Introdução "literária" à terceira lista dos melhores trabalhos de Paulo Roberto de Almeida divulgados por meio do blog Diplomatizzando, a partir de 2015 e alguns anos à frente.
Continuidade das listas (n. 5357 e n. 5361) dos melhores trabalhos divulgados através do blog Diplomatizzando, que tinha sido iniciado em 2006, ao cobrir mais alguns anos de vida do blog.
Eu escrevo demais, eu sei: todos os dias, praticamente, sobre todos os temas que me caem, literalmente, “sur la tête”, parafraseando o chefe Abraracourcix, da série Asterix, que li intensamente durante meus sete anos de autoexílio europeu (1970-77). Escrevo muito porque leio muito, e sempre estou pensando sobre o que li, ou visualizei (agora mais intensamente nas redes de comunicação social, que, concretamente, “nous tombent sur la tête”, todos os dias, todas as horas, a cada minuto, mais exatamente. Antigamente, nos tempos do impresso, eram apenas livros, revistas e jornais, lidos avidamente, nas bibliotecas, no recesso do lar, nas aulas dos vários ciclos de estudos, nas bancas de jornais, atualmente tudo o que nos chega por e-mail no computador ou em tablets e celulares, no formato digital, eletrônico, escrito, falado.
Escrevo muito, repito, porque talvez eu fale pouco, a despeito de Carmen Lícia, que lê muito mais do que eu, dizer que eu falo muito, mas isso só nas palestras e entrevistas que me “caem”, literalmente “sur la tête”, resultado de convites, justamente surgidos a partir do que eu escrevi, em meus livros e artigos, mas que desde o início dos anos 2000, ou seja, o presente milênio, se converteram em postagens em meus blogs e em outras ferramentas de comunicação social. Antigamente, no Ancien Régime do impresso, meus instrumentos de expressão social se resumiam aos artigos que eu publicava em revistas acadêmicas ou aqueles mais curtos em periódicos diários. A partir da explosão da internet e das ferramentas surgidas dessa revolução comunicacional passei, timidamente ao início, a me expressar publicamente por meio de blogs gratuitos, ou de sites (também gratuitos) oferecidos por algumas empresas que se lançaram nesse vasto mercado dos instrumentos de comunicação social (Geocities, por exemplo, ainda preservado em alguma camada geológica do vasto mundo da internet).
Muita coisa mudou, para mim, a partir do Blogspot, um serviço gratuito de hospedagem e criação de blogs oferecido pelo “santo” Google. Depois de lutar, sem domínio técnico adequado sobre a construção de meus sites (gratuitos ou com domínio próprio), a “descoberta” do blog da Google foi uma “arca de Noé” na vastidão aberta pela internet no contexto das novas ferramentas de comunicação social. De repente, todos nós, que éramos dependentes de algum jornal ou revista, de alguma editora complacente com nossos alfarrábios, nos tornamos, ao mesmo tempo, escritores, jornalistas, revisores, editores, publicistas, divulgadores de todas as coisas abertas ao nosso engenho e arte. Creio que só fui “apresentado” ao Google em meados de 2000, depois de já ter conhecido o Yahoo, Hotmail e algumas outras ferramentas abertas livremente às nossas necessidades de comunicação e de expressão aberta para, literalmente, toda a humanidade.
É preciso repetir, para reafirmar a enormidade da revolução que nos “atinge” desde as últimas décadas do século XX. Pela primeira vez na História, desde a criação da escrita, algo como 10 mil anos atrás, desde os manuscritos transmitidos e guardados em seus diversos suportes materiais (argila, couro, papiro, pedra e papel), depois superados pela invenção da imprensa (primeiro na China, que também inventou o papel, depois na Europa de Gutenberg) e a disseminação da palavra escrita, passamos a ter, com a revolução dos meios eletrônicos de produção e divulgação de saberes, nas poucas décadas da quarta ou da quinta revolução industrial, praticamente todo o conhecimento acumulado pela Humanidade nos últimos 5 ou 7 mil anos acessível e transmissível de maneira fácil e, sobretudo, livremente, gratuitamente.
Do meu primeiro site, construído artesanalmente, ao primeiro blog, já no Blogspot da Google, posso dizer que iniciei uma pequena revolução na divulgação de meus escritos, coisas que vinha fazendo desde a primeira juventude, depois mais intensamente, ao me descobrir uma alma de acadêmico, ou seja, alguém mais afeto à palavra impressa do que à construção de coisas práticas. Foram vários, muitos interrompidos por minha incapacidade pessoal em lidar com as “engrenagens” – já que sempre fui avesso a ler manuais, até bulas de remédios –, substituídos por novos, até que me fixei no Diplomatizzando, como já esclareci, em meados de 2006. Ainda assim manteve vários outros paralelos – para resenhas de livros, setoriais (como eleições no Brasil) ou objetos da atenção temporária – até que interrompi a pletora de ferramentas oferecidas como “free lunch”, para me concentrar neste blog.
Ele passou a me servir para tudo: transcrever matérias da imprensa especialmente relevantes, trabalhos de outros colegas acadêmicos liberados para leitura aberta, meus próprios escritos circunstanciais ou mais elaborados, até a divulgação de livros ou artigos inteiros normalmente entregues a editoras ou periódicos consagrados, inclusive passando a substituir o site de domínio pessoal mantido durante vários anos (o pralmeida.org, mais recentemente convertido em pralmeida.net, ainda em construção). O Diplomatizzando, em iniciativa não planejada ao início, tornou-se minha principal ferramenta de produção, de divulgação e de acumulação de textos os mais diversos, meus ou de terceiros, servindo assim de “biblioteca” ou de repositório de informações úteis, que podem ser consultadas segundo as necessidades do momento, e isso graças à estabilidade concedida gratuitamente pelo Google (o que não ocorreu com um antigo provedor de espaço para o meu pralmeida.org, que falhou miseravelmente quando eu já havia acumulado alguns milhares de artigos e muitos livros).
Este blog Diplomatizzando se converteu, assim, no meu cartão de visitas, no meio principal de comunicação de que disponho para interagir socialmente e academicamente, agora desafiado por meios mais ágeis e quase universais, como o antigo Twitter, o Facebook e outras ferramentas, que domino mal, incompetente que sou nessas novas tecnicalidades. O acúmulo de postagens, não calculadas no começo desta aventura, tornou-se propriamente gigantesco, pelo que posso computar a partir da própria coluna que registra o número delas: somei 30.612 postagens, de junho de 2006 a junho de 2026, ou seja, uma média de 1.530,6 postagens por ano, ou mais de 4 postagens por dia. Por outro lado, segundo o contador do blog, existe o registro de 23.375.494 visualizações cumulativamente, 23 milhões. Para ser sincero, eu não dou muito crédito a esse tipo de contagem, pois pode haver muitos acessos automáticos de instrumentos de busca, e fica difícil contabilizar o que é, realmente, interesse real de um navegante curioso por saber alguma coisa, sem que ele se dirija precisamente ao meu blog, apenas lançou o anzol com isca no mar da internet.
De quando em quando, eu vou ao Layout do blog para verificar os comentários, que não são verificados imediatamente (como ocorre em outras ferramentas de comunicação), mas precisam ser acessados diretamente pelo seu controlador, e percorro as mensagens deixadas, algumas diretas a este anarco-blogueiro, muitas outras puro junk, mensagens me convidando para juntar-me aos persistentes adeptos da seita alucinada dos Illuminati (que segundo o historiador Niall Ferguson até tiveram algum papel no movimentos conspiratórios pré-contemporâneos). O fato dessa seita persistir, pelos convites repetidos que recebo para me juntar ao contingente indefinido de iluminados, parece indicar certo número de adeptos, ou então, alguma instrução mecânica dada aos robôs que pululam por aqui. As mensagens sérias, digamos assim, eu autorizo (mesmo as opostas ou raivosas contra este blogueiro) e faço publicar, algumas até respondo pessoalmente, mas não vou verificar o resultado.
Finalmente, não posso deixar de registrar o esforço persistente de meu amigo e “olheiro” do Diplomatizzando, Airton Dirceu Lemmertz, que sempre seguiu minhas postagens, desde vários anos, mas que nos últimos meses tem conduzido um exercício dos mais interessantes, e úteis para mim, que consiste em consultar sistematicamente essa nova ferramenta da 5ª revolução industrial, que é a Inteligência Artificial, que eu chamo carinhosamente de Madame IA. Ela tem identidade, e dono, que é o próprio Google, e se chama oficialmente Gemini AI (mas o Airton também já submeteu minhas postagens a várias outras espécies da mesma família). Madame IA se debruça não apenas sobre as postagens correntes, como sobre as do passado (que são milhares) e delas retira certas características mais ou menos permanentes desse meu “quilombo de resistência intelectual”, como eu chamo esta pequena ferramenta. Resistência a quê, exatamente, poderiam perguntar os incautos ou distraídos? Em primeiro lugar à burrice, algo muito disseminado em certas esferas, mas também a desonestidade e a promiscuidade nos meios políticos, assim como a certos true believers, ideólogos, militantes de certas causas, fanáticos de algumas crenças políticas, que deformam a racionalidade das políticas públicas. Minha área de atenção é mais frequentemente a política externa do Brasil e a diplomacia corporativa, mas também costumo meter o bedelho onde não sou chamado, sobretudo políticas econômicas, livros, assuntos culturais, em geral.
Dito tudo isto, encerro esta já longa introdução, e dou prosseguimento à minha terceira seleção das postagens mais interessantes do Diplomatizzando, centrada, como já informado, nos meus próprios textos que apresentam certa resiliência substantiva, acima e além do caráter passageiro, ou circunstancial, da maior parte das postagens feitas cotidianamente. Num próximo exercício vou fazer uma seleção das seleções, repartida por grandes áreas temáticas sob meu escrutínio constante. Não sei quanto tempo darei continuidade a este exercício, e Madame IA tem feito um trabalho excepcional, ao registrar algumas pérolas já caídas no meu esquecimento. Agradeço a esta senhorita, ainda bem jovem, assim como a meu colega de divertissement blogueiro, sempre a favor do conhecimento e contra a burrice e a desonestidade intelectual. Allons enfants, mettez un peu d’efforts...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5365, 23 junho 2026, 4 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (23/06/2026; link: