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segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Universidade pública e a democracia do conhecimento - Paulo Baía (Facebook)

 A universidade pública e a democracia do conhecimento


            * Paulo Baía 


O Brasil jamais foi uma sociedade simples. Sua história não nasceu da uniformidade nem da repetição de uma única tradição cultural. Ao contrário, constituiu-se pelo encontro, muitas vezes marcado pela violência, pela resistência, pela negociação e pela criação, entre povos que jamais imaginaram compartilhar um mesmo destino histórico. Povos indígenas, africanos escravizados e seus descendentes, portugueses, espanhóis, italianos, alemães, sírio-libaneses, judeus, japoneses, chineses e inúmeras outras correntes migratórias participaram da construção de uma das experiências civilizatórias mais complexas do mundo contemporâneo. Dessa longa formação nasceram negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, caboclos, caiçaras, ribeirinhos, sertanejos e descendentes de diferentes povos, culturas e religiões. A dinâmica demográfica distribuiu essa extraordinária diversidade pelas diferentes regiões brasileiras, fazendo da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul expressões singulares de uma mesma identidade nacional. A diversidade nunca representou um obstáculo à construção do Brasil. Sempre constituiu sua maior riqueza.

Uma sociedade construída dessa maneira não pode produzir universidades homogêneas. A universidade pública somente realiza plenamente sua missão quando consegue representar a pluralidade da sociedade que a sustenta. Não porque deva reproduzir mecanicamente a realidade social, mas porque sua função consiste em compreender essa realidade em toda a sua complexidade. A universidade não é apenas um espaço de formação profissional. É uma instituição civilizatória. Nela, a diversidade da sociedade transforma-se em inteligência coletiva, em investigação científica, em reflexão crítica e em produção de conhecimento. É justamente nessa capacidade de transformar diferenças em conhecimento que reside sua maior contribuição para a democracia.

Essa missão, entretanto, começa pelo ensino. Antes de produzir ciência, a universidade forma inteligências. Antes de ampliar as fronteiras do conhecimento, ela transmite os fundamentos que tornam possível a produção de novos saberes. Ensinar permanece sendo sua responsabilidade primeira. Pesquisa e extensão completam essa vocação, ampliam seu alcance e fortalecem sua relevância social, mas não substituem sua natureza essencial de instituição de ensino.

Por essa razão, toda universidade pública comprometida com a democratização do conhecimento precisa assegurar que seus estudantes tenham acesso aos conteúdos propedêuticos que estruturam cada área científica e profissional. Os primeiros semestres de cada curso devem cumprir também a função de promover políticas permanentes de nivelamento acadêmico, oferecendo condições para que estudantes provenientes de trajetórias escolares distintas possam desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais. A democratização do acesso somente encontra sentido quando acompanhada da democratização das condições de aprendizagem. Incluir significa abrir as portas. Ensinar significa garantir que todos possam percorrer, com autonomia intelectual, o caminho que se abre depois delas.

Essa compreensão torna ainda mais importante a defesa das políticas públicas de cotas sociais e étnico-raciais. Elas representam uma das mais importantes conquistas democráticas da história recente do Brasil porque ampliam direitos e aproximam a universidade da sociedade brasileira. Não diminuem a excelência acadêmica. Ao contrário. Fortalecem-na ao incorporar experiências históricas que durante séculos permaneceram afastadas dos espaços de produção do conhecimento. A presença crescente de negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, estudantes oriundos da escola pública e de famílias trabalhadoras ampliou o repertório de perguntas, diversificou os objetos de pesquisa e renovou a capacidade da universidade de interpretar a sociedade brasileira.

Durante muito tempo, a universidade refletiu muito mais a estrutura das elites do que a composição da população nacional. O escravismo, o patriarcalismo, a concentração da riqueza e as desigualdades educacionais produziram um sistema persistente de exclusão. O racismo estrutural consolidou esse processo ao limitar oportunidades, influenciar trajetórias escolares, restringir o acesso aos bens públicos e transformar privilégios históricos em aparentes méritos individuais. Ignorar essa realidade significa ignorar parte significativa da formação do Brasil.

Por isso, a universidade pública deve cultivar uma postura antirracista permanente. Não como adesão circunstancial a uma corrente política, mas como compromisso ético com a Constituição, com a igualdade de oportunidades, com a dignidade humana e com a própria produção do conhecimento. A ciência não se fortalece quando invisibiliza desigualdades. Fortalece-se quando é capaz de compreendê-las criticamente. A postura antirracista permanente amplia a inteligência da universidade porque amplia sua capacidade de compreender o país real.

Entretanto, a democratização da universidade não depende apenas da diversidade de pessoas. Depende igualmente da diversidade das ideias. A pluralidade social e o pluralismo intelectual não competem entre si. Constituem as duas grandes colunas da universidade democrática. Uma instituição que acolhe diferentes grupos humanos, mas restringe a circulação das ideias, empobrece sua inteligência. Da mesma forma, uma universidade que proclama liberdade acadêmica enquanto permanece distante da diversidade da sociedade brasileira limita sua legitimidade pública.

É justamente nesse encontro entre diversidade humana, excelência do ensino, pesquisa, extensão e liberdade intelectual que a universidade pública se afirma como uma das maiores realizações da democracia brasileira. Ela demonstra que o conhecimento não nasce da uniformidade. Nasce da convivência entre diferenças, da curiosidade, da crítica e da permanente disposição de aprender.


A universidade existe porque o conhecimento humano é, por natureza, incompleto. Nenhuma teoria encerra todas as respostas. Nenhuma disciplina esgota a realidade. Nenhuma tradição intelectual possui o monopólio da verdade. A ciência avança precisamente porque admite a possibilidade do erro, da revisão e da descoberta. A filosofia permanece viva porque continua formulando perguntas para as quais não existem respostas definitivas. As ciências humanas renovam continuamente sua capacidade de interpretar a sociedade porque reconhecem que a vida social muda, produz novos conflitos e exige novas categorias de compreensão. A inteligência, portanto, nunca é uniforme. Ela é necessariamente plural.

É nesse ponto que o pluralismo das ideias deixa de ser uma reivindicação corporativa da universidade para transformar-se numa exigência da própria democracia. O pluralismo não existe para proteger opiniões. Existe para proteger o processo pelo qual o conhecimento é produzido. Nenhuma sociedade consegue compreender a si mesma escutando apenas uma única voz. Nenhuma universidade pode cumprir sua missão quando determinadas perguntas deixam de ser formuladas, quando certos autores deixam de ser lidos ou quando interpretações passam a ser previamente interditadas. A liberdade acadêmica não protege ideologias. Protege o direito da sociedade de produzir conhecimento por meio da livre circulação das ideias.

A democracia não elimina conflitos. Ela constrói instituições capazes de civilizá-los. A universidade pública talvez seja a mais sofisticada dessas instituições. Seu papel não consiste em apagar diferenças, mas em oferecer condições para que diferenças sociais, culturais, científicas e políticas sejam transformadas em reflexão, investigação e aprendizagem. A universidade é um espaço de encontro entre argumentos, não entre unanimidades. Sua grandeza não está em produzir consenso, mas em ensinar que o dissenso, quando orientado pelo rigor intelectual e pelo respeito democrático, constitui uma das maiores fontes de criação humana.

Por essa razão, toda forma de censura é incompatível com a vida universitária. A censura não protege o conhecimento. Protege o medo. Não fortalece a inteligência. Fortalece a insegurança diante do pensamento livre. Quando livros deixam de circular, pesquisadores evitam determinados temas, palestras são impedidas, estudantes silenciam suas perguntas ou professores passam a medir palavras pelo receio da intolerância, instala-se um processo silencioso de empobrecimento intelectual. A curiosidade cede lugar à conformidade. A investigação transforma-se em repetição. A universidade deixa de ser espaço de descoberta para converter-se em ambiente de confirmação de certezas previamente autorizadas.

A história demonstra que o pensamento único jamais produziu sociedades mais inteligentes. Ao longo do tempo, diferentes projetos políticos procuraram converter determinada visão de mundo em verdade oficial. Em alguns momentos, isso ocorreu para preservar estruturas conservadoras de poder. Em outros, para impor projetos radicais de transformação social e política. Mudaram os discursos, permaneceram os métodos. A convicção de que apenas uma interpretação da realidade seria legítima revelou-se sempre intelectualmente estéril. O pensamento único reduz a criatividade porque elimina a surpresa. Empobrece a inovação porque transforma perguntas em respostas definitivas. Enfraquece a produtividade científica porque converte a pesquisa em confirmação de dogmas. Deteriora a civilidade democrática porque substitui o diálogo pela obediência e a crítica pela submissão.

Nada disso significa relativizar valores fundamentais. A universidade pública deve permanecer comprometida com os direitos humanos, com a igualdade, com a dignidade da pessoa, com a democracia constitucional e com o combate permanente ao racismo estrutural, ao preconceito e a todas as formas de discriminação. Esses compromissos fortalecem a universidade porque ampliam seu horizonte ético. O que não podem produzir é o abandono da liberdade intelectual que constitui a própria condição de existência da ciência. Uma universidade verdadeiramente democrática consegue ser, ao mesmo tempo, socialmente inclusiva, antirracista, intelectualmente exigente e radicalmente comprometida com a liberdade de pensar.

Essa talvez seja a maior responsabilidade das universidades públicas brasileiras no século XXI. Transformar a extraordinária diversidade da sociedade brasileira em conhecimento rigoroso, formar profissionais competentes, produzir ciência de excelência, promover a extensão universitária como compromisso com a sociedade e ensinar, diariamente, que nenhuma inteligência floresce onde existe medo de pensar. A excelência acadêmica e a democratização caminham juntas. O ensino, a pesquisa e a extensão constituem dimensões inseparáveis de uma mesma missão pública.

As universidades públicas não existem para fabricar unanimidades. Existem para impedir que elas se transformem em dogmas. Foram criadas para ensinar, pesquisar, criar, discordar, experimentar e inovar. Foram criadas para fazer da dúvida um método, da liberdade um princípio e da diversidade uma força criadora. Defender simultaneamente a excelência do ensino, os conhecimentos propedêuticos, as políticas de nivelamento acadêmico, a pesquisa, a extensão, as políticas públicas de inclusão, a postura antirracista permanente, a liberdade de cátedra, a liberdade de pesquisa, a rejeição de toda forma de censura e o pluralismo das ideias não significa reunir causas distintas. Significa afirmar um único projeto de civilização.

Esse projeto tem nome. Democracia do conhecimento.

Quando pessoas diferentes deixam de ocupar a universidade, ela deixa de representar o Brasil. Quando ideias diferentes deixam de circular, ela deixa de representar a inteligência. Preservar esses dois patrimônios inseparáveis, a extraordinária diversidade do povo brasileiro e a liberdade de pensamento que a transforma em conhecimento, significa preservar a própria capacidade da República de produzir ciência, criatividade, inovação, civilidade e esperança. É nesse encontro entre inclusão, excelência acadêmica e pluralismo que a universidade pública continua sendo uma das mais belas realizações da democracia brasileira e uma das maiores garantias de seu futuro.


         * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ


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quinta-feira, 12 de março de 2026

A estrutura da polarização: Lula, Flávio Bolsonaro e o empate técnico que organiza a disputa presidencial brasileira - Paulo Baía (Agenda do Poder)

A estrutura da polarização: Lula, Flávio Bolsonaro e o empate técnico que organiza a disputa presidencial brasileira

* Paulo Baía
Agenda do Poder, 12/03/2026

A pesquisa nacional realizada pelo instituto Genial/Quaest em março de 2026 constitui um documento sociológico de grande relevância para compreender o estado atual da política brasileira. O levantamento foi realizado entre os dias 6 e 9 de março, com 2.004 entrevistas presenciais realizadas em municípios distribuídos por todas as regiões do país. A amostra foi construída por meio de um desenho probabilístico em múltiplos estágios, envolvendo seleção de municípios, setores censitários e entrevistados, com cotas que reproduzem a distribuição da população brasileira segundo sexo, idade, renda e escolaridade. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95 por cento.
Esses elementos metodológicos não são apenas detalhes técnicos. Eles são parte fundamental da interpretação sociológica da pesquisa. Um levantamento dessa natureza permite observar, ainda que de forma aproximada, como as clivagens sociais, culturais e políticas se distribuem na sociedade brasileira contemporânea. Mais do que uma fotografia do momento eleitoral, a pesquisa oferece uma espécie de radiografia das forças simbólicas que estruturam o campo político nacional.
Ao analisar os números com atenção, torna-se evidente que o Brasil vive uma configuração política marcada por equilíbrio estrutural entre dois grandes polos eleitorais. Esses polos não se organizam apenas em torno de partidos ou programas. Eles se estruturam ao redor de narrativas políticas que ganharam densidade histórica ao longo das últimas décadas. De um lado está a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, liderança política cuja biografia atravessa quarenta anos da vida pública brasileira. De outro lado emerge a consolidação eleitoral de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do movimento que reorganizou a direita brasileira na última década.
A pesquisa revela que a disputa presidencial de 2026 tende a ser organizada por um empate técnico estrutural entre esses dois polos. Esse equilíbrio aparece tanto nos cenários de primeiro turno quanto no confronto direto de segundo turno. A sociedade brasileira encontra-se dividida em dois campos políticos de dimensões semelhantes, intensidade emocional comparável e capacidade equivalente de mobilização eleitoral.
Antes mesmo de apresentar os cenários eleitorais, o levantamento oferece um indicador importante sobre o ambiente político nacional. A avaliação do governo Lula registra 44 por cento de aprovação e 51 por cento de desaprovação. À primeira vista, esse resultado poderia sugerir fragilidade eleitoral do presidente. Entretanto, a análise sociológica mostra que a relação entre avaliação administrativa e preferência eleitoral raramente é linear.
Lideranças políticas que acumulam capital simbólico ao longo do tempo podem preservar bases eleitorais mesmo em momentos de desgaste governamental. O caso de Lula ilustra esse fenômeno com clareza. Sua trajetória política está profundamente entrelaçada com experiências de mobilidade social, expansão de políticas públicas e reconhecimento simbólico de setores historicamente excluídos da esfera do poder.
Essa dimensão simbólica aparece de maneira clara na pergunta espontânea da pesquisa. Quando os entrevistados são convidados a indicar livremente um candidato, Lula aparece com 18 por cento das menções. Flávio Bolsonaro surge com 10 por cento. O dado mais expressivo é a presença de 69 por cento de eleitores que não indicam preferência.
Esse volume de indecisos revela que o processo eleitoral ainda se encontra em fase inicial de consolidação. Em cenários dessa natureza, a campanha tende a desempenhar papel central na definição das escolhas finais. O eleitorado que ainda não possui preferência consolidada torna-se espaço decisivo de disputa política.
Quando se observam os cenários estimulados de primeiro turno, um padrão consistente emerge. Lula lidera todos os cenários testados. No primeiro cenário, registra 37 por cento das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 30 por cento. Em seguida surgem Ratinho Júnior com 7 por cento, Romeu Zema com 3 por cento, Renan Santos com 1 por cento e Aldo Rebelo também com 1 por cento.
Esse cenário inicial mostra Lula com vantagem de sete pontos percentuais. Trata-se de uma liderança clara, embora ainda distante de um patamar capaz de assegurar vitória no primeiro turno.
No segundo cenário, Lula aparece com 39 por cento e Flávio Bolsonaro com 32 por cento. Ronaldo Caiado registra 4 por cento. Romeu Zema aparece com 2 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo mantêm 1 por cento cada.
Nesse quadro, Lula se aproxima da marca simbólica dos quarenta por cento, mas Flávio Bolsonaro também amplia sua presença eleitoral.
No terceiro cenário, a disputa torna-se mais apertada. Lula aparece com 36 por cento e Flávio Bolsonaro com 33 por cento. Eduardo Leite registra 3 por cento. Romeu Zema também aparece com 3 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo surgem com 2 por cento cada.
A diferença entre os dois principais candidatos reduz-se para três pontos percentuais.
No quarto cenário, Lula registra novamente 36 por cento e Flávio Bolsonaro 33 por cento. Ratinho Júnior aparece com 7 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo registram 2 por cento cada.
No quinto cenário, Lula aparece com 37 por cento e Flávio Bolsonaro com 34 por cento. Romeu Zema registra 3 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo aparecem com 2 por cento cada.
No sexto cenário, Lula registra 36 por cento e Flávio Bolsonaro 34 por cento. Ronaldo Caiado aparece com 4 por cento, enquanto Renan Santos e Aldo Rebelo registram 2 por cento cada.
No sétimo cenário, o quadro torna-se ainda mais apertado. Lula aparece com 36 por cento e Flávio Bolsonaro com 35 por cento. Eduardo Leite registra 3 por cento. Renan Santos e Aldo Rebelo aparecem com 2 por cento cada.
A leitura sociológica desses números revela dois fenômenos simultâneos. Lula mantém piso eleitoral estável, situado entre 36 e 39 por cento. Esse piso representa o núcleo duro do lulismo, formado por eleitores que mantêm identificação histórica com sua trajetória política e com o conjunto de políticas sociais associadas aos governos petistas.
Flávio Bolsonaro apresenta comportamento diferente. Seu desempenho varia entre 30 e 35 por cento. Essa variação indica capacidade de crescimento à medida que o campo conservador se reorganiza.
Esse crescimento progressivo mostra que sua candidatura está não apenas consolidada, mas em processo de expansão política. Ele emerge como figura capaz de concentrar parte significativa do eleitorado conservador brasileiro.
Quando a pesquisa apresenta os cenários de segundo turno, o padrão de equilíbrio torna-se ainda mais evidente. No confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos registram exatamente 41 por cento das intenções de voto.
Esse empate numérico simboliza o equilíbrio estrutural que caracteriza a polarização brasileira contemporânea.
Quando Lula é testado contra outros nomes da direita, o resultado é diferente. Contra Ratinho Júnior, Lula registra 42 por cento contra 33 por cento. Contra Romeu Zema registra 44 por cento contra 34 por cento. Contra Ronaldo Caiado registra 44 por cento contra 32 por cento.
Contra Eduardo Leite, Lula aparece com 42 por cento contra 26 por cento. Contra Aldo Rebelo registra 44 por cento contra 23 por cento. Contra Renan Santos aparece com 43 por cento contra 24 por cento.
Esses resultados indicam que Flávio Bolsonaro é o único candidato capaz de produzir empate direto com Lula. Esse dado reforça a interpretação de que sua candidatura ocupa posição singular dentro do campo conservador brasileiro.
Outro elemento relevante revelado pela pesquisa refere-se aos índices de rejeição. Os dados indicam que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam níveis de rejeição semelhantes. Essa simetria cria uma situação eleitoral peculiar. Nenhum dos dois candidatos possui vantagem clara na capacidade de mobilizar rejeição contra o adversário.
Quando dois candidatos possuem rejeições equivalentes, a disputa tende a tornar-se mais agressiva. Campanhas baseadas em propostas programáticas amplas tornam-se menos prováveis. Em seu lugar, emergem disputas narrativas intensas e confrontos simbólicos.
Nesse ambiente político, temas como violência urbana, segurança pública e corrupção tendem a ocupar posição central no debate eleitoral.
A violência tornou-se presença constante na experiência cotidiana de grande parte da população brasileira. A percepção de insegurança produz ansiedade social e demanda respostas políticas rápidas. O bolsonarismo construiu parte significativa de sua identidade política explorando essa sensação coletiva de ameaça.
Discursos associados ao endurecimento penal, ao fortalecimento das forças policiais e à ampliação da autoridade estatal encontram ressonância em setores importantes do eleitorado.
O campo político associado a Lula tende a responder enfatizando políticas sociais, programas de inclusão e estratégias de prevenção da violência baseadas em políticas públicas estruturais. Esse contraste entre visões de segurança pública cria uma arena de disputa simbólica intensa.
O tema da corrupção também continuará desempenhando papel central na disputa. Ao longo das últimas décadas, denúncias de corrupção tornaram-se elemento estruturante da percepção política brasileira. O bolsonarismo frequentemente mobiliza esse discurso para atacar adversários políticos. O campo lulista responde destacando realizações sociais e criticando o uso político dessas narrativas.
Do ponto de vista psicológico, a polarização produz identidades políticas intensas. Eleitores passam a interpretar a disputa eleitoral como confronto moral entre projetos de sociedade incompatíveis.
O adversário político deixa de ser apenas concorrente eleitoral e passa a ser percebido como ameaça simbólica.
A antropologia política mostra que eleições polarizadas funcionam como rituais coletivos de reafirmação identitária. Grupos sociais utilizam o processo eleitoral para reafirmar valores, memórias e pertencimentos culturais.
Nesse contexto, o voto torna-se gesto simbólico de pertencimento.
A candidatura de Flávio Bolsonaro surge como fenômeno político relevante nesse cenário. Seu desempenho crescente nos cenários de primeiro turno indica que parte significativa do eleitorado conservador o reconhece como herdeiro legítimo do bolsonarismo.
O fato de alcançar até 35 por cento das intenções de voto mostra que sua candidatura possui base social consistente e potencial de crescimento.
Ao mesmo tempo, Lula permanece como liderança singular na história política brasileira. Sua trajetória política continua produzindo identificação em amplos setores populares, especialmente entre eleitores que associam sua figura às experiências de inclusão social e expansão de direitos ocorridas nas primeiras décadas do século XXI.
A eleição de 2026 tende a ser definida nesse espaço de tensão entre duas memórias políticas. De um lado, a memória de um ciclo de governos associado à expansão social. De outro, a memória recente de um movimento político que mobilizou ressentimentos sociais, críticas às instituições e demandas por ordem.
Os números da pesquisa mostram que nenhuma dessas memórias desapareceu. Ambas permanecem vivas e capazes de mobilizar milhões de eleitores.
O Brasil aproxima-se, portanto, de uma eleição que não será apenas disputa administrativa pelo controle do Estado. Será confronto simbólico entre duas narrativas poderosas sobre o país.
Os percentuais revelados pela pesquisa indicam que a sociedade brasileira continua dividida em dois grandes campos políticos de tamanho semelhante.
Esse equilíbrio explica por que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro aparece como empate técnico estrutural em praticamente todos os cenários testados.
A eleição presidencial de 2026 tende a ser uma das mais intensas da história política recente do Brasil.
Mais do que escolher um governante, o país será chamado a decidir qual narrativa política será capaz de interpretar suas angústias, seus conflitos e suas expectativas de futuro.
Entre Lula e Flávio Bolsonaro, o Brasil se aproxima de mais um momento decisivo de sua história política e de república.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Luis Fernando Veríssimo: o cronista e a sociedade em movimento - Paulo Baía

Luis Fernando Veríssimo: o cronista e a sociedade em movimento

             * Paulo Baía 

Há cronistas que se confundem com o próprio país, como se sua pena tivesse nascido para traduzir o Brasil em pequenas doses de humor, acidez e erudição. Luis Fernando Veríssimo pertence a essa linhagem rara. Ele não escreveu apenas sobre fatos, escreveu sobre modos de vida, sobre os gestos mínimos que revelam as estruturas invisíveis da sociedade. Fez da crônica um território de investigação antropológica, mas com a leveza da literatura e a pontaria do jornalismo. Ler Veríssimo é compreender que a crítica social pode vir embalada em ironia, que a observação política pode se esconder em diálogos cotidianos e que a história de um país cabe em poucas linhas se o olhar for suficientemente afiado.

Veríssimo dominava a arte de olhar para o detalhe e, a partir dele, alcançar a totalidade. O machismo que se expunha em uma frase desajeitada no jantar de família, o autoritarismo que se infiltrava em discursos oficiais, a desigualdade que se manifestava na diferença entre quem aguardava na fila e quem furava o protocolo, tudo virava matéria de análise. A crônica, em suas mãos, tornava-se uma espécie de etnografia cotidiana, um retrato sociológico daquilo que não costuma aparecer nas estatísticas, mas molda de forma profunda a experiência coletiva. No Brasil, onde a política se mistura ao humor involuntário dos governantes e onde a tragédia social convive com a criatividade cultural, Veríssimo encontrou material inesgotável. Ele podia partir de um episódio trivial para desmontar, com sutileza, as pretensões das elites, a arrogância dos poderosos, a insensibilidade dos que tratam a desigualdade como se fosse destino natural. Mas fazia isso sem panfletarismo, com a elegância de quem sabia que uma ironia bem colocada é mais devastadora do que longas diatribes. O riso que provocava era sempre acompanhado de incômodo, porque fazia ver o que estava naturalizado.

A política foi um de seus alvos mais constantes. Acompanhou governos, denunciou contradições, riu dos discursos solenes que escondiam farsas e apontou o abismo entre o que se dizia em Brasília e o que se vivia nas ruas. Ao mesmo tempo, nunca deixou de lado a dimensão cultural, entendendo que literatura, cinema, televisão e música são arenas de disputa simbólica. O cronista que comentava jazz com paixão era o mesmo que desnudava os mecanismos do preconceito ou ironizava o consumismo vazio. Essa multiplicidade é a marca de um intelectual que não se restringiu a um campo específico, mas atravessou fronteiras com a naturalidade de quem reconhece a complexidade da vida social.

O humor, em Veríssimo, nunca foi superficial. Era método de análise, recurso sociológico, arma política. Seu humor revelava as incoerências do cotidiano e expunha a hipocrisia das instituições. Era um riso que desorganizava certezas, que desmontava verdades aparentemente inabaláveis. Ao rir de si mesmo, ao rir dos brasileiros, convidava à reflexão crítica sobre o que somos e sobre o que fingimos ser. O humor, nesse sentido, era tão político quanto qualquer discurso inflamado, mas infinitamente mais eficaz, porque alcançava leitores de todos os tipos. O cronista foi também um memorialista, não apenas no sentido de resgatar lembranças pessoais, mas de registrar a memória coletiva de um país em transformação. Cada texto guardava o espírito de uma época, servindo de arquivo para futuras gerações entenderem como se discutiam certos temas, como se pensava a democracia, como se elaboravam as tensões entre tradição e mudança. Ler Veríssimo hoje é reencontrar o Brasil em movimento, perceber os debates que se transformaram e os preconceitos que resistiram.

Há também um componente antropológico em sua obra. Ele descrevia os comportamentos com a paciência de um etnógrafo, atento a códigos invisíveis e rituais sociais. Seus personagens, muitas vezes caricatos, revelavam dimensões profundas da cultura brasileira. A graça não estava apenas na piada, mas no reconhecimento de que aquela piada dizia algo sério sobre o país. O marido perdido no supermercado, o funcionário público indeciso, o eleitor desconfiado, todos condensavam traços de uma coletividade marcada por contradições, espertezas e fragilidades. No plano literário, Veríssimo conseguiu o feito raro de unir sofisticação e simplicidade. Escrevia para que qualquer leitor entendesse, mas sem abrir mão da precisão estilística, da construção engenhosa, do ritmo que fazia o texto fluir como música. Sua prosa tinha a leveza de uma conversa de bar e a densidade de um ensaio acadêmico. Essa combinação explica por que foi lido por milhões e respeitado por intelectuais de diferentes áreas.

O Brasil é um país que sempre necessitou de intérpretes e Veríssimo foi um dos mais originais. Não ofereceu grandes sistemas teóricos, mas ofereceu o olhar atento para o detalhe que desvela o sistema. Não escreveu tratados de sociologia, mas escreveu crônicas que cumpriam esse papel com mais eficácia do que muitos estudos acadêmicos. Sua genialidade esteve justamente em traduzir o complexo em linguagem acessível, em transformar o drama em humor, em fazer da literatura um exercício de consciência crítica. Luis Fernando Veríssimo não apenas escreveu sobre o Brasil, escreveu o Brasil. Registrou suas idiossincrasias, denunciou suas injustiças, celebrou suas invenções culturais, criticou suas autoridades, ironizou suas contradições. Fez da crônica um gênero central para entender a sociedade e, ao mesmo tempo, uma arte literária que dignifica a palavra escrita. Ao lê-lo, rimos, refletimos e nos reconhecemos. E é nesse espelho, construído com leveza e rigor, que a sociedade brasileira pôde se ver mais claramente.

Luis Fernando Veríssimo permanece como um desses raros autores que ultrapassam o tempo. Sua obra é memória e é futuro, porque continua a dialogar com cada nova geração que descobre no humor a força da crítica e no detalhe cotidiano o reflexo de uma nação inteira. Sua crônica é música que nunca cessa, jazz que improvisa sem perder o ritmo, palavra que brinca e ensina. É literatura que se abre como janela para um Brasil que insiste em rir, chorar e resistir ao mesmo tempo. Ele nos deixou um legado que não cabe em prateleiras, mas se espalha em cada leitor que aprende a olhar o mundo com desconfiança e delicadeza. Ler Veríssimo é continuar acreditando que a ironia pode ser ética, que o riso pode ser revolucionário, que a palavra pode ser mais forte do que qualquer arma. Por isso, ao lembrarmos de Luis Fernando Veríssimo, lembramos de nós mesmos. Somos o país que ele escreveu, somos o espelho que ele devolveu com generosidade e inteligência. E, enquanto houver leitores atentos, seu olhar continuará vivo, desafiando o conformismo e celebrando a beleza escondida nos gestos mais simples.

               * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

https://www.revistaprosaversoearte.com/luis-fernando-verissimo-o-cronista-e-a-sociedade-em-movimento-por-paulo-baia/ 

sábado, 12 de julho de 2025

O Brasil paralisado por impasses na governança - Paulo Baía

A tempestade e o fio: o Brasil entre poderes em fricção, fé em disputa e a urgência da escuta democrática

              * Paulo Baía 

O Brasil, em julho de 2025, é um país que caminha sob a vertigem. A paisagem institucional permanece em pé, mas há rachaduras nos pilares. As cores da democracia ainda estão nas bandeiras, nos tribunais, nas urnas e nas palavras dos discursos oficiais. No entanto, os três poderes da República caminham como corpos desajustados, um de costas para o outro, sem sincronia, sem harmonia, em fricção constante. A ideia de equilíbrio entre os poderes tornou-se peça de ficção constitucional. O que há é um embate silencioso e cotidiano entre instâncias que se desejam autônomas, mas que se sabotam mutuamente, num jogo de vaidades e estratégias dissimuladas. Neste palco de choques institucionais, pulsa a vida real de um país desigual, fatigado e ainda assim vivo.

Para compreender os últimos quinze anos da vida nacional é necessário nomear, sem rodeios, o lugar central que o Supremo Tribunal Federal passou a ocupar. O STF deixou de ser apenas o guardião da Constituição. Tornou-se ator de cena, não mais bastidor. Seus ministros passaram da toga ao microfone, do voto técnico à decisão com gestos dramáticos. O Supremo passou a ditar o ritmo da política brasileira, interferindo diretamente nos processos eleitorais, nas ações do Executivo, nas disputas legislativas, nos embates simbólicos do país. É um protagonismo visceralmente político, alimentado tanto pela omissão dos demais poderes quanto pela tempestade de crises que exigiram posicionamento. Seus votos tornaram-se editoriais. Suas decisões, capítulos do romance nacional. Seus ministros, personagens centrais da narrativa coletiva.

Mas o protagonismo do STF, ainda que por vezes necessário diante do colapso de outras instituições, é também sintoma. Sintoma de uma democracia tensionada, que transfere ao Judiciário o papel de árbitro quando a política perde sua capacidade de mediação. O Supremo preenche o vazio deixado por um Executivo sob constante cerco e por um Legislativo que se transformou num superpoder descontrolado. O Congresso Nacional já não é apenas uma casa de leis. Tornou-se o verdadeiro centro do governo, agindo sob um parlamentarismo informal, não declarado, mas operante. Um parlamentarismo de fato, em que deputados e senadores controlam a execução orçamentária por meio das emendas, exigem recursos, ministérios, cargos, favores. E tudo isso sem qualquer responsabilidade direta pelas consequências. A fatura é do Executivo. A cobrança é da população. A glória é do Legislativo.

Esse modelo deformado de governança cria um poder que governa sem governar, que executa sem responder, que pressiona sem assumir. O presidente da República torna-se um negociador permanente, um refém com caneta, um gerente de emendas. A responsabilidade pública permanece com o Executivo, mas o comando do orçamento está nas mãos do Parlamento. A inversão é brutal. É um regime de submissão consentida, em que o governo, para sobreviver, entrega partes da alma do Estado. O presidencialismo que resta é apenas uma imagem invertida no espelho da Constituição.


E nesse campo de distorções, reina também o bolsonarismo. Não como governo, mas como assombração. Jair Bolsonaro, ainda que fora do cargo, permanece como centro simbólico de um movimento que sobrevive a ele. O bolsonarismo é hoje um sistema articulado, operante, incrustado em igrejas, câmaras, corporações, escolas militares, polícias e redes sociais. Alimenta-se do ressentimento, da desconfiança, da descrença na política, da fé manipulada, do medo como método. Atua como vírus ideológico e cultural, contaminando o debate público, deslegitimando as instituições, instilando a lógica da ruptura permanente. Já não depende de Bolsonaro. Tornou-se maior que ele. Respira por aparelhos próprios.


A ofensiva internacional de Donald Trump, ao impor um tarifaço de cinquenta por cento sobre produtos brasileiros, foi mais que hostilidade econômica. Foi um gesto político, um aceno internacional à extrema direita brasileira, uma tentativa de desestabilizar o governo Lula e reforçar a ideia de que o Judiciário brasileiro age por vingança, não por justiça. Foi uma interferência grosseira nas escolhas internas do Brasil. Uma aliança explícita com o bolsonarismo em versão transnacional. Uma diplomacia da intimidação. Um gesto simbólico que buscava empurrar o Brasil de volta ao mundo das tutelas coloniais.


A resposta de Lula foi serena e firme. Acionou os canais diplomáticos, convocou a embaixadora brasileira nos Estados Unidos, prometeu reciprocidade, falou como chefe de Estado de uma nação que não aceita ser humilhada. O gesto teve peso. E reverberou. Porque há momentos em que é preciso erguer a voz com sobriedade, para que o país se reconheça em sua própria dignidade.


As ruas, até então dispersas, reagiram. Em 10 de julho, dezenas de milhares de pessoas tomaram praças e avenidas em várias capitais. A convocação partiu das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, com apoio do MST, da CUT, da UNE, do PT, do PSOL. O grito não era apenas contra Trump, mas contra a tentativa de submeter o Brasil a um jogo autoritário global. Era um grito por soberania, por justiça tributária, por proteção ao Judiciário, por respeito à democracia. Era, sobretudo, um ato de memória coletiva. Uma lembrança de que o povo ainda sabe reconhecer os momentos em que a história exige presença.


O impacto foi imediato. O instituto Quaest registrou interrupção na curva de queda da aprovação do governo Lula. A tendência mudou. O povo entendeu o gesto. A firmeza diante da agressão externa foi compreendida como força, não como confronto gratuito. O episódio devolveu ao governo a capacidade de recompor sua narrativa. Recolocou Lula como protagonista. Mas essa recuperação, embora simbólica, não basta. O campo democrático precisa de mais que gestos pontuais. Precisa de enraizamento. Precisa de escuta.


Escutar as vozes do país profundo. Escutar as igrejas, sim, mas todas elas. Ouvir padres, pastores, bispos, cardeais, pregadores, líderes evangélicos, teólogos populares. Ouvir os terreiros, os babalorixás, os pais e mães de santo, os dirigentes de casas de Umbanda. Ouvir também os espíritas kardecistas, os médiuns, os esotéricos. Ouvir os que vivem da fé, que comungam com a espiritualidade de um povo que é profundamente religioso, místico, plural. Esses espaços não são apenas templos. São centros de escuta, redes de cuidado, territórios de acolhimento. São onde o povo busca sentido, refúgio, força. Negar isso é negar o coração do Brasil.


É preciso também escutar os adversários que não se tornaram inimigos. Aqueles que votaram contra, mas que não entregaram sua alma ao bolsonarismo. Gente comum. Trabalhadores, estudantes, pequenos empreendedores, donas de casa, motoristas de aplicativo, jovens desiludidos, mães aflitas. Gente que sente, sofre, espera. Muitos não escolheram a extrema direita por convicção, mas por solidão. Por ausência de alternativa. Por desinformação. Por medo. Esses não devem ser atacados, mas ouvidos. Porque ali também está o futuro.


Lula começou a reencontrar esse caminho. Rompeu o silêncio estratégico. Assumiu as rédeas. Recompôs a base, reorganizou as prioridades, enfrentou a chantagem institucional com mais firmeza. Mas o desafio é imenso. A engrenagem é pesada. O centrão exige mais. O STF seguirá intervindo. Trump não recuará. O bolsonarismo avançará pelas bordas, pelas frestas, pelos corpos.


É nesse cenário que se impõe a urgência de escolhas. Há decisões que não podem mais ser adiadas. Há pactos que não podem mais ser mantidos. Há zonas de conforto que se tornaram campos de rendição. A estabilidade não vale a perda da alma. A governabilidade não pode custar a dignidade do projeto. A conciliação não pode se transformar em traição. É preciso ter coragem para dizer não. Para traçar limites. Para afirmar valores.


Como escreveu a jornalista Silvia Debossan Moretzsohn, em seu artigo “Sobre escolhas difíceis — e óbvias”, publicado no site Come Ananas, há momentos em que já não se pode continuar fingindo que tudo é questão de cálculo. Há horas em que o óbvio se impõe, não por ser simples, mas por ser urgente. Porque há lutas que não admitem postergação. Porque há uma história que precisa ser escrita com coragem.


O fio da história foi reencontrado. Mas segurá-lo exige firmeza, escuta, clareza e, sobretudo, compromisso. O futuro do Brasil, entre as fricções dos poderes, as tormentas externas e os fantasmas internos, dependerá da capacidade de enfrentar o que precisa ser enfrentado. Com beleza. Com dureza. Com generosidade. E com a coragem de não desistir. Porque, no fundo, é disso que se trata: de não desistir. De novo. E sempre.


               * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ


https://agendadopoder.com.br/a-tempestade-e-o-fio-o-brasil-entre-poderes-em-friccao-fe-em-disputa-e-a-urgencia-da-escuta-democratica/ 

domingo, 29 de junho de 2025

Congresso Nacional: da constituição cidadã à degradação republicana - Paulo Baía

Recomendo ler, com atenção. O que eu fiz e não hesitei em encontrar ou inventar um novo título ou qualificação para este diagnóstico cruel de uma realidade com a qual os brasileiros nos defrontamos:

Brasil: uma cleptocracia pouco republicana, aberta aos oportunistas espertos e às oligarquias predatórias

Paulo Roberto de Almeida 


Congresso Nacional: da constituição cidadã à degradação republicana

             * Paulo Baía 

Era uma vez um país que ousou sonhar com uma república viva. Ouvia-se, nos corredores de seu Parlamento, os ecos de um tempo fundante, tempo de reescrita, tempo de refundação. O ano era 1987. O povo ainda fermentava nas ruas, ainda sangrava de uma ditadura que não havia sido completamente sepultada, ainda desejava dizer: agora somos nós. Dali emergiu a Constituição de 1988, chamada com reverência de Constituição Cidadã, como se nela pulsassem os corações silenciados por duas décadas de chumbo. O Congresso Nacional era então um lugar de possibilidades, de fricções criativas, de esperanças germinando entre artigos e incisos. Havia contradições, havia limites, havia vícios. Mas havia também coragem. Havia decência institucional. Havia desejo de país.

O que se vê hoje, no entanto, é um outro cenário. É a lenta, ruidosa e devastadora degradação republicana. A casa que um dia aspirou representar a pluralidade do Brasil se converteu numa cidadela fechada. A arquitetura monumental que abriga os plenários virou teatro de um drama infame, onde cada cena é encenada não para o bem comum, mas para a manutenção de privilégios. O Congresso abandonou seu papel de representação popular e federativa, entregou-se ao patrimonialismo sem disfarces, ao clientelismo blindado por mecanismos técnicos de difícil decifração, ao poder quase litúrgico das emendas parlamentares, que são hoje a moeda com que se compram silêncios e se vendem consciências.

O país que ergueu sua Constituição com a promessa de um federalismo cooperativo assiste agora à sua própria fragmentação. A república foi desfigurada pelo avanço de quatro forças que ocupam o centro da cena legislativa: a bancada da bala, a do boi, a dos bancos e a bancada teocrática. Essas forças não apenas impõem sua agenda. Elas dominam o cotidiano do Parlamento. Ditam as pautas. Vetam o dissenso. Subjugam as demais bancadas como senhores de um latifúndio simbólico. A política brasileira, sob seu domínio, deixou de ser campo de disputa democrática para se tornar trincheira de exclusão, zona franca de interesses elitistas, lugar onde o povo só entra como espectro, como ausência, como retórica vazia.

Os teocratas atuais que se alastram pelo Parlamento, com suas indumentárias cívicas e dogmas disfarçados de moral pública, desempenham papéis com tal desenvoltura que fariam inveja aos aiatolás. Suas performances são meticulosamente teatrais, envoltas em uma retórica de salvação nacional, mas orientadas pela ânsia de poder absoluto. Não mais bastam-lhes púlpitos, templos e crenças: exigem microfones, comissões, gabinetes, verbas. Exigem influência sobre a educação, a cultura, os costumes, a vida íntima dos cidadãos. A cruz e a Constituição tornaram-se para eles armas de um mesmo arsenal. Legisladores de dogmas, gestores da fé como política de Estado, seus discursos se impõem não como opinião, mas como ordem. Como fé inquestionável transformada em norma jurídica. E assim as fronteiras da república laica vão se estreitando, sufocadas sob a imposição de valores que deveriam pertencer à esfera privada.

Esse domínio não é apenas conservador. É anti-republicano. É uma recusa ativa ao projeto de um Brasil plural, socialmente justo, economicamente solidário, eticamente público. O que se vê é a substituição do pacto coletivo por um condomínio de corporações. As leis brotam do asfalto quente do privilégio. As votações obedecem a mapas secretos de interesses. As comissões parlamentares são convertidas em quartéis administrativos de guerra contra qualquer tentativa de redistribuição. E quem ousa tocar nas estruturas de desigualdade é reduzido a inimigo.

O presidencialismo brasileiro, duas vezes ratificado pelas urnas em plebiscitos contundentes, tornou-se uma ficção governável apenas à custa de chantagens. O presidente, seja qual for sua coloração ideológica, é hoje um refém. Governar exige genuflexão. Exige concessões orçamentárias, nomeações milimetricamente negociadas, silêncio cúmplice diante de aberrações legislativas. A soberania do Executivo foi dissolvida por um parlamentarismo de fato, não previsto na Constituição, rejeitado pela sociedade, mas operado com vigor por um Legislativo que ocupa os espaços vazios da política com métodos de domínio. Métodos que fazem do orçamento público um campo de caça permanente. Métodos que substituem a democracia pelo conchavo, o pacto pela chantagem, a política pela clientela.

No meio desse desequilíbrio, o Judiciário se vê compelido a agir. Tenta proteger a Constituição, tenta manter alguma ordem, mas o faz do alto de um protagonismo que se descola da realidade social. Um protagonismo aristocrático, que transforma o juiz em oráculo, o tribunal em torre, a sentença em escudo. Em vez de mediar, confronta. Em vez de equilibrar, projeta-se como ator político. A tensão entre os poderes, que deveria ser sinal de vitalidade democrática, tornou-se dissonância crônica. Um campo minado onde a desarmonia não gera controle, mas ameaça.

O Congresso já não reflete o país. Suas entranhas são ocupadas por dinastias familiares, por homens brancos, empresários, grandes proprietários, teocratas com sede de poder. Não há ali ecos das fábricas que se reduzem, fábricas robotizadas em que a presença do trabalhador é dispensada, nem das salas de aula pública, nem do ambulatório do SUS, nem do campo desassistido, nem da favela cercada de tiro e esgoto. O poder ali não circula. Reproduz-se. De pai para filho, de padrinho para afilhado, de teocratas para discípulos igualmente teocratas. É uma lógica de hereditariedade travestida de democracia representativa. Os invisíveis da política são os mesmos invisíveis das estatísticas, das filas do INSS, das UTIs que colapsam, dos trens lotados. Não há espaço para eles. Não há voz para eles. Não há tempo para eles.

O povo é ruído. É despesa. É obstáculo. E é assim que legislam: contra a vida que dói, contra a juventude periférica que morre cedo ou enlouquece tentando sobreviver. Contra os motoboys que arriscam a existência por poucos trocados. Contra os idosos que veem sua aposentadoria corroída pela inflação e pela crueldade institucional. Contra as mulheres que sustentam seus filhos sozinhas. Contra os pretos, os indígenas, os LGBTQIA+, os corpos indesejados. Contra a própria ideia de justiça.

A representação federativa, que deveria equilibrar as vozes dos estados e territórios, virou instrumento de distorção. Os votos têm pesos desiguais. Os estados mais populosos têm menos representação proporcional. Os menos populosos, mais poder de veto. Essa assimetria é mantida não por inércia, mas por escolha. Uma escolha cínica que favorece o poder acumulado de elites locais, de feudos eternizados, de castas que se alimentam do desequilíbrio. E, em vez de discutir e deliberar pela representatividade efetiva e real da população com base em suas dinâmicas demográficas, o que se tem feito é simplesmente aumentar aritmeticamente o número de deputados federais para atender demandas localizadas. Uma manobra que, longe de corrigir os desequilíbrios estruturais, amplia e aprofunda as distorções da representação política da população brasileira, que em tese se faz presente na Câmara dos Deputados, mas na prática é diluída, ignorada e neutralizada por esse inchaço artificial da estrutura legislativa.

A reforma política, necessária e urgente, permanece trancada a sete chaves. Porque corrigir distorções significaria redistribuir o poder. E isso, no Brasil, ainda é considerado crime de lesa-majestade.

A república sangra. Não de uma ferida aberta, mas de mil cortes silenciosos. Cada emenda secreta. Cada CPI abortada. Cada veto derrubado. Cada projeto aprovado em favor do capital. Cada silêncio diante da dor coletiva. Cada escárnio contra a solidariedade. A confiança da população desmorona. O desprezo é palpável. Mais de 80% dos brasileiros não confiam no Congresso Nacional. Isso não é uma opinião. É um diagnóstico. É um atestado da falência moral de uma instituição que deveria representar todos, mas que se especializou em representar poucos.

Como dizia Santo Agostinho: na ausência de justiça, o que é o poder senão uma forma de saque institucionalizado. O Congresso brasileiro, hoje, é a síntese desse saque. Seus rituais são legais. Seus procedimentos são formais. Suas decisões, amparadas pelo regimento. Mas o que ali se opera é a manutenção de um Brasil excludente. Um Brasil que agride quem trabalha e protege quem explora. Um Brasil que reveste a desigualdade com o manto da técnica. Um Brasil onde a legalidade virou o álibi da injustiça.

Romper esse ciclo exige mais do que bons discursos. Exige ruptura. Exige reforma política. Exige mobilização cidadã. Exige coragem institucional para confrontar os interesses estabelecidos. Exige rever o financiamento de campanhas, rediscutir o sistema eleitoral, colocar a paridade de gênero e raça como princípio e não como concessão. Exige reumanizar a política. Fazer dela um lugar de projeto coletivo, e não de sobrevivência individual. Fazer dela ponte, e não trincheira. Fazer dela ato de cuidado, e não ritual de poder.

O Brasil precisa reaprender a sonhar. E sonhar exige recusar. Recusar a naturalização do privilégio. Recusar a obscenidade do orçamento capturado. Recusar o cinismo como método. Recusar o poder como herança. Recusar a política como farsa. Recusar o Congresso como fortaleza de poucos. Recusar o medo como regra. Recusar a república como escombro.

Só assim, quem sabe, um dia, o Congresso Nacional volte a ser o que prometeu ser. A casa de todos. A voz dos que não têm vez. O lugar onde a justiça não seja exceção, mas fundamento. Onde o povo não seja massa de manobra, mas sujeito da história. Onde a política não seja técnica de dominação, mas prática de emancipação. Onde o país possa, enfim, se reconhecer. E respirar. E florescer.

Paulo Baia

          * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

Congresso Nacional: da constituição cidadã à degradação republicana https://agendadopoder.com.br/congresso-nacional-da-constituicao-cidada-a-degradacao-republicana/


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