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quarta-feira, 15 de abril de 2026

A realidade do mal: o julgamento de Adolf Eichmann em 1961, em Jersualém, tese de Hannah Arendt - Zevi Ghivelder (O Globo)

Dica de leitura: Impressionante reportagem de Zevi Ghivelder sobre o julgamento de Eichmann há 65 anos

Artigo:
A realidade do mal
Único jornalista brasileiro a cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, há 65 anos, relembra postura do nazista no tribunal em Jerusalém e contesta tese de Hannah Arendt de que um dos responsáveis pelo holocausto encarnou a ‘banalidade do mal’
Por Zevi Ghivelder
O Globo, 12/04/2026

O criminoso de guerra Adolf Eichmann. Nazista foi capturado pelo Mossad em 1961 e levado a julgamento em Jerusalém — Foto: AFP/11-4-1961

        Na data de 11 de abril, 65 anos atrás completados ontem, um generoso sol de primavera iluminava os tons dourados da cidade de Jerusalém. Naquele dia, às nove horas da manhã, haveria ali um evento histórico: o início do julgamento do criminoso de guerra Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela execução da chamada Solução Final, o extermínio dos judeus na Europa ocupada pela Alemanha nazista.
        Para quem não sabe, ou não se lembra, Eichmann vivia com identidade falsa em Buenos Aires, onde se havia refugiado depois da guerra. Foi capturado em maio de 1960 pelo serviço secreto de Israel e levado para julgamento em Jerusalém.
        O austero auditório de um centro cultural da cidade foi transformado em tribunal, no qual durante seis semanas ocupei o assento número 18, na fila H, designado para a cobertura do julgamento pela revista semanal Manchete. Eu era o único brasileiro, ao lado de umas duas centenas de correspondentes internacionais.         Meu lugar ficava a pouca distância de uma jaula feita com vidros à prova de bala, o banco dos réus. Ao fundo, uma portinhola foi aberta no horário exato para dar passagem ao acusado.

Atento e alheio
        Adolf Eichmann entrou em sua jaula com o olhar fixo em algum ponto distante. Não chegou a se sentar porque todos os presentes, na plateia e no balcão lotados, se levantaram à entrada dos três juízes israelenses que o julgariam. Quando Eichmann ficou de pé, percebi que seu terno azul-marinho e a camisa branca pareciam ser de um número acima do seu tamanho. Não aparentava inquietação, mas não conseguia controlar a mão direita com um leve tremor, pouco perceptível, porém resistente.                 Conservou uma postura firme e ereta naquele momento, que decerto era o mais crucial de sua existência. Seria lugar-comum apontá-lo, naquela circunstância, como um homem frio e intrinsecamente perverso. Era surpreendente sua reação: parecia estar ao mesmo tempo tão atento como alheio àquele acontecimento em que era o foco central. Foi como um autômato que se sentou em frente a uma estreita mesa sobre a qual depositou uma pilha de papéis, que viria a consultar com frequência e sobre os quais fez anotações no decorrer do processo. Em seguida, ajeitou os óculos, colocou fones nos ouvidos para tradução simultânea e fixou o olhar na direção de seu advogado.
        Durante todo tempo observei que, se ele não fosse quem era, poderia ser tomado por um réu de colarinho branco ou um diligente funcionário de repartição municipal, examinando relatórios e anotando pareceres. Ele só demonstrou algum desconforto durante os impressionantes depoimentos de testemunhas do Holocausto. Os relatos dos sobreviventes eram inimagináveis. Enquanto os horrores e as atrocidades nazistas eram descritos, ele torcia o nariz para um lado ou para o outro.
        Somente uma vez o vi tirar um lenço do bolso e passá-lo sobre o rosto.
        O libelo do promotor israelense Hausner começou com um gesto teatral e impactante: ele apontou o braço para a jaula de vidro e exclamou: “Aqui estão ao meu lado seis milhões de inocentes assassinados.”
        O advogado alemão de Eichmann levantou uma objeção que parecia pertinente. Como seu cliente tinha sido sequestrado, e sendo o sequestro um ato ilegal, o julgamento deveria ser anulado. A promotoria estava preparada para essa argumentação. Hausner desfilou uma série de julgamentos em diferentes épocas e localidades, nos quais os réus tinham sido sequestrados e seus procedimentos penais haviam sido validados.
        A defesa tinha outra objeção: era inadmissível Eichmann ser julgado em Israel, onde ele não havia cometido nenhum crime e, portanto, a jurisdição era ilegal.
        O promotor rebateu: Eichmann era responsável por atos criminosos na Alemanha, na Polônia e na Hungria. Qual a jurisdição pertinente? Se fosse a Alemanha, o centro do nazismo, qual Alemanha, a Ocidental ou a Oriental?
        Como não havia uma jurisdição precisa para o réu, arguiu que esta deveria ser a da vítima. Quem era a vítima? O povo judeu. Quem representava o povo judeu? O Estado de Israel. Foi a tese que prevaleceu e, ao cabo do julgamento, Eichmann foi condenado à morte, consumada em julho do ano seguinte.
        As pessoas invariavelmente me perguntam se conheci em Jerusalém a pensadora judia-alemã Hannah Arendt, que cobriu o julgamento para a revista The New Yorker. Na verdade, àquela altura, eu não estava familiarizado com sua obra, nem com sua fisionomia. Mas conheci o pensamento de Arendt quando, um ano mais tarde, li seu livro “Eichmann em Jerusalém”, no qual elaborou uma tese que até hoje viraliza: Adolf Eichmann era a síntese da “banalidade do mal”. Com tal afirmação, expôs que Eichmann, assim como centenas ou milhares de seus similares, tinha sido tão somente um fiel cumpridor de suas obrigações como oficial nazista, não podendo ser diretamente responsabilizado pelos atos malignos que eventualmente tenha cometido. O mal se configurava como uma banalidade interposta em sua trajetória de obediência aos propósitos do Terceiro Reich.
        Hannah Arendt incorreu na negligência de omitir que Eichmann fora designado para chefiar a seção judaica do partido nazista em 1937. Além disso, naquele ano foi enviado para a Palestina para avaliar se os judeus alemães poderiam ser deportados em massa para o território sob administração britânica.
        Também não registrou que coube a Eichmann redigir a ata da Conferência de Wansee, em 1942, na qual foi definida a logística da Solução Final, que ele mesmo implementaria.
        Em seu livro, Hannah Arendt escreve que a Solução Final só pôde ser executada porque contou com a colaboração do establishment judaico. É uma afirmação insidiosa baseada em seu repúdio ideológico a qualquer establishment. Ela classifica como establishment os comitês judaicos que foram formados em guetos com a finalidade de dialogar com os alemães e na medida do possível retardar as deportações para os campos de extermínio. Os próprios membros desses comitês também foram executados.
        A tese da banalidade do mal, que a rigor deve dar lugar à tese da realidade do mal, acabou sendo demolida há dois anos, por conta da descoberta da gravação de uma entrevista que Eichmann concedeu a um jornalista holandês, em Buenos Aires, antes de seu sequestro. A certa altura, ele diz: “Apontam seis milhões de judeus mortos. Acho que poderíamos ter chegado a dez.”

‘Un momentito, señor’
Poucos anos depois do julgamento, fiz grande amizade com Zvi Malkin, conhecido como Zvika, o agente do Mossad que foi incumbido de interceptar Adolf Eichmann na Rua Garibaldi, localizada num subúrbio de Buenos Aires. Zvika me contou muitos pormenores da captura de Eichmann, que nunca foram divulgados. O maior cuidado da equipe de agentes israelenses era se certificar se aquele homem que vinham monitorando à distância era realmente o coronel nazista. Depois, coube a Zvika aprender a dizer em espanhol: “Un momentito, señor.”
        O criminoso nazista desceu de um ônibus e seguiu caminhando, quando foi abordado por Zvika, que lhe disse a frase decorada e deu mais um passo para capturar Eichmann. No entanto, foi ele quem segurou Zvika, e os dois caíram numa vala aberta junto à rua sem calçamento. Outro agente veio em socorro, e conseguiram arremeter Eichmann abaixo do banco traseiro de um automóvel.
        O carro partiu em velocidade e, minutos depois, já com o rosto encapuzado, ele murmurou: “Já sei que vocês são de Israel.”
        Zvika foi o primeiro a se comunicar com Eichmann, que lhe falou sobre a viagem à Palestina. Relatou ter admirado as conquistas dos judeus na agricultura, a modernidade que começava a chegar a Tel Aviv e até aprendeu o verso inicial do “Shemah”, a mais tradicional oração judaica, que recitou em hebraico. Zvika me revelou que quando ouviu aquele texto sagrado dito por Eichmann, soube se conter para não agredi-lo.
        Em outra ocasião, Zvika lhe falou que sua irmã e dois sobrinhos tinham sido mortos numa câmara de gás. Adolf Eichmann respondeu: “Sinto muito. Mas eles eram judeus, não eram?”
        O julgamento de Adolf Eichmann deixou o importante legado de estimular pesquisas e estudos sobre o Holocausto, que hoje se contam aos milhares.
        Além disso, reafirmou um princípio transcendental: cumprir ordens não exime de culpa.

 

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