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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil: prefácio ao livro de André Heráclio do Rego: O século XIX na obra de Gilberto Freyre - Paulo Roberto de Almeida

 Meu colega e amigo André Heráclio do Rego, acaba de publicar seu livro mais recente, para o qual ele me convidou para escrever o prefácio, que reproduzo abaixo:


Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil
Paulo Roberto de Almeida
Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo:
O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República
(Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026).

Sempre gostei de começar os livros pelo fim, isto é, pelo índice remissivo, que pode ser revelador sobre o conteúdo de cada um. Especialmente nos livros americanos, nos quais é obrigatório o Index, tenho o hábito de procurar diretamente o que o autor tem a dizer sobre o Brasil, sobre a América Latina, ou outros assuntos de meu interesse especial. Uma passagem pela bibliografia também é indispensável para constatar a amplitude das leituras do autor, assim como a concentração em determinadas áreas, quando não a descoberta de livros ou autores já conhecidos. Pois foi o que fiz quando percorri o manuscrito deste livro de meu colega e amigo, o historiador André Heráclio do Rego. A última página é ocupada por uma curta nota sobre o autor, apenas cinco linhas: além de doutor em história, seu vínculo a vários institutos históricos e geográficos, a começar pelo IHGB, nacional.
Vou em seguida às referências bibliográficas, ou seja, os livros usados para compor a sua obra: cerca de 40 livros e artigos dos mais pertinentes no tratamento do personagem principal e suas obras voltadas para o século XIX brasileiro, o tema título. O mais importante, porém, é o apêndice que relaciona as mais de cinco dezenas de obras de Gilberto Freyre usadas para compor um panóptico dos sete capítulos substantivos dedicados ao Brasil entre o Império e a República, abordando assuntos tão diversos, e complexos, quanto o movimento da independência, o processo revolucionário (especialmente presente no Nordeste), as singularidades da monarquia, as rupturas e continuidades entre o Império e a República, a questão da unidade nacional, e um pouco de assuntos internacionais, entre o Ocidente e o Oriente, tudo isso para confirmar que o sociólogo de Apicucos (sua residência recifense) era uma espécie de intelectual de sete instrumentos, da antropologia à sociologia, da política à história, passando pela cultura e pelas relações internacionais.
Gilberto Freyre, segundo a opinião de acadêmicos brasileiros de diversas correntes, foi um dos intelectuais mais singularmente antenado com aspectos por vezes corriqueiros da realidade social do país, não ordinariamente focados pelos analistas das grandes questões nacionais, como, por exemplo, sua mania seguir recortes de jornais locais tratando, entre outros assuntos, de compra, venda ou aluguel de escravos para trabalhos domésticos ou até para empreendimentos comerciais. O presente livro de André Heráclio do Riego constitui um notável esforço de síntese interpretativa sobre um dos autores mais fecundos do pensamento social brasileiro. Junto com Oliveira Lima e Manoel Bomfim, Gilberto Freyre foi um dos primeiros historiadores sociais do Brasil. Na verdade, ele foi bem mais do que isso: um antropólogo de formação, tendo estudado com Franz Boas, na Columbia (NY), veio a empreender um levantamento da cultura material e humana do Brasil colonial e imperial, compreendendo não apenas a sua análise da Casa Grande e [da] Senzala, o título de sua primeira grande obra (1933), como também a miscigenação geral do povo brasileiro a partir de suas fontes étnicas, os aportes estrangeiros à cultura material e espiritual, assim como a lenta emergência, a partir da sociedade patriarcal, de formações urbanas ao longo da costa atlântica e no interior próximo, tal como refletida em Sobrados e Mucambos (3 volumes, 1936) e no seu outro clássico, Ordem e Progresso. O extenso subtítulo dessa terceira grande obra, em 2 volumes (1959), revela, aliás, a extensão de seu trabalho analítico: “Processo de desintegração da sociedade patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da Monarquia para a República”.
Gilberto Freyre antecipou, de certa forma, a famosa escola francesa dos Annales, com sua forte ênfase no cotidiano das famílias, nos costumes do povinho miúdo, na alimentação e nas técnicas do trabalho humano; mais de um acadêmico francês em estágio universitário no Brasil dos anos 1930 e 40, na recém fundada Universidade de São Paulo por exemplo, se declarou pronto a reconhecer certa dívida interpretativa em relação ao “mestre de Apipucos”, sua residência e escritório de trabalho no Recife senhorial. Bem antes que entrassem na moda, justamente a partir da USP, críticas à sua visão do mundo patriarcal, supostamente na origem do mito da “democracia racial” no Brasil, muitos acadêmicos brasileiros reconheciam em Gilberto um dos intelectuais que mais se destacaram na tentativa de substituir o “olhar estrangeiro” por um olhar nacional na compreensão do Brasil, inclusive por conta da vastidão de sua obra. Para o historiador Evaldo Cabral de Mello, talvez por uma não secreta simpatia para com o colega e primo pernambucano, a riqueza e a variedade da obra de Gilberto de Mello Freyre exigiriam o “trabalho aturado” de muitos especialistas para ser bem compreendida.
É um fato que, até Freyre, a historiografia brasileira se ocupava muito pouco do lado antropológico da cultura popular como ele o fez desde seus primeiros trabalhos. Capistrano de Abreu se havia aventurado parcialmente pelo lado social da formação do Brasil, e ainda assim de forma esparsa e sem continuidade. “Os historiadores desconheciam o povo, como continuam a desconhecê-lo”, acusou José Honório Rodrigues numa de suas obras historiográficas mais marcadas por seu tradicional antielitismo. A história social brasileira teve, assim, seu iniciador em Capistrano de Abreu e seu continuador no antropólogo e sociólogo pernambucano, “pela maior atenção ao povo, às frustrações psicológicas, às alterações nas relações de família, às atitudes e ajustamentos sociais, às crenças fundamentais”. O mestre de Apipucos sugeriu que sua própria ambição seria a de ser o Ticiano ou o El Greco da história brasileira. Estes dois pintores, bem como Rembrandt, valeriam mais, para tais propósitos, por sua habilidade de evocação da vida e da atmosfera que circundava seus modelos do que pela beleza estrita de suas obras, como o autor escreve na Introdução.
Ganha corpo nesse sentido a interpretação de Evaldo Cabral de Mello da obra de Gilberto Freyre. Para este seu primo, a novidade da sua abordagem consistia na transposição para uma sociedade de tipo histórico, como a brasileira, até então examinada exclusivamente a partir dos métodos diacrônicos da História, da visão sincrônica desenvolvida pela antropologia para a descrição das sociedades primitivas. “O que era então uma ousadia teórica habilitou o mestre de Apipucos a dar uma das contribuições mais originais à cultura ocidental do século XX”, concluiu Evaldo Cabral de Mello.
Oliveira Lima, por quem Gilberto Freyre nutria uma grande admiração, que aliás era recíproca da parte do historiador e diplomata pernambucano, parece ser o sujeito oculto das influências freyreanas, pelo menos durante um certo período. Assim, conquanto o mestre de Apipucos tenha sido um grande divulgador da obra do dom Quixote Gordo, o reconhecimento de sua influência sobre a própria, ademais de escasso, é esporádico. Com a crítica é pior aindaː escreveu-se muito sobre Franz Boas e Gilberto Freyre, sobre o pensamento hispânico na obra freyreana, sobre o Gilberto Freyre vitoriano nos trópicos, mas pouquíssimo sobre a influência de Oliveira Lima, o maior historiador diplomático, mas também da história social do Brasil imperial. A obra de Gilberto Freyre influenciou fortemente a maneira como o brasileiro de hoje vê o seu passado, tendo contribuído, com sua obra de hermenêutica da sociedade nacional, para a valorização do mesmo passado e para a identificação de ligações que a sociedade transpõe do passado para a formação das imagens que, em cada presente, se desenham do próprio presente e, também, do futuro do país.
José Honório Rodrigues, o grande historiador brasileiro autor de livros de referência na metodologia, sempre demonstrou enorme respeito pela obra produzida pelo antropólogo recifense. Já na sua “Introdução Metodológica” à Teoria da História do Brasil (1949), Rodrigues reconhece a contribuição de Freyre para a plena realização do ideal de Martius de se traçar a história do Brasil pelo “estudo do indígena, do colonizador português e do escravo negro na formação da família e da sociedade brasileira”, referindo-se particularmente a Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso:
Se Varnhagen seguiu o plano de Martius, seguiu-o apenas na colheita do material, mas foi Gilberto Freyre que, demonstrando uma enorme capacidade de interpretação, reuniu e selecionou os fatos numa caracterização geral da sociedade e da família brasileiras. (4ª edição, 1978, p. 142)

Também numa obra posterior, A Pesquisa Histórica no Brasil (1952, 1968), José Honório destaca o papel de Gilberto Freyre na sugestão, feita aos próprios diplomatas, para a importância da correspondência consular na investigação sobre a produção intelectual dos historiadores a partir dos arquivos diplomáticos. Em sua seção sobre as “fontes” dessa obra, ele registra numa longa nota de rodapé:
Gilberto Freyre diferencia a correspondência consular da diplomática dizendo [citando seu livro Sociologia, na edição de 1945] que ‘os diplomatas propriamente ditos não se ocupavam em geral senão com o fato ou a ocorrência chamada única. Os cônsules é que nos seus relatórios se entregam principalmente ao registro das recorrências’. A distinção é resultado prático do princípio teórico estabelecido na sociologia, onde, inspirado por Rickert, Gilberto Freyre distinguira o fato sociológico, recorrente e plural, do fato histórico, único e singular. (3ª edição, 1978, p. 144)

Mais adiante, no mesmo volume (p. 197), José Honório chama a atenção para obras menos generalistas de Gilberto Freyre, como o Diário Íntimo do Engenheiro Vauthier, 1840-1846 (1940) e Um Engenheiro Francês no Brasil (1960), como exemplos de pesquisa que descem às minudências de processos microhistóricos, saindo do enfoque geral dos grandes conceitos, privilegiados em trabalhos como aqueles feitos na chamada “escola paulista de sociologia”, no âmbito da qual tinham sido feitas muitas críticas à visão inovadora de Freyre, em especial no tocante às relações raciais na sociedade tradicional.
Mas sua obra não influenciou apenas a visão dos brasileiros sobre o seu próprio passado, assim como a dos estrangeiros sobre o Brasil – pois que ela foi amplamente traduzida no exterior, inclusive em japonês –, mas igualmente a política externa oficial do Brasil, praticamente dominada, dos anos 1930 aos 60, por uma espécie de “lusotropicalismo binacional”, já que servindo a duas ditaduras unidas pelo conceito de Estado Novo, o de Salazar, em Portugal, e o de Getúlio Vargas, no Brasil, e até mais além, marcando a complacência diplomática brasileira com o ultracolonialismo português na África. Gilberto Freyre também foi o primeiro a destacar as conexões entre o Oriente e o Ocidente nesse mundo lusotropical, destacando os valores asiáticos absorvidos pela cultura lusobrasileira, chegando inclusive a falar, no caso do Brasil, de uma “China tropical”, tal como expresso em capítulo final ao seu livro dedicado ao público estrangeiro, New World in the Tropics.
Com sua visão originalíssima sobre essa imbricação de culturas, Gilberto Freyre padeceu, provavelmente, de uma ênfase analítica excessiva sobre seu primeiro grande clássico, causando uma distorção crítica quando da revisão historiográfica e sociológica sobre o regime escravocrata patriarcal da sociedade tradicional, considerada muito “nordestina”. De fato, é uma evidência acadêmica que grande parte dos estudiosos da obra de Freyre verteram um interesse desproporcionado por Casa Grande & Senzala. Como observou Peter Burke, “mesmo tendo sido prolífico em seus escritos e amplo em seus interesses, Gilberto Freyre é mais lembrado por um só livro, publicado em 1933, quando o autor tinha 33 anos”.
O leitor poderá observar no decorrer desta obra do também pernambucano André Heráclio do Rego, diplomata e historiador como Evaldo Cabral de Melo, que a análise de Gilberto Freyre sobre o século XIX não se limitou, de forma alguma, a Pernambuco e ao Nordeste. Ao contrário, sua abrangência é nacionalː o mestre de Apipucos tratou repetidamente de personagens como José Bonifácio e dom Pedro II, e de temas como a unidade nacional e a integridade territorial, ademais do movimento da Independência. O que ocorre é que fez isso em obras esparsas, publicadas em coletâneas, em plaquetes e em artigos de jornal, que na sua maior parte não tiveram a boa sorte de ser reunidas em volume mais vistoso. Esta é a matéria do livro que o leitor tem em mãos, graças à garimpagem muito bem conduzida por André Heráclio.
Ele se baseia num conhecimento profundo dessa obra esparsa de Gilberto Freyre e complementarmente naquelas obras “maiores” mencionadas por Peter Burke e Evaldo Cabral de Mello, ademais de trechos de várias outras em que se fazem referências e considerações sobre o século XIX no Brasil, seus personagens e seus temas. O resultado é um livro que passa a integrar o universo já bastante amplo dos estudos gilbertianos, mas de uma maneira original e inovadora, pois que chamando justamente a atenção para uma série de textos normalmente descurados na literatura interpretativa. Como referido ao início, seu apêndice, referenciando as dezenas de “pequenas” e grandes obras de Gilberto Freyre utilizadas por André Heráclio para compor este verdadeiro vade mecum do pensamento gilbertiano sobre nosso primeiro centenário independente, demonstra a intimidade do autor com o conjunto da obra de seu ilustre conterrâneo. Já sua introdução, ele oferece uma revisão atualizada de uma vastíssima bibliografia centrada no mestre pernambucano, à qual se seguem sete capítulos sobre o longo século XIX, explorando as ricas minas deixadas esparsas na obra multifacetada de Gilberto Freyre.
Destaco em particular a abordagem original do período monárquico, absolutamente fundamental para a preservação da unidade nacional, pois que as tentativas republicanas, no Nordeste e no Sul, poderiam ter levado à fragmentação da nação. Comparece, igualmente, na análise de André Heráclio, a importância da influência oriental na formação da cultura luso-brasileira, normalmente descurada na historiografia e na sociologia tradicionais. O capítulo final, “Considerações e sugestões”, é praticamente uma nova introdução e um convite ao aprofundamento continuado de novas interpretações sobre a densa produção intelectual do mestre pernambucano. André Heráclio não apresenta propriamente conclusões, mas faz algumas sugestões, entre elas esta:
E a primeira delas expressa de certa forma uma síntese do pensamento freyreano sobre a Independência, ao constatar que a pura Independência política não basta por si para que um povo se constitua em nação autônoma. É necessário, adicionalmente, que ela seja acompanhada por uma autonomia cultural ou, em outras palavras, por um estilo nacional de vida.

Aproximando, mais uma vez, Freyre do seu mestre autoexilado em Washington, quando ambos conviveram e aprenderam reciprocamente com as coisas do Brasil vistas de uma nova abordagem, André Heráclio faz uma outra consideração importante para a historiografia nacional:
É importante salientar que Gilberto Freyre, a exemplo de Oliveira Lima, nunca se limitou a ver Pernambuco com exclusividade, sem demonstrar interesse pelo restante do país. Ao contrário, procurou sempre ver a Nova Lusitânia como integrante e participante decisiva do todo nacional, e sem cuja participação o Brasil não existiria tal como é hoje, para o mal e para o bem. É assim que, nas suas análises, como nas do dom Quixote Gordo, destaca-se a participação pernambucana na formação nacional e no movimento da Independência, seja nas suas vitórias, como a de 1654, seja nas suas derrotas, como as de 1817 e 1824.

Ele traça, em suas considerações finais, um vasto panorama da participação das “classes humildes”, os “revolucionários rústicos”, na formação histórica do Brasil, na Independência, no Império e na República, o que faz do Brasil uma “nação única no mundo”, “una e plural no seu modo nacional de ser”, da mesma forma como Gilberto Freyre conseguia ser revolucionário e conservador ao mesmo tempo. No conjunto, a pequena, mas riquíssima, “freyreana” de André Heráclio já constitui – sem esquecer seus outros importantes trabalhos em torno da rica obra historiográfica de Oliveira Lima – um dos mais valiosos aportes ao estudo e ao conhecimento integral da obra de Gilberto Freyre no Brasil e sobre o Brasil.

Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor.
Brasília, novembro de 2025
[Revisto: 8/11/2025]

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