Além disso, os recursos provenientes da venda só poderiam ser utilizados para a compra de produtos norte-americanos.

Como os Estados Unidos pretendem tomar conta da Venezuela e de seu petróleo sem o envio de tropas ao território para ocupar os principais centros de poder do país? Apenas no grito, por meio do cerco econômico? Ou através de um grande acordo com os novos ditadores bolivarianos? O que Trump anuncia seria mais um blefe do megalomaníaco presidente ou, de fato, a Venezuela caminha para se tornar um protetorado dos Estados Unidos?

Esse acordo parece ganhar verossimilhança quando os herdeiros de Maduro no poder, apesar das bravatas nacionalistas — “não há agente externo que governe a Venezuela”, afirmou a presidente — não refutaram as declarações do governo estadunidense e chegaram a confirmar a venda de milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos. A presidente Delcy Rodríguez manifestou ainda a intenção de “trabalhar conjuntamente com os Estados Unidos”, o mesmo país que atacou a Venezuela, sequestrou seu presidente e deixou mais de cem mortos.

Uma invasão direta da Venezuela para implantar um poder externo reacenderia o anti-imperialismo na América Latina e conduziria os Estados Unidos a um atoleiro político e militar semelhante a outras experiências desastrosas de ocupação, além de provocar elevado desgaste político-eleitoral para Trump nas eleições de meio termo.

Por outro lado, um eventual acordo da ditadura venezuelana com Trump, nos termos por ele anunciados, tende a provocar uma fissura profunda entre os dirigentes bolivarianos, além de intensificar a repressão interna para conter protestos e resistências. É difícil imaginar que o bolivarianismo difundido pela propaganda chavista ao longo de anos aceite, sem maiores rupturas, uma dominação tão humilhante por parte do arqui-inimigo agora comandado por Trump.

Também não parece plausível que milhares de militares comprometidos com a ditadura de Maduro, ocupando postos-chave na economia, renunciem a tudo para se submeter à força dos Estados Unidos. O futuro da Venezuela torna-se cada vez mais incerto, e uma explosão de violência não é improvável. O retorno à democracia não se encontra no horizonte e tampouco integra os planos de Trump para o protetorado que pretende implantar no país latino-americano.