Paulo Roberto de Almeida, em “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, analisa os dilemas estratégicos do país num sistema internacional em ruptura e sob pressões internas que corroem a governança democrática.
O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Uma agenda interna e externa bastante movimentada em 2026.
Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/). Relação de Publicados n. 1615.
O Brasil inicia 2026 com vários desafios, internos e externos. Em ambas as frentes, pendências políticas e diplomáticas já postas na agenda do Executivo vão exigir habilidades superiores às disponíveis para encaminhá-las exitosamente, no Congresso e na diplomacia.
No plano interno, tendo sido aprovado, no último dia útil da sessão legislativa de 2025, o orçamento de 2026, os estudantes de todo o Brasil, do fundamental à pós-graduação, descobrem que os indigníssimos parlamentares tungaram (esse é o termo) meio bilhão de reais da dotação educacional federal, com vistas a inflar o bolão das indecorosas emendas parlamentares, que ascendem a mais de 61 bilhões de reais: sim, ele aumentou, e muito, em relação à extorsão feita no ano passado, que se junta aos fundos Partidário e Eleitoral, tudo concorrendo para ajudá-los numa reeleição que deveria ser vetada pelos eleitores. O Fundo de Assistência foi severamente podado, o que deve prejudicar o desempenho educacional e profissional de milhões de jovens em todo o Brasil; mas também serão prejudicados projetos de pesquisa e o apoio a programas de ciência e tecnologia em nível de pós-graduação. Começamos o ano, portanto, com o que se poderia chamar de “crime político”. Salvo alguma correção ao longo do ano, tal corte tornará a vida dos estudantes brasileiros mais precária e o futuro do desenvolvimento do país ainda mais incerto.
O desafio externo também será relevante: a diplomacia brasileira ocupará, pela 12ª vez, a presidência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o órgão que pode oferecer sugestões, mediante consultas, para compor a agenda de trabalho dos membros do CSNU – cinco permanentes, mais dez rotativos –, cuja incumbência principal é a de preservar a paz e a segurança no mundo, eventualmente mediante missões internacionais que podem envolver o uso da força armada. Aliás, dia 1º de janeiro foi o Dia Mundial da Paz e, também, o Dia da Confraternização Universal, comemorado no Brasil como feriado nacional desde 1935.
Conflitos armados não faltam no mundo, começando pela guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e pela guerra de destruição de Israel contra a Faixa de Gaza, a pretexto de combater o grupo terrorista armado Hamas. Curioso registrar, se o termo não é irônico, que o Brasil possui posturas diametralmente opostas em face desses dois “conflitos”: uma áspera condenação das ações do governo Netanyahu contra a população palestina, e um retumbante silêncio, de fato uma indiferença chocante, em relação ao morticínio diário conduzido pelo amigo Putin contra a população civil ucraniana e contra o próprio país. Não parece provável que o Brasil retome, junto com o outro aliado no Brics, a China, o “plano de paz” elaborado sobre a guerra da Ucrânia, já que Trump conduz um denodado esforço para a cessão dos territórios ucranianos usurpados ilegalmente pela Rússia, medida que confronta as bases doutrinais da diplomacia brasileira, mas que parece esquecida pelo governo lulopetista.
Ainda em sua presidência, a delegação brasileira na ONU poderá conduzir, em 27 de janeiro, sessão a propósito do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, data que marca a libertação de Auschwitz (Polônia), em 1945, que foi o principal e o mais terrível campo de extermínio de judeus do regime nazista. Quando o Brasil deixar a presidência do Conselho, em fevereiro, a guerra de agressão do amigo Putin provavelmente continuará por muitos meses mais, até que a Rússia seja, em algum momento, estrangulada economicamente pelas “sanções” ucranianas: a desativação da “frota fantasma” de petroleiros transportando um petróleo cada vez mais escasso, resultante da desativação de poços e de refinarias russas, por drones disparados a centenas de quilômetros, desde a Ucrânia.
De volta ao país, fevereiro é o início do funcionamento das principais instituições governamentais, entre elas as que estão em agudo conflito, ou seja, os três poderes entre si. Os desentendimentos serão potencializados, obviamente, pelo calendário eleitoral, o que tende a acirrar a guerrilha no Parlamento e nas mídias sociais. O bolsonarismo, mesmo com o seu líder “engaiolado”, deixou de ser um fenômeno temporário e parece ter adquirido certa consistência política, ao conseguir ainda pautar a agenda congressual de vários partidos. Isso reduz a possibilidade de surgimento de alguma candidatura de centro-direita, independente da atual polarização. A economia demonstra certa resiliência, mas a perspectiva de manutenção de juros altos – pelo agravamento das contas públicas, a despeito do aumento da carga fiscal – deve manter o lento crescimento e o relativo insulamento do comércio internacional, numa conjuntura em que o Mercosul possui escassas possibilidades de aprofundamento externo.
O calendário eleitoral, como ocorre a cada dois anos, principalmente a cada quatro, afrouxará, parcialmente, o ativismo congressual; em contrapartida, haverá forte ativismo político, com traições, alianças fugazes e muita hipocrisia por parte dos candidatos e seus apoiadores (turbinados pelos milhões que inundam os múltiplos canais de financiamentos públicos criados pelos próprios políticos). Numa das mais baixas fases de qualidade, já bastante precária, da democracia brasileira – se algum dia ela apresentou alguma qualidade superior –, é tempo da sociedade se perguntar se não está na hora de revisar aspectos fundamentais da extrema permissividade sob a qual operam os “cartórios” partidários alimentados pelos dois fundos imorais: o Partidário e o Eleitoral. Ambos são ilegítimos, uma vez que partidos são entidades de direito privado, e não poderiam ser financiados com recursos públicos. Não obstante, os recursos são afrontosamente ampliados a cada escrutínio, enchendo as burras dos partidos registrados e de todos os oportunistas que buscam integrar a casta dos eleitos, desde vereadores das mais modestas prefeituras (cujos orçamentos próprios sequer as mantêm funcionando, mas que exibem vistosas câmaras), até a pletora de “aspones” dos representantes federais, ademais de todos os gastos associados aos seus mandatos.
Da mesma forma, caberia discutir seriamente a reversão do caráter compulsório das emendas parlamentares, iniciado sob o probo mandato de Eduardo Cunha e aprofundado exacerbadamente desde então – em seus diversos formatos –, não só pela captura de nacos cada vez maiores do orçamento público, mas sobretudo pela fragmentação perversa dos recursos. Os parlamentares se converteram em “vereadores federais”, o que obsta qualquer sentido de planejamento racional de obras prioritárias na infraestrutura, educação e saúde. Esses três fatores, os dois fundos ilegítimos e o estupro orçamentário das emendas, estão no centro das mais nocivas deformações do sistema político, e da corrupção que entranha o mecanismo das barganhas indecentes que se estabelecem entre os operadores dessa poderosa máquina, ao unir elites econômicas às políticas, todas conjugadas nessa esbórnia.
São esses alguns dos mecanismos da longa tradição oligárquica que fundamenta o funcionamento e a direção da nação, desde que aqui aportou D. Tomé de Souza, o primeiro governador geral dos tempos do pau-brasil. Somos hoje um país independente, que avançou muito nos últimos dois séculos, mas que ainda não conseguiu arrancar de uma miséria ancestral amplos estratos da população, os escravos africanos e seus descendentes, como é óbvio, mas também os relegados dos rincões mais pobres do território. Idealmente, uma sociedade equilibrada teria investido na educação de todos os seus membros, uma tarefa ainda hoje inconclusa, incompleta ou deficiente, para fins gerais de produtividade e emprego. São ainda tênues os efeitos dessas deformações sobre a sociedade civil, de maneira a abrir o caminho para a regeneração do sistema político, e para o correto funcionamento dos esteios básicos de uma sociedade sadia, que são educação e saúde, de qualidade, a higidez das instituições de Estado e a transparência requerida dos dirigentes. Promiscuidade e conivência entre estes e seus “financiadores” explicam a continuidade das deformações e a deterioração progressiva da governança, até uma crise e ruptura política, com substituição dos dirigentes.
A nação atravessou recentemente mais uma dessas rupturas, mas ainda não corrigiu as fontes primárias das deformações, ao mesmo tempo em que a própria ordem mundial passa por processo preocupante de ruptura nos arranjos feitos menos de um século atrás, que nos garantiram algumas décadas de paz improvisada, ainda que à sombra das grandes potências. Em 2026, duas delas, a nação supostamente hegemônica, mas já declinante, e a nuclearmente armada até os dentes, que já foram adversárias na primeira Guerra Fria, parecem unidas no propósito comum de liquidar com o multilateralismo político e com o sistema multilateral de comércio, numa segunda Guerra Fria, que tem como protagonistas principais o suposto Hegemon, de um lado, e a China, do outro. Mas, o gigante asiático, do seu lado, possui uma estatura econômica extraordinariamente superior à dinâmica produtiva e competitiva que jamais possuiu a finada União Soviética, sendo capaz, portanto, de confrontar com êxito as ameaças e provocações comerciais e as restrições tecnológicas americanas dirigidas contra si. Já o provou cortando o fornecimento de terras raras, minerais críticos, quando Trump tentou fazer chantagem tarifária, mas teve de recuar a pedido de seus próprios empresários.
Pois é justamente a partir do sistema internacional que decorrem as maiores ameaças ao Brasil, não exatamente como exportador de commodities, ou recebedor de investimentos estrangeiros, sequer como pressão para a deterioração do risco-país pelas agências de rating internacional, e sim como país envolvido involuntariamente no jogo geopolítico das grandes potências, mesmo indiretamente. O fato é que, a partir do primeiro BRIC, em 2006-2009, e sobretudo do BRICS a cinco, de 2011 a 2023, a política externa lulopetista, desde Lula 1, e mais enfaticamente sob Lula 3, conectou-se em excesso às superpotências antes opostas ao Ocidente, um vínculo que nunca tinha sido incorporado pela diplomacia profissional, cuja preocupação sempre esteve justamente voltada para preservar a autonomia decisória externa do país, visando jamais envolver-se nas fricções entre grandes potências adversárias.
Os que seguem as tomadas de posição do Brasil em face do maior conflito geopolítico desde 1945 sabem que o governo Lula jamais teve qualquer palavra de censura aos crimes perpetrados por Putin e pelas forças russas invasoras da Ucrânia, que valeram ao líder russo um mandado de busca e apreensão do TPI, por crimes contra a humanidade: o sequestro de crianças ucranianas e seu envio para a Rússia. O Brasil se absteve em resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU justamente sobre esse crime imprescritível segundo o Direito Internacional desde Nuremberg. Da igual forma, as declarações ministeriais e presidenciais do BRICS evitam, vergonhosamente, dentre as dezenas e dezenas de temas abordados em cada uma delas, qualquer menção à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Esse tipo de omissão deliberada, inteiramente devida aos pedidos de Putin a Lula, corre o risco de afetar seriamente a credibilidade internacional da diplomacia brasileira.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5155, 25 dezembro 2025, 4 p.
Revista Será?, ano xiv, n. 690, 2/01/2026:
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