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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Lígia, canção de Tom Jobim, e um depoimento muito comovente de meu amigo Maurício David

 

Lígia - Tom Jobim

https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/10/ligia-tom-jobim.html



Ligia

Canção de Antônio Carlos Jobim

 

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei
Desliguei foi engano
Seu nome não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Lígia, Lígia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
É Lígia, Lígia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia

 

Compositor: Antonio Carlos Brasileiro De Almeida Jobim

 

.-.-.-.-.-.-.

 

Ligia – Ligia Maria, era o nome da minha mãe...Digo era...,porque ela morreu em um acidente de automóvel em 1972, enquanto eu estava longe, além de Cordilheira, exilado em Santiago do Chile... Lembro-me que era um sábado, de repente fiquei triste, não sou dado a melancolia, mas esta tarde de sábado, na cinzenta Santiago, subitamente me baixou uma tristeza do cão (como dizem expressivamente os meus amigos nordestinos, João Cabral de Melo Neto que o confirme...). Nesta época, as comunicações do Exterior com o Brasil eram caras, telefonemas só em ocasiões muito especiais (Natais, fins-de-ano, aniversários..., pedi a minha companheira Beatriz que ligasse para o Brasil...Por que ?, me perguntou ela, não sei, respondi, sinto falta de falar com os meus pais... Feita a ligação minha mãe, Ligia, veio ao telefone...Que bom que você telefonou, eu e o seu pai estamos partindo amanhã para Belo Horizonte, se você não ligasse hoje não nos encontraria...Mal sabia eu que seria a última vez em que nos falaríamos... No dia seguinte me baixou uma tristeza imensa, inexplicável até, de derrubar qualquer Ulisses voltando para a sua Ítaca... De repente tocou o telefone lá em casa, na Alameda Bernardo O’Higgins, a bela avenida do centro de Santiago do Chile, onde morávamos, Beatriz e eu, em um apartamento situado justamente em frente da minha Alma Mater, a Casa Central (nome que se dá no Chile ao prédio principal das universidades) da Universidade Católica... Era um amigo de infância da minha mãe a quem eu muito raramente via...Tenho uma má notícia, me disse... Seus pais sofreram um acidente na rodovia do Rio para Belo Horizonte, seu pai morreu na hora, sua mãe está entre a vida e a morte internada em um hospital...Passados mais de cinquenta anos, nem me lembro mais como reagi... Minha mãe, Lygia, agonizando nos hospital, meu pai morto, meus irmãos certamente aturdidos e sem saber o que fazer... Nos dias seguintes, tratei de conseguir na Embaixada brasileira um salvo-conduto para vir ao Brasil, acompanhar o enterro do meu pai, acompanhar a agonia da minha mãe...”Naquela época” (como dizem os Evangelhos...), nós exilados e perseguidos políticos não tínhamos passaportes, nem documentos... Viajar para fora do país de exílio, só com um  salvo-conduto para sair do país, entrar em outro e voltar ao país de asilo. Fui ao Consulado solicitar o salvo-conduto para entrar no Brasil e poder acompanhar o funeral do meu pai e a minha mãe agonizando no hospital... Não, não e não, disse-me o funcionário consular...Aconselho a você a não retornar ao Brasil...Se for, será preso no aeroporto, ao chegar...Vai causar mais sofrimento a sua família...Maldito burocrata itamarateca ! Maldito embaixador brasileiro em Santiago, Antônio Câmara Cantu, que havia sido convocado ao Itamaraty no Rio de janeiro nos idos de 1968 para perseguir e aposentar os viados do Itamaraty, os artistas e boêmios como o Vinicius de Moraes, os sábios como Antonio Houaiss , o pai do nosso colega do BNDES, Leonardo... Câmara Cantu era o embaixador brasileiro em Santiago ainda em 73, quando do sangrento golpe militar de Pinochet em contra de Salvador Allende, e fechou as portas da Embaixada Brasileira aos brasileiros que buscavam refúgio em contra do terror pinochetista, o mesmo amigo do ditador espanhol Francisco Frtanco que se jactava de haver intermediado a entrega de Armas pelos militares brasileiros aos golpistas chilenos... Malditos militares !, maldito Garrastazú ! Minha mãe morreu 8 dias depois do acidente, longe do seu filho, me senti um próprio Antígona masculino, a personagem da tragédia grega homônima escrita por Sófocles, que queria enterrar o seu irmão Polinices, a quem o rei Creonte proibiu dar sepultura por tê-lo considerado um traidor de Tebas... Eu, um traidor de quem e de quê? Um ex-líder estudantil, exilado no Chile para escapar da perseguição odiosa da ditadura militar aos que a combatiam ? Que havia encontrado no Chile “el asilo contra la opresión” (estrofe repetida três vezes no Hino Nacional chileno, que cantávamos peito estufado nas concentrações políticas em Santiago...). Dias, meses, anos de trevas...Que penem todos estes malditos nas profundezas do inferno de Hades ( na mitologia grega, o Reino de Hades, submundo ou mundo inferior na mitologia grega, é a terra dos mortos, o local para onde a alma das pessoas se dirigiria após a morte. Nesse local as almas passariam por um julgamento, onde seu destino seria decidido. De acordo com a sentença do julgamento, as almas poderiam ser enviadas para três regiões bem distintas: o Tártaro, os Campos Elísios ou o Campo de Asfódelos. No momento da morte, a alma era separada do corpo, tomando a forma da pessoa e era transportada para a entrada de Hades).

Faz pouco meses tomei um choque quando percebi que a minha memória não tinha mais fixada a figura da minha mãe... Ela havia se apagado completamente, por mais esforço que eu fizesse que trazê-la a minha mente... Terrível isto, não ? Lembro-me apenas que a minha irmã Eleni – que nome grego mais bonito,  não ? - que a minha irmã, antes que o Mal de Alzeheimer apagasse inteiramente da sua mente, por sua vez, as suas lembranças, me disse certa vez que a minha mãe tinha entre seus pertences quando do acidente que a vitimou um retrato meu na sua bolsa... Mãe a gente só tem uma !, escutaram ou leram aqui os que ainda não sentiram a perda da sua mãe? ... Meu retrato entre as suas mãos antes de morrer ! Que filho ingrato devo ter sido ! Maldito seja eu também...

MD

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