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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Brasil precisa superar ‘armadilha do populismo’ após Lula, diz ex-governador Paulo Hartung - Leonardo Rodrigues (IstoÉ)

Brasil precisa superar ‘armadilha do populismo’ após Lula, diz ex-governador


Em entrevista à IstoÉ, Paulo Hartung afirmou que governos preferiram 'gastança' a responsabilidade e apontou políticos que podem mudar o cenário

Leonardo Rodrigues
08/02/26 - 10h01minEmBrasil
Atualizado em08/02/26 - 10h15min

https://istoe.com.br/brasil-precisa-superar-populismo-apos-lula-entrevista-paulo-hartung

O Brasil precisa “dar um passo à frente e sair da armadilha do populismo” após a conclusão do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo Paulo Hartung (PSD), ex-governador do Espírito Santo.
Em entrevista à IstoÉ, o economista defendeu que a organização das contas públicas do país depende de uma “liderança disposta” a fazer reformas impopulares no Palácio do Planalto.
“Estamos em um ciclo populista, que não começou com o atual governo [Lula], mas o populismo não dá caminhos. A sociedade brasileira tem maturidade para isso [ajuste fiscal], mas dependemos de uma liderança“, disse Hartung, que chefiou três vezes o Executivo capixaba, foi senador, prefeito de Vitória e se consolidou como conselheiro buscado por políticos do centro à direita.
Brasil pode cuidar das contas e enfrentar pobreza, diz Hartung
Candidato à reeleição, Lula começa o último ano de mandato com o menor desemprego da série registrada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a extrema pobreza reduzida a 3,5% da população e os brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês isentos de pagar o Imposto de Renda.
Ao mesmo tempo, o Governo Central registrou um déficit primário de R$ 61,69 bilhões, pressionado pelo aumento de gastos em Previdência Social e BPC (Benefício de Prestação Continuada), as estatais geraram um prejuízo de R$ 8,6 bilhões aos cofres públicos e a carga tributária da população, que aumentou, deve crescer ainda mais.
Na avaliação do ex-governador, o cenário de aparente dicotomia entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento social é uma farsa e reflete os caminhos equivocados do Executivo. “Só cuida das pessoas quem cuida das contas. Não adianta fazer um ciclo de desenvolvimento artificial e empurrar os problemas, que serão pagos pelo sucessor e pelo povo“, disse.
“Quando você desorganiza as expectativas na economia, há efeitos colaterais, como uma taxa Selic a 15%, que só se vê na Ucrânia, um país em guerra. Os juros elevados pegam a dona de casa, que resolve trocar o fogão e paga dois fogões e meio em parcelamento. Cortar gastos não é atingir os programas sociais. Pelo contrário, reduzir o desperdício no setor público permite que você tenha recursos para melhorar esses programas“, afirmou Hartung, citando políticas dos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Michel Temer (MDB) como exemplos de responsabilidade com as contas públicas.
Apesar das críticas ao “ciclo de populismo” da política brasileira, o ex-governador apontou novas lideranças capazes de promover a superação desse modelo ao chegar à Presidência “em 2026 ou 2030”. Mais à esquerda, foram citados na entrevista o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o prefeito do Recife, João Campos (PSB).
No outro espectro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e os governadores do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), todos pretendentes ao Planalto neste ano e seus colegas de partido — ambos aparecem atrás de Lula e Flávio Bolsonaro (PL), porém, nas pesquisas de intenção de voto.
No seu próprio caso, Hartung afirmou à IstoÉ que se dedica à construção de um programa de caráter nacional e à formação de novas lideranças para o PSD e decidirá entre julho e agosto sobre sair ou não candidato em outubro — ele é cotado para concorrer novamente ao Senado pelo Espírito Santo.

Leia a íntegra

IstoÉ O terceiro governo Lula tem números positivos na redução da pobreza e negativos nas contas públicas. Como romper essa aparente dicotomia?
Paulo Hartung Cunhei uma frase que, de certa forma, caminha na direção desta resposta: ‘Só cuida das pessoas quem cuida das contas’. Não adianta fazer um ciclo de desenvolvimento artificial, aquilo que nós economistas chamamos de voo de galinha, porque pode ser até que você não pague a conta, mas o governo sucessor e o povo vão pagar.
Por isso, nós precisamos sair desse populismo prolongado que estamos vivendo. O populismo gosta muito de falar nos pobres, mas os erros de política econômica geram uma conta a ser paga justamente pela população mais pobre, como mostram eventos do passado brasileiro.
Mesmo com crescimento de receita, a carga tributária brasileira teve um aumento superior à inflação [em 2025] e a dívida-PIB cresce na direção de chegar aos 80% de tudo que o país produz. Quando você desorganiza as expectativas na economia, há efeitos colaterais. Um deles é a taxa Selic em 15%, o que só se vê no mundo na Ucrânia, um país que foi invadido pela Rússia e está em guerra. Dizem que isso é sentido apenas pelo grande empresário, mas não é verdade: a dona de casa, quando resolve trocar o fogão de casa, está pagando essa taxa de juros ao ter de pagar dois fogões e meio [em juros sobre o parcelamento].
É necessário cortar desperdícios na máquina pública. No meu último ciclo como governador [de 2015 a 2018], enfrentei uma recessão brutal, a maior redução da atividade econômica da história do país. Eu implantei dois programas, chamados Escola Viva e Regime de Colaboração, e onde arranjei dinheiro para isso? No desperdício da própria Secretaria de Educação.
O desperdício no setor público brasileiro é brutal, em todas as áreas. Muita gente fala que cortar gastos públicos atinge os programas sociais, mas na realidade é o contrário: se você corta um gasto, viabiliza recursos para melhorar um programa de transferência de renda, por exemplo. Na vida, há o caminho fácil e o caminho certo. O Brasil, reiteradamente, tem escolhido o caminho fácil.

IstoÉ Os governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os dois primeiros do presidente Lula promoveram desenvolvimento social e responsabilidade fiscal de forma equilibrada, mas houve uma ruptura nas gestões seguintes. Por que o Brasil retrocedeu neste sentido?
Paulo Hartung Se estamos em um regime presidencialista, precisamos que nosso líder maior ajude a conduzir o país nesta direção. Fernando Henrique criou a Lei de Responsabilidade Fiscal [em 2000], eu era senador na época, votei e ajudei na tramitação.. O [Michel] Temer, quando chegou [à Presidência da República, em 2016], com a desorganização fiscal do país, fez o teto de gastos. Você pode discutir essas ferramentas, mas ambas entregaram resultado.
Quando há uma liderança no Executivo disposta a organizar essas questões, consegue apoio no Parlamento, na Justiça, na sociedade, no Ministério Público, nas outras instituições de governo. Isso depende muito do líder. Nós estamos dentro de um ciclo populista — não começou com o atual governo, vamos ser honestos intelectualmente, estamos num ciclo. Nós dependemos muito da liderança. A sociedade brasileira tem maturidade para isso [reformas fiscais]? Claro que tem. Se você tiver um líder conversando, explicando, convencendo.
É por isso que eu torço para a evolução desse ciclo populista para um ciclo de novas lideranças. Em 2018, não havia [novas lideranças], mas hoje há. Quando você olha para os governos subnacionais, tem muita gente qualificada e que deseja ser presidente da República, agora ou em um futuro próximo. É trabalhar para que o país dê um passo à frente e saia dessa armadilha do populismo.

IstoÉ O PSD tem três pré-candidatos à presidência da República e ligações tanto com Lula quanto com Bolsonaro. Qual será seu papel no partido nas eleições de 2026? Será candidato a algum cargo?
Paulo Hartung O Gilberto Kassab [presidente do PSD] me convida a entrar partido desde a fundação. Neste último convite [que foi aceito], ele me pediu para ajudar no trabalho programático do partido. O PSD está sendo craque em juntar gente, mas precisa construir uma linha programática forte para pensar o Brasil de hoje e do futuro.
Desde que a legislação proibiu coligações proporcionais e criou a cláusula de desempenho [em 2017], o número de partidos está diminuindo. Isso é bom e impõe que cada um deles se esforce para ser programático e formar novas lideranças — que foi o segundo pedido que o Kassab me fez. Estou cumprindo esta missão.
Não descarto disputar uma nova eleição, mas também posso continuar trabalhando no campo das ideias ou atuar como cabo eleitoral no meu estado, ajudando jovens a chegarem na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados, Senado ou governo. Meu tempo [para definir a candidatura] é diferente, porque estou na iniciativa privada e não preciso me desincompatibilizar. Ele vai de 20 de julho a 5 de agosto [período das convenções partidárias], quando terei de decidir se coloco o barco para navegar ou sigo trabalhando no campo das ideias, porque nunca vou deixar a política, mesmo sem disputar mandato eletivo.
Entre julho e agosto, tomarei essa última decisão. Mas me sinto muito feliz. Disputei oito eleições na vida e exerci oito mandatos. Só não consegui ser presidente da República ou vice-presidente — o que seria até mais compatível para um líder de um estado com eleitorado pequeno, como é o Espírito Santo. O mais importante é seguir contribuindo para que o Brasil consiga evoluir, parar de repetir erros e transformar seu potencial em oportunidade para os seus filhos, principalmente os mais jovens.

domingo, 10 de novembro de 2024

Trump ‘não quer construir pontes’ e desafia diplomacia econômica brasileira, diz ex-ministro Celso Lafer - Leonardo Rodrigues (Istoé)

Trump ‘não quer construir pontes’ e desafia diplomacia econômica brasileira, diz ex-ministro Celso Lafer

Leonardo Rodriguesi

https://istoe.com.br/autor/leonardo-rodrigues/ 

Istoé, 10/11/2024

https://istoe.com.br/trump-nao-quer-construir-pontes-e-desafia-diplomacia-economica-brasileira-diz-ex-ministro-celso-lafer/

+Distância entre Lula e Trump não afetará proximidade do Brasil com os EUA, diz ex-chanceler

Depois que Donald Trump foi eleito para a Presidência dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem um histórico de declarações críticas ao republicano, não tardou a parabenizá-lo pelo resultado da eleição.

O gesto refletiu a preocupação do petista em preservar relações com o segundo maior parceiro comercial brasileiro, cujo mandatário eleito prometeu adotar uma agenda de conservadorismo político e protecionismo comercial. “Trump ressuscitou a corrente de isolacionismo dos EUA, movida por desconfiança no comércio internacional e nos engajamentos internacionais”, afirmou Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, ao site IstoÉ.

Lafer chefiou o Itamaraty quando Fernando Collor (PRN) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) eram presidentes e ainda foi ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, em períodos que tinham políticos de diferentes orientações na Casa Branca. Nesta entrevista ao site IstoÉ, o ex-chanceler analisou os desafios impostos por Trump para a diplomacia brasileira e, dada a influência do país que governará, para as relações globais de poder.

Leia a seguir a íntegra:

IstoÉ O presidente Lula tem um histórico de manifestações críticas a Donald Trump. O senhor acredita que as divergências podem impactar as relações políticas e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos?

Celso Lafer O presidente Lula não exerceu o realismo da prudência democrática ao manifestar publicamente simpatia pela candidatura de Kamala Harris. Sua manifestação é, no entanto, compreensível, e não apenas em função da sua identidade política, mas da existência de um terreno comum com o governo Biden, em matéria dos desafios da agenda global do meio ambiente, da transição energética e da importância atribuída à democracia e aos direitos humanos. Na campanha deste ano, Trump se contrapôs a esses itens de forma ainda mais incisiva do que no seu primeiro mandato.

Objetivamente, porém, é com o futuro governo Trump que a diplomacia de Lula precisará conviver, da melhor maneira possível, tendo em vista a relevância dos EUA no mundo. Daí a pronta clareza realista com a qual Lula transmitiu os seus cumprimentos a Trump, por uma eleição que teve o inequívoco respaldo do eleitorado americano.

“Havia um terreno em comum entre os governos de Lula e de Biden”.

A diplomacia americana comporta muitas facetas, o que dificulta a identificação de um foco privilegiado de atenção ao Brasil na próxima presidência de Trump — o que deve dar ao governo Lula uma margem de calibração para a moldura das relações entre os dois países. Nessa calibração, o presidente contará com os quadros do Itamaraty e sua capacidade de desdramatizar o potencial de tensões.

IstoÉ Tendo em perspectiva as diferentes experiências que o senhor teve no Itamaraty, qual é sua avaliação da postura diplomática do governo Lula 3?

Celso Lafer Fui ministro das Relações Exteriores em um momento distinto da sociedade brasileira, que não se caracterizava pelos atuais conflitos de polarização e por um movimento internacional de ascensão política autoritária da direita. Havia mais abertura à cooperação, mais condições para o exercício do nosso “soft-power” e, consequentemente, para a elevação do patamar de presença do Brasil no mundo.

O mundo com o qual o Lula 3 se confronta é permeado por tensões regionais e internacionais de poder, que propiciam o retorno do papel da geopolítica, das securitizações das economias nacionais e do impacto da geografia das paixões.

No meu período de Itamaraty e mesmo nos mandatos anteriores de Lula, não havia uma tensão de hegemonia como a que existe entre EUA e China e nem conflitos bélicos de alcance geral, como os que acontecem na Ucrânia e na Palestina.

“A sociedade brasileira não atravessava os conflitos da polarização e um movimento internacional de ascensão política autoritária da direita”.

A América do Sul, por sua vez, é mais fragmentada e heterogênea, e menos propícia a uma onda positiva verificada nos mandatos anteriores do presidente, o que aliás também caracterizou, em outros moldes, minha experiência como ministro.

Dito isso, concluo que o desafio diplomático de Lula 3 é calibrar a presença do Brasil no mundo, navegando sem intensificar conflitos entre próximos e distantes, e sem esbarrar nos rochedos subjacentes de um “Mar de Sargaços”. Essa calibração pressupõe equilíbrio e, igualmente, a constante melhoria da governança interna, cujo aprimoramento é sempre fonte de prestígio internacional.

IstoÉ Quanto a Trump, quais são os sinais dados pelo presidente eleito americano em relação à postura diplomática e às relações com outras nações para seu novo mandato?

Celso Lafer Neste contexto de um mundo crescentemente perigoso, Trump agrega a imprevisibilidade de seu modo de ser, um amplo controle sobre Washington que a amplitude de sua eleição lhe assegurou e a consequente erosão dos tradicionais freios e contrapesos do sistema político americano. A isto, se somam os novos perigos de alcance do relacionamento entre dinheiro e poder que a relação Elon Musk-Trump tem condição de propiciar.

Tudo isso tende a aumentar o desafio da gestão das independências e suas externalidades, criando novos obstáculos à construção de consensos internacionais. Esses foram sempre uma nota de atuação da competência diplomática brasileira, cujo espaço de permissibilidade está reduzido.

IstoÉ Trump manifestou, durante a campanha, a intenção de adotar políticas comerciais mais protecionistas e enrijecer políticas anti-imigração. Em que medida essa agenda afeta as relações com o Itamaraty?

Celso Lafer Lema de Trump, o “Make America Great Again” (“Faça a América Grande Novamente”, em português) é uma explicita condenação do internacionalismo americano, que teve um papel na construção da ordem mundial do pós-guerra e o respaldo de governos democratas e republicanos.

Essa condenação se viabilizou com as mudanças tecnológicas e a fragmentação das mídias que ensejaram as distorções e notícias falsas, que ensejaram notícias falsas e alcançaram setores da sociedade que se sentiam marginalizados pelas mensagens do Partido Democrata. Trump ressuscitou assim, em novos moldes, a corrente do isolacionismo dos EUA, movida por desconfiança no comércio internacional e nos engajamentos internacionais de todo tipo.

“Trump ressuscitou a corrente de isolacionismo dos EUA”.

Trump impulsionou a hostilidade em relação à imigração, aguçada pelo ímpeto que declaradamente dará a deportação de milhões que estão — ilegalmente — habitando o território americano. O republicano não quer construir pontes, mas vai se dedicar a construir muros com a ideia de colocar seu lema em prática.

No plano econômico, a elevação de tarifas é o instrumento de ação preferida para alcançar isso, o que abrirá espaço para guerras comerciais. Ao mesmo tempo, em seu governo haverá um esforço de contenção da penetração da economia chinesa no mundo, o que impactará todos os parceiros comerciais dos EUA, inclusive o Brasil, que é um importante exportador de produtos para a economia americana. Esse acesso será dificultado pela agenda de Trump, o que exigirá empenho redobrado na promoção competitiva e ajustes para a diversificação de nossas exportações. Em síntese, há um novo desafio para a diplomacia econômica brasileira.


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