De uma mudança de regime a uma outra...
Paulo Roberto de Almeida
Comecemos pela definição de regime, noção que se distingue nitidamente de governo, mas que guarda relação com este, embora correspondendo ao seu sentido mais genérico: existem regimes monárquicos ou republicanos, assim como existem, nestes últimos, regimes presidencialistas ou parlamentaristas. Num sentido personalista, se pode falar, no caso argentino, de regime peronista, ou, no brasileiro, de regime varguista, assim como de regimes militares em cada um desses países, talvez até de um “regime lulopetista”, que parece estar no limiar de ultrapassar cronologicamente o regime varguista.
Na história da grande república americana, a mais antiga e durável do mundo, não se pode falar de “regime”, uma vez que o processo de administração governamental sempre se desenvolveu segundo as regras mais usuais do “regime democrático”, ou seja, a sucessão presidencial. Uma exceção foi representada pela década de Franklin Roosevelt, quatro mandatos enfileirados, um período conhecido, na literatura histórica americana, como “era Roosevelt”, após a qual se decidiu, justamente, fixar dois mandatos, sucessivos ou separados, como limite máximo do exercício do poder. Presidentes no poder costumam ser reeleitos, se bem-sucedidos, ou expelidos, caso o eleitorado não lhes conceda essa graça.
Donald Trump constitui, a mais de um título, uma excrescência na história política americana, começando pela suspeita de que ele tenha sido “eleito”, na verdade, por Putin, como discutido por uma comissão de investigação imediatamente após sua eleição em novembro de 2016, dada a interferência de hackers estrangeiros nos ataques à sua adversária e o uso maciço de propaganda eletrônica claramente orientada a esse mesmo objetivo. Tendo em vista sua tentativa de aferrar-se ao poder, mesmo perdendo as eleições de 2020, usando de todos os meios disponíveis para fraudar os resultados, inclusive os mais violentos, assim como as alusões a um terceiro mandato, após o segundo, em princípio “terminativo”, sem mencionar toda a sua postura propriamente “imperial absolutista”, poder-se-ia considerar seus dois mandatos, não como duas gestões (separadas) de um governo, mas como um “regime”. Qualquer que seja a interpretação que se dê à administração Trump, sobretudo em seu segundo, atual, mandato, cabe sim admitir a possibilidade de classificar a “era trumpista” como um “regime”, no sentido mais literal do termo.
Estabelecida, ainda que subjetivamente, a legitimidade conceitual da identificação dos dois governos Trump como um regime, tendo em conta sua nítida diferença vis-à-vis todos os demais governos nos dois séculos e meio de história política americana, resta descrever como e por que a “era Trump” pode ser considerada um regime em toda a sua plenitude. Existem muitas características factuais que conduzem a essa equiparação da “administração” Trump a um “regime”, sem qualquer elemento correspondente a um governo tido como “normal”.
A primeira delas pode ser chamada de “reino da mentira”. Nos quatro primeiros anos do “regime” trumpista (2017-2020), o New York Times e o Washington Post, se empenharam em quantificar o número de mentiras proferidas DURANTE o mandato. De acordo com o Washington Post Fact Checker, ele teria proferido 30.573 alegações falsas ou enganosas em quatro anos, ou seja, uma média de 21 mentiras por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. Mas sua campanha já tinha sido recheada das mais escabrosas mentiras.
No que respeita o segundo mandato, pesquisa feita pelo New York Times e publicada no dia 20 de janeiro de 2026, conferindo os registros do primeiro ano desde janeiro de 2025, revelou serem incontáveis as falsificações proclamadas diariamente numa vasta gama de temas, um verdadeiro arsenal de mistificações com respeito ao governo Biden, alegações sem qualquer comprovação, nas áreas as mais diversas, incluindo imigração (seu tema favorito), economia – queda da inflação no seu primeiro ano, contra uma suposta alta de preços no governo Biden –, comércio, política externa e o seu próprio poder executivo. Em todas essas áreas, a matéria do NYT identificou todas as afirmações comprovadamente falsas, registrando suas falas e confrontando-as às estatísticas e dados oficiais. Algumas são tão absurdas que levantam a questão de sua sanidade mental, como por exemplo o “sucesso” em reduzir os preços dos medicamentos entre 400 e 600% dos valores anteriores, o que é matematicamente impossível (uma redução de 100% já tornaria cada medicamento totalmente gratuito).
A segunda característica reside no “reino da fantasia”, que consiste em tentar fazer os Estados Unidos retornarem ao período da segunda revolução industrial pela via das tarifas aduaneiras, provavelmente o exemplo mais economicamente alucinante de todas as demais configurações equivocadas no terreno da política comercial, só testado na prática em virtude de uma equipe de assessores especialmente submissa (à diferença do primeiro mandato). As medidas unilaterais já adotadas, todas elas rigorosamente contrárias ao sistema multilateral de comércio, a começar pelo desprezo total da cláusula de nação mais favorecida, vão resultar no exato contrário do pretendido, com a perda de confiança dos demais parceiros do sistema, em benefício do principal campeão do livre comércio, o gigante asiático, que, graças aos erros do Hegemon declinante, vai confirmar sua preeminência livremente construída nos fluxos globais de bens e serviços pelas próximas décadas.
A característica provavelmente mais pronunciada, e mais desarmante do ponto de vista do futuro geopolítico dos Estados Unidos no turbulento mundo atual, pode ser chamada de “arrogância imperial”, qualidade que Trump partilha com seu amigo e parceiro, Vladimir Putin, possível controlador de muitas de suas ações. Ela consiste num impulso dominador que deriva das deformações pessoais de cada um dos personagens, megalomania que consiste em extravasar a projeção militar externa de suas respectivas máquinas de guerra, na convicção de que conseguirão atender seus desejos de dominação por meio da força bruta. O cleptocrata russo já foi confrontado à limitação de seus poderes na pretensão de reconstruir uma parte geograficamente significativa dos antigos impérios czarista e soviético: sua cruel aventura ucraniana já se revelou desastrosa, em termos humanos, de equipamentos bélicos e de virtual isolamento no atual quadro diplomático mundial. Trump está conhecendo igual limitação em sua capacidade de impor mudanças de regime segundo suas ilusões imperiais não contidas por seus generais, como no caso da aventura iraniana, impossibilitada de mostrar resultados tangíveis com base unicamente em bombardeios aéreos.
A supremacia militar americana, indiscutível no plano puramente operacional, subiu à cabeça de Donald Trump depois do sequestro bem-sucedido do sucessor de Chávez à frente da ditadura bolivariana da Venezuela (ele foi praticamente entregue pelos seus companheiros chavistas e praticamente ninguém mais fala de Maduro, na Venezuela ou nos EUA). Não ocorreu, na prática, nenhuma mudança de regime no país detentor das maiores reservas de petróleo do mundo – uma obsessão trumpista –, mas apenas a “correção geográfica” da tutela exercida por duas autocracias muito próximas uma da outra: em lugar de servir aos interesses cubanos (que exerciam a “guarda próxima” do titular sequestrado), a ditadura chavista passa a servir aos de seu novo patrão, Trump em pessoa (e familiares associados nos negócios conduzidos como se fossem assuntos de Estado). A miserável ilha de Cuba pode estar, aliás, na agenda do novo imperador hemisférico, neste caso assistido por seu obsequioso Secretário de Estado, ele mesmo de origem cubana. Pode ser, em todo caso, um alvo bem mais fácil de “digerir” do que vem se revelando a secular nação persa, atualmente convertida em uma ditadura teocrática relativamente bem consolidada.
A primeira “explicação” – contraditória como qualquer outra – oferecida para o planejamento da operação “Fúria Épica”, deslanchada contra a autocracia iraniana, foi a do “perigo iminente de um ataque nuclear”, o que representou uma confissão indireta de que os bombardeios maciços conduzidos em meados de 2025 não “obliteraram” de verdade a capacidade de enriquecimento de urânio para fins militares, em lugar de apenas civil. Os negociadores iranianos tinham, por sinal, chegado ao ponto máximo de “rendição” da soberania nacional, ao consentir no virtual desmantelamento verificável do seu programa nuclear, quando Trump, obedecendo muito mais aos desejos israelenses do que aos próprios objetivos americanos, passaram a também exigir a desativação da capacidade missilística do regime dos aiatolás, um objetivo impossível de ser atendido por qualquer governo desejoso de exercer um mínimo de capacidade dissuasora.
A explicação para o ataque militar imediato, sem qualquer possibilidade de alegar “medida de autodefesa”, passou a ser “mudança de regime”, convidando o povo iraniano a lutar de mãos desarmadas contra um poder incontestavelmente repressivo e mortífero. Nem o Secretário da Guerra, nem o comandante do Estado Maior americano conseguiram fornecer uma explicação credível sobre os objetivos da guerra, sua duração e os resultados esperados de uma das mais gigantescas operações de montagem da “formidável Armada” estacionada nas proximidades do Estreito de Ormuz. Uma semana depois do início das hostilidades, não se tem ainda uma justificativa clara de sua extensão, respostas aos muitos questionamentos dos jornalistas ou uma exposição completa quanto ao desenvolvimento das próximas etapas (se outras etapas foram simplesmente planejadas por militares ainda mais confusos do que seu “comandante em chefe”). Independentemente de respostas a essas muitas dúvidas, os corpos das primeiras vítimas da aventura militar mal planejada de Donald Trump começam a ser encaminhados de volta ao país, uma possível repetição do Vietnã, Iraque e Afeganistão.
Em desafios anteriores lançados aos Estados Unidos, em 1917 e em 1941, o Congresso não hesitou em conferir plenos poderes militares – War Powers Act – ao chefe de Estado para ordenar a mobilização plena de todos os recursos humanos e econômicos necessários para enfrentar os ataques à soberania nacional dos Estados Unidos. O desafio representado pela guerra do Vietnã, engajada à revelia ou na desinformação do Congresso, resultou, em 1973, na emissão de um novo War Powers Act que, na verdade, reduzia os poderes do presidente de mobilizar e expedir forças armadas ao exterior sem a autorização expressa dos parlamentares.
Trump simplesmente ignora quaisquer limitações legais a seus poderes supostamente imperiais, no tradicional sistema de checks and balances do constitucionalismo americano. Mas se os corpos de militares caídos no “cumprimento do dever”, no teatro de guerra do Golfo Pérsico – há uma explicação para a manutenção desse nome ao longo dos tempos –, começarem a se multiplicar no cemitério de Arlington, é possível que a operação de regime change iniciada contra a teocracia iraniana se converta, no momento oportuno, em iniciativa de regime change nos próprios Estados Unidos. Acompanhemos os próximos episódios...
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Brasília, 5233, 6 março 2026, 4 p.