O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

E por falar em Japao: estadas curtas no Japao para descendentes de japoneses

De: Alexandre Uehara
Enviada em: sexta-feira, 28 de outubro de 2016 17:53
Assunto: Fwd: Programa de Convite ao Japão para os Descendentes de Japoneses das Américas Central e do Sul

Prezados
Encaminho informações sobre um programa de visita ao Japão para descendentes
Peço que divulguem a quem possa interessar.
Alexandre Uehara
Coordenador do Grupo de Estudos sobre Ásia
Nucleo de Pesquisa de Relações Internacionais (NUPRI)
http://www.usp.br/nupri/

Assunto: Programa de Convite ao Japão para os Descendentes de Japoneses das Américas Central e do Sul

Programa de Convite ao Japão para os Descendentes de Japoneses das Américas Central e do Sul

O governo japonês oferece o programa de visita ao Japão para descendentes de japoneses com o objetivo de aumentar a compreensão sobre a atualidade do Japão e as políticas do país.  Os participantes do programa deverão se comprometer em divulgar eficazmente os aspectos da atualidade, assim como a política do país em suas respectivas comunidades após o retorno.

1.      Requisitos

Ser descendente de japoneses;
Ter experiência profissional ou voluntária em áreas relacionadas à Mídia ou Comunicação e que tenham disposição e vontade de divulgar ativamente o Japão após o retorno por meio de blogs ou redes sociais;
Ter nível de conhecimento de língua inglesa suficiente para discussões e trocas de ideias (todas as atividades oficiais relacionadas ao programa no Japão serão realizadas em inglês); 
Comprometer-se em organizar e realizar divulgações sobre o programa dentro de um prazo de 3 meses após o retorno ao Brasil de forma independente.

2.      Detalhes do Programa
Período de estadia no Japão: de 15 a 22 de janeiro de 2016;
Número total de participantes: 10 pessoas da América do Sul e Central;

3.      Período de Inscrição
31 de outubro (segunda) a 13 de novembro (domingo) de 2016.

Os documentos devem ser enviados por e-mail ao Setor de Assuntos Políticos e Gerais deste Consulado Geral até o dia 13 de novembro (domingo):

cgjpolitica3@sp.mofa.go.jp 

Os documentos necessários para a inscrição e maiores informações poderão ser acessados pelo site do Consulado Geral do Japão em São Paulo:

http://www.sp.br.emb-japan.go.jp/  em “News/Outubro de 2016
http://www.sp.br.emb-japan.go.jp/pt/not_16_10_programa_descendente.htm

As consequencias economicas (e jornalisticas) de Mister Churchill - The British Gazette (1926)

Noventa anos atrás, Winston Churchill, um imperialista teimoso, tentando recuperar seu prestígio depois de Galípoli -- a desastrosa tentativa de neutralizar a Turquia na Grande Guerra -- resolveu, como ministro das finanças (Lord of Exchequers), fazer a libra retornar ao padrão ouro.
Tudo bem, diriam os incautos, mas não na mesma paridade de antes da Grande Guerra, como ele pretendia, por um estúpido orgulho imperial.
John Maynard Keynes, cada vez mais irreverente depois de ter publicado seu panfleto condenatório do Tratado de Versalhes -- The Economic Consequences of the Peace, publicado em 1919 --, resolveu se opor a essa loucura do ministro teimoso das finanças (sabemos como eles são), publicando um alerta: The Economic Consequences of Mister Churchill, no qual ele alertava para as consequências recessivas da medida, pois que a libra ficaria muito valorizada em relação às demais moedas, que foram desvalorizadas ou reinseridas no padrão ouro a uma taxa bastante depreciada em relação a 1913.
O que Keynes alertou aconteceu: o retorno ao padrão ouro representou uma catástrofe econômica previsível. A Grã-Bretanha perdeu competitividade, o déficit comercial se instalou, a recessão se manifestou e com ela o desemprego.
A consequência foi uma greve geral de trabalhadores, que durou mais de uma semana.
Sem qualquer jornal circulando, o governo britânico tomou a medida extraordinária de editar e publicar ele mesmo um jornal diário, chamado The British Gazette, que era editado e publicado pelo próprio Winston Churchill.

Comercio internacional e serguranca na Asia: perspectivas japonesas - palestras no IPRI

Gostaria de lembrar a todos os interessados sobre as duas palestras programadas para esta terça-feira à tarde, no Bolo de Noiva, do Itamaraty



Palestras no IPRI-Funag: Japão, comércio e segurança

O presidente da Funag, embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima, e o diretor do IPRI-Funag, ministro Paulo Roberto de Almeida, convidam para as palestras sobre "International Trade and Security in Asia: Japanese Perspectives", a serem proferidas no dia 1º de novembro, às 16h, no Auditório Paulo Nogueira Batista (Anexo II), respectivamente pelo professor de Economia Política Internacional da Keio University, Yorizumi Watanabe, e pelo Diretor Geral do Japanese Institute of International Affairs, Shingo Yamagami. Ambos, enviados especiais pelo gabinete do primeiro ministro do Japão, são eminentes especialistas em suas esferas de estudo e de atividades, tendo participado de inúmeras negociações diplomáticas a serviço do Japão. Dois diplomatas da Casa comentarão suas palestras, feitas em inglês (sem tradução simultânea), após o que haverá um debate aberto a todos os participantes do evento.

Mr. Yorizumi WATANABE is Professor of International Political Economy, Faculty of Policy Management of Keio University. Prof. Watanabe’s distinguished career has featured significant engagement in all the major bilateral and multilateral trade negotiations in which Japan has been involved in the past two decades. This included the role of policy advisor to relevant Ministers, and postings to Japan's foreign service such as Deputy Director-General of the Economic Affairs Bureau and Chief Negotiator for the Japan-Mexico Economic Partnership Agreement (EPA).

Ambassador Shingo Yamagami is Director General (Acting) of the Japan Institute of International Affairs which is a private, nonpartisan policy think-tank focused on foreign affairs and security issues in Japan, founded in 1959. He was Ambassador for Policy Planning and International Security Policy, and Deputy Director-General of Foreign Policy Bureau at the Ministry of Foreign Affairs, Japan (MOFA). He has great expertise in international politics and security from his experience including working as Political Minister at the Embassy in London (2009-12).

Adam Smith, na Europa e no mundo: conferencia em Palermo (6-7 julho 2017)


FROM SCOTLAND TO THE SOUTH OF THE MEDITERRANEAN.
THE THOUGHT OF ADAM SMITH THROUGH EUROPE AND BEYOND
International Conference
History of Economics Society and
University of Palermo, Sicily (Italy)
6-7 July 2017


CALL FOR PAPERS

Adam Smith is one of those authors who have left a very profound sign in the history of ideas. An influence that has contributed to model not only the culture but also the institutions and the policy of the modern society and that can be explained by observing the international spread of his thought, which reached every corner of the world in a short lapse of time.

Yet, the reception of Smithian ideas was not a unique and uniform process, equal for every country, because different regional contexts conditioned it. Smith's works made entry through institutional, cultural, linguistic, religious, and political filters which were not neutral and which affected the reading, understanding and use of them.

Europe and the Mediterranean are two geographical areas - but not the only - to observe the spread of Smithian thought because of the rich pluralism characterizing their regions and nations. With reference to this prospective, the University of Palermo – supported by the History of Economics Society (HES New Initiatives Fund) – invites proposals for papers and/or sessions along the lines listed below or on others relevant to develop this prospective of inquiry.
The thematic directions suggested are:

•Adam Smith, the Scottish Enlightenment and the European Enlightenment: similarities, differences in methods and analysis, influences, intellectual disagreements;
•The intellectual link between Smith’s teaching and the development of a national style of economics in the various countries from the 18th century to the 19th and 20th centuries;
•The reception of Smithian thoughts in different religious frameworks: Catholic, Protestant, Orthodox, Muslim and Jewish;
•Smithian liberalism as an intellectual source of the liberal revolutionary phase that in the 19th century changed the political and economic face of Europe and the Mediterranean;
•The works of Adam Smith: language, style, translations.

Official language: English

The Scientific Committee:
Christopher Berry (University of Glasgow)
Maria Pia Paganelli (Trinity University)
Sandra Peart (University of Richmond)
Fabrizio Simon (University of Palermo)
Craig Smith (University of Glasgow)

The Organizing Committee:
Fabrizio Simon
Anna Li Donni
Cristina Guccione
Anna Rita Panebianco.

Scholars planning to participate should submit a 500-word abstract for a paper or a 1000-word abstract for a session, specifying in the following abstract form: the title of their presentation and the conference theme, their full name and institutional affiliation, and an e-mail address for correspondence.

Deadlines to remember:
Submission of abstracts No later than 8 January 2017
Notification of acceptance 28 February 2017
Registration No later than 30 April 2017
Sending of paper No later than 31 May 2017

For further information on the conference (venue, registration, accommodation) see the conference website at: 

domingo, 30 de outubro de 2016

Outras palavras: sim, outros risos, mais gargalhadas, divertimento garantido - Outras Palavras (sic)

Alguns dirão que é puro masoquismo da minha parte, essa mania de receber, e de ler, todos os petardos descarregados diariamente em minha caixa de entrada, onde cabe de tudo: do bom, do mau, do feio, do ridículo, do francamente hilariante, e por aí vai.
Meus preferidos, não só para desopilar, para dar boas risadas da ingenuidade, para continuar aferindo o que de surrealista vai pela cabeça das pessoas são aqueles mesmos que vocês todos conhecem: Carta Maior (ou Carta Capital), Outras Palavras, Le Monde Diplomatique, ATTAC (dos altermundialistas franceses), Fundação Perseu Abramo, e vários outros veículos que já não aparecem mais (suspeito que é por falta de dinheiro, ou prisão de seus editores mercenários, como parece ser o caso do 247 e de alguns outros).
Por que continuo recebendo, e lendo, essas coisas?
Para fins "científicos", eu poderia dizer, o que é outra maneira de afirmar: só para ver como conseguem ser alienados esses gajos da esquerda obtusa (sim, acredito que deva haver coisa melhor em outras paragens), como eles vivem na estratosfera.
Pessoas, do tipo da Luciana Genro, por exemplo, e a turminha do PSOL, em geral, ou PSTU e similares, que continuam a pregar as maravilhas do socialismo, e boas soluções estatais, tendo em face deles, na tela delas, ali ao lado, todos os horrores da Venezuela, que aliás eles sempre defenderam e continuam a defender, como abaixo, essas pessoas só podem ser uma das duas coisas (ou as duas ao mesmo tempo):
(a) doidos de pedra, completamente malucos, lelés da cuca, completamente abilolados;
(b) totalmente sem caráter, de má fé, desonestos fundamentais, mentirosos finais...
Tenho ou não tenho razão?
Vejam o mais recente exemplo de risos, num domingo plácido, de eleições anti-petistas um pouco em todas as partes:

SELEÇÃO: O MELHOR DA SEMANA EM OUTRAS PALAVRAS[Melhor??!!; sic quatro vezes...]

​Capitalismo, teu nome é solidão
Os seres humanos, mamíferos ultrassociais cujos cérebros precisam do estímulo do outro, estão sendo separados por mudanças tecnológicas e pela ideologia do individualismo. Este apartamento é causa de uma epidemia de doenças psíquicas. Por George Monbiot (Publicado em 24/10) (Outras Palavras)

O mundo nas mãos da aristocracia financeira
Dez passos para entender didaticamente como os bancos zombam da democracia, multiplicam a desigualdade e nos empurraram abismo abaixo. Por Mauro Lopes (Publicado em 24/10) (Caminho para Casa)

Boaventura: somos todos anticapitalistas
Em seu novo livro, sociólogo afirma: lutas operárias já não podem libertar a sociedade; cabe à esquerda despertar múltiplos sujeitos que sistema quer manter inertes Por Boaventura de Sousa Santos (Publicado em 25/10) (Outras Palavras)

Privatização: a face oculta da MP-241 / MP-55
Por sucatear serviços públicos, governo levará parte da população a descrer da ideia de direitos e a comprar, no mercado, Saúde, Educação de Previdência. Por Paulo Kliass, em Carta Maior (Publicado em 28/10) (Outras Mídias)

Como Temer pretende privatizar saneamento
Trabalhadores e pesquisadores alertam: governo age, sem alarde, para entregar setor. Processo elevará tarifas e inviabilizará extensão dos serviços para população de baixa renda. Alerta coletivo de dezessete entidades (Publicado em 27/10) (Blog da Redação)

Venezuela conflagrada (2): uma possível alternativa
Chavismo não está condenado. Suas vastas conquistas políticas e sociais podem ser preservadas. Mas é preciso corrigir erros graves e romper velhos tabus. Por Mark Weisbrot (Publicado em 28/10) (Outras Palavras)

Pronto, já fiz minha boa ação do dia: fornecer riso gratuito (bem, precisa passar pela corveia de acessar e ler os materiais hilariantes que aqui linkei) para o resto da jornada eleitoral. Divirtam-se.
Paulo Roberto de Almeida

Livros para ler: um lembrete - historia economica, como sempre


Apenas referência, para buscar, provavelmente em sebos eletrônicos, como a Abebooks:

Experiments in financial democracy: corporate governance and financial development in Brazil, 1882–1950, by Aldo Musacchio, New York, Cambridge University Press, 2009, xxv + 298 pp., £55.00 (hardback), ISBN 978-0-521-51889-5.

The origins of the twenty-first century: an essay on contemporary social and economic history, by Gabriel Tortella, London, Routledge, 2010, xvi + 367 pp., £95.00(hardback), ISBN 978-0-415 45981-5; £31.99 (paperback), ISBN 978-0-415 45982-2 [Translation of the 2005 Spanish edition by M. Carmen Fayos de Riddel] 

 O primeiro já vou encomendar, pois está no meu preço habitual: 

Experiments in Financial Democracy: Corporate Governance and: Musacchio, Aldo
Stock Image

Musacchio, Aldo
Published by Cambridge University Press (2009)
ISBN 10: 052151889X ISBN 13: 9780521518895
Used First Edition
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Item Description: Cambridge University Press, 2009. Book Condition: Very Good. 1st Edition. N/A. Great condition for a used book! Minimal wear. Bookseller Inventory # GRP67491177

 Do segundo, encontrei um único, solitária, mas muito caro, excessivamente caro. Vou tentar uma edição original, em espanhol: 


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Tortella, Gabriel (Author)
Published by Routledge (2009)
ISBN 10: 0415459826 ISBN 13: 9780415459822
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Já comprei, e por incrível que pareça, o freté incrivelmente barato, mas como sempre, pretendem nos induzir a comprar outros títulos: 

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PT: sua longa marcha em direcao ao realismo e, agora, ao surrealismo - Paulo Roberto de Almeida

Como persiste um debate -- confuso, inconcluso, nebuloso -- em certas hostes da esquerda (a oficial, ou seja, partidária, e a oficiosa, a dos acadêmicos gramscianos) sobre quais caminhos devem ser adotados agora que o PT tomou um imenso tombo nas urnas e na imagem que dele tem a população, e isso tanto por inépcia demonstrada como por corrupção desenfreada, vou postar novamente minhas considerações feitas num Congresso da Anpocs, em outubro de 2003 -- ou seja, há exatos 13 anos -- quando eu retornava de Washington, com um livro na bagagem (A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil) e muitas ideias na cabeça, disposto a ajudar os companheiros ineptos a melhorar a qualidade das políticas públicas no Brasil.
Não consegui, não por falta de vontade da minha parte, mas por uma incompetência exemplar da parte dos companheiros.
Um outro aspecto a ressaltar: até o Mensalão, pelo menos, eu acreditava que todas aquelas políticas equivocadas que eles estavam implementando se deviam unicamente à sua falta de experiência, ou incompetência exemplar. Depois descobri que as políticas não eram erradas: elas eram deliberadamente moldadas daquele maneira para que eles pudessem instalar o mais gigantesco esquema de corrupção jamais visto em nossa história.
A partir de 2006 tive certeza disso e me afastei de qualquer projeto transformista no governo, e comecei uma longa travessia no deserto que se estendeu até o final do governo inepto e corrupto que nos produziu a Grande Destruição, e agora voltei a trabalhar no governo (que os companheiros chamam de "golpista), esperando que desta vez consigamos, finalmente, fazer as reformas necessárias. Não sou muito otimista porém.
Em todo caso, eis abaixo o que eu pensava em outubro de 2003, quando voltava ao Brasil depois de um produtivo estágio na capital do império, dominado por aquele inepto do Bushinho. Nosso único consolo parece ser este: eles também votam errado.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30 de outubro de 2016

A LONGA MARCHA DO PT PARA A SOCIAL-DEMOCRACIA*

Paulo Roberto de Almeida**

O PT, quem diria?, acabou na social-democracia. Pois é, depois de anos e anos criticando a própria (ou seja, os herdeiros da Segunda Internacional), recusando qualquer aproximação com seus herdeiros heterodoxos da Terceira Via, depois de denegrir, por anos a fio, a opção daqueles grupos, partidos ou personalidades que já tinha feito, consciente e voluntariamente, o caminho para o reformismo democrático e para a administração sensata do capitalismo realmente existente, o PT, por sua vez e finalmente, se junta ao cordão dos convertidos, pelo menos em intenção e de forma meio encabulada.
Com efeito, o processo de adesão do PT – ou, pelo menos, de algumas de suas lideranças mais importantes – aos preceitos e princípios do reformismo moderado e do realismo econômico tem tudo para aparecer, até agora, como sendo uma conversão inconfessada e envergonhada. Isto foi feito provavelmente para não provocar a ira das hostes de true believers e de seguidores “religiosos” de um partido que fez do radicalismo naïf sua marca registrada durante a maior parte de uma trajetória política extremamente bem sucedida, para os padrões brasileiros, em termos de desempenho eleitoral e alcance social. O PT ficou devendo à sociedade, portanto, uma explicação e uma justificação desse não tão tresloucado gesto, muito pelo contrário.
Pode-se datar essa “ruptura epistemológica” do maior partido brasileiro e, com toda certeza, do atual maior partido do Ocidente? Para fins de cronologia estritamente conjuntural, digamos que o abandono dos velhos ritos e manuais e a conseqüente conversão às novas crenças – ainda não oficializada, diga-se desde logo – tenham sido feitos entre o encontro nacional de Olinda, em dezembro de 2001 (e seu cartapácio de “resoluções” conservadoras, isto é conforme os velhos cânones) e o anúncio da “carta ao povo brasileiro”, em junho de 2002, no início da fase decisiva da campanha presidencial. A “grande mudança” – sempre da forma mais discreta possível – foi confirmada logo em seguida através do programa de governo e definitivamente consagrada na carta de aceitação do acordo do Brasil com o FMI, em agosto de 2002, ainda que, repitamos, em nenhum momento o PT avisou a freguesia – sua própria clientela eleitoral, seus militantes mais aguerridos e sobretudo os populares de modo geral – que ele estava empreendendo essa longa marcha, a passos lépidos, em direção da social democracia. Foi portanto uma rápida mudança, que levou algo como três ou quatro meses, se tanto, entre as primeiras conversas dos principais formuladores dos textos e programas e os ajustes finais com os porta-vozes e “discursadores” oficiais do PT, a começar pela pequena nomenklatura do quartel-general.
Mas, esta foi apenas a “conjuntura histórica de transformação”, para usarmos uma terminologia labroussiana, pois que o processo, na verdade, vem de longe, talvez desde uns cinco ou dez anos de “acumulação primitiva” de novas idéias e de novos princípios para a ação do PT. Tratou-se, provavelmente, de uma longa evolução, que deve ter torturado as mentes e corações desses dirigentes partidários durante noites e noites mal dormidas e incontáveis conversas de “pé de ouvido” com outros líderes igualmente convencidos, depois de muitas frustrações e choques com a realidade, de que algo precisaria ser feito para remediar o coquetel de ilusões econômicas servido durante anos aos militantes da causa e contornar a perspectiva de novas derrotas eleitorais se algo não fosse feito para mudar o curso de um partido que funcionou sempre à base de entusiasmo militante mas que ainda não tinha convencido a classe média – que é, finalmente, quem decide eleições no Brasil – de que o partido estava finalmente preparado para “empolgar” o poder. 
O PT, se de fato pretendia algum dia governar o País, tinha de romper os grilhões que o amarravam a um discurso inconvincente e a fórmulas salvacionistas nos quais nem mesmo os militantes mais esclarecidos aparentavam mais acreditar. Esses grilhões foram rompidos e nessa ruptura paradigmática o PT nem sequer perdeu a única coisa que tinha a perder nesse assalto ao céu do “poder burguês” e ao “templo dos mercadores e agiotas” do capitalismo velho de guerra: a aparente pureza de suas posições radicais e suas eternas promessas de “mudar tudo isto que está aí”. O PT ganhou um mundo novo e nem sequer gabou-se do “novo manifesto” no qual sustenta suas novas posições social-democráticas.
Como isto foi possível? De fato, o “Bad Godesberg” do PT, isto é, sua ida a Canossa, foi clandestino e inconfessado, aliás até agora não assumido e não declarado, daí a raiva incontida e a frustração compreensível de muitos dos true believers e dos acadêmicos idealistas que ainda fazem o grosso de suas tropas de mobilização (mas não de ocupação). Com razão, um punhado de representantes políticos e muitos apoiadores acadêmicos reclamam da contradição entre o velho discurso – ainda não rejeitado em concílio formal – e as novas práticas, todas elas desabridamente social-democráticas, despudoradamente reformistas, inconfessadamente capitalistas e quase “neoliberais”, quanto aos resultados, senão em intenções (aqui com alguma licença poética).
Não pretendo retomar, neste curto texto dissertativo, a análise dessa “grande transformação” a que se submeteu o PT, trabalho já efetuado em meu livro A Grande Mudança (publicado no início de 2003, mas quase todo ele escrito ainda antes das eleições, em meados de 2002). Apenas desejo destacar que essa ruptura do PT com seus velhos demônios de um passado irrequieto e radicalmente juvenil era já esperada e mesmo historicamente necessária. Sou tanto mais insuspeito para afirmá-lo que, sendo simpático à maior parte das causas que defende o PT, eu estava aguardando há anos que ele fizesse essa conversão para que o partido pudesse, finalmente, compatibilizar missão histórica com discurso político, responsabilidades governativas e bom senso, adequação de objetivos e clareza quanto aos meios e métodos, enfim, que ele se assumisse como o partido reformista e capitalista que ele sempre foi (ou que pelo menos deveria ser) e o agente hegeliano, a partir de agora, da verdadeira mudança social e política de que o Brasil necessita.
Também não hesito em confessar que, sendo marxista (ainda que de uma tendência algo anarquista ou libertária), eu acho absolutamente natural que o PT caminhe para um modo superior de produção de idéias e conceitos, para uma etapa mais avançada do desenvolvimento de suas forças produtivas mentais, trajetória que fará, finalmente, com que ele escape da camisa de força ideológica que o manteve aprisionado durante muito tempo a falsas ilusões transformistas e a várias receitas equivocadas de administração da “coisa” econômica para enveredar pelo caminho sensato, certamente mais modesto e limitado, das pequenas mudanças graduais e das aproximações progressivas à justiça social e à incorporação de todos os oprimidos. Esta é a sua missão histórica e para ela, e com ela – mesmo não sendo militante do partido –, pretendo colaborar na extensão de minha limitada habilidade profissional e eventual competência intelectual. 
Como, entretanto, acredito que ainda não se desfizeram todas as névoas e brumas que cercam o ideário do partido, justamente porque ele ainda não convocou o conclave no qual os novos dogmas serão oficializados, ofereço, a título de colaboração, uma simples tabela de velhas e novas idéias que convém certamente discutir, com o fito de aposentar antigos manuais e começar a elaborar os novos cadernos de viagem, numa trajetória que terá os seus solavancos e surpresas de beira de estada, mas será certamente coroada de sucesso como convém a um partido decididamente democrático e agora social-democrático.
A tabela que apresento a seguir, retirada de meu já citado livro A Grande Mudança – e que constitui, precisamente, o único texto pós-eleitoral dessa obra – tem a pretensão exclusiva de separar algumas velhas idéias “malucas” de alguns novos conceitos – alguns talvez surpreendentes para certas “almas cândidas”, como diria Raymond Aron – que podem ajudar a ver um pouco mais claro nesta nova trajetória cheia de surpresas que agora empreende o mais novo (e provavelmente o maior) partido social-democrático do Ocidente.
Dotada de um certo tom iconoclástico e provocador, essa minha “tabela periódica das novas partículas elementares” pretende apresentar, em três colunas correlacionadas, um conjunto de idéias vencedoras, outras idéias derrotadas (ou em vias de sê-lo) e outros tantos conceitos vagos e esperanças ainda indefinidas na presente conjuntura de transformação. Dispensável dizer que a distribuição que eu mesmo efetuei dessas idéias que considero bem sucedidas – a própria social-democracia, a globalização, o bom senso econômico, enfim –, assim como de outras de menor desempenho relativo em nossos tempos de neoliberalismo disfarçado, não corresponde àquela repartição de “boas e más” idéias que parecia derivar dos antigos manuais de economia política adotados pelo maior partido brasileiro. 
Se ouso fazer uma síntese das novas idéias e dos novos compromissos que se espera venham agora corresponder à ação prática e governativa da nova maioria política, eu diria simplesmente o seguinte: do PT a sociedade espera que ele se guie, a partir de agora, menos por Antonio Gramsci e mais por Peter Drucker, ou seja, que ele afaste os véus ideológicos de um passado não muito distante e adote, doravante, uma nítida feição de administração para resultados. Vejamos, em todo caso, como poderia se apresentar este comércio de idéias entre o novo centro político e a sociedade que o cerca: 

Tabela periódica das novas partículas elementares
(Atenção: os materiais podem ser misturados entre si, mas em doses muito bem medidas)
Idéias vencedoras
Idéias derrotadas
Ainda indefinidas
Conceitos abstratos e tipos ideais de boa governança
Milton Friedman
Karl Marx
Antonio Gramsci
Karl Kautsky
Vladimir Ilich
Edward Bernstein
Paul Samuelson
Oskar Lange
Celso Furtado 
Pragmatismo
Ideologia
Princípios fundadores
Empirismo
Materialismo dialético
Socialismo utópico
Capitalismo
Forte papel do Estado
Economia solidária
Liberalismo social
Socialismo liberal
Neoliberalismo
Analista de Bagé ã
Bispo da CNBB
Jornalista progressista
Programa de governo
Plataforma maximalista
Projeto nacional
Reformas econômicas
Modelo alternativo
Determinação do governo
Tecnocracia estatal
Intelligentsia genérica
Intelectual “público”
American dream
Cartorialismo português
Jeitinho brasileiro
A prática concreta das relações econômicas internacionais
Globalização
Autonomia nacional
Um novo mundo possível
Consenso de Washington
Gastança keynesiana
Investimentos sociais
Interdependência
Não à “subordinação”
Administração da abertura
FMI
ATTAC
Foro Social
Abertura a capitais externos
Não aos fluxos “voláteis”
Controles seletivos
Complementaridade
Desnacionalização
Cadeias produtivas
Comércio de duas mãos
Mercantilismo
Incentivos às exportações
Agricultura de mercado
Subvenções às exportações 
Alguns subsídios internos
Multinacionais brasileiras
Monopólios internacionais
Alianças estratégicas
Acordos de liberalização
Anexação comercial
Barganha negociadora
Câmbio flutuante
Intervenções dirigidas
Flutuação + ou - “suja”
Conversibilidade gradual
Centralização do câmbio
Papel do Banco Central
Entendimento com credores
Reestruturação unilateral
Risco aceitável
Respeito aos contratos
Moratória soberana
Auditoria da dívida
Tarifas regulatórias
Impostos proibitivos
Papel da política comercial
Menor custo de captação 
Tobin Tax
Quarentena ou imposto?
Alguns novos princípios para a economia doméstica
Responsabilidade fiscal
Orçamento elástico
+ Receita vs. - Despesa
Forças de mercado
Projeto estratégico nacional
Soft planning
Metas de inflação
Crescimento máximo
Limites do trade-off
Fluxos, antes dos estoques
Redistribuição patrimonial
Desconcentração da renda
Participação estrangeira
Reversão das privatizações
Continuidade dos leilões
Demanda ampliada
Mercado interno
Consumo de massas
Patenteamento ampliado
Autonomia tecnológica
Geração endógena
Juros de mercado
Limitação constitucional
Autonomia do Copom
Agribusiness
Multifuncionalidade
Créditos subsidiados
Agricultura familiar
Reforma agrária milagre
Cooperativas populares
Ajuste fiscal
Despoupança estatal
Poupança doméstica
Indução horizontal
Política industrial ativa
Pesquisa e desenvolvimento
Flexibilização laboral
Novos direitos sociais
Reforma da CLT
Bolsa-escola
Renda-cidadã
Fontes de financiamento
Normas prudenciais
Não ao oligopólio bancário
Reforma financeira
Salário mínimo máximo
Pressão sobre a Previdência
Alunos do primário público
Elite universitária “pública”
Qualidade do ensino básico
Velhinha de Taubaté ã
Burguesia nacional
Industrial da FIESP
Fonte: Paulo Roberto de Almeida, A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil. São Paulo: Editora Códex, 2003; (com a contribuição involuntária de Luís Fernando Veríssimo: ã Analista de Bagé e Velhinha de Taubaté).

Se me permitem, agora, uma última digressão final sobre o próprio título desta mesa, “Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula?”, eu diria o seguinte. O grupo que hoje controla o partido e o governo – o que não quer dizer, obviamente, o conjunto do partido e sequer a massa de seus seguidores políticos ou eventuais apoiadores eleitorais – veio, em grande medida, da coluna do meio, com alguns matizes inevitáveis em função da origem político-partidária ou social desses dirigentes principais. A nomenklatura ainda não absorveu totalmente, nem pretende fazê-lo abertamente, as novas idéias e conceitos para uma boa governança à la Drucker, alinhados – como convém – à esquerda da tabela, mas ela tem absoluta certeza de que o caminho gramsciano oferece muito poucas alternativas de sucesso administrativo, social ou econômico. Ela recusa, em todo caso, a maior parte das velhas promessas de outros tempos, o que é um bom sinal de gestão responsável e uma promessa de ação comprometida com resultados seguros de crescimento com preservação da estabilidade macroeconômica (um ideal tipicamente social-democrático).
Resta, portanto, o grande objetivo da justiça social, que alguns ainda identificam com o distributivismo semi-populista. Tenho certeza de que se caminhará em direção dessa meta histórica, com total preservação da democracia e de uma sociedade aberta aos talentos e aos méritos individuais. Como fazê-lo, sem desregular a máquina econômica, parece ser o desafio principal desta conjuntura de pouco mais de três anos à frente. Creio que alguns dos conceitos que poderiam ser mobilizados para essa tarefa se situam, sem qualquer conotação ideológica, na coluna da direita – mas ele ali estão de forma algo ambígua e com um desempenho pouco claro quanto à efetividade das idéias ali alinhadas para a consecução dos objetivos do novo centro político do Brasil. Uma coisa, porém, me parece certa, a partir de agora, no sempre mutável sistema político-partidário brasileiro: o PT chegou finalmente à social-democracia e nela vai ancorar o seu grande veleiro de torneios políticos e de cruzeiros sociais. Que bons ventos o levem ao continente de seus sonhos, assim como, suponho, dos sonhos da maioria dos brasileiros. Em todo caso, bem vindo à realidade!

* Trabalho concluído em Washington em  10 de outubro de 2003 e  apresentado na sessão “Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula?”, realizada em 22.10.03, no Congresso da ANPOCS, em Caxambu / MG.

** Paulo Roberto de Almeida. Diplomata. Professor e Doutor em Ciências Sociais.  pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org