Mostrando postagens com marcador Depois de abalar a geopolítica mundial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Depois de abalar a geopolítica mundial. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Depois de abalar a geopolítica mundial, Trump & Cia, se atacam à geoeconomia - Editorial Valor Econômico

 Já se sabia que Trump & Cia. representavam um perigo geopolítico ao mundo político da ONU. Agora o qua aparece é um imenso perigo GEOECONÔMICO global, ao mexer com os títulos da dívida americana, que são reservas dos bancos centrais. PRA

EUA ampliam incertezas ao intervir nos títulos soberanos
A volatilidade que as atitudes de Bessent e Warsh trarão só piora o cenário
Editorial/Valor Econômico, 24 ago 2026

O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, agiu como seu chefe, o presidente Donald Trump, e inesperadamente pode ter criado um enorme problema onde não havia sinais de um. Poucos dias após apresentar o plano quadrimestral de emissões do Tesouro, Bessent anunciou de repente, na quarta-feira, que dobrará de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões as recompras de títulos de longo prazo (de 10 a 30 anos) e que não haveria limites em caso de necessidade de aquisição de maiores volumes. A ação do Tesouro ocorreu após os juros dos títulos de 30 anos atingirem 5,33%, o mais alto nível desde 2007. Deu certo no dia, os juros recuaram para 5,18%, para voltarem a subir nos dias seguintes e chegarem a 5,27% na sexta.
A atitude do secretário de intervir no comportamento dos rendimentos de um mercado de US$ 32 trilhões, no qual está ancorada boa parte das reservas de vários bancos centrais do mundo, e que se baseia em papéis tidos até a posse de Trump como os mais seguros do mundo, trouxe mais incertezas em um ambiente já cheio delas. A negativa de Kevin Warsh, o novo presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), de se recusar a dar orientação sobre seus passos futuros e reduzir a comunicação do banco elevam a imprevisibilidade. Um ambiente de insegurança passou a ser criado institucionalmente pelo governo no mercado financeiro mais importante do mundo, com repercussões diretas nas demais praças.
Bessent deu duas explicações para a intervenção, a de problemas de liquidez nos títulos mais longos, que bancos e investidores negam que houvesse, e, mais importante, a necessidade de demonstrar que "o mercado de juros não reflete os fundamentos subjacentes". Bessent disse que era bem possível "já termos atingido o pico do déficit". O ceticismo sobre as razões oficiais se manifestou em seguida às declarações, com uma elevação das taxas.
Há motivos reais para a alta dos juros. O endividamento americano cresce rapidamente, ultrapassou US$ 40 trilhões esta semana (124% do PIB) e era de US$ 8,9 trilhões em 2006 (64,5% do PIB). O déficit público deve encerrar o ano em 5,8% do PIB, no ano fiscal de 2026, segundo o bureau de orçamento do Congresso. Os números estão longe da meta vislumbrada pelo Tesouro, de déficit de 3% em 2028, e podem piorar. O governo Trump pediu que o orçamento da Defesa aumente quase 50% no exercício de 2027, para US$ 1,5 trilhão. A realidade fiscal entra como uma barreira no caminho da geopolítica de Trump, que inclui a necessidade de financiar a guerra contra o Irã, para a qual já havia obtido autorização de gastar US$ 95 bilhões extras em julho.
Depois, as big techs, envolvidas na corrida da Inteligência Artificial, estenderam os prazos da emissão de dívidas consideradas grau de investimento (papéis seguros) para bancar seus investimentos trilionários, concorrendo com rolagens e novas emissões da dívida crescente do Tesouro. Tanto os déficits oficiais quanto os enormes investimentos na IA alimentam a inflação americana (3,4% em julho), que ampliou a expectativa dos investidores de que, em algum momento nos próximos meses, terá de elevar os juros.
Bessent e Warsh, com a intervenção, falam línguas diferentes. Ao buscar afrouxar as condições financeiras que a alta dos papéis longos traria, Bessent atrapalha o Fed: o presidente do banco havia dito que o mercado sozinho as apertara, corroborando sua posição de não guiar os mercados, mas deixá-los formar os preços dos papéis. Warsh, firme defensor do enxugamento do balanço do Fed, de US$ 6,7 trilhões (agosto), terá de ficar mudo por um tempo, pois a desova dos papéis em seu poder, grande parte de Treasuries, irá na direção contrária à buscada pelo Tesouro.
A onipotência de Bessent pode ter um custo nada desprezível. O Tesouro só pode intervir recomprando títulos com dinheiro obtido com emissões de papeis de prazo curto, o que acabará elevando os juros deles também, "achatando a curva", no jargão financeiro. Na prática, nem o BC nem o Tesouro conseguem controlar juros de longo prazo, e o próprio Bessent criticou sua antecessora, Janet Yellen, por fazê-lo. O Fed fez isso durante a grande crise financeira, com a grande diferença de que pagava juros zero ou negativos pelos títulos.
O governo brasileiro se queixa da mesma forma dos elevados juros de médio e longo prazos, mas não faz um esforço sério de conter gastos e endividamento, e membros da equipe econômica chegaram a dizer que o déficit fiscal fora zerado. A ação do Tesouro americano, altamente endividado, pode redundar em juros ao fim mais altos dos Treasuries, sobre os quais é acrescido prêmio de risco para a precificação das captações públicas e privadas brasileiras. O prêmio de risco, por seu lado, é influenciado fortemente pela situação fiscal que, no caso brasileiro, está francamente desequilibrada.
Outro ponto em comum entre os dois países, além das queixas sobre o custo de suas enormes dívidas, é que não há sinais de que virá a consolidação fiscal que reduza os gastos financeiros de carregá-las e as estabilizem. A volatilidade que as atitudes de Bessent e Warsh trarão só piora o cenário.

A conta fiscal do próximo presidente
Santo Graal entre os economistas é anunciar um ajuste fiscal forte o suficiente para fazer o investidor cobrar um prêmio de risco menor para carregar a dívida pública
Alex Ribeiro
Os juros que o governo paga na sua dívida estão muito altos, e é um consenso entre os principais candidatos a presidente da República - incluindo Lula-- de que será preciso um ajuste fiscal. Qual o tamanho do problema? Depende, em grande parte, da opinião de cada um sobre as causas dos juros altos.
Se a visão é de que a taxa de juro está alta sobretudo por questões fiscais, então o tamanho do ajuste nas contas públicas pode ser até menor - por mais estranho que possa parecer - caso seja anunciado um plano forte o suficiente e com credibilidade.
Mas também há uma visão mais sombria: os juros altos podem ser, em grande parte, reflexo do ambiente externo, algo que está fora do nosso controle. Isso exigiria um ajuste fiscal ainda mais forte. E pode ser que esteja relacionado também a outras questões que afetam o mercado de títulos públicos, como a concorrência dos papéis privados com isenção de impostos.
Os economistas estão debatendo intensamente esse assunto. Nas últimas semanas, a equipe de economistas do BTG, liderada pelo ex-BC Tiago Berriel, divulgou uma série de estudos. O secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, levantou alguns pontos relevantes em entrevista publicada no Valor em 8/7.
Primeiro, é preciso uma matemática básica da dívida para entender por que o assunto é tão importante. O drama brasileiro é estabilizar e, depois, reduzir a dívida bruta, que chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em junho, depois de crescer 10,2 pontos percentuais (pp.) do PIB no atual governo Lula. O receio: se ela continuar a crescer, ficará impagável no futuro.
Qual é o tamanho do superávit primário necessário para estabilizar a dívida? Se tomarmos como referência os juros reais longos negociados hoje no mercado, acima de 7,5%, a conta apontaria para um superávit primário superior a 4% do PIB. A IFI, contudo, usa premissas diferentes para o custo da dívida e calcula o resultado estabilizador em 2,1% do PIB. O ajuste fiscal necessário seria de 3,5 pp. do PIB, considerando que a estimativa da IFI de que o Brasil tem déficit primário estrutural de 1,4% do PIB.
Para essa conta ficar mais manejável, os juros precisam cair. O Santo Graal entre os economistas é anunciar um ajuste fiscal forte o suficiente para fazer o investidor cobrar um prêmio de risco menor para carregar a dívida pública. Antes da pandemia, o juro real de longo prazo chegou a uma mínima de 3% ao ano, depois do ajuste fiscal iniciado no governo Michel Temer.
Nos exercícios feitos pelos economistas do BTG em dois estudos, um cenário-base compatível com juros reais implícitos de 6% ao ano poderia convergir para algo próximo de 3,5% sob uma consolidação fiscal semelhante à observada durante o teto de gastos.
Leal, do Tesouro, tem destacado que não é só o fiscal, mas também a alta dos juros internacionais, que aumentou os juros dentro do Brasil. O BTG publicou na semana passada um terceiro estudo, que reproduz metodologia empregada pelo Banco Central e procura determinar o que fez os juros subirem no Brasil. Essa metodologia trata dos juros nominais, mas reforça as suspeitas de que não é apenas o fiscal que pesa na taxa de juros elevada brasileira.
Entre 2017 e 2019, o juro nominal estava em torno de 10% ao ano, e agora se encontra em cerca de 14,5% ao ano. O BTG atribui cerca de metade dessa alta a fatores domésticos e cerca de um terço a fatores internacionais, restando uma parcela que o modelo não consegue explicar. Na interpretação do banco, a política fiscal mais expansionista dos últimos anos contribuiu para elevar o juro neutro da economia, exigindo juros mais altos para controlar a inflação e pressionando a curva de longo prazo.
A questão relevante é se, com um ajuste fiscal bem feito, os juros reais caem para a casa de 3%, reduzindo o resultado primário necessário para estabilizar a dívida. Na última vez que em que a NTN-B oscilou perto desses valores, os títulos americanos similares (as TIPS) pagavam juros reais próximos de zero. Hoje, essa taxa está em 2% ao ano. Isso é um problema para o próximo governo. Com juros internacionais mais altos, o espaço para que os juros brasileiros retornem aos níveis observados antes da pandemia pode ser menor.
Outro ponto levantado por Leal é a concorrência dos títulos isentos, que diminui a demanda por papéis do Tesouro. Os juros das NTN-Bs de 7,5% ao ano podem estar também exagerados por questões mais técnicas entre oferta e demanda - os fundos de previdência, principais clientes desses papéis, estão com as carteiras abarrotadas e sem espaço para comprar mais.
Os juros muito altos oferecidos pelas LFTs também podem estar afetando as taxas reais. Esses papéis oferecem um retorno extraordinário, pelo menos enquanto o BC fizer seu trabalho de controlar a inflação. Por que o investidor vai se arriscar comprando papéis com juros prefixados, que podem provocar perdas caso o BC suba a Selic ou se o governo continue a pressionar as taxas no mercado com captações crescentes?
O novo governo eleito pode resolver alguns desses problemas com a revisão das isenções, que beneficiam os mais ricos. Também pode, gradualmente, aumentar a emissão de títulos prefixados. Mas nada isso substitui a necessidade de um bom ajuste nas contas públicas.

Postagem em destaque

Colóquio Juscelino Kubitschek: história e memória. Cinquentenário de morte, no IHGB: programa

Recebi carta da Presidencia do IHGB sobre o colóquio JK que ocorrerá nesta quarta-feira 26/08/2026: Transcrevo: "Prezados palestrantes ...