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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Pesquisadores contestam veracidade de relíquias judaicas ocultas em casarão dos Buenos na Cidade de Goiás - Jornal Opção

Pesquisadores contestam veracidade de relíquias judaicas ocultas em casarão dos Buenos na Cidade de Goiás. É fake news
Redação Jornal Opção,
22 janeiro 2026 às 15h23

O Jornal Opção consultou pesquisadores, como Antônio Caldas, Nilson Jaime, Graça Fleury e Yuri Baiocchi. Nenhum endossa texto que foi publicado nas redes sociais
Material supostamente judaico 867
Suposta relíquia judaica 

Giovanna Campos e Euler de França Belém

Seria bom que um arquiteto, um historiador, outras pessoas especialistas pudessem visitar a fazenda, ver se a construção é do século XVIII (Bartolomeu faleceu em 1740), pesquisar e ver se as terras pertenceram ao Anhanguera etc. Agora, se não permitem visitar a fazenda e analisar os artefatos, como se pode avaliar isso? Então por que noticiaram o achado? Nesse caso uma pesquisa in loco é fundamental. É o que posso dizer. Não tenho como emitir opinião sobre algo que não permitem ser visto. Se realmente isso se ligar ao Anhanguera, que bom, que beleza! Mas é preciso facultar aos entendidos a pesquisa para corroborar ou não tudo isso. A presença de sefarditas é conhecida em Goiás no século XVIII, mas não somente aqui, eles estavam em diversos lugares da colônia. Para dizer que Goiás era um reduto de sefarditas é preciso mais que artefatos que não são passíveis de serem estudados. É preciso mergulhar na documentação da época e muito mais. — Antônio Caldas, pesquisador e professor da PUC-Goiás
Uma suposta descoberta de relíquias judaicas ocultas em um antigo casarão atribuído à família Bueno, na Cidade de Goiás, tem gerado repercussão nas redes sociais, mas encontra forte resistência entre historiadores, genealogistas e instituições de referência no estudo da história goiana. Pesquisadores ouvidos pelo Jornal Opção alertam que, até o momento, não há qualquer comprovação científica ou documental que sustente a narrativa, levantando a hipótese de que o caso possa se tratar de fake news ou de uma construção fantasiosa sem lastro acadêmico.

O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) informou, por meio de seu representante Jales Mendonça, que desconhece completamente o assunto. Segundo ele, não há registros, comunicações oficiais ou pedidos de análise formal envolvendo a suposta descoberta. A ausência de informações nos arquivos institucionais e o silêncio de órgãos oficiais reforçam o ceticismo da comunidade acadêmica.

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Nilson Jaime: doutor pela Universidade Federal de Goiás | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção
Para o ex-professor-doutor da Universidade Federal Nilson Jaime — pesquisador do bandeirantismo —, a forma como a história veio a público já compromete sua credibilidade. “Descobertas históricas não são anunciadas dessa maneira. O pesquisador sério publica, assina suas teses, apresenta documentos, submete o material ao crivo dos pares. Um ‘pesquisador que não quis se identificar’ não existe no meio acadêmico”, afirma.

Nilson Jaime contextualiza o debate a partir da formação histórica do Brasil Central. Segundo ele, os bandeirantes que chegaram a Goiás descendiam majoritariamente dos mamelucos paulistas, oriundos da linhagem de João Ramalho e do cacique Tibiriçá, considerados fundadores da São Paulo colonial. “Há autores que levantam a hipótese de João Ramalho ser cristão-novo. Se isso fosse confirmado, não seria novidade encontrar essa origem em Goiás. Mas isso é muito diferente de afirmar a existência de um reduto judaico estruturado no território goiano.”

Antônio César Caldas: professor-doutor da PUC-Goiás | Foto: Divulgação
O pesquisador ressalta que extensos estudos genealógicos realizados por ele, por Jarbas Jaime e por outros genealogistas não identificaram, nas famílias que se estabeleceram em Goiás, a manutenção de práticas judaicas clandestinas. “Se o medo era a Inquisição, por que essa tradição não persistiu após o seu fim? Goiás não desenvolveu tradição judaica, como ocorreu em outras regiões. As cidades históricas não apresentam esse traço”, observa.

Para Nilson Jaime, mesmo que algum indivíduo de origem cristã-nova tenha participado da ocupação do território, isso não altera a narrativa central da colonização. “Eles vieram atrás de ouro e de indígenas. O fato de alguém ser cristão-novo não muda a história de Goiás. Dizer que isso ‘reescreve’ a história é absolutamente inapropriado.”

Graça Fleury Foto Divulgação 2 400 por 400
Graça Fleury: pesquisadora-doutora | Foto: Divulgação
A presidente do Instituto Bertran Fleury, Graça Fleury, também se posiciona com extrema cautela. Segundo ela, qualquer parecer só pode ser emitido após uma verificação técnica rigorosa. “Para existir esse tipo de material, é imprescindível que a casa seja, de fato, do século XVIII. Um arquiteto especializado em arquitetura colonial consegue identificar isso imediatamente. Se a edificação for posterior, a narrativa cai por terra.”

Graça Fleury defende que a apuração envolva, obrigatoriamente, um arquiteto especialista em arquitetura colonial e um historiador reconhecido, com acesso direto ao imóvel e aos supostos objetos. “Se não querem mostrar, não há prova. Sem prova, não se pode tratar isso como verdade jornalística.” Ela acrescenta que já ouviu referências esparsas à fazenda mencionada, mas nunca associadas a qualquer achado histórico relevante.

Yuri Baiocchi, pesquisador: há mitômanos nas redes sociais | Foto: Facebook
A presidente do Instituto Bertran Fleury ressalta que vários pesquisadores consultados — entre eles historiadores locais — também afirmaram desconhecer completamente o caso. “Todo mundo que foi procurado disse não saber de nada. Isso é, no mínimo, estranho. Se fosse algo sério, o alarde já teria sido feito pelos canais corretos.”

Para os especialistas, o episódio reforça a necessidade de responsabilidade na divulgação de temas históricos sensíveis. “Se for verdade, será extraordinário e merece estudo profundo. Se for mentira, também é importante desmentir, para não se criar fatos inexistentes”, conclui Graça Fleury.

Enquanto não houver acesso aos supostos artefatos, laudos técnicos, datação precisa da edificação e autoria clara das pesquisas, a chamada “descoberta” permanece no campo da especulação. Para a comunidade acadêmica goiana, a história da Cidade de Goiás segue ancorada em documentos, métodos científicos e no rigor que o passado exige.

A interpretação do doutor pela USP Adelto Gonçalves

Adelto Gonçalves: doutor pela USP e pesquisador consagrado no Brasil e em Portugal | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção
O professor-doutor, pesquisador e crítico Adelto Gonçalves — autor do livro “O Reino, a Colônia e o Poder. O Governo Lorena na Capitania de São Paulo 1788-1797” — disse ao Jornal Opção: “Por enquanto, não se pode dizer nada. Seria necessário que algum estudioso pesquisasse a documentação referente a Goiás que está no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), em Lisboa, e que foi microfilmado pelo Projeto Resgate”.

Adelto Gonçalves acrescenta: “No meu livro ‘O Reino, a Colônia e o Poder: o Governo Lorena na Capitania de São Paulo — 1788-1797’ (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019), há várias referências às expedições do capitão Bartolomeu Bueno da Silva, filho do Anhanguera, a Goiás em  busca de ouro. Em outubro de 1725, ele e alguns remanescentes de sua bandeira retornaram a São Paulo e anunciaram que haviam encontrado ouro na região de Goiás. Depois, em 1726, Bartolomeu retornou e, com a ajuda dos índios caiapós, chegou ao local onde seu pai acampara cinquenta anos antes. Nos arredores fundou o arraial que depois levaria o nome de Vila Boa de Goiases. Tudo isso está escrito em meu livro com base na documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, mas, em nenhum documento, infelizmente, encontrei qualquer referência a práticas judaicas clandestinas. Seria preciso pesquisar com o foco exclusivamente nesse tema”.

Doutor em História, Bento Fleury disse ao Jornal Opção: “Achei um pouco confuso [o texto postado nas redes sociais]. Deverá ter mais desdobramentos e pesquisa para um conceito melhor”.

O que diz Murah Rannier Peixoto Vaz

Sou membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e interajo com diversas entidades culturais e históricas do Estado e ninguém ouviu falar de uma descoberta como essa. Sendo verdade, estaria sendo alardeada e anunciada pelos quatro cantos.

Os órgãos do governo federal e estadual estariam a par e esses objetos seriam encaminhados para um museu, pois, por lei, seriam de propriedade da União. Reservo-me a desacreditar da informação e a tê-la como fake até que se prove o contrário.”

O que diz o pesquisador Yuri Baiocchi

“É mentira de cabo a rabo.” Yuri Baiocchi diz que é preciso ter cuidado com os mitômanos, que usam a internet para espalhar fake news.

Texto apontado como fake news que circula nas redes sociais

Airton Bueno

19 de janeiro às 13:32

DESCOBERTA HISTÓRICA: Relíquias judaicas ocultas em casarão dos Bueno podem reescrever a história de Goiás

​GOIÁS VELHO – Uma descoberta acidental durante a restauração do casarão da histórica Fazenda Ruá está abalando os alicerces da história colonial brasileira. Escondidas atrás de uma parede falsa, selada há mais de duzentos anos, foram encontradas relíquias sagradas do judaísmo que pertenceriam à linhagem de Bartolomeu Bueno, o Anhanguera.

​O Achado no Coração do Sertão

​A descoberta ocorreu durante uma reforma estrutural na propriedade que pertence à família Bueno desde sua fundação. Ao removerem uma camada de reboco antigo, operários encontraram uma porta camuflada que dava acesso a um armário de madeira de lei preservado.

​No interior do compartimento, historiadores preliminarmente identificaram objetos de valor inestimável:

​Um Sefer Torá: Rolo da lei judaica, escrito à mão em pergaminho.

​Uma Menorá: O candelabro de sete braços, símbolo central da fé judaica.

​Lamparinas de Azeite: Utilizadas em rituais específicos, datadas do século XVIII.

​Documentos em Hebraico: Manuscritos que podem detalhar a vida religiosa clandestina da família.

​A Confirmação das Teses de Anita Novinsky

​A descoberta dá peso material às pesquisas da renomada historiadora Anita Novinsky (1922-2021), que dedicou décadas ao estudo dos cristãos-novos no Brasil. Novinsky sempre defendeu que Bartolomeu Bueno possuía origens judaicas e que muitos bandeirantes se embrenhavam no sertão para fugir da vigilância da Inquisição em Portugal e no litoral brasileiro.

O achado prova que a antiga Vila Boa de Goiás não foi apenas um posto avançado de mineração, mas um reduto secreto de judeus sefarditas, que mantinham sua fé sob o manto do catolicismo oficial.

​Mistério e Resistência da Família

​Apesar da magnitude do achado, o clima é de tensão. A família Bueno, atual proprietária da Fazenda Ruá, mantém-se em silêncio absoluto. Fontes locais indicam que os herdeiros não permitem o acesso de pesquisadores externos e se recusam a autorizar a exposição das peças, alegando tratar-se de herança privada e íntima.

​“Estamos diante do maior elo perdido da história de Goiás. Se essas peças forem de fato do período da fundação, a narrativa oficial sobre a colonização do Brasil Central terá de ser inteiramente revisada”, afirma um pesquisador da UFG que preferiu não se identificar.

​Impactos Imediatos

​Revisão Histórica: O papel dos cristãos-novos na expansão territorial brasileira ganha prova material incontestável.

​Turismo Religioso: A Cidade de Goiás pode se tornar um novo ponto de interesse para a comunidade judaica internacional.

Arquivos Históricos e Geográfico do Estado de Goiás.

terça-feira, 20 de maio de 2025

A eterna guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia - Euler de França Belém (Jornal Opção)

Não é de hoje que a Ucrânia sofre sob ataques da Rússia. Uma Ucrânia de uma outra era: a do stalinismo ascendente:
A parte final do texto “Holodomor: 4 milhões de ucranianos morreram de fome devido à política de Stálin”, de Euler de França Belém (Jornal Opção, 6/2/2022; link:
Confira (atenção: contém relatos de cenas perturbadoras):
[...]
O horror, o horror, o horror!
A partir de agora, o que se lerá é terrível. Leia apenas se quiser saber sobre a ação inominável dos comunistas liderados por Stálin na Ucrânia. Tenha em mente, ao tomar ciência dos horrores, que algumas pessoas comuns às vezes foram transformadas em “monstros” pela fome. Uma fome induzida pela cruel política dos comunistas soviéticos (e não necessariamente russos; Stálin, por exemplo, era de Gori, na Geórgia).
O capítulo mais duro de se ler do livro de Applebaum talvez seja “Fome: primavera e verão, 1933”.
A fome não começou em 1933, mas intensificou-se nesse ano. A sobrevivente Tetiana Pavlychka, da província de Kiev, disse sobre a irmã Tamara: “Tinha uma barriga grande e inchada, e seu pescoço era longo e fino como o de um pássaro. As pessoas não pareciam gente — assemelhavam se mais a fantasmas famintos”.
Outro sobrevivente contou que sua mãe “parecia uma jarra cheia de água cristalina. Todas a partes de seu corpo à mostra (…) podiam ser perfuradas pelo olhar, como se fosse um saco plástico cheio de água”.
Um homem, igualmente sobrevivente, disse que seu irmão ficava deitado — “vivo, mas completamente inchado, com o corpo brilhante como se fosse de vidro”. As pessoas, de tanta fome, viviam zonzas.
Uma criança, balançando o corpo para a frente e para trás, entoava uma “canção”, à meia-voz: “Comer, comer, comer”. Um homem que a escutou nunca mais a esqueceu.
Convocado para colaborar no confisco de alimentos dos ucranianos, um comunista falou sobre as crianças que encontrou: “Todas iguais: cabeça como se fosse semente pesada, pescoço como o de cegonhas, cada movimento de osso era percebido através da pele de braços e pernas, a pele em si parecia gaze amarelada e enrolada em torno de seus esqueletos. O rosto delas era de gente idosa, exausta, como se já tivessem vivido na terra por uns setenta anos. E seus olhos, meu Deus!”.
Muitos dos famintos tinham escorbuto. “Os acúmulos patológicos de líquidos — edemas — inchavam as pernas das vítimas e sua pele se tornava muito fina, até mesmo transparente. Nadia Malyshko” disse “que sua mãe ‘ficou toda inchada, enfraquecida, e parecia idosa, embora só tivesse 37 anos. Suas pernas brilhavam e a pele rachava’”.
“Os indivíduos com pernas muito gordas, cobertas de feridas, não podiam sentar: ‘Quando um deles sentava, a pele rachava e o líquido começava a escorrer pernas abaixo, o fedor era horroroso e as pessoas sentiam dores insuportáveis’.”.
Applebaum anota que “a barriga das crianças inchava e a cabeça parecia pesada demais para ser sustentada pelo pescoço. Uma mulher recordou-se de ter visto uma menina tão emaciada que ‘era possível ver seu coração batendo por baixo da pele’”.
Trabalhando numa escola, a irmã de Volodymyr Slipchenko “testemunhou crianças morrendo durante as aulas — ‘a criança, sentada em sua carteira, de repente desmaiava e caía’ —, ou no recreio, enquanto brincava sobre a grama do pátio. Muitas morreram enquanto caminhavam, na tentativa de escapar”.
As margens das “estradas que levavam à Donbas ficaram repletas de cadáveres”. “Havia mais corpos que pessoas para recolhê-los”, rememora um sobrevivente.
Vários indivíduos morriam quando estavam comendo. Em 1933, segundo Hryhorii Simia, as pessoas iam para os campos para comer “espiguetas restantes da colheita” e, quando tentavam comê-las, morriam. “O mesmo aconteceu nas filas de pão das cidades: ‘Houve casos de pessoas que conseguiram um pedaço de pão, comeram-no e morreram no ato, exauridas demais pela fome’.”.
Um sobrevivente levou beterrabas para a avó, que comeu duas cruas e cozinhou as demais. “Poucas horas depois, estava morta, pois seu corpo não aguentou a digestão.”.
Havia a “psicose da fome”. “Em função da fome, as psiques dos indivíduos ficaram perturbadas”, disse Petro Boichuk. Pitirim Sorokin “recordou-se de que apenas com uma semana de privação de alimentos, ‘era muito difícil manter a concentração, nem sequer por um minuto, em qualquer coisa que não fosse a fome’”. As pessoas alucinavam.
A fome, que trazia a morte, superava até mesmo os sentimentos familiares. “Uma mulher, que sempre fora gentil e generosa, mudou quando os alimentos começaram a escassear. Ela expulsou a mãe de casa e mandou-a morar com outro parente. (…) ‘Deixe de ser um estorvo para meus filhos’.”.
“Uma mulher afirmou aos vizinhos que, embora fosse sempre possível ter mais filhos, ela só tinha um marido, e queria mantê-lo vivo. Ela então confiscou os alimentos que os filhos pequenos haviam recebido na escola, e as crianças morreram”, narra Applebaum. “Um casal colocou os filhos em um poço fundo e lá os deixou, para não presenciar seus falecimentos. Vizinhos escutaram os gritos de crianças, e elas foram resgatadas e sobreviveram.”.
A sobrevivente Uliana Lytvyn clamou: “Acredite em mim, a fome cria animais irracionais, a partir de seres humanos bons e honestos. O intelecto e a consideração desaparecem, assim como a piedade e a consciência também deixam de existir”. Ela contou que chorava até dormindo.
Miron Dolot declara que “o medo passou a ser nossa constante companhia: havia imenso terror de se ficar sozinho e desamparado diante do monstruoso poder do Estado. (…) Vizinhos foram obrigados a espionar vizinhos”. O Estado totalitário, com sua polícia secreta, a OGPU, estava em ação.
Por causa da fome, tudo mudou. “A sinceridade e a generosidade cultivadas por séculos não existiam mais; sumiram quando os estômagos ficaram vazios”, conta Iaryna Mytsyk. As pessoas, quando tinham alimentos — sempre poucos —, comiam escondidas. Temiam tanto o poder do Estado, que recolhia tudo e com violência, quanto roubos.
Como era preciso sobreviver, às vezes sacrificava-se valores. Em Mariupol, uma garota de 15 anos viu uma fila e pediu nacos de pão àqueles que estavam comprando. O dono da loja bateu na mão da jovem, chamando-a de preguiçosa. Ela caiu e foi chutada. “A menina gemeu, esticou-se toda e morreu. Alguns na fila começaram a chorar. O dono da loja, comunista, notou o choro e ameaçou: ‘Tem gente muito sentimental por aqui. É muito fácil identificar inimigos do povo’”, anotou um habitante do lugar.
Anastasiia Kh, uma criança, comprou “uma fatia de pão” e “correu para casa com o alimento”. No caminho, uma camponesa, com um bebê nos braços, pediu-lhe um pedaço do pão. A menina saiu correndo. “Tão logo virei as costas, a mulher se ajoelhou e faleceu. O medo tomou meu coração, porque parecia que os olhos abertos da mãe me acusavam de ter-lhe negado alimento. Chegaram pessoas e pegaram o bebê, que, mesmo morta, a mulher agarrava firmemente. A imagem daquela mulher estirada me aterrorizou por muito tempo”.
Ante a fome intensa e letal, postula Applebaum, “as regras comuns da moralidade não mais faziam sentido. Roubos de vizinhos, de primos, das fazendas coletivas, dos locais de trabalho tornaram-se corriqueiros”. Crucial era sobreviver.

domingo, 27 de outubro de 2024

A irrealista política externa do governo de Lula é movida a ideologia - Irapuan Costa Junior (Jornal Opção)

A irrealista política externa do governo de Lula é movida a ideologia

Contrariando o bom senso, o governo petista vetou a compra de carros de combate de Israel por causa da guerra entre o país e o Hamas

 https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/contraponto/a-irrealista-politica-externa-do-governo-de-lula-e-movida-a-ideologia-650122/

“A política externa se tornou uma agressão maciça aos interesses brasileiros.” — J. R. Guzzo, em “O Estado de S. Paulo”, no dia 13 de outubro.

A esquerda brasileira, a nossa sinistra, como toda a esquerda latino-americana, nada esquece e nada aprende, com o correr dos anos. É o segmento social do samba de uma nota só: opressores x oprimidos.

Recentemente, o Exército Brasileiro abriu concorrência pública internacional para aquisição de carros de combate de última geração. Foram vencedores os israelenses, o que não é surpresa, dado o avanço tecnológico de Israel.

Porém, no momento de assinar os contratos, o presidente, aconselhado por seu chanceler de fato, Celso Amorim, resolveu suspender a compra.

O que motivou esse rompimento comercial? O argumento brandido pela dupla Lula-Amorim foi o de que Israel oprime os palestinos.

Sem esquecermos que Israel trava uma guerra com o grupo terrorista Hamas por ter sofrido um sangrento ataque-surpresa, com mortes e sequestros, lembremo-nos de que a diplomacia brasileira é movida, depois que os petistas se aboletaram no governo, não pelo interesse nacional, mas pela ideologia.

Postergaram agora a importância de nossa soberania, do equipamento de nossas Forças Armadas, para agradar a pior esquerda dos dias atuais, a esquerda terrorista. Não digo coisa nova. Reproduzo trechos de um artigo publicado nessa coluna em junho de 2008, década e meia atrás:

“Ao dividir o comando da diplomacia brasileira em três fatias, o Presidente Lula só poderia colher, no “front” externo, o que vem colhendo: seguidos insucessos. De fato, comandam o relacionamento externo nacional, três figuras, das quais apenas duas são profissionais, e mesmo essas não são as mais brilhantes dentro dos quadros do Itamaraty. A primeira, mas não a mais influente, é o Chanceler Celso Amorim.  A segunda é o Secretário Geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães Neto. A terceira, a única não profissional e a mais bizarra nesse contexto, é a do Assessor Especial Marco Aurélio Garcia, que, por ser a mais próxima do Presidente, pode ser a mais influente. Celso Amorim não é propriamente um homem de esquerda, tendo sido, quando embaixador na ONU, até bastante subalterno no trato com os americanos, principalmente pressionando para que o Brasil assinasse o famigerado Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.  Sua função hoje é pouco mais que a de mordomo do Presidente em suas viagens internacionais. E de negociador nos organismos internacionais de comércio. Apesar de sua vontade de agradar a Lula, a ponto de tê-lo designado como “nosso guia”, não se projeta como primeira figura de nossa representação internacional. Já Samuel Pinheiro Guimarães é da tradicional esquerda do Itamaraty e hoje sua proeminência…  Marco Aurélio Garcia não só é de esquerda, mas da esquerda revolucionária, o que ele não faz questão de esconder. Fundador do Foro de São Paulo, que abriga o que há de mais atrasado em crenças ditatoriais, suspeito de ligações bastante próximas com as FARC, sem preparo diplomático, (dizem alguns que sem preparo nenhum) contudo é, dos três, como foi dito, o mais próximo do Presidente, logo o que mais capacidade de influir tem… Essa a política externa de Lula: agradar ditadores africanos para tentar liderar, agradar neomarxistas sul-americanos para tentar liderar, agradar à China para tentar mostrar importância e nada disso conseguir… (junho de 2008).

Morreram Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães, mas Celso Amorim continua firme e forte, e herdou a tarefa de apontar os rumos errados da diplomacia brasileira, o que faz alegre e constantemente, e que Lula aceita, pois esses rumos condizem com sua visão esquerdista de mundo. Amorim age como chanceler de fato e deixa constrangido o chanceler de direito, Mauro Vieira. Mas o pior é que a política externa de Lula e de Amorim desfalca os recursos de nossa sociedade e constrange o Brasil perante o mundo civilizado. Nos outros mandatos petistas, a Bolívia esquerdista de Evo Morales se apossou das instalações da Petrobrás naquele país, com o consentimento de Lula. Dilma deu de graça e ao arrepio do tratado de Itaipú aumento na tarifa de energia para beneficiar o bispo comunista Fernando Lugo que governava o Paraguai. As obras da Odebrecht em países africanos de esquerda e em Cuba contrariavam todas as normas da boa economia, mas agradavam dirigentes marxistas. Hoje não é diferente, como mostram alguns exemplos:

1      

Atuação brasileira na questão venezuelana: ao contrário da maioria das nações civilizadas, que condenaram o tiranete Maduro pela fraude até grosseira nas eleições venezuelanas e pela repressão impiedosa à oposição, o Brasil não condenou a ditadura vizinha. Lula já havia, no ano passado, recebido em Brasília, com todas as honras, o ditador Maduro, que é investigado por narcotráfico nos EUA, é censurado na ONU por violação de direitos humanos e tem prisão decretada na Argentina.

2

O Governo brasileiro trata com hostilidade Israel, que é o único país democrático de sua região, sofre ataques terroristas e convive com a ameaça constante de aniquilação, desejada pelos antissemitas de todo o Globo. Lula chegou ao extremo de comparar o regime de Benjamim Netanyahu ao regime nazista, ofensa máxima que se pode dirigir a um israelense.

3

É constrangedora a atuação brasileira na guerra Rússia-Ucrânia: Além de não condenar a invasão russa, Lula propôs um acordo de paz em que a Ucrania entregasse ao invasor os territórios invadidos, algo totalmente desarrazoado. E impediu a venda de mísseis brasileiros à Alemanha, temendo que fossem cedidos à Ucrânia.

4      

O Brasil prodigaliza afagos ao Irã, uma das mais rígidas ditaduras hoje existentes no Mundo. O país financia o terrorismo do Hamas, do Hezbollah e compartilha da ideia de riscar Israel do mapa. Ele sim, oprime as mulheres. Na posse do presidente-ditador Iraniano, lá estava o vice Geraldo Alckmin, enviado por Lula e Celso Amorim.

5

São muitas as cortesias com Cuba, exemplo vivo de ditadura. Sem falar no Porto de Mariel, que levou um bilhão de dólares do trabalhador brasileiro, e o programa Mais Médicos, feito para repassar dinheiro nosso à ditadura da ilha, doações de alimentos foram feitas e declarações enfáticas de apoio ao governo de Cuba são frequentes na fala de Lula.

E Lula e Celso Amorim sequer se ruborizam.

 

 

 

terça-feira, 4 de junho de 2024

Unesp lança livro de memórias de Rubens Ricupero - Euler de França Belém (Jornal Opção)

 Imperdível!

Unesp lança livro de memórias de Rubens Ricupero

O livro do diplomata e ex-ministro da Fazenda discute o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, o Plano Real e os governos do PT

O livro “Memórias” (Unesp, 712 páginas), de Rubens Ricupero, custa 144 reais e começa a circular nas livrarias em junho.

A rigor, por não ter lido a obra, não posso avalizá-la. Mas, pelo histórico de Rubens Ricupero, direi que se trata de um livro “imperdível” (ao menos para mim, que me interesso pela história do país). Com a vantagem de que escreve muito bem, com o máximo de clareza e percepção aguda do Brasil e do mundo.

“A Diplomacia na Construção do Brasil — 1750-2023” (Versal Editores, 756 páginas), de Rubens Ricupero, é um excelente livro sobre a história do país. Portanto, não apenas de sua diplomacia.

Então, pode-se esperar muito das memórias do diplomata e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.

Nas memórias, de acordo com a editora, Rubens Ricupero, que foi ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, revela os bastidores da elaboração e da aplicação do Plano Real.

Rubens Ricupero menciona a Segunda Guerra Mundial, definidora do mundo no qual vivemos, o Estado Novo — a ditadura cruenta de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945 — e o golpe civil-militar de 1964. Discute as questões climáticas e analisa os últimos governos, até o terceiro de Lula da Silva, entre 2023 e 2024.

Dado o conhecimento de Rubens Ricupero, além do fato de as memórias serem alentadas, o preço é quase irrelevante. As ideias e a história do ex-ministro valem ouro. Aos 87 anos, ele tem muito o que contar, e, sobretudo, sabe como contar.


Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...