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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Fukuyama e o Fim da Historia, 25 anos depois, o que ficou? - Paulo Roberto de Almeida (2009)

Sou informado, pelo editorial do Professor Antonio Carlos Lessa ao boletim 88 (dezembro de 2014) de Mundorama (aqui), que o meu artigo, reproduzido parcialmente abaixo, foi um dos mais acessados desde quando foi publicado, em janeiro de 2010, pouco depois, justamente, dos vinte anos do artigo seminal de Francis Fukuyama sobre o "fim da História", que foi muito pouco lido pelos seus críticos e geralmente rejeitado pelas más razões, inclusive por pessoas que jamais o leram, e viram nele uma demonstração de cabotinismo imperial. Ele continuou sendo acessado desde então: somente em 2014, ele foi acessado 4.382 vezes, o que certamente me teria permitido comprar um supercomputador, se eu recebesse alguma coisinha a cada vez.
Como considero que o debate levantado por Fukuyama, bem como seus principais argumentos, ainda permanecem válidos, permito-me reproduzir aqui o início de meu artigo (escrito, devo esclarecer, em meados de 2009), mas apenas numa pequena parte, puramente introdutória, remetendo depois os leitores ao link de Mundorama, onde ele pode ser lido em sua íntegra.
Boas festas de final de ano, aos que ainda não passaram a marca do calendário. Dentro de meia hora saio para jantar com Carmen Lícia, e depois vamos ver fogos na baia de St. Petersburg, FL.
Paulo Roberto de Almeida

O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?, por Paulo Roberto de Almeida


25 Votes
Boletim Mundorama, 21/01/2010

1. O que restou, vinte anos depois, da tese controversa de Fukuyama?
No verão de 1989, a revista americana National Interest publicava um ensaio teórico – mais exatamente de filosofia da História – do intelectual nipo-americano Francis Fukuyama sobre os sinais – até então simplesmente anunciadores – do fim da Guerra Fria, cujo título estava destinado a deslanchar um debate ainda hoje controverso: “The End of History?”.[1] Vinte anos depois, em vista das muitas críticas feitas naquela conjuntura – e ainda hoje –  às principais teses do autor, vale a pena retomar seus principais argumentos e verificar se eles ainda conservam alguma validade para nossos tempos, que poderiam ser considerados como de pós-Guerra Fria, mas que alguns interpretam, ou consideram efetivamente, como de volta à Guerra Fria, ainda que sob novas modalidades (com uma Rússia singularmente diminuída e uma China hesitante em se posicionar como contendor estratégico dos Estados Unidos).
Antes, contudo, de ingressar numa descrição linear desses argumentos, qualquer que seja sua validade relativa ou absoluta para o tema que nos interessa – qual seja, o da natureza das opções abertas aos países em termos de reforma e desenvolvimento paralelos do sistema econômico e do  regime político, que Fukuyama identificava com a redução dessas opções à democracia de mercado – cabe chamar a atenção para uma peculiaridade geralmente descurada no debate anterior (e talvez atual) sobre a validade das teses de Fukuyama, sobretudo por aqueles que recusavam, in limine, a essência mesma do argumento do autor. Esta peculiaridade tem a ver, basicamente, com um simples sinal diacrítico: o ponto de interrogação ao final do título, geralmente ignorado pelos críticos das teses de Fukuyama, e provavelmente também por aqueles que apóiam, em grande medida, o sentido dos seus argumentos. Ou seja, Fukuyama não fazia uma afirmação peremptória, mas levantava uma hipótese, a do final presumido da história, numa análise de corte essencialmente conceitual, ainda que fortemente embasada nos fatos históricos, e nunca pretendeu formular uma sentença de caráter terminativo, indicando um “congelamento” das formas possíveis de organização social, econômica e política. O interrogante básico de seu argumento tem a ver com a possibilidade de alternativas credíveis às democracias liberais de mercado, ponto.
O ponto de interrogação, por si só, tem o poder de desmantelar boa parte das críticas superficiais, embora ele não elimine uma discussão responsável sobre a essência de sua tese, que caberia discutir, após o resumo inicial de seus argumentos. A tese – vale a pena resumir desde o início – tem a ver com o caráter incontornável da democracia de mercado como sendo uma espécie de ‘horizonte insuperável de nossa época’, como poderia argumentar – mas a propósito do marxismo – Jean Paul Sartre, um dos estudantes, junto com Raymond Aron, da tese original de Hegel, através de Alexandre Kojève.

2. O que Fukuyama de fato escreveu?
(...)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Recomendacoes de leituras, para curiosos...


Algumas recomendações de leituras: lista seletiva

Paulo Roberto de Almeida

Sergio Florencio: Os Mexicanos (São Paulo: Contexto, 2014, 240 p.)
   
         Você sabia que os mexicanos têm uma lista dos mais amados (Benito Juarez e Pancho Villa, entre eles), mas também dos mais odiados (Cortez, obviamente, e também Porfírio Díaz) personagens da sua história? Sabia que somos parecidos com eles? Este livro, por quem foi embaixador no México, apresenta uma história diferente do país que é apresentado como competidor do Brasil; de fato é, mas não como esperado: buscam os dois a prosperidade, a partir de bases sociais e comportamentos econômicos similares. Uma análise exemplar, feita do ponto de vista de um brasileiro que é fino observador das qualidades e idiossincrasias de um povo dotado de uma rica história de realizações, mas também de frustrações. Os desafios parecem semelhantes; serão também as soluções? Descubra um México diferente num livro em que o Brasil está presente.


Paulo Estivallet de Mesquita: A Organização Mundial do Comércio (Brasília: Funag, 2013, 105 p.)
       
     Parece difícil resumir em menos de 100 pequenas páginas a teoria do comércio internacional, a evolução prática do próprio, o estabelecimento do sistema multilateral de comércio, desde o Gatt e seus caminhos tortuosos, até chegar na OMC e todos os seus acordos e funcionamento. Uma proeza realizada por este engenheiro agrônomo que se fez diplomata, e que aplica o rigor da sua ciência de origem à análise dos problemas das relações econômicas internacionais, com ênfase no comércio e nos seus conflitos. O sistema parece uma bicicleta: é preciso avançar, pois qualquer parada pode significar retrocesso, não estabilidade. A interrupção da Rodada Doha, o recuo no protecionismo em alguns grandes países (alguns até próximos) são desafios graves, mas os acordos de livre comércio não são a resposta ideal. Só faltou a bibliografia para uma obra perfeita.


Lauro Escorel: Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel (3a. ed.; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, FGV, 2014, 344 p.)
          
  Escrito em 1956, publicado pela primeira vez em 1958, novamente em 1979, este clássico da maquiavelística brasileira é agora apresentado por um acadêmico e complementado por uma conferência de 1980 do autor, que se tornou “maquiavélico” ao servir na capital italiana em meados dos anos 1950. Para Escorel, “as observações de Maquiavel sobre a política externa dos Estados continuam a apresentar... uma extraordinária atualidade”. O florentino foi o primeiro grande teórico da política do poder.  Mas no plano interno também, Escorel segue Maquiavel em que a política é um “regime de precário equilíbrio entre as forças do bem e as forças do mal, em que estas muitas vezes superam aquelas...”. Os dois colocam o “problema cruciante das relações da política com a moral”, que está no centro da obra do italiano.


Paulo Roberto de Almeida: Nunca Antes na Diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Appris, 2014, 289 p.)
          
  Tudo o que você sempre quis saber sobre a diplomacia companheira e nunca teve a quem perguntar? Agora talvez já tenha, sobre quase tudo. Em todo caso, figura aqui uma avaliação do que representaram, para a política externa, os anos do lulo-petismo, com a independência de um acadêmico que também integra a diplomacia. Existem episódios que ainda vão requerer pesquisa em arquivos para saber como foram exatamente decididos, e provavelmente lacunas subsistirão, tendo em vista justamente as características especiais de uma diplomacia que não partiu essencialmente de sua casa de origem, mas andou combinada a outros estímulos, não arquivados. Parece que ela foi ativa, altiva e soberana, como nunca antes tinha acontecido. Outros traços emergirão num futuro balanço, ainda sem data. A História a absolverá? A ver...


Rogério de Souza Farias: A palavra do Brasil no sistema multilateral de comércio (1946-1994) (Brasília: Funag, 2013, 885 p.)
Uma coletânea, de alta qualidade, dos mais importantes pronunciamentos feitos por representantes brasileiros desde as negociações que precederam a constituição do Gatt (1946-47), passando pela Unctad (1964), até a criação da OMC (1994). O livro representa um repositório de grande relevância para todos os pesquisadores da história econômica brasileira, uma vez que compila documentos originais e outros materiais de referência (fotos, resumos biográficos dos negociadores brasileiros, etc.), mas constitui, igualmente, um instrumento de trabalho para os negociadores diplomáticos de nossos livros. O livro vem acompanhado por informações e fotos dos representantes e de notas de rodapé explicativas de cada contexto negociador. O denso prefácio e a longa introdução merecem leitura atenta; os temas abordados em cada capítulo constituem matéria prima indispensável para conhecer a história econômica e diplomática brasileira no plano do comércio internacional. Parece que pouco mudou...

Eugênio Vargas Garcia: Conselho de Segurança das Nações Unidas (Brasília: FUNAG, 2013, 133 p.)
         
   Tudo o que você sempre quis saber a respeito do CSNU e nunca teve a quem perguntar, ou onde ler. Agora já tem: neste pequeno grande livro de um historiador diplomata que já escreveu sobre o itinerário frustrado do Brasil na Liga das Nações e sobre as tentativas novamente frustradas para ser admitido no inner sanctum da sua sucessora. Mais que isso: a obra refaz não apenas a trajetória histórica desse órgão central da ONU, como percorre a geopolítica de sua atuação e funcionamento político (com algumas tinturas jurídicas), sempre focado nas reais alavancas de poder, isto é, o monopólio dos cinco membros permanentes (mas a China só ingressou em 1971). Uma síntese bem sucedida, uma bibliografia atualizada e uma reflexão sobre as realidades do poder atual, que reflete a posição brasileira em importantes questões da agenda da ONU e do seu desejado CS.



Carlos Márcio B. Cozendey: Instituições de Bretton Woods (Brasília: FUNAG, 2013, 181 p.)
       
     Cada linha da obra está impregnada de um triplo conhecimento: histórico, teórico e prático, sobre as origens, o desenvolvimento, nas décadas seguintes, e sobre o funcionamento atual dos dois irmãos de Bretton Woods, o Banco e o Fundo, que foram criados em 1944 na pequena cidade do New Hampshire para presidir à ordem econômica do pós-guerra. O autor é o secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda, e como tal segue, no G20 e em outras instâncias, as negociações para a reforma do sistema monetário, que já passou por fases melhores do que a atual. Depois das paridades cambiais estáveis, o regime de flutuação não ajuda a manter a estabilidade mundial, mas o maior perigo advém dos desequilíbrios fiscais nacionais, um tema que todavia foge do escopo deste livro.



Harvey J. Kaye: The Fight for the Four Freedoms: What Made FDR and the Greatest Generation Truly Great (New York: Simon & Schuster, 2014, 292 p.).
O livro foi feito a partir dos papeis deixados por Franklin Delano Roosevelt em seus arquivos de Hyde Park: o eixo central é dado pelas quatro liberdades que Roosevelt proclamou no State of the Union de janeiro de 1941, logo após conquistar o seu terceiro mandato, antes, portanto, que os Estados Unidos fossem atacados e entrassem na guerra. Roosevelt, que já vinha procurando superar as resistências isolacionistas do Congresso, para converter os EUA no “Arsenal da Democracia”, insistiu na tecla de que seria ilusório tentar esconder-se atrás de muralhas defensivas. Os quatro grandes conceitos, em torno dos quais os americanos deveria estar unidos, não apenas para si mesmos, mas para todo o mundo, foram os seguintes: liberdade de expressão, de religião, da penúria e do medo. Esses princípios seriam inscritos na Carta do Atlântico, que Roosevelt assinou com Winston Churchill, em agosto de 1941, nas costas do Canadá, e foram consagrados no ano seguinte na Carta das Nações Unidas, uma espécie de “New Deal for the world”, que seria a base da Carta da ONU, assinada em San Francisco, em 1944.

Neill Lochery: Brazil: The Fortunes of War, World War II and the Making of Modern Brazil (New York: Basic Books, 2014, 314 p.)
O autor é um historiador britânico, professor de Mediterranean and Middle Eastern Studies do College University of London, e seu livro está dedicado ao envolvimento do Brasil na guerra, o que é feito de maneira minuciosa e competente. A introdução da obra já começa destacando o famoso documento-guia que Oswaldo Aranha preparou para as conversas de Vargas com Roosevelt, no encontro que ambos tiveram no Rio Grande do Norte, em janeiro de 1943, uma lista de objetivos de guerra que o Brasil declarava aos EUA, mas que também podem ser vistos como uma espécie de planejamento estratégico feito pelo grande chanceler para assegurar uma posição de realce para o Brasil na ordem internacional que estaria sendo desenhada pouco mais à frente para assegurar a paz e reconstruir o mundo. Oswaldo Aranha acreditava, pragmaticamente, que a política tradicional do Brasil, de apoiar os Estados Unidos no mundo, em troca do seu apoio na América do Sul, deveria ser mantida “até a vitória das armas americanas na guerra e até a vitória e a consolidação dos ideais americanos na paz.” Os Estados Unidos iriam liderar o mundo quando a paz fosse restaurada e seria um grave erro se o Brasil não estivesse do seu lado. Ambas nações eram “cósmicas e universais”, com características continentais e globais. Ele tinha plena consciência de que o Brasil era uma “nação economicamente e militarmente fraca”, mas o seu crescimento natural, ou as migrações do pós-guerra, lhe dariam o capital e a população que o fariam tornar-se, “inevitavelmente um dos grandes poderes políticos do mundo”. Pena que Oswaldo Aranha não se tornou presidente do Brasil.

Henry Kissinger: World Order (New York: Penguin Press, 2014, 433 p.)
Trata-se, provavelmente, do último livro, de tipo conceitual, de um dos mais destacados intelectuais americanos (de origem germânica), acadêmico de longa carreira, que também se destacou em atividades executivas, primeiro como conselheiro de segurança nacional, depois como Secretário de Estado, ator de primeiro plano das relações exteriores dos Estados Unidos e das próprias relações internacionais, consultor de quase todos os presidentes americanos desde os anos 1950 e de alguns governos estrangeiros também. Frustrante para os leitores de nossa região, o livro não devota nem mesmo um capítulo, sequer uma mísera seção, à América Latina ou ao Brasil, nas dez grandes unidades da obra, todas elas dedicadas aos grandes atores ou aos problemas percebidos como relevantes para o estabelecimento ou a preservação de uma ordem que de fato não existe. Após uma introdução de tratamento conceitual da questão título, ele dedica dois capítulos à ordem europeia surgida com a paz de Westfália e o sistema de balanço de poder daí resultante, um ao mundo islâmico e às desordens do Oriente Próximo, outro voltado exclusivamente para as relações entre os Estados Unidos e o Irã, dois outros sobre a Ásia (sua multiplicidade e a emergência de uma ordem “asiática”), dois capítulos inteiros sobre a diplomacia dos Estados Unidos (a ideia de uma ordem internacional na tradição wilsoniana e o seu papel atual como “superpotência ambivalente”) e, finalmente, dois capítulos finais voltados para questões tecnológicas e de informação e de proliferação, e sobre a evolução provável de uma ordem mundial ainda largamente indefinida. Para ser mais preciso, a América Latina não aparece sequer no índice remissivo do livro, embora nele exista a entrada western hemisphere. O Brasil só é mencionado duas vezes, ambas en passant e de maneira irrelevante: a primeira para falar sobre o impacto mundial das revoluções europeias de 1848, a segunda na companhia da Índia (que recebe tratamento mais amplo nos capítulos asiáticos da obra) como exemplo de nações emergentes. Fora isso, um grande livro.

Francis Fukuyama: The Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011, 620 p.) e Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2014, 660 p.)
  
          Dois volumes que resumem o pensamento de um dos mais influentes cientistas políticos dos EUA, que retoma o trabalho seminal que tinha sido conduzido por um de seus mestres, o finado autor do “conflito de civilizações” (não um de seus melhores livros), Samuel Huntington, em seu clássico Political Order in Changing Societies (New Haven: Yale University Press, 1968), que tinha sido traduzido no Brasil por Heitor Ferreira Lima, um dos assessores do “guru” do regime militar no Brasil, Golbery do Couto e Silva em seus esforços de distensão e de transição política para uma ordem pós-autoritária durante a presidência Geisel. Os dois livros valem por um tratado de política, mas que praticamente confirmam um tese pré-concebida: o “fim da história”, se existir, se parece muito com o modelo político americano, que é a culminação das possibilidades democráticas nas sociedades liberais e avançadas de mercado. Mas o próprio Fukuyama reconhece que a democracia americana está sendo gradualmente conduzida a impasses institucionais pela rigidez do sistema bipartidário polarizado atualmente existente.


Bom proveito.
Paulo Roberto de Almeida 

Hartford, 2782: 16 dezembro 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Museus em New Haven, livros na lista

Hoje foi um dia completo, ou seja, boa gastronomia, visita a museus e livrarias, como ambos gostamos.
A gastronomia ficou por conta de Carmen Lícia, que preparou para almoço (e ainda ficou para o jantar) uma excelente pasta (rigatone) com camarões, ainda complementada por nozes pecan, um bom pecorino, tudo acompanhado por vinho italiano. Perfeito: repeti no almoço e no jantar, quando abri uma nova garrafa de Chianti Riserva.
Depois, fomos a New Haven, para uma dupla visita a museus: o da Universidade de Yale, para uma exposição sobre as províncias do império romano, e uma outra, logo em frente, no British Art Center, onde estava tendo esta exposição sobre as esculturas na era vitoriana:

Depois, eu fui devolver livros que havia emprestado da biblioteca da universidade, todos eles sobre Bretton Woods, que usei para fazer um artigo sobre os 70 anos do FMI e as relações do Brasil com a instituição. Devo divulgar em breve.
Fizemos algumas compras, entre a loja de apetrechos da Universidade de Yale e a livraria Barnes and Noble. Antes passamos num sebo-bar, onde Carmen Lícia comprou um livro sobre a China.
Na Barnes, apenas fiquei examinando os livros que pretendo comprar mais barato dentro de poucos meses, assim que ficarem disponíveis na Abebooks ou na Amazon usados.
Aqui estão eles, apenas três, o que é bastante modesto como planejamento.



Na volta, ainda tinha pasta com camarão, nozes e pecorino, com mais um pouco de vinho italiano.
Para terminar, leitura de jornais, a Economist que acaba de chegar, um pouco de televisão e de computador.
Jornada perfeita. Amanhã tem New York, uma vez mais.
Paulo Roberto de Almeida

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Fukuyama completa sua obra sobre a ordem politica pos-Huntingtoniana (NYT Book Review)


Global Warning
Francis Fukuyama’s ‘Political Order and Political Decay’
By SHERI BERMAN
The New York Times Book Reviews, September 11, 2014 

Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy
By Francis Fukuyama
Illustrated. 658 pp. Farrar, Straus & Giroux. $35.
In 1989, Francis Fukuyama published an essay in The National Interest entitled “The End of History?” that thrust him into the center of public debate. Although often misunderstood and maligned, its central argument was straightforward and sensible: With the collapse of Communism, liberal democracy stood alone as the only form of government compatible with socio­-economic modernity. Over the years since, Fukuyama has continued to argue the case, and has now summed up his efforts with a two-­volume magnum opus that chronicles global political development from prehistory to the present. A quarter-century on, he remains convinced that no other political system is viable in the long run, but concludes his survey with a sobering twist: Liberal democracy’s future is cloudy, but that is because of its own internal problems, not competition from any external opponent.
Fukuyama began the first volume, “The Origins of Political Order,” which appeared in 2011, by stating that the challenge for contemporary developing countries was how to “get to Denmark” — that is, how to build prosperous, well-governed, liberal democracies. This, in turn, required understanding what “Denmark” — liberal democracy — actually involved. Drawing on the insights of his mentor Samuel Huntington, Fukuyama argued that political order was all about institutions, and that liberal democracy in particular rested on a delicate balance of three distinct features — political accountability; a strong, effective state; and the rule of law. Accountability required mechanisms for making leaders responsive to their publics, which meant regular free and fair multiparty elections. But elections alone were not enough: A true liberal democracy needed to have its institutions of accountability supplemented by a central government that could get things done and by rules and regulations that applied equally to everyone.
Fukuyama showed how throughout human history these three factors had often emerged independently or in various combinations. China, for example, developed a state long before any existed in Europe, yet did not acquire either the rule of law or political accountability. India and much of the Muslim world, by contrast, developed something like the rule of law early on, but not strong states (or, in much of the Muslim world, political accountability). It was only in parts of Europe in the late 18th century, Fukuyama noted, that all three aspects started to come together simultaneously.
“Political Order and Political Decay” picks up the story at this point, taking the reader on a whirlwind tour of modern development from the French Revolution to the present. Fukuyama is nothing if not ambitious. He wants to do more than just describe what liberal democracy is; he wants to discover how and why it develops (or does not). So in this volume, as in the previous one, he covers a vast amount of ground, summarizing an extraordinary amount of research and putting forward a welter of arguments on an astonishing range of topics. Inevitably, some of these arguments are more convincing than others. And few hard generalizations or magic formulas emerge, since Fukuyama is too knowledgeable to force history into a Procrustean bed.
Thus he suggests that military competition can push states to modernize, citing ancient China and, more recently, Japan and Prussia. But he also notes many cases where military competition had no positive effect on state building (19th-century Latin America) and many where it had a negative effect (Papua New Guinea, as well as other parts of Melanesia). And he suggests that the sequencing of political development is important, arguing that “those countries in which democracy preceded modern state building have had much greater problems achieving high-quality governance than those that inherited modern states from absolutist times.” But the cases he gives as examples do not necessarily fit the argument well (since Prussia’s state eventually had trouble deferring to civilian authorities and the early weakness of the Italian state was probably caused more by a lack of democracy than a surfeit of it). In addition, he surely understands that authoritarianism is even more likely to generate state weakness than democracy since without free media, an active civil society and regular elections, authoritarianism has more opportunities to make use of corruption, clientelism and predation than democracies do.
Perhaps Fukuyama’s most interesting section is his discussion of the United States, which is used to illustrate the interaction of democracy and state building. Up through the 19th century, he notes, the United States had a weak, corrupt and patrimonial state. From the end of the 19th to the middle of the 20th century, however, the American state was transformed into a strong and effective independent actor, first by the Progressives and then by the New Deal. This change was driven by “a social revolution brought about by industrialization, which mobilized a host of new political actors with no interest in the old clientelist system.” The American example shows that democracies can indeed build strong states, but that doing so, Fukuyama argues, requires a lot of effort over a long time by powerful players not tied to the older order.
Yet if the United States illustrates how democratic states can develop, it also illustrates how they can decline. Drawing on Huntington again, Fukuyama reminds us that “all political systems — past and present — are liable to decay,” as older institutional structures fail to evolve to meet the needs of a changing world. “The fact that a system once was a successful and stable liberal democracy does not mean that it will remain so in perpetuity,” and he warns that even the United States has no permanent immunity from institutional decline.
Over the past few decades, American political development has gone into reverse, Fukuyama says, as its state has become weaker, less efficient and more corrupt. One cause is growing economic inequality and concentration of wealth, which has allowed elites to purchase immense political power and manipulate the system to further their own interests. Another cause is the permeability of American political institutions to interest groups, allowing an array of factions that “are collectively unrepresentative of the public as a whole” to exercise disproportionate influence on government. The result is a vicious cycle in which the American state deals poorly with major challenges, which reinforces the public’s distrust of the state, which leads to the state’s being starved of resources and authority, which leads to even poorer performance.
Where this cycle leads even the vastly knowledgeable Fukuyama can’t predict, but suffice to say it is nowhere good. And he fears that America’s problems may increasingly come to characterize other liberal democracies as well, including those of Europe, where “the growth of the European Union and the shift of policy making away from national capitals to Brussels” has made “the European system as a whole . . . resemble that of the United States to an increasing degree.”
Fukuyama’s readers are thus left with a depressing paradox. Liberal democracy remains the best system for dealing with the challenges of modernity, and there is little reason to believe that Chinese, Russian or Islamist alternatives can provide the diverse range of economic, social and political goods that all humans crave. But unless liberal democracies can somehow manage to reform themselves and combat institutional decay, history will end not with a bang but with a resounding whimper.

Sheri Berman teaches political science at Barnard College, Columbia University.

A version of this review appears in print on September 14, 2014, on page BR1 of the Sunday Book Review with the headline: ‘Political Order and Political Decay’. Order Reprints|Today's Paper|Subscribe


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Fukuyama: 25 anos de Fim da Historia, e a democracia liberal de mercado ainda nao foi superada...

...e nem será dentro de em breve, pelo menos não enquanto alguns grandes atores -- Rússia, China -- e outros menores -- ditaduras atrasadas em alguns pontos do Sul, caudilhos ridículos na América Latina -- não se converterem plenamente às formas liberais de governança, o que só quer dizer uma coisa: democracias de mercado.
Mesmo que seus atuais ditadores não queiram, o processo vai acabar se impondo, pela força das demandas de seus próprios povos. Isso é inevitável e só depende do tempo e da educação política dos setores médios nesses países.
Permito-me relembrar que escrevi um texto, aos 20 anos da tese de Fukuyama, cuja referência e link aqui seguem:

O “Fim da História”, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?, por Paulo Roberto de Almeida, in: Meridiano 47, n.114, janeiro de 2010

Por enquanto fiquem com esta entrevista concedida por ele à Deutsche Welle, que me foi enviada por um leitor habitual deste blog.
Paulo Roberto de Almeida

HISTÓRIA

"Ainda tenho razão", afirma Francis Fukuyama, filósofo do "fim da história"

Cientista político americano, autor de "O fim da história", vê democracia liberal como ápice da evolução sociocultural. Em entrevista à DW, defende a teoria lançada há 25 anos e rebate noção de uma nova Guerra Fria.
Em 1989, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava seu famoso artigoO fim da história? na revista The National Interest. Nele, argumentava que a difusão mundial das democracias liberais e do livre capitalismo de mercado possivelmente sinalizavam o fim da evolução sociocultural da humanidade. Três anos mais tarde, ele publicaria o livro O fim da história e o último homem, onde expandia essas ideias.
Decorrido um quarto de século, os pontos de vista de Fukuyama continuam sendo debatidos e criticados. Em entrevista à DW, o filósofo de 61 anos afirma que tais ataques a seu texto são decorrentes de uma interpretação equivocada, e defende suas teses à luz de eventos geopolíticos recentes.
DW: Em 1989, o senhor publicou seu artigo mais conhecido, O fim da história?. Vinte e cinco anos atrás, numerosos críticos diziam: "Esse cara está errado." O senhor sente que foi mal entendido ou admite agora que estava errado?
Francis Fukuyama: Acho que os maiores problemas têm a ver com um mal entendido. O conceito de "fim da história" era a questão: em que rumo a história aponta? Para o comunismo – que era o ponto-de-vista de muitos intelectuais, antes – ou na direção da democracia liberal? E acho que, neste ponto, ainda estou certo.
História, no sentido filosófico, é realmente o desenvolvimento, ou a evolução – ou modernização – de instituições, e a questão é: nas sociedades mais desenvolvidas do mundo, que tipo de instituições são essas?
Acho que está bem claro que qualquer sociedade que pretenda ser moderna ainda precisa ter uma combinação de instituições políticas democráticas com uma economia de mercado. E eu não acho que a China, a Rússia ou qualquer outro concorrente invalidem esse argumento.
O senhor menciona a China e a Rússia. Eu gostaria de conversar sobre a Ucrânia. Onde o senhor nos vê historicamente nesse momento?
Bem, eu acho que a Rússia não se desenvolveu na direção de uma democracia liberal de verdade, e suas ambições territoriais e geopolíticas não desapareceram. Mas no fim das contas, eu acho que o sistema russo é muito fraco, ele depende completamente de preços altos de energia. Mesmo na Rússia ele não é aceito inteiramente como uma forma legítima de governo. Então não é um real competidor.
Quando o senhor vê o presidente russo, Vladimir Putin, na televisão, e vê o comportamento dele, o senhor o considera um bom exemplo para a sua tese de que reconhecimento é um impulsionador importante da história?
Penso que, de diversas maneiras, é isso. Porque ele e muitos outros russos recorrem a um poço de ressentimentos – de que a Rússia não teve reconhecimento, de que foi considerada fraca, de que os seus interesses não foram respeitados pelos países ocidentais durante a ampliação da Otan, e pelas coisas que aconteceram nas décadas de 1990 e 2000. Assim, eu creio que reconhecimento, para ele, é uma questão.
Putin na TV: movido pela necessidade de reconhecimento?
Os políticos ocidentais, americanos ou europeus, deveriam dar atenção, reconhecimento a Putin?
Acho que é tarde demais para isso. Muitos desses problemas foram baseados em decisões tomadas na década de 90, e é impossível desfazê-las. Eu realmente acredito que é preciso tratar a Rússia como um país sério, com seus interesses nacionais próprios. Eles podem não ser os mesmos que os nossos, mas é preciso, de qualquer forma, começar pelo respeito.
Os acontecimentos na Ucrânia parecem ser o início de uma segunda Guerra Fria. Entretanto, no momento há sinais de que ambos os lados estão cedendo. O senhor diria que essa Guerra Fria está suspensa, por enquanto?
A Guerra Fria foi um fenômeno tão diferente! Era um conflito global, um conflito de ideias e a respeito de dois sistemas políticos muito diferentes. Isso agora é uma batalha para restaurar a dignidade dos russos, sem implicações reais fora das áreas da antiga União Soviética. Então, nesse sentido, não é nem um pouco parecido com a Guerra Fria em si.
No tocante a sistemas e governos que funcionem, qual é a sua visão de seu próprio país, os Estados Unidos?
Eu argumento, num próximo livro, que o sistema político americano se deteriorou em muitos aspectos por ter sido seriamente sequestrado por diversos grupos de interesses poderosos. Muitos dos instrumentos de freio e contrapeso (checks and balances), de que nos orgulhamos, resultaram, na prática, no que eu chamo de "vetocracia", ou seja: grupos demais detêm o poder de barrar decisões. Como resultado, o Congresso ficou paralisado, o que eu considero um grande problema para nós.
As instituições democráticas americanas estão em decadência? O que isso significaria para os EUA, como um todo: eles são uma superpotência em retirada?
Não, não vejo a coisa assim, absolutamente, porque na verdade a economia americana está bem de saúde e é, provavelmente, a mais saudável de todas as grandes economias democráticas. Gás de xisto, Silicon Valley: há muitas fontes de crescimento e inovação. Eu apenas acho que o sistema político não vai bem. Mas a sociedade americana é sempre um pouco mais o setor privado do que o setor público.
Voltando a O fim da história, qual é a sua previsão para os próximos 10 ou 20 anos?
Acho que nós estamos passando por um período difícil, em que tanto a Rússia quanto a China se expandem. Mas estou convencido de que é um fenômeno limitado, que, a longo prazo, só existe uma ideia organizadora importante: a ideia de democracia numa economia de mercado. Portanto, a longo prazo, eu continuo otimista.

sábado, 31 de maio de 2014

Francis Fukuyama’s “The End of History?” 25 Years Later - Cato conference, Friday June 6

Aos interessados, é possível assistir pela internet, como já fiz em diversas ocasiões. Permito-me registrar que, quando o famoso ensaio de Fukuyama completou 20 anos, fiz um artigo a respeito, disponível da seguinte forma:

2101. “O Fim da História, de Fukuyama, vinte anos depois: o que ficou?”, Brasília, 13 janeiro 2010, 15 p. Considerações sobre a tese de Francis Fukuyama e o fim de alternativas às economias liberais de mercado. Publicado em Meridiano 47 (n. 114, janeiro 2010, p. 8-17; ISSN: 1518-1219; link: http://seer.bce.unb.br/index.php/MED/article/view/476/291); disponível em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/5949002/2101_O_Fim_da_Historia_de_Fukuyama_vinte_anos_depois_o_que_ficou_2010_). Relação de Publicados n. 949. 

Paulo Roberto de Almeida

Francis Fukuyama’s “The End of History?” 25 Years Later

Featuring Francis Fukuyama, author of “The End of History?”; Michael Mandelbaum, School of Advanced International Studies, Johns Hopkins University; Marian Tupy, Cato Institute; Adam Garfinkle, editor,American InterestPaul Pillar, Nonresident Senior Fellow, Foreign Policy, Center for 21st Century Security and Intelligence, Brookings Institution; and John Mueller, Ohio State University and Cato Institute.

1:00 to 2:30 PM (Washington time, one hour less than Brazil) 
Panel 1

Moderator: John Mueller
Ohio State University and Cato Institute

Francis Fukuyama
Stanford University

Adam Garfinkle
American Interest

Michael Mandelbaum
School of Advanced International Studies, Johns Hopkins University

2:30 to 2:45 PM - Break

2:45 to 4:15 PM  
Panel 2

Moderator: Christopher Preble
Cato Institute

Marian Tupy
Cato Institute

John Mueller
Ohio State University and Cato Institute

Paul Pillar
Center for 21st Century Security and Intelligence, Brookings Institution

Discussant: Francis Fukuyama
Stanford University

4:14 to 4:30 PM
Concluding Remarks

Christopher Preble
Cato Institute

4:30 to 5:30 PM - Reception

In an article that went viral in 1989, Francis Fukuyama advanced the notion that with the death of communism history had come to an end in the sense that liberalism — democracy and market capitalism — had triumphed as an ideology. Fukuyama will be joined by other scholars to examine this proposition in the light of experience during the subsequent quarter century.
If you can’t make it to the Cato Institute, watch this event live online at www.cato.org/live and follow @CatoEvents on Twitter to get future event updates, live streams, and videos from the Cato Institute.