Brasil e México. Amigos Distantes
A busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010
Sérgio Abreu e Lima Florencio
Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações.
Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a China, uma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80% .
O México é uma economia muito aberta e competitiva, exportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.
A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).
Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.
O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE).
O fracasso do projetado Acordo Brasil-México
Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o Acordo. A alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do PAN.
Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importante, porque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro.
Quatro razões para não repetir os erros do passado
Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?
A primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.
A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada.
A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.
A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México. Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.
A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela - com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes, caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.
Conclusão
A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas.
Sergio Florencio. Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026.