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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Estaríamos, outra vez, em face de um novo “fim da História”? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Estaríamos, outra vez, em face de um novo “fim da História”?

Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será?, jan 30, 2026
https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/

Reflexões sobre algumas dúvidas do tempo presente.


A proposta de Fukuyama sobre o “fim da História” (“The End of History?”, The National Interest (Summer 1989), apresentada com um suporte teórico vagamente hegeliano, e formulada, cabe enfatizar, no início de 1989 – bem antes da queda do muro de Berlim e muito antes da implosão final do socialismo –, foi de fácil aceitação pelas correntes já convertidas ao liberalismo político e partidárias das democracias de mercado, assim como ela foi quase que universalmente rejeitada pelas esquerdas, que se apressaram em indicar que ela era desprovida de qualquer importância explicativa justamente no plano da História, tanto do ponto de vista intelectual, quanto do ponto de vista prático. Nenhuma dessas correntes prestou muita atenção ao ponto de interrogação ao final do título, que parecia oferecer, na roupagem puramente acadêmica do artigo, um excelente terreno de manobras para as divagações “inocentes” do autor sobre o “triunfo definitivo” do liberalismo ocidental.

Pois bem, na confusa conjuntura teórico-prática do início de 2026, cabe perguntar se já não estamos, outra vez, em face de um “novo final da História”, não exatamente no seu sentido hegeliano, mas na concretude das ações – não coordenadas, mas conjugadas – de três novos “Napoleões” em manobras geopolíticas, provavelmente dispostos a colocar um termo à ordem inaugurada em 1945 pelo quase império universal americano daquela conjuntura de final de um grande conflito global, e pretendendo, esses Napoleões nouvelle manière, estabelecer as bases práticas do funcionamento de um novo esquema que substitua a força do Direito pelo direito da Força. Se quisermos permanecer no raciocínio hegeliano original, ele se baseava na derrota das monarquias absolutas da velha Europa pela nova ordem racional-burocrática napoleônica (direitos do homem e do cidadão, igualdade formal dos cidadãos, exército nacional), assim como Fukuyama interpretou a crise final do socialismo nos anos 1980 como sendo a inauguração de uma nova ordem baseada nas democracias de mercado, dado o triunfo prático do modo capitalista de produção.

Para ser honesto com Fukuyama, sua tese é basicamente correta em sua aparente simplicidade propositiva: não há mais contestação ideológica possível – de origem socialista, entenda-se bem – à hegemonia econômica das economias de mercado, quase todas elas ocidentais. Os antigos impérios socialistas se converteram todos em adeptos desse modo egoísta de produção, ainda que mantendo o “despotismo oriental” de seus respectivos modos políticos de governança. Se Fukuyama fosse, contudo, mais um adepto das teses de filosofia da História de Raymond Aron do que das manipulações filosóficas hegelianas, ele teria reconhecido como altamente improvável que Aron aceitasse aquele estado de coisas – a crise final do socialismo – como sendo a vitória definitiva de um liberalismo fin-de-siècle. Relativamente pessimista — dotado de um scepticisme serein, preferiria dizer ele mesmo — no que se refere às realidades dos Estados e dos sistemas de poder existentes, Aron não alimentaria nenhuma ilusão quanto a que o alegre “enterro do socialismo” operado na última década do século XX pudesse conduzir a uma “primavera das democracias”, razoavelmente estável, ou a uma versão atualizada da “paz universal” prometida em meados do século XVIII por um prelado francês, tese repetida depois por Kant.

Em todo caso, observando-se a anarquia política característica da desordem interestatal contemporânea, protagonizado pelos três “Napoleões” (que ainda não tiveram a oportunidade de uma nova Yalta), bem como registrando os enormes diferenciais de recursos e de poder entre os Estados, no quadro de um sistema internacional ainda fortemente hierarquizado, tudo leva a crer que estamos em face de um novo “fim da História” bem movimentado, ainda indefinido em seus contornos principais, mas já distante da ordem criada nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Paradoxalmente, ela vem sendo mais sabotada pela potência imperial que a criou do que pelos dois outros atores que surgiram no cenário “pós-socialista” de seus respectivos impérios.

Os dois “déspotas orientais” falam vagamente de uma “nova ordem global multipolar” – sem jamais definir seus contornos, ou dizer como ela se instalaria, precisamente –, ao passo que o autocrata ocidental se empenha, ruidosamente, em torpedear os fundamentos da ordem política multilateral criada em San Francisco e os do sistema multilateral de comércio inaugurado pouco depois pelo Gatt. Ele é o principal agressor da ordem global existente, não em favor de um império hegemônico reabilitado em seu antigo potencial supremacista, mas em benefício dos seus próprios negócios pessoais e familiares.

Entendamo-nos bem. Aron certamente não se surpreenderia em que os acasos da História conduzissem a Humanidade a um début-de-siècle ainda aroniano, isto é, livre aparentemente da ameaça de um holocausto nuclear, mas não isento de conflitos: “paz impossível, guerra improvável”, disse ele em 1948, um prognóstico ainda confirmado ao final de sua vida. Mas, para ele, a superação da Machtpolitik da primeira era bipolar não significava em absoluto que as relações internacionais contemporâneas — e presumivelmente as do futuro em construção — passassem a ser desprovidas, mesmo num cenário multipolar, de todo e qualquer elemento de “política de poder”. A despeito da crescente afirmação, durante a paz quase universal onusiana, do primado do direito internacional – ou seja, da “força da Razão” – sobre as soluções baseadas na violência primária, a Machtpolitik continuará a existir por largo tempo ainda, inclusive em seus aspectos mais elementares de exercício puro e simples da “razão da Força”. É justamente o que nos prometem os três já citados candidatos a novos Napoleões (ainda aguardando a sua nova Yalta).

Numa época em que modernos ideólogos identificam, repetidas vezes, sinais de “fim das ideologias” (ou do próprio “fim da História”), perde-se facilmente a visão de como o elemento ideológico influenciou a construção do mundo contemporâneo. O Ocidente, durante setenta anos, e a Europa, durante trinta anos, viveram sob o signo das relações Leste-Oeste. Sua face mais habitual produziu o que ficou identificado sob o conceito de “Guerra Fria”. A primeira “Guerra Fria” entre as duas superpotências da época, que marcou indelevelmente a segunda metade do século XX, não foi, provavelmente, apenas um produto de ideologias conflitantes. Mas, foram certamente as racionalizações políticas e militares construídas a partir das “intenções malévolas” do concorrente estratégico que lhe deram uma dimensão jamais vista nas antigas disputas hegemônicas (seja entre os impérios da antiguidade clássica, seja entre os Estados-nacionais da era moderna).

A nova estratégia de segurança americana, que identifica no liberalismo europeu o verdadeiro inimigo da “nova ordem global multipolar”, pode representar a “espoleta ideológica” (uma espécie de Iskra leninista) de um novo “fim da História”, mas que encarnaria, de fato, uma “gaiola de ferro” pouco weberiana, e bem mais parecida com um triunvirato imperial dos três Napoleões (Césares?). A futura ordem global estaria agora se encaminhando para uma etapa de “não-guerra” – que não quer dizer uma era de paz – entre os três grandes impérios, dividindo entre eles os despojos das potências menores?

Descartando-se a permanência dos chamados conflitos regionais e das guerras locais conduzidas por motivos étnicos ou territoriais, é provável que sim, mas, isto tem pouco a ver com a inauguração de uma “nova ordem global”, pois guerras civis e conflitos interétnicos sempre existiram e vão continuar a existir. O que interessa, de verdade, aos três grandes, é uma espécie de convivência na tolerância recíproca, desde que eles possam se firmar em suas esferas respectivas de dominação. De certo modo, o abafamento das paixões bélicas nas sociedades contemporâneas é mais o resultado de mudanças substantivas na ordem econômica global do que devido a motivos de natureza política ou ideológica. A despeito da “desglobalização”, que tomou impulso na pandemia, a microglobalização – aquela que é feita pelos indivíduos e empresas – continua em sua marcha incontida, mesmo se a macroglobalização – que é aquela regulamentada e cerceada pelos Estados nacionais – pode perder espaço na agenda do multilateralismo econômico e comercial.

Examinando-se os casos concretos na pauta dos grandes impérios, parece improvável que eles venham a morrer por suas periferias respectivas: a “América para os americanos” parece ser o sinal que o “problema” da Venezuela é um assunto para o Trump, sem qualquer interferência dos outros dois; novos equilíbrios na Europa central e oriental podem ficar aos cuidados do neoczar; a “formosa ilha” na Ásia Pacífica, por sua vez, não terá nenhum poder imperial que se disponha a intervir em seu favor, e a única coisa que talvez impeça uma anexação violenta seja o fato de ser um grande porta-aviões de microchips, e não um eventual e incerto socorro do promotor de oito ou dez processos (inventados) de paz.

A Realpolitik da atualidade responde pelo nome de superioridade tecnológica, e o cenário de seu desenvolvimento é a própria Weltwirtschaft, num mundo cada vez mais borderless. Com efeito, assiste-se hoje em dia a um deslocamento de hegemonias, menos devido à força das canhoneiras do que ao peso dos navios cargueiros. Nesse cenário, o neoczar arruinado por uma “operação militar especial” que arruinou mais ainda o seu grande império, já não conta muito na tripartição imperial, a não ser por seus arsenais nucleares.

Ao fim e ao cabo, retornamos ao argumento orwelliano sobre a igualdade na fazenda dos animais, sendo que na “fazenda capitalista” dos impérios, alguns são manifestamente mais iguais do que os outros. Aparentemente, o mais “transacional” nessa confraria quer estabelecer as bases de uma convivência triplamente lucrativa, algo difícil num império em erosão comportamental. Ele será, provavelmente, confucianamente engolido pelo novo Hegemon, sendo que o déspota eslavo já terá se tornado um perfeito vassalo do imperador do novo Império do Meio, reconstruído em sua grandeza ancestral. A História não tem nenhuma possibilidade de algum fim previsível, mas a Geografia, está cada vez mais chegando ao ponto desejado por Fernão de Magalhães: chegar ao Oriente navegando sempre a Ocidente.

Se houver algum “fim da História”, ele não estará mais no Atlântico Norte, mas nos grandes espaços marítimos do Pacífico ao Índico, justamente onde se perdeu Magalhães. Camões, nos Lusíadas, o coloca nestes versos:

“O Magalhães, no feito com verdade / Português, porém não na lealdade.”

Não se pode esperar nenhuma lealdade no caso das grandes potências. O que o Brasil deveria fazer seria se manter alheio aos arranjos mesquinhos feitos pelas grandes potências e tratar de preservar sua tradicional postura de autonomia plena na sua política externa.


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5172: 3 janeiro 2026, 4 p.; revisão: 28 janeiro 2026.
https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/

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