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sábado, 21 de março de 2026

Brasil entre blocos: como o divórcio transatlântico pode redefinir o lugar do país na nova ordem mundial - Armando Alvare Garcia Junior (The Conversation)

 Brasil entre blocos: como o divórcio transatlântico pode redefinir o lugar do país na nova ordem mundia

A atual guerra no Irã funciona menos como “capítulo final” de um conflito regional e mais como gatilho de uma reconfiguração profunda da arquitetura de poder construída desde 1945, centrada na aliança transatlânticae no papel dos Estados Unidos como garantidor de segurança e de liquidez em dólares para o sistema energético global.

recusa de grandes capitais europeias em participar diretamente da campanha militar liderada por Washington contra Teerã, somada às ameaças reiteradas de Donald Trump de que a OTAN se tornou uma “rua de mão única”, revela um divórcio transatlântico qualitativo, mais profundo do que as crises do Iraque em 2003 ou da Líbia em 2011.

No discurso presidencial norte‑americano, a mensagem é explícita: os EUA “nunca precisaram” da OTAN e já não desejam assumir o custo político e financeiro de proteger aliados que se recusam a seguir sua estratégia para o Irã, ao mesmo tempo em que insinuam que a própria permanência na Aliança Atlântica está em debate.

A ruptura com a Europa, porém, não significa isolacionismo, mas um reposicionamento: Washington desloca o centro de gravidade de sua política externa para o Golfo, aprofundando laços com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidosem torno de arranjos transacionais que combinam segurança de regime, fluxos de armamentos e, sobretudo, a preservação — ou reconfiguração em seu favor — do sistema dos petrodólares.

Nesse contexto, a hipótese de uma normalização diplomática entre Israel e Arábia Saudita, se vier a concretizar‑se após a neutralização da ameaça iraniana, funcionaria como peça simbólica e operacional de um novo arranjo regional: uma “OTAN informal” do Oriente Médio, ancorada em Washington e nos principais produtores de energia, com impacto direto sobre o preço e a denominação das exportações de petróleo.

A Europa aparece, nesse cenário, como a principal perdedora de curto prazo: depois de romper, por necessidade e por sanções, sua dependência do gás russo, o continente assiste ao enfraquecimento do “guarda‑chuva” norte‑americano ao mesmo tempo em que se vê pressionado por custos energéticos elevados, incertezas na guerra da Ucrânia e divisões internas sobre investimento em defesa.

Brasil ocupa hoje uma posição singular no mercado energético global

Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje uma posição singular no mercado energético global: graças ao pré‑sal, o país tornou‑se exportador líquido de petróleo e viu o óleo cru ascender ao topo de sua pauta exportadora, com produção crescente, alto teor de qualidade e custos competitivos em comparação a outros produtores.

Esse novo ciclo petrolífero ocorre em paralelo à consolidação do Brasil como grande fornecedor de alimentos e fertilizantes processados, o que o coloca num lugar estratégico em meio a choques de oferta provocados pela guerra na Ucrânia, pelas sanções à Rússia e por eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz

Do ponto de vista geopolítico, o Brasil combina três ativos raros: participa de arranjos com o Ocidente (acordos com a União Europeiainterlocução com os EUA), integra o núcleo dos BRICS e dialoga com potências energéticas do Sul Global, o que lhe permite circular entre blocos e, em tese, capitalizar a fragmentação da ordem internacional.

Se o “divórcio transatlântico” e o pivô norte‑americano para o Oriente Médio abrem oportunidades para o Brasil diversificar mercados, ganhar poder de barganha em energia e alimentos e reforçar seu discurso de liderança do Sul Global, eles também trazem riscos: maior volatilidade de preços, pressão para alinhamentos automáticos e erosão de espaços multilaterais onde o país tradicionalmente projeta influência.

A médio prazo, o redesenho da segurança energética pode reposicionar o Brasil nas disputas regulatórias e ambientais globais: um país que combina grande produção de petróleo com liderança em biocombustíveise matriz elétrica majoritariamente renovável tende a ter mais voz em debates sobre transição energética justa, taxonomia verde e financiamento climático.

Esse capital normativo, porém, só se converterá em influência se for articulado de forma consistente com a política externa e com as posições brasileiras em fóruns como a COP, a OMC e o G20.

Outro vetor decisivo será a capacidade do Brasil de usar o momento para fortalecer cadeias industriais e tecnológicas, em vez de se limitar ao papel de exportador de commodities. Ganhos extraordinários com petróleo, grãos e fertilizantes podem financiar infraestrutura, inovação e reindustrialização verde, mas também podem alimentar a “doença holandesa”(dependência de exportações que desindustrializa) e aprofundar dependênciasse não forem ancorados em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.

Articulação com restante resto do Sul Global

Por fim, a margem de manobra brasileira dependerá de como outros atores do Sul Global – em especial Índia, África do Sul, Indonésia e países do Golfo – se posicionarem diante do “divórcio transatlântico”. Se convergirem para agendas comuns em temas como reforma das instituições de Bretton Woods e regras de comércio de bens verdes, o Brasil poderá atuar como articulador de coalizões flexíveis; se prevalecerem agendas fragmentadas, sua capacidade de “surfar” a fragmentação da ordem será bem mais limitada.

Em última instância, o futuro do Brasil nesse cenário dependerá sobretudo das escolhas internas: transformar vantagens materiais em autonomia estratégica exige coordenação entre política externa, energética, industrial e ambiental, além de uma leitura realista dos limites de sua influência. A questão central é se o país tem projeto próprio para negociar, resistir e, quando possível, moldar as novas regras do jogo internacional.


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