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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Lições da China para o Brasil - Jorge Arbache (Valor Econômico)

 Lições da China para o Brasil

Vantagens naturais, se combinadas a estratégias, podem ser convertidas em poder produtivo, comercial e até geopolítico

Jorge Arbache

É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)

Valor Econômico, 15/05/2025


        A elevada dependência da China por importação de energia para tocar o seu crescimento se converteu em um dos seus principais pontos de vulnerabilidade estratégica. No entanto, em vez de tratar essa limitação apenas como um problema a mitigar, a China transformou a sua insegurança energética em um dos motores de industrialização, inovação tecnológica e até liderança global.

        O que poucos anteciparam foi que aquela transição, movida por uma necessidade defensiva, se tornaria uma ofensiva econômica de longo porte e alcance. E é justamente aí que reside uma lição essencial para o Brasil: a de que vantagens naturais, se combinadas a estratégias, podem ser convertidas em poder produtivo, comercial e até geopolítico.

        De fato, a China se tornou o maior importador mundial de petróleo por volta de 2017, boa parte transitando pelo Estreito de Malaca, um gargalo vulnerável a tensões geopolíticas. Mas a China talvez seja ainda mais vulnerável aos efeitos de um eventual conflito internacional que dificulte o trânsito de suprimentos pelo Mar da China. Para um país que persegue soberania estratégica, essa dependência poderia ser considerada inaceitável.

         A China buscou reduzir essa vulnerabilidade não apenas substituindo fontes de energia, mas criando todo um novo ecossistema industrial em torno de tecnologias limpas: energia solar e eólica, baterias, veículos elétricos, hidrogênio, infraestruturas digitais verdes e muito mais. Trata-se de uma mudança de paradigma. A transição energética não foi tratada apenas como uma exigência ambiental, mas como parte de um projeto de autonomia, modernização produtiva e inserção internacional ativa.

        O governo chinês articulou instrumentos de política industrial, inovação e comércio para dar suporte e catalisar aquela transformação: planejamento de longo prazo com metas específicas para fontes renováveis, eficiência energética e tecnologias emergentes; demanda doméstica estruturada, com incentivos para geração solar, aquisição de veículos elétricos, desenvolvimento de redes de carregamento e políticas de compras públicas; formação de campeões nacionais, com apoio financeiro, regulatório e tecnológico a empresas; controle das cadeias críticas, com domínio do refino e processamento de minerais como lítio, cobalto, terras raras e grafite; e financiamento externo como projeção de influência, com exportação de equipamentos e infraestruturas por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota. Esta última, parte da resposta chinesa às suas vulnerabilidades estratégicas, não por acaso mirou investimentos logísticos de conectividade para o oeste da Ásia.

        Como resultado, a China está ampliando significativamente a sua matriz renovável e construiu liderança global em cadeias de valor fundamentais para levar adiante a agenda de mudança climática - em 2024, 2/3 dos novos investimentos em renováveis em nível global tiveram lugar na China. Assim que, de importadora líquida de energias, a China passou a ser exportadora de soluções energéticas limpas. Tudo isto ajuda a explicar o presidente Xi estar assumindo protagonismo mundial na agenda climática.

        O superávit comercial e tecnológico gerado por essa industrialização verde passaria, portanto, a financiar, em alguma medida, o próprio projeto de autonomia e segurança energética. Se a agenda do clima fortalece a posição política e econômica da China, é plausível supor que isso ajude a explicar por que os Estados Unidos se afastaram do Acordo de Paris e de outras iniciativas climáticas.

        O Brasil, ao contrário da China, não parte de uma condição de escassez energética. Ao contrário: tem uma das matrizes mais limpas do mundo, com cerca de 90% da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis. Além disso, tem vastos capitais e recursos naturais, como sol, vento, água doce, biomassa, florestas, biodiversidade, terras férteis e muitos minerais críticos, incluindo nióbio, cobre, lítio, grafite e minério de ferro de alto teor, além de grandes reservas de terras raras. O país também tem reconhecida capacidade industrial, universidades e empresas com experiência em tecnologia e produção.

         Transição energética e capital natural, quando bem articulados, são mais do que uma mudança de matriz

          A grande diferença está na forma como essas vantagens são mobilizadas. Enquanto a China usou a transição energética como eixo de política de desenvolvimento nacional, o Brasil ainda trata essas vantagens majoritariamente como ativos a serem explorados de forma primária, imediatista e predatória, com baixa agregação de valor, fragmentação institucional e ausência de estratégia coordenada.

         Mas isso pode mudar. A nova lógica de realocação produtiva no mundo, movida pela busca por cadeias mais verdes, seguras e resilientes, abre espaço para a estratégia do powershoring: a tendência de multinacionais e países relocalizarem indústrias intensivas em energia em lugares com abundância de energia limpa, segura e barata.

        O Brasil, com a sua farta energia renovável, pode atrair indústrias eletrointensivas verdes como siderurgia, alumínio, biocombustíveis, fertilizantes, dentre tantos outros setores verdes e respectivas cadeias de valor. Isso, no entanto, exige planejamento, infraestrutura e uma política industrial moderna baseada em sustentabilidade, inovação, tecnologia e agregação de valor. A resposta seria a política de industrialização das vantagens comparativas, que congrega interesses comuns do agro, manufatura, serviços e mineração.

        A lição da China é clara: recursos naturais e energias limpas só se transformam em desenvolvimento se forem articulados a uma estratégia econômica coordenada. Para que o Brasil aproveite essa oportunidade, alguns elementos são fundamentais: visão de longo prazo, fazendo da transição energética e do capital natural eixos estruturantes do desenvolvimento nacional, e não subprodutos; industrialização verde, apoiando cadeias produtivas em torno da energia limpa - do agro sustentável à mobilidade elétrica, passando pela química verde, mineração responsável e digitalização; conversão dos imensos e ricos capitais naturais em asset class; financiamento público e privado direcionado, usando bancos públicos, concessões e marcos regulatórios para destravar investimentos em setores estratégicos; integração internacional inteligente, participando ativamente das novas cadeias globais de valor limpas, usando diplomacia econômica e comercial para atrair parcerias e empresas; e inovação como motor, investindo em ciência, tecnologia e capacitação profissional para garantir que o Brasil seja fornecedor de soluções, e não apenas de commodities. Os Brics e a COP30 poderiam ser plataformas para aquelas agendas.

         O que a China nos mostra é que a transição energética e o capital natural, quando bem articulados, são mais do que uma mudança de matriz: são uma estratégia de desenvolvimento, uma ferramenta de soberania e uma fonte de poder geopolítico. O Brasil tem muitos dos recursos que o mundo busca na era da descarbonização, mas, ao contrário da China, ainda não tem uma estratégia clara para converter essas riquezas em tecnologia, inovação, renda, emprego qualificado e liderança global e, assim, em redução de pobreza e desigualdade e promoção de um desenvolvimento amplo, compartilhado e limpo. Está na hora de o Brasil fazer da abundância uma alavanca estratégica. A janela de oportunidade está aberta, mas talvez não permaneça assim por muito tempo.

 https://valor.globo.com/opiniao/coluna/licoes-da-china-para-o-brasil-1.ghtml

Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço.

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