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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências - Giovana Cardoso (R7); subsídios Paulo Roberto de Almeida

 Matéria para a qual ofereci alguns subsídios:


Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências
Pauta deve incluir situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio
Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
13/05/2026
https://noticias.r7.com/brasilia/apos-lula-em-washington-trump-visita-a-china-e-encontro-reforca-papel-do-brasil-com-potencias-13052026/

Encontro entre Trump e Xi ocorre uma semana após ida de Lula aos EUA
A visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China nesta semana marca um momento decisivo para ambas as potências, principalmente em meio à guerra prolongada no Oriente Médio e conflitos econômicos. A expectativa é que a situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio sejam as principais pautas do encontro, que ocorre uma semana após a ida de Lula a Washington.
Especialistas entendem que a reunião entre Trump e Xi Jinping, logo depois o encontro com Lula, sinaliza a volta do Brasil como peça relevante para as potências, o que pode fortalecer o país, caso haja estratégia. Entretanto, não significa que o país esteja “no centro” da disputa.
As terras raras, por exemplo, têm sido a pauta principal discutida entre os EUA e o governo brasileiro, que ocupa a posição do segundo país com maior reserva desses minerais, atrás apenas da China. Neste cenário, o Brasil pode surgir como um potencial parceiro estratégico dos norte-americanos, que tentam diversificar as fontes de fornecimento dos minerais.
Ainda assim, não é o suficiente para colocar o Brasil no centro da disputa geopolítica entre EUA e China, mas, sim, para negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações.
“O centro continua sendo a competição direta entre Estados Unidos e China por tecnologia, energia, comércio, IA, minerais críticos e influência militar. O Brasil entra como potência intermediária valiosa: grande produtor de alimentos, energia, minérios, petróleo, mercado consumidor e ator diplomático com canais abertos com Washington, Pequim e parte do Sul Global”, explica João Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR.
Em meio a essa dinâmica, o professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida entende que o Brasil não deve se colocar no “centro” ou mesmo à margem da disputa geopolítica entre os dois países, mas, sim, se manter neutro.
“Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse ‘grande jogo’, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica”, concluiu Almeida.
Consequência para o Brasil
Apesar do clima de tensão entre os países, tanto os EUA quanto a China possuem interesses em ganhos táticos. A comunidade diplomática prevê que o líder chinês busque concessões dos EUA em relação aos controles de exportação de tecnologia, às tarifas e a Taiwan — onde Xi quer que declarem oposição à soberania taiwanesa.
Já Trump deve focar em grandes compras chinesas de produtos americanos, maior acesso dos EUA às terras raras chinesas e progresso na cooperação sobre o fentanil.
Mesmo tendo a China como principal parceiro comercial, os norte-americanos seguem relevantes em investimento, tecnologia, indústria, serviços, defesa e finanças. Portanto, a reunião Trump-Xi interessa ao Brasil porque pode redefinir fluxos comerciais, explica Nyegray.
“Se houver acomodação entre as duas potências, o Brasil pode ganhar previsibilidade. Se houver novo choque tarifário ou tecnológico, o Brasil pode ser pressionado a escolher lados em temas como semicondutores, IA, defesa, infraestrutura digital, energia e cadeias minerais. A melhor posição brasileira não é neutralidade passiva, mas pragmatismo seletivo: vender para a China, atrair tecnologia dos EUA, proteger setores estratégicos e evitar dependência excessiva de qualquer lado”, diz.
Em relação aos ganhos econômicos para o Brasil, os especialistas se mostram com uma leve divergência em relação aos resultados gerados ao país. Nyegray, por exemplo, acredita que o interesse simultâneo das duas potências pode fortalecer o Brasil, mas apenas se o país souber transformar demanda externa em estratégia nacional.
“Se usar esse momento para atrair investimentos em infraestrutura, fertilizantes, energia, mineração crítica, defesa, tecnologia agrícola, semicondutores de nicho, data centers e indústria de transformação, poderá capturar ganhos muito maiores. A aproximação dos EUA pode beneficiar setores brasileiros que dependem de tecnologia, investimentos financeiros, defesa, aviação, energia e cadeias industriais mais sofisticadas. A relação com a China, por outro lado, segue decisiva para agronegócio, mineração, energia, infraestrutura e exportações de grande escala”, pontua.
O especialista entende que o Brasil pode negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações. Porém, também pode sair perdendo caso vire território de disputa entre capitais estrangeiros, sem política industrial, sem segurança jurídica e sem capacidade de impor contrapartidas.
“O interesse externo só fortalece o país quando encontra um Estado capaz de negociar bem e um setor privado capaz de executar”, diz.
Já Almeida afirma que, do ponto de vista econômico, pode haver uma leve vantagem em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Pelo lado geoeconômico, o diplomata acredita que o Brasil não deve entrar em uma briga em que não tem condições de apresentar grandes interesses estratégicos.
“Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado”, conclui.

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Minha colaboração original, enviada a pedido do R7, está aqui:

Trump goes to Beijing

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas a questões do R7, Portal de notícias da TV Record.

1. Trump vai para Pequim nesta quarta para a primeira reunião presencial com o presidente da China, Xi Jinping, em mais de seis meses. A expectativa é de que os líderes discutam, principalmente, a guerra no Irã, comércio e terras raras. Esse encontro ocorre na sequência da reunião entre Lula e Trump. O que isso significa para o Brasil? Essa aproximação coloca o Brasil no centro da disputa geopolítica entre China e Eua?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: A relação bilateral EUA-China, do ponto de vista da China, não tem muito a ver com o Brasil na geopolítica global, e sim tem a ver com mercados específicos, terras raras, mercados agrícolas, parcerias comerciais e algumas outras vertentes mais. Do ponto de vista dos EUA, ou do Trump, tem sim a ver, ademais de mercados econômicos, com o chamado “grande jogo”, sobretudo depois da proclamação unilateral de Trump como imperador hemisférico, com sua (falsa) doutrina de dominação hegemônica regional, que ele chama (equivocadamente) de “corolário Trump à Doutrina Monroe”. Trump chega completamente sem cartas na manga, ou em qualquer outro lugar, a não ser o fato de ainda possuir a primeira força bélica mundial, mas não mais uma hegemonia política sobre aliados e terceiras partes, pois que alienou todos os parceiros tradicionais dos EUA, perdeu credibilidade, por sua insanidade tarifária e toda a diplomacia da brutalidade que desenvolveu neste segundo mandato.
A China, sim, tem várias cartas, e não apenas as terras raras, mas sua preeminência comercial indisputável em praticamente todos os mercados do chamado Sul Global e em vários outros continentes também.
O Brasil não pode, se for sensato, ou se sua diplomacia superar ou impedir os vários equívocos de sua política externa presidencial ultra personalista, se colocar nem no centro, nem à margem da disputa geopolítica entre os dois gigantes de economia mundial. Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse “grande jogo”, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica (inclusive em terceiros mercados, como os africanos e latino-americanos). A política externa lulopetista começou mal 20 anos atrás, ao formar um bloco com duas super potências nucleares, que possuam interesses que não são os seus. O Brics parecia ser um ativo, ao início, mas já se tornou um ponto de contenção para uma diplomacia verdadeiramente autônoma e independente do jogo das grandes potências.


2. O interesse das duas potências no Brasil pode fortalecer o país de alguma forma? E como isso pode influenciar a economia brasileira?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: De nenhuma forma, a não ser que as duas potências pretenderiam jogar pelas regras do multilateralismo político e econômico, e pela cooperação benéfica a países em desenvolvimento, pelo menos não é o caso do ponto de vista de Trump (já foi dos EUA, em outras épocas). A China joga pelas regras multilaterais, mas não é uma aderente total a essas regras, do contrário nunca poderia apoiar a usurpação pela força do território de um Estado soberano, como ocorre no caso da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Mas ela o faz devido ao claro unilateralismo, arrogância e estupidez (não existe outra palavra) dos EUA, que focam a China como um adversário, o que ele nunca foi, e que insistem em manter uma preeminência imposta, não mais admitida pela maioria dos países.
Do ponto de vista da economia brasileira pode haver alguma “vantagem” (muito duvidosa) em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado.
Do ponto de vista geoeconômico ou estratégico, não há nenhum interesse em se imiscuir em disputas que não lhe dizem respeito, a não ser no caso de um continente rico em matérias primas, energia, recursos naturais, mas atualmente o Brasil sequer possui capacidade de realizar coordenação e consultas políticas com os outros sul-americanos para entrar nesse tipo de disputa. Em linguagem popular, não é o caso de entrar em “briga de cachorro grande”, quando não se tem o mínimo de condições de apresentar um “portfólio” de grandes interesses estratégicos, num continente marginal aos centros dinâmicos do mundo, que se situam na Eurásia terrestre e nos oceanos Pacífico e Índico.


3. A China é um dos principais afetados pelo fechamento do Estreito de Hormuz. Acredita que os EUA tentariam de alguma forma negociar alguma questão para se beneficiar? O Brasil pode ter algum papel nessa negociação...talvez indiretamente?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: Difícil dizer, no plano estrito da relação bilateral China-EUA e na triangulação com o Irã, pois a China também é uma espécie de “conselheira” do Irã em matéria de política externa, mas hoje existe certo vácuo de lideranças no Irã, a despeito de dois moderados na área política (o presidente e o chanceler), mas com uma guarda revolucionária ainda incerta em sua capacidade de defesa e de contenção da insatisfação da população iraniana, reduzida à pobreza agora.
Do ponto de vista do Brasil, não haveria muito a fazer, mesmo se Lula sempre se oferece para ser um “mediador”, mas isso estaria acima de sua capacidade.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5308, 11 maio 2026, 2 p.

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