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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O dilema da Ucrânia ao saber-se vencedora da guerra de agressão de Putin contra seu país - Fernando Figueiredo e Paulo Roberto de Almeida

 O dilema da Ucrânia ao saber-se vencedora da guerra de agressão de Putin contra seu país

Fernando Figueiredo e Paulo Roberto de Almeida 

Transcrevo mais abaixo uma reflexão muito importante de Fernando Figueiredo sobre a próxima etapa da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, num momento em que a nação agredida e martirizada se recompôs na defesa e parte para o ataque, já como possível força vencedora de uma guerra de conquista deslanchada mais de quatro anos atrás por um déspota bárbaro que encarnava o que de pior já foi produzido pelo imperialismo russo. 
Antes, porém, formulo reflexões sobre o sentido profundo da brutalidade russa construída ao longo de séculos de um desenvolvimento deformado, ideias que retirei da leitura de algumas reflexões do velho Karl Marx, muito errado em suas formulações econômicas, mas talvez correto em seus instintos anti-russos.
Paulo Roberto de Almeida 

Reflexões suscitadas pelo correto questionamento de Fernando Figueiredo sobre o atual dilema dos ucranianos na perspectiva de uma derrota militar de Putin nas frentes de batalha e na retaguarda russa:

Já havia pensado nisso [que segue abaixo]: o congelamento da guerra de agressão de Putin  ontra a Ucrânia só beneficiaria o Kremlin, além de poupar novas vitimas civis e militares ucranianas. Mas isso deixaria o agressor na posse do que foi conquistado ilegalmente e permitiria que o grande império brutal, barbárico, selvagem, desumano, se reconstituisse, para continuar sua agressão mais adiante contra povos europeus mais ricos, mais pacíficos, mais civilizados. Pois é isso que a barbarie do czarismo, do bolchevismo, do putinismo representou nos últimos cinco ou seis séculos, pelo menos; um rancor, uma raiva conquistadora e destruidora contra aqueles que estavam num patamar civilizatório mais elevado. São hunos que aproveitaram suas riquezas naturais para transformá-las em armas de agressão contra os povos das estepes orientais, contra os povos da Ásia central e contra os povos das planícies da Europa ocidental, uma Europa que alcançou um nível civilizatório que é afrontoso aos déspotas bárbaros que dominam esses hunos sedentos de riqueza que ainda não produziram, mas que pretendem roubá-la a vizinhos menos imperialistas e menos dotados do complexo de conquistadores que são os russos invejosos e, no fundo, profundamente incultos. A formação familiar dos russos é essencialmente brutal, consigo mesmos; como hunos, eles querem exportar essa brutalidade para povos mais avançados materialmente e culturalmente. A Rússia é uma tragédia civilizatória. Precisa ser contida. Marx já dizia isso no século XIX. Foi uma das poucas coisas que acertou…

Fim da introdução de Paulo Roberto de Almeida

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Fernando Figueiredo:

A Ucrânia pode estar prestes a enfrentar a decisão mais difícil desta guerra. Por um lado, é bom que assim seja porque estaremos não no campo de batalha, mas sim na mesa de negociações. Após quatro anos de resistência extraordinária, o dilema não é o da coragem ucraniana, está mais que demonstrada. É de estratégia, é de futuro: aceitar uma pausa negociada, ou continuar a combater em busca de uma vitória mais ampla, com tudo o que isso implica em sangue, tempo e incerteza?

O que se passa no terreno é, em si mesmo, notável. Os drones ucranianos alcançam Moscovo, isolam a Crimeia, perturbam a logística russa e permitem recuperar terreno a um ritmo que, há dois anos, teria parecido impossível. Apesar da esmagadora superioridade numérica russa em efetivos, a Ucrânia está, gradualmente, a alterar a dinâmica da guerra a seu favor. Os drones foram o primeiro momento de viragem. O segundo pode estar para chegar.

O ministro da Defesa ucraniano avisou recentemente que Moscovo poderá em breve ver não apenas drones a sobrevoar o espaço aéreo russo, mas também mísseis balísticos ucranianos. Se confirmado, e Kiyv está alegadamente a testar várias versões, trata-se de uma escalada qualitativa sem precedentes neste conflito. Não apenas um impacto militar: um golpe psicológico e político profundo. Se mísseis balísticos ucranianos começarem a atingir alvos militares ou estratégicos nas proximidades de Moscovo, a pressão interna na Rússia aumentará dramaticamente. As elites políticas e empresariais russas, já nervosas, já divididas, verão a guerra chegar-lhes literalmente à porta.

É neste contexto que emerge a questão decisiva: se, por mera hipótese, Putin  aceitar negociações, suspender as hostilidades e congelar a linha da frente, o que deve Kiyv fazer?

A tentação de continuar seria enorme. Uma Rússia sob pressão interna, uma Ucrânia com momentum tecnológico, aliados ocidentais ainda comprometidos, o quadro parece favorável, mas as guerras não se ganham pela emoção. Ganham-se pela estratégia, pela logística, pelo poder de fogo, pelas alianças e, sobretudo, pelo timing. E têm custos enormes e não só em orçamento, mas também em demografia, e isso pesa.

Zelensky enfrenta perguntas para as quais não há respostas simples: Parar agora, com a Ucrânia em alta, ou arriscar que o momentum se esgote? Recuperar o que é possível por negociação, ou tentar romper a linha da frente e recuperar o que foi perdido? A Ucrânia tem soldados suficientes, dispostos e em condições de continuar? Consegue sustentar uma campanha longa orientada para a vitória total?

A vantagem tecnológica é real, mas não é ilimitada. A Ucrânia tem motivação, inteligência operacional e o apoio de parceiros que perceberam, finalmente, que esta guerra é a sua também, mas a tecnologia não substitui efetivos. Os drones não ocupam território. Os mísseis balísticos perturbam o inimigo, não o derrotam. A Ucrânia ainda enfrenta uma Rússia com uma base demográfica e industrial muito maior, disposta a absorver perdas colossais para não recuar.

Uma pausa negociada, mesmo que imperfeita, mesmo que injusta, pode no limite, ser preferível a uma guerra que se prolonga por mais dois ou três anos, consumindo o que resta da geração que está a combater.
A história das guerras modernas mostra que os momentos de maior vulnerabilidade do adversário são também os momentos de maior tentação estratégica, e de maior risco de erro de cálculo. A Coreia em 1951, o Yom Kippur em 1973, a primeira fase da guerra do Golfo: em todos estes casos, a questão de «até onde ir» dividiu aliados e definiu décadas. A Ucrânia não tem o luxo de errar esta decisão. Já nem falo na recente campanha do EUA no Irão, isso dá outro longo artigo. 

A realidade é que há demasiadas incógnitas: a sustentabilidade do apoio ocidental, particularmente se Trump regressar a uma postura de coerção sobre Kiyv; a coesão interna ucraniana após anos de guerra; a real capacidade operacional dos novos sistemas de mísseis; e, sobretudo, a estabilidade do regime de Putin face a uma pressão crescente.

O que é certo é que a Ucrânia não pode tomar esta decisão sozinha. Os seus aliados europeus, que terão de viver com as consequências durante décadas, têm a responsabilidade de ser parceiros reais nesta escolha, e não apenas fornecedores de equipamento. Uma paz injusta imposta à Ucrânia não é paz. É o prólogo de outra guerra.
A Ucrânia lutou com uma coragem que envergonhou quem duvidou dela. Merece aliados à altura dessa coragem, não apenas na guerra, mas também na paz.

Fim do texto de Fernando Figueiredo

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