Notas para uma entrevista a um canal da mídia brasileira
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Temas: Eduardo Bolsonaro, prisão Netanyahu, Tarifaço contra Brasil, Guerra Irã
Em 21 de julho fui chamado para falar sobre alguns temas atuais da agenda externa do Brasil. Independentemente da entrevista ser veiculada ou não, transcrevo aqui algumas notas preparadas rapidamente para essa ocasião.
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Green card de Eduardo Bolsonaro:
Condenado no Brasil a 4 anos por coação no processo judicial contra o pai, pode ser objeto de pedido de extradição, que provavelmente não será atendido no governo Trump, mas isso pode mudar a partir de 2029, sob um outro presidente. Mas, o Bananinha está “preso” nos EUA, isto é, não pode sair, sequer viajar para o Caribe, nos próximos anos, pois o pedido de Green Card, que é uma permissão de residência, não implica em naturalização americana, exige que o demandante não saia dos EUA durante 10 anos de estada contínua. Você quer desgraça maior do que ter de viver no país de Trump por anos a fio?
Trump nega prisão de Netanyahu
O prefeito de NY, Zhoran Mamdani, disse que se Netanyahu aparecer em NY para a AGNU, em setembro, poderá ser preso e extraditado para Haia. O prefeito não tem esse poder, mesmo se algum juiz da cidade requeira tal prisão: os EUA não fazem parte do Estatuto de Roma que regula as regras do Tribunal Penal Internacional sobre violações graves dos direitos humanos. A ameaça é puramente retórica, e de natureza política. Netanyahu merece, sim, se preso, pelos crimes de guerra cometidos na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, mas isso não vai ocorrer, a menos que ele sobrevoe algum país que resolva atuar em conformidade com o espírito desse tratado internacional, o que parece improvável. O mais provável é que ele seja preso pela própria justiça israelense por crimes políticos no país.
Tarifaço do governo Trump contra o Brasil
A medida entra em vigor neste dia 22 de julho, e vai provocar perdas relevantes em setores dos mais avançados tecnologicamente do Brasil, mas também em alimentos e manufaturas leves, como máquinas, calçados, produtos do mar. Não houve negociações, a despeito de muitos contatos e conversas mantidos em níveis presidencial, ministerial e técnico. De forma geral, os diversos tarifaços trumpistas não possuem objetivos comerciais muito claros, sendo bem mais uma imposição política, unilateral e muitas vezes ilegal, de um governo que já destruiu o sistema multilateral de comércio como uma das bases de seu relacionamento com países soberanos com os quais os EUA sempre mantiveram intensas relações comerciais. Ou seja, o Brasil não é o único país a sofrer tal tipo de agressão econômica, mas o caráter da ofensiva contra o Brasil possui também um componente político bastante explícito, seja em termos eleitorais, seja no que toca à atitude do presidente Lula com respeito à pessoa de Trump.
O que o governo Trump quer do Brasil são tarifas zeradas em setores americanos de bens industriais, químico, aeroespacial e automotivo, ademais do etanol, ausência de regulação em plataformas digitais, assim como o próprio PIX, o que é "indigno" e "inaceitável". O impacto de atender os desejos americanos pode ser maior do que o causado pelas novas taxas a serem aplicadas. Cabe lembrar, contudo, que o Brasil não possui tarifas brasileiras sobre esses diversos produtos, pois o que vigora é a Tarifa Externa Comum do Mercosul. No caso da União Europeia, ela negociou conjuntamente, por meio da Comissão de Bruxelas, algumas tarifas mais moderadas do que as ameaçadas por Trump; o Reino Unido também aceitou comprar etanol americano e reduzir tarifas de outros produtos dos EUA, na ausência de um acordo de livre comércio, o que tampouco seria impedimento para Trump, haja visto o que fez com o Nafta, desde o primeiro mandato, e com o próprio acordo tripartite com México e Canadá agora no segundo mandato.
Guerra entre os EUA e o Irã
Não declarada, ou seja, Trump não possui autorização do Congresso para efetuar essa guerra, mas ele alega perigo iminente para os EUA. Na verdade, trata-se de uma violação da legislação sobre atos de guerra, uma das muitas, dezenas de violações da legislação americana que Trump já cometeu, até aqui impunemente.
Não há perspectiva de terminar pela via diplomática, e os EUA estão saindo do enfrentamento completamente humilhados pelos iranianos, sem atingir qualquer um dos objetivos declarados por Trump, e com perdas materiais, de vidas, soldados mortos e bases atingidas, e diplomáticas, pela perda de credibilidade no Oriente Médio: aliados não vão mais confiar nos EUA, e podem adotar uma atitude completamente neutra, se não oposta, aos interesses dos EUA na região.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5405, 21 julho 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (22/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/notas-para-uma-entrevista-um-canal-da.html).