Os desafios e as perspectivas das relações entre Brasil e Estados Unidos após as eleições presidenciais de 2026 foram tema de um webinar promovido pela Fundação FHC com o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, e o consultor norte-americano Nick Zimmerman, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante o governo Obama. Assista aqui na íntegra. (Meio)
https://www.youtube.com/watch?v=GMZDfq1QR3Q
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Perspectivas das relações entre Brasil e Estados Unidos - Guilherme Casarões, Nick Zimmerman (Meio)
segunda-feira, 30 de março de 2026
A “venda” do Brasil aos Estados Unidos e a submissão de sua politica externa aos designios de Trump está sendo preparada pelo candidato bolsonarista; (Meio)
A “venda” do Brasil aos Estados Unidos e a submissão de sua politica externa aos designios de Trump está sendo preparada pelo candidato bolsonarista;
Flávio pede interferência dos EUA na eleição brasileira
Meio, 30/03/2026
Depois de o ex-deputado Eduardo Bolsonaro lutar arduamente para que os Estados Unidos atuassem contra a Justiça brasileira para libertar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, agora é a vez de Flávio Bolsonaro voltar a pedir a interferência americana no País. Desta vez o pré-candidato à Presidência da República pediu para que haja pressão internacional para que as eleições de 2026 no Brasil ocorram sob o que ele chamou de “valores de origem americana”. Dirigindo-se ao público americano, o parlamentar pediu que os EUA e o “mundo livre” acompanhem o processo eleitoral brasileiro, com atenção à liberdade de expressão nas redes sociais, e atuem institucionalmente para garantir eleições “livres e justas”. (g1)
No discurso que fez na CPAC, o principal evento da extrema direita internacional, que aconteceu neste final de semana no Texas, Flávio também deu a entender que os Estados Unidos teriam acesso ilimitado às reservas de terras raras brasileiras em seu eventual governo. Segundo ele, o “Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam da China” no acesso aos minerais. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, classificou o episódio como o mais grave até agora no debate eleitoral de 2026 e acusou Flávio de se comprometer com a entrega desses recursos aos EUA. (Metropoles)”
sábado, 28 de março de 2026
Eleitor liberal procura - Giullia Chechia (Meio)
Eleitor liberal procura
Giullia Chechia
Meio, 28/03/2026
“Um centro mais radical.” Foi assim que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, definiu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em entrevista ao Canal Livre. Na mesma fala, antes sequer de terminar a frase, classificou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como “um centro com posições mais conservadoras, mais à direita”, e posicionou o incumbente do Paraná, Ratinho Júnior, entre ambos, com “um perfil intermediário”. Naquele momento, há cerca de um mês, Kassab ainda mantinha os três nomes na sua estratégia. Caberia a ele escolher um para disputar a Presidência, alguém capaz de encarnar uma candidatura que oferecesse ao eleitor uma alternativa fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com o terno azul escuro alinhado, o olhar firme e a sobriedade que lhe são típicos, deixou escapar pistas sobre o critério de escolha.
“O eleitor que a gente procura é aquele que quer mudar, que quer fugir da polarização, mas quer que dê certo. Ele não quer perder o voto. Nesse clima de polarização, o cara que odeia o Lula vota no Bolsonaro. O cara que odeia o Bolsonaro, se perceber que esse candidato de centro não tem chance, não vai votar. Vai ficar na polarização, vai escolher aquele que odeia menos. Então, o nosso desafio é encontrar um candidato que traga confiança de vitória ao eleitor que quer fugir da polarização.” Confiança de vitória. Era nisso que se apoiava, até então, sua principal aposta: Ratinho Júnior, o mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais entre os três. Kassab não esperava um revés. Mas ele veio.
“O governador Ratinho Júnior decidiu concluir seu mandato no Paraná até dezembro deste ano”, dizia a nota do paranaense enviada à imprensa. A desistência pegou todos de surpresa, inclusive Kassab. A decisão só foi tomada, de fato, na noite de domingo, depois de uma conversa em família. Ali, sobre a mesa, um elemento difícil de contornar: o risco político. O alerta veio do pai. As investigações em torno do banco Master, avaliou ele, poderiam contaminar uma eventual campanha presidencial. O receio cresce à medida que avançam as negociações de delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e de seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro. Entre os pontos que devem emergir nos depoimentos está a aquisição, por cerca de R$ 35 milhões, de uma participação no resort Tayayá, no Paraná.
Além disso, a maré política virou em casa. O senador Sérgio Moro oficializou sua filiação ao PL para disputar o governo do Paraná. Um partido que ensaiava aliança e chegou a cogitar Ratinho como vice numa chapa com Flávio Bolsonaro, abandonou o barco. Diante das águas agitadas, Ratinho Jr. optou por não zarpar rumo à disputa nacional.
Quem ficou a ver navios foi Gilberto Kassab. No mesmo dia do anúncio da desistência, recebeu Ronaldo Caiado em sua casa — que, com a saída do plano A, passou a ser lido como o favorito. Em vez de recuar, Eduardo Leite partiu para a ofensiva: concedeu entrevistas, se apresentou como alternativa viável e elevou a pressão sobre Kassab. Na quarta-feira, foi recebido pelo presidente do PSD e saiu do encontro deixando o recado: “Destaquei ao presidente Kassab, com todo o respeito que o governador Caiado merece, mas aquilo que ele procura representar já tem representante. Essa eleição precisa ter uma candidatura ao centro.” A disputa interna do PSD tem data para acabar: não passa de terça-feira, dia 31 de março.
Ainda não sabemos qual será a decisão do partido de Kassab. Mas se a escolha for Caiado, e não Leite, esta será a primeira eleição da Nova República em que uma voz liberal estará ausente da corrida. Mesmo numa eleição radicalmente polarizada, como a de 2022, esse conjunto de ideias estava lá, representado por Simone Tebet. O problema não é só o desaparecimento de um jeito de pensar o Brasil. A causa não é só a autodestruição do PSDB. O liberalismo é a ideologia fundadora do país. É o que inspirou os inconfidentes de Minas Gerais e a confederação de Frei Caneca. Quando todos os partidos concluem que o eleitorado não quer ouvir uma voz liberal, isto não é só sintoma. É causa da crise democrática.
Na tradição de Rui Barbosa a José Guilherme Merquior, do Benjamin Constant francês, do visconde de Tocqueville ou Norberto Bobbio, o que o liberalismo representa na política é seu eixo de moderação institucional. Quando numa República todos perdem a capacidade de enxergar o outro lado como adversário legítimo e o substituem por um inimigo moral, é aí que a democracia é esganada. O que o liberalismo representa, mesmo quando minoritário, é a defesa do pluralismo, da tolerância, da legitimidade que há no debate. O Brasil tem uma tradição política liberal de 250 anos. Quando ela é calada é porque todos enxergam a eleição como uma guerra na qual ou se elimina o outro com uma vitória, ou se será eliminado.
De volta às bases
O cientista político Christian Lynch, colunista deste Meio, aponta que o liberalismo, mais do que uma ideologia específica, é o regime que permitiu a convivência entre diferentes correntes ao longo do tempo. “Uma revolução liberal cria o Estado de Direito e a democracia e, a partir daí, várias ideologias passam a operar dentro desse sistema.” Aliás, o próprio percurso histórico do liberalismo ajuda a entender esse papel. Como explica Lynch, a corrente nasce entre os séculos 17 e 18, em países como Inglaterra e Holanda, associada ao surgimento de uma nova classe ligada ao comércio e à defesa de limites ao poder absoluto. “A ideia era organizar a sociedade a partir de um governo constitucional e representativo, no qual o Estado existe para garantir direitos da sociedade civil”, afirma.
Na base desse pensamento está a noção de que a ordem política deve se fundar em um acordo, um contrato, entre indivíduos livres, e não mais na autoridade hereditária ou divina. É a partir daí que emergem conceitos centrais como Constituição, representação e divisão de poderes. Esse modelo se consolida com as revoluções liberais, como a Revolução Gloriosa e, depois, a Revolução Francesa, e se espalha pelo Ocidente ao longo do século 19, período em que o liberalismo se torna a linguagem dominante da política.
Essa “sociedade civil”, no entanto, estava longe de abranger toda a população. Naquele contexto, a participação política se organizava a partir de critérios de capacidade, como escolarização, renda e inserção social, refletindo a ideia, comum à época, de que o governo deveria ser conduzido por aqueles considerados mais aptos ao debate público. “Era uma espécie de aristocracia de mérito. Não eram os melhores por nascimento, mas os que se destacavam”, explica Lynch. Nesse modelo, o parlamento não era pensado como expressão direta da vontade popular, mas como um espaço qualificado de deliberação, onde diferentes interesses poderiam ser confrontados e negociados. A ampliação desse sistema viria apenas mais tarde, pressionada por transformações sociais e pela emergência de novas correntes políticas.
“O liberal acredita em pluralismo político. Parte da ideia de que a sociedade não é unânime e, por isso, o conflito de opiniões precisa ser institucionalizado”, diz Lynch. Nesse arranjo, o parlamento se torna o centro da vida política: é ali que divergências são organizadas, debatidas e transformadas em decisões de governo. Mais do que eliminar o conflito, o liberalismo busca dar a ele regras, convertê-lo em disputa legítima, mediada por instituições. Com o surgimento de novas correntes, como o socialismo e o conservadorismo moderno, esse arranjo se torna mais complexo. O liberalismo deixa de ser a única linguagem da política e passa a conviver com projetos que enfatizam, de um lado, a igualdade e, de outro, a autoridade e a tradição. Ao longo desse processo, também se transforma, incorporando elementos democráticos e sociais. “Ele passa a funcionar como uma espécie de árbitro entre forças que puxam para mais igualdade ou para mais autoridade”, resume Lynch.
É nesse papel que, segundo ele, o liberalismo se consolida como eixo de equilíbrio do sistema. “Esse centro funciona como um ‘miolo’ que ajuda a garantir a adesão dos candidatos de direita e esquerda à democracia. Os intermediários também cumprem o papel de reduzir a distância entre os governos, entre os programas de política pública. Esse miolo não precisa ser majoritário. É que, sem ele, o sistema tende a oscilar de um lado para o outro. Sua presença ajuda a sustentar a moderação.” Moderação que floresceu, embora por vezes em campos estreitos, em terras tupiniquins no período da redemocratização.
Moderação à brasileira
Em 1989, quando o sistema político buscava se reorganizar depois de duas décadas de regime militar, na primeira eleição direta pós-ditadura militar, se apresentaram Mário Covas (PSDB) e Ulysses Guimarães (PMDB). Ulysses, símbolo da Assembleia Constituinte e da reconstrução democrática, carregava uma candidatura mais ligada à institucionalidade do que à competição eleitoral tradicional, e acabou derrotado por uma dinâmica que já apontava para a fragmentação e a radicalização daquele pleito. Mas ali a moderação se fez presente. Depois de o primeiro governo eleito pós-ditadura terminar em impeachment, com a saída de Fernando Collor e a posse do vice, Itamar Franco, em 1994 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se coloca no páreo — e vence. Em 1998, se reelege.
“Eu vejo o episódio Fernando Henrique Cardoso mais como uma exceção que confirma a regra. Um candidato que é uma espécie de fusão da social-democracia com liberalismo, laico, intelectual, urbano. Isso aconteceu por um alinhamento de astros muito peculiar”, analisa Sérgio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso. Na visão dele, naquele momento, abriu-se um espaço para uma “centro-esquerda reformada”, que acabou se expressando sobretudo no PSDB, em aliança com um setor liberal-conservador também reformado, que aceitou a democracia e passou a jogar o jogo não só pelas regras, mas também pelos valores. Daí, em 2002, veio José Serra. Em 2006, Geraldo Alckmin. Serra tenta de novo em 2010. Em 2014, Aécio Neves. Todos chegam ao segundo turno, mas não conseguem vencer.
O problema é que o PSDB nunca conseguiu transformar o legado do governo FHC em marca, bandeira, identidade duradoura. “O PSDB num determinado momento resolveu que não tinha nada a ver com aquele legado, o que não faz o mais remoto sentido”, pontua Fausto. Ao abrir mão de defender o próprio passado, o PSDB foi perdendo densidade programática e se esvaziando como projeto político. No vácuo, o PT se mostrou mais eficiente. “O PT foi muito hábil em, ao mesmo tempo, estigmatizar a suposta herança maldita e se apropriar de algumas bandeiras. O PSDB foi se liquefazendo do ponto de vista de densidade programática.” Sem narrativa própria, os tucanos passaram a se definir pela negação: “Virou uma identidade pela negativa. É contra o PT.”
Esse esvaziamento cobrou seu preço quando o sistema político mudou de eixo. A ascensão de uma nova direita encontrou um partido já fragilizado. “Quando veio o tsunami da extrema direita, o PSDB já estava frágil, dividido, sem cara”, resume. O resultado foi um colapso que ultrapassa a sigla. “O naufrágio do PSDB é o naufrágio também desse centro democrático”, afirma, “que tinha um componente liberal importante.” Mais do que uma crise partidária, trata-se de um problema estrutural. Na leitura de Fausto, o Brasil nunca ofereceu terreno especialmente fértil para esse tipo de projeto. “A formação da sociedade brasileira, com enorme desigualdade, uma classe média relativamente pequena e frágil, nada disso propicia candidaturas liberais como a gente entende na Europa”, diz.
Em 2018, quando a extrema-direita já tinha um novo rosto, o de Jair Bolsonaro (PL), Geraldo Alckmin e João Amoêdo (Novo) se colocaram no pleito, mas tiveram desempenho limitado. Em 2022, já com a polarização cristalizada, Simone Tebet (MDB) se apresentou ao país como a voz liberal daquele ciclo. E agora, em 2026, as perguntas permanecem: haverá algum candidato liberal? Há espaço para isso? Antes de chegar lá, porém, é preciso entender como outra tentativa de reorganização desse campo também não conseguiu se consolidar.
Novo, a empreitada liberal que fracassou
Se o PSDB foi, por duas décadas, o principal veículo institucional do liberalismo democrático no Brasil, a tentativa mais recente de reconstruir esse campo se deu concretamente com o Partido Novo. Fundado em 2011 pelo empresário João Amoêdo, a sigla surgiu como uma resposta à crise de representação, propondo uma agenda liberal mais explícita, com ênfase em responsabilidade fiscal, redução do Estado e renovação política. Em 2018, essa agenda chegou à disputa presidencial Amoêdo. Ainda que com votação modesta, sua candidatura conseguiu inserir no debate público temas que até então orbitavam mais restritos a nichos.
Havia, ali, uma tentativa de reorganizar o liberalismo como identidade política assumida. Mas, poucos anos depois, essa experiência também se fragmentou. Para Amoêdo, o esvaziamento desse espaço começa pelo ambiente político mais amplo. “A gente partiu para um cenário de polarização onde o debate foi perdendo racionalidade. Hoje é muito mais um contra o outro do que uma exposição de ideias”, afirma. “Você não discute um plano para o país. Você reage a temas pontuais, sempre de forma binária.”
Esse ambiente, segundo ele, altera também a forma como o eleitor se relaciona com a política. “Os políticos passaram a ser tratados como celebridades. As pessoas tomam partido pelas figuras, não pelas ideias. A gente virou torcedor de político.” Mas há, na avaliação dele, um fator ainda mais determinante: o desenho institucional que passou a orientar os partidos. “Com o volume de dinheiro público — fundo partidário, fundo eleitoral e emendas — os partidos passaram a priorizar a eleição de bancada. A eleição presidencial virou secundária”, diz. “Hoje, o que importa para eles é eleger deputado federal, porque isso garante acesso a mais recursos. Não existe um plano para o Brasil. Existe um plano de manutenção de poder.”
Nesse contexto, candidaturas programáticas perdem espaço antes mesmo de nascer. O processo eleitoral vai sendo afunilado muito antes de a campanha começar. A própria trajetória do Novo, que buscou ocupar esse vazio, acabou sendo atravessada por essas distorções. Amoêdo relata um momento claro de ruptura. “Para mim, a virada foi quando houve a troca de gestão. Eu já tinha receios, mas ali ficou evidente que o partido começou a se desviar dos princípios que deram origem a ele.” Segundo ele, o descolamento se manifestou em decisões concretas. “O Novo começou a usar recursos públicos, coisa que a gente tinha se comprometido a não fazer. Passou a fazer alianças com partidos que tinham visões completamente diferentes. E começou a tomar decisões muito mais ligadas à manutenção de poder.”
A mudança, diz, também apareceu na postura política. “Inicialmente, o Novo não apoiava o bolsonarismo. Depois passou a fazer um apoio envergonhado. E hoje eu diria que é um apoio convicto.” Internamente, o processo veio acompanhado de um fechamento do espaço para divergência. Amoêdo cita a própria experiência como exemplo. “Quando eu declarei meu voto no Lula, mesmo fazendo todas as ressalvas, o partido entrou com um processo para me expulsar. Um partido que se dizia liberal tentando cercear a opinião de um filiado.” Depois do episódio, ele deixou a sigla.
Ainda assim, Amoêdo faz uma distinção importante: a ausência de uma candidatura liberal competitiva não significa que o eleitor rejeite essas ideias. “Poucos se definem como liberais, mas isso não quer dizer que o eleitor não esteja disposto a ouvir. O problema é que esse debate não está sendo colocado.” Sem esse espaço, ele acredita que o sistema tende a se empobrecer. No limite, o risco é de fechamento completo do jogo político. “Cada eleição vai estreitando mais as opções. E a gente volta sempre àquela lógica de votar no menos pior”, intui. “O problema é que, a cada eleição, o menos pior vai ficando muito próximo do pior.”
Ainda existem liberais no jogo
Apesar do esvaziamento de candidaturas nacionais, o liberalismo não desapareceu da política brasileira. Ele se fragmentou, se reacomodou e, em muitos casos, deixou de ser apresentado como identidade explícita. Para o pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo (MDB), o erro começa justamente na forma como o debate é colocado. “Mais do que o problema de não ter um candidato liberal, o problema é achar que isso, por si só, resolve alguma coisa. Não adianta falar que você é liberal. É falar qual é a sua solução para o problema.”
Na avaliação dele, há um descolamento entre o debate político e a realidade do eleitor, o que acaba tornando rótulos ideológicos pouco relevantes fora de bolhas muito engajadas. “Vai na rua e pergunta: ‘você é liberal?’. Ninguém sabe. Isso é papo nosso. O eleitor quer saber se a estrada está esburacada, se o filho está seguro, se consegue pagar as contas.” Essa desconexão, diz, é agravada por um ambiente político dominado por extremos e por uma lógica de comunicação que premia o conflito, não a moderação. “O algoritmo premia o escandaloso, o vexatório. Não premia quem está tentando resolver problema real.”
Ao mesmo tempo, Azevedo rejeita a ideia de que não haja espaço para candidatos liberais — desde que eles saibam se comunicar. “Claro que tem espaço. Mas isso exige estratégia, investimento pesado em comunicação, em pesquisa qualitativa. Comunicação não é achismo, é ciência.” Na prática, ele próprio tenta traduzir essa lógica em campanha, evitando o discurso ideológico e apostando em problemas concretos. “Ferrovia é de esquerda ou de direita? Morte na estrada é de esquerda ou de direita? Você precisa tirar a discussão desse lugar abstrato e trazer para o mundo real.” Essa estratégia passa também por uma leitura crítica do comportamento do eleitor — que, segundo ele, está cada vez mais distante da política. “Um adversário hoje é o desinteresse brutal das pessoas. Elas estão preocupadas em pagar boleto, cuidar da vida. Política virou coisa de uma minoria muito barulhenta.”
E, nesse cenário, insistir em identidades ideológicas rígidas pode ser mais um problema do que uma solução. “Existe espaço para um candidato liberal, desde que ele não faça disso a sua principal bandeira. Porque até explicar o que é liberalismo, já acabaram os 30 segundos de TV.” Essa percepção dialoga com uma leitura mais estrutural do cenário político. Para Luis Eduardo Lelis, consultor político-eleitoral e presidente do conselho administrativo do Livres, lideranças liberais continuam no jogo, mas estão dispersas, pressionadas pela polarização e, muitas vezes, recuando. “Eu não vejo que estão surgindo lideranças. Eu vejo que estão sumindo lideranças”, diz. Segundo ele, o auge recente, especialmente entre 2018 e 2020, foi interrompido por um ambiente que penalizou candidaturas fora dos polos.
“Muita gente que batia no peito e dizia que era liberal tomou um atropelo em 2022. E simplesmente desistiu da política.” Ainda assim, esses quadros seguem presentes em diferentes níveis de poder. Lelis cita, por exemplo, nomes como Raquel Lyra, em Pernambuco, ao lado de Daniel Coelho; Pedro Cunha Lima, na Paraíba; e, no Rio de Janeiro, figuras como Pedro Duarte e Chico Bulhões. Há também nomes que orbitam ou migraram recentemente entre partidos, como Marcelo Calero e Mônica Rosenberg, além de quadros que resistem dentro do Partido Novo, como Marcela Trópia e Thiago Mitraud. O próprio Azevedo aparece, nesse mapeamento, como uma das poucas apostas competitivas no Executivo estadual. Mas há um ponto em comum entre muitos desses nomes: a dificuldade, ou a escolha, de não se apresentar explicitamente como liberais. “Tem muita gente escondendo que é liberal para não perder voto. Ou até fingindo que é outra coisa”, diz Lelis.
A consequência é um paradoxo: as ideias continuam circulando, mas sem identidade clara ou protagonismo eleitoral. Hoje, segundo ele, o movimento é mais defensivo do que expansivo. “É um processo de resistência para não perder de WO. Se ninguém colocar o nome na urna, o liberalismo sai do debate público antes mesmo do jogo começar.” E mesmo onde há tentativa de reorganização, como no PSD, o objetivo não é dominar, mas influenciar.
O futuro a Kassab pertence
Na avaliação de Lelis, liberais têm se reagrupado no PSD na tentativa de se organizar para o longo prazo e influenciar um partido que, segundo ele, tende a se tornar “um dos maiores do Brasil e o principal da centro-direita”. “A ideia é influenciar como o Pérsio Arida e o pessoal da Casa das Garças influenciavam o PSDB. Sem ilusão de que a gente vai ser dono do partido ou que seremos maioria, mas com a convicção de que podemos ser um grupo intelectual forte ali dentro com alguma influência em política pública”, afirma.
Antes disso, porém, o partido ainda precisa resolver sua definição mais imediata: quem será seu candidato à Presidência — e, a partir daí, para onde o PSD tocará o barco ideologicamente. Entre todos os entrevistados — Lelis, Sérgio Fausto, João Amoêdo, Christian Lynch e Gabriel Azevedo — há um ponto de convergência: entre Caiado e Leite, o segundo é o único capaz de manter alguma presença liberal na disputa presidencial. Ronaldo Caiado, por outro lado, é visto como um nome externo a esse campo.
Christian Lynch é quem descreve essa diferença de maneira mais direta. Para ele, Caiado representa um conservadorismo de matriz histórica e social específica. “Ele é o estereótipo do conservador. É o representante das oligarquias do interior, porque é um conservadorismo de matriz interiorana que mantém a ideia de que o interior representa o verdadeiro Brasil, o Brasil profundo, que tem o lavrador, que tem o ‘Jeca’, que tem o homem do campo em contraste com as grandes ‘capitais da Costa’, que seriam as representantes de culturas estrangeiras, do liberalismo. Caiado é de uma oligarquia, uma aristocracia rural, de propriedade de terra”, afirma. Ele sugere também uma outra hipótese de leitura: de que parte do sistema político pode estar interpretando este momento como de menor polarização, com Lula percebido como mais moderado e Flávio Bolsonaro mais distante da retórica do pai, o que reduziria a noção de espaço para candidaturas realmente liberais, explicitamente de centro liberal. Mas isso está longe de estar cristalizado.
Na avaliação dos entrevistados, portanto, o que está em jogo não é apenas uma disputa interna do PSD, mas a própria permanência de um espaço liberal na eleição presidencial. Nesse contexto, o desempenho eleitoral imediato passa a ter peso crescente. É justamente esse tipo de lógica que preocupa Gabriel Azevedo. “O risco é a democracia brasileira se resumir a pesquisas eleitorais”, afirma. Ele lembra que a construção de lideranças políticas exige tempo e repetição: “as pessoas se esquecem que Lula concorreu a cinco eleições até virar presidente”.
Sérgio Fausto também chama atenção para o efeito estrutural desse tipo de racionalidade. No sistema político brasileiro, segundo ele, partidos tendem a operar sob a lógica da maximização imediata de votos. “O político quer maximizar voto no curto prazo. E faz sentido que seja assim. Mas então você fica num círculo vicioso: um quadro ossificado, uma estratégia sempre de curto prazo. Não faz sentido lançar um candidato como o Eduardo Leite. Mas com isso você fecha a possibilidade de ter uma renovação nas lideranças do país”, avalia.
Calculando a rota com base nos números, na mesma entrevista em que delineia os critérios de sua escolha entre Ratinho Jr., Caiado e Leite, Gilberto Kassab é confrontado com um cenário hipotético: se Flávio Bolsonaro chegasse ao segundo turno, seria “natural” um apoio do PSD? “Não digo natural, mas eu acho que a conversa é bem razoável e teria naturalidade.” Pragmatismo político-eleitoral puro. Uma resposta bem mais alinhada ao cálculo de curto prazo do que a uma visão de mundo liberal, de apego às bases do que funda nossa República.
O efeito, segundo os entrevistados, é o esgarçamento de uma democracia cada vez menos representativa de projetos e identidades políticas, e cada vez mais organizada em torno de incentivos de sobrevivência eleitoral. A eleição de 2026 está, potencialmente, no seu momento mais importante.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
As principais ideologias políticas do brasileiro, segundo Christian Christian Edward Cyril Lynch, em matério do Meio (Pedro Doria):
As principais ideologias políticas do brasileiro, segundo Christian Christian Edward Cyril Lynch, em matério do Meio (Pedro Doria):
"O principal achado da Pesquisa Meio/Ideia é uma detalhada fotografia da ideologia política no Brasil. Ao longo de sua carreira como cientista político, Christian Lynch se debruçou sobre mais de dois séculos de textos escritos por acadêmicos, políticos e jornalistas para mapear dez ideologias brasileiras. Dez jeitos distintos de compreender o país — e o mundo. Aqueles conjuntos de valores encontram eco na sociedade brasileira. Na parceria com o Instituto Ideia, fomos a campo para entender como.
Dos dez tipos, quatro predominam. O conservadorismo societário e o conservadorismo estatista, o socialismo cosmopolita e o socialismo nacionalista. Pois é: 70% dos brasileiros se distribuem nestes quatro.
Destes quatro, são os conservadores societários que definirão as eleições de 2026. São desconfiados do Estado, põem a família no centro, têm uma rígida bússola moral ancorada pela religião. Este grupo, ligeiramente mais feminino do que masculino, periférico, com baixa escolaridade, é perfeitamente capaz de votar na esquerda ou na direita. O que buscam é estabilidade. Paz.
Ideologia varia de acordo com região do país. Sua religião também é um forte determinante de qual ideologia terá, assim como renda. Nível de escolaridade e idade, porém, determinam pouco. Não é ter lido mais ou menos, ser mais velho ou mais novo que vai mudar sua inclinação.
As ideologias que compõem o Brasil, as que dão base eleitoral para Lula e as que alicerçam a família Bolsonaro. Num artigo de Pedro Doria, na Edição de Sábado, exclusiva para assinantes premium.
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
Fux vota para absolver Bolsonaro e condenar Cid e Braga Netto: processo contra o golpe de Jair Bolsonaro no STF - Meio
Apenas para registro histórico desta pré-véspera da condenação, em 12 de setembro. No dia 10 de setembro, o ministro Fux exibiu um dos mais constrangedores exercícios de surrealismo jurídico em toda a história do STF e da justiça brasileira.
Está tudo dito, neste apanhado de matérias realizado pelo Meio, e não preciso comentar nada. PRA
11 de setembro de 2025
Fux vota para absolver Bolsonaro e condenar Cid e Braga Netto

Foto: Evaristo Sá / AFP
Nem o mais otimista dos bolsonaristas esperava que o voto do ministro Luiz Fux fosse tão favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro e quase todos os demais réus julgados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na ação penal que trata da trama golpista. Em uma leitura de mais de 12 horas (íntegra), Fux absolveu Bolsonaro de todas as acusações feitas pela Procuradoria-Geral da República. Ele também isentou de culpa os ex-ministros Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno e Anderson Torres, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier e o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin. Fux condenou apenas o ex-ministro Walter Braga Netto e o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, justamente o delator, formando maioria contra os dois. E mais: para o ministro, o processo deveria ser completamente anulado porque o STF não teria competência para julgar os acusados, que hoje não gozam de foro privilegiado. Segundo ele, Bolsonaro e os outros réus deveriam ser primeiramente julgados em primeira instância. O voto de Fux surpreendeu os próprios ministros do STF, que esperavam divergência apenas em questões preliminares, mas não no mérito, pois ele havia aceitado a denúncia contra Bolsonaro e condenado dezenas de acusados pelas depredações de 8 de janeiro de 2023. Na prática, Fux apenas concordou com o ministro relator Alexandre de Moraes quanto à validade da colaboração premiada de Cid. O julgamento será retomado hoje, às 14h, com o voto de Cármen Lúcia, que pode formar maioria para a condenação do ex-presidente. (g1)
O voto de Fux representou uma guinada de 180 graus em relação a seus posicionamentos anteriores. Confira o que o ministro disse no passado recente e o que diz agora. (UOL)
As defesas de Bolsonaro e dos outros réus na trama golpista estavam exultantes no Supremo durante o voto de Fux. Além da absolvição, Fux seguiu as principais linhas de defesa apresentadas pelos advogados, em especial a de que o STF não tem competência para julgar o caso e de que não houve crime de golpe de Estado ou abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Para o criminalista Celso Vilardi, que coordena a defesa de Bolsonaro, Fux “lavou a alma” dos acusados. (Estadão)
Para os advogados de defesa, um dos pontos mais positivos do voto de Fux foi a citação que o ministro fez a acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Na visão da defesa, o fato de Fux mencionar o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966, e o Pacto de San José, de 1978, abre caminho para que uma possível condenação de Bolsonaro e dos demais réus seja contestada em cortes e instituições internacionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos). Para a defesa, Fux ainda abriu um caminho para que o julgamento seja contestado no próprio STF, já que ele considerou que o Supremo não tem competência para julgar os acusados. Os advogados lembraram a estratégia usada pelo hoje presidente da Primeira Turma do STF, Cristiano Zanin, que conseguiu anular a condenação do presidente Lula com o mesmo argumento. (Folha)
Mas, de acordo com juristas e com a própria jurisprudência do STF, as coisas não são tão simples assim. Mesmo com o voto divergente de Fux, isso não significa que os caminhos para recursos por meio de “embargos infringentes” estejam abertos. Segundo a jurisprudência do Supremo, isso só seria possível se outro ministro votasse como Fux. Se o placar terminar em 3x2 para qualquer acusação contra qualquer um dos réus, aí sim se abre a possibilidade de uma revisão do julgamento. (Valor)
Embora Fux tenha levantado a possibilidade de que o processo venha a ser anulado no futuro, citando o que aconteceu com a Lava-Jato, Malu Gaspar explica que isso depende de uma vitória da direita nas eleições de 2026. Tendo em vista o cronograma de aposentadoria dos ministros do STF, o próximo presidente irá indicar três novos integrantes para a Corte. Caso a direita conquiste o Planalto ou ao menos uma maioria sólida no Senado, a quem cabe aprovar a indicação, pode nomear para o Supremo ministros favoráveis à revisão do processo. (Globo)
O voto do ministro ainda não havia chegado sequer à primeira terça parte e já era um dos principais assuntos da internet na manhã desta quarta-feira. Apoiadores de Bolsonaro viralizaram cortes da defesa oral de Fux e fizeram a hashtag “Somos todos Bolsonaro” chegar aos trending topics do X. Do outro lado, apoiadores do presidente Lula dispararam uma enxurrada de críticas ao ministro e levaram a hashtag “Crimes de Bolsonaro” também aos trending topics. (CNN Brasil)
Thiago Amparo: “Quem já estava atento, por ofício ou por masoquismo, à jurisprudência penal do Supremo e escutou o ministro Luiz Fux votar deve ter se perguntado onde estava este Fux garantista antes. No STF é que não estava. Não cabe a ministros do Supremo mudar sua posição sobre a legalidade ou ilegalidade da conduta a depender do réu”. (Folha)
Fabiano Lana: “Voto de Fux revela como era falso ‘acordo’ no STF para punir Bolsonaro e satisfaz parte da sociedade. A despeito de proclamar um voto supostamente técnico, o ministro deu voz a milhões de pessoas que pensam exatamente como ele se posicionou”. (Estadão)
sábado, 18 de maio de 2024
A Primeira Vítima: as noticias falsas na tragédia do RS - Meio, edição especial
A Primeira Vítima
Meio, edição especial
18 de maio de 2024
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Edição de Sábado: A primeira vítima
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