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sexta-feira, 6 de março de 2026

ÁSIA – TEORIAS QUE SURGEM E DESAPARECEM, GERADAS FORA DA REGIÃO. O INTERESSE PARA O BRASIL - Paulo Pinto (Linkedin)

 ÁSIA – TEORIAS QUE SURGEM E DESAPARECEM, GERADAS FORA DA REGIÃO. O INTERESSE PARA O BRASIL

Paulo Pinto
Embaixador do Brasil aposentado. Percursos diplomáticos diferenciados
Linkedin, March 3, 2026
https://www.linkedin.com/pulse/%C3%A1sia-teorias-que-surgem-e-desaparecem-geradas-fora-da-paulo-pinto-szvqf/

Conforme já afirmado acima, reitero que, no mundo atual, teorias sobre novos paradigmas regionais surgem e desaparecem, substituídas por teses geradas fora da região a que se aplicam, sem que sejam necessariamente contrárias, apenas inovadoras.
Em suma, o mundo aparenta adaptar-se a ordenamentos antigos ou inovadores, onde espaços e redes, compostos por interesses compartilhados, substituem a unilateralidade ditada, até recentemente, pelos EUA.
Em sucessivos exercícios de reflexão aqui publicados, não tenho pretendido apresentar estudos acadêmicos, no sentido de registrar pesquisas de grandes autores, sobre a formação política das partes do mundo onde trabalhei.
Durante o período em que recolhi minhas observações, procurei mapear tendências políticas e identificar atores que a conduziriam. Em retrospectiva, verifico que, por um lado, evoluções políticas não ocorrem necessariamente no âmbito de fronteiras que definem países. Por outro, os atores não são necessariamente os governos, mas, sim, a sociedade que serve e atua como palco e protagonista.
Ademais, as pessoas podem não estar cientes do processo de transformação em curso, durante o qual convivem o velho e o novo, há avanços, resistências, recuos e compromissos. Na prática, acontecem mais consensos do que compromissos.

Japão, China e Índia – Os Gansos e o Pavão
Tendo servido, como Diplomata, por 21 anos na Ásia-Pacífico – Pequim, entre 1982-85; Sudeste Asiático, entre 1986 e 1995, sucessivamente em Kuala Lumpur, Singapura e Manila; e Taipé-Taiwan, entre 1998 e 2006, seguindo para Mumbai, na Índia, entre 2006-09, tive oportunidade de vivenciar a ascensão e queda de teorias sobre novos paradigmas regionais.
Estas surgiram e desapareceram, substituídas por novas teses geradas fora da região a que se aplicavam, sem que fossem necessariamente contrárias, apenas inovadoras. Como ficou, por exemplo, a tese da “revoada dos gansos”, quando o “dragão chinês” e o “pavão” indiano [1] emergiram no cenário internacional?
Cabe recordar, a propósito, que, na década de 1980, acreditava-se que o Japão seria o “ganso” líder, em virtude de bem-sucedido processo de desenvolvimento industrial voltado para exportações. Na medida em que seus produtos vendidos ao exterior se tornassem mais sofisticados e caros, os bens de menor valor agregado teriam sua manufatura, gradativamente, transferida para outros locais vizinhos, na Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan. Estes viriam a tornarem-se novos “gansos” e a formar a tal “revoada” atrás dos japoneses.
O “dragão” chinês, então, não era considerado capaz de ser incluído nesta formação. As justificativas para a decolagem da China, no final do século passado, passaram a ser encontradas em ampla bibliografia sobre a questão de “valores asiáticos” e sua influência no processo dos “flying geese”. Segundo esta forma de pensar, o “hierático universo confuciano”, de origem chinesa, estaria permeando o fenômeno de crescimento da Ásia Pacífico, misturando gansos e dragão numa mesma revoada.
A partir do início do atual milênio, no entanto, o pavão indiano começou a marcar presença neste já eclético bando de aves, todas símbolos de crescimento econômico. Na Índia, contudo, além do pavão, de pouca autonomia de voo, há, em Mumbai, abutres, corvos e muitas - muitas mesmo - pombas que, com o comportamento errático idêntico ao dos demais habitantes do país – os seres humanos - não obedecem a preceito confucionista algum. Tornou-se necessário, portanto, criar discurso ou tese, para explicar o alardeado fenômeno de emergência daquele país no Sul da Ásia.
Assim, o ex- editor da revista “Economist”, Bill Emmott, publicou o livro “Rivals – How the power struggle between China, India and Japan will shape our next decade”, no qual cria abordagem inovadora para explicar a evolução dos países asiáticos, afirmando que as elites deles poderiam ser divididas entre “produtivas” e “parasitárias”.
Nessa perspectiva, ficava resolvida a questão do enquadramento do pavão no fenômeno de crescimento regional, na medida em que se atrelando ao aumento da produtividade das elites dos países dos gansos e do dragão, o animal indiano, agora, se veria livre de sua elite parasita.
Para o observador em Mumbai – onde eu servia e procurava estabelecer parcerias comerciais com o Brasil - no entanto, não caberia adotar – neste universo aviário – a simples postura de um papagaio (ave brasileira, conhecida por sua capacidade de imitação), no sentido de apenas imitar raciocínios gerados em capitais europeias e norte-americanas.
A título de exercício de reflexão, busquei outros enfoques sobre o ressurgimento da influência de civilizações asiáticas, no cenário internacional, sempre com a preocupação de identificar o interesse brasileiro nesse processo.
Deixarei, contudo, de elaborar, neste artigo e seguintes, sobre as dimensões econômica e de segurança da inserção internacional de China e Índia, uma vez que existe abundância de estudos sobre estes assuntos. O foco dos textos a seguir será na “influência civilizacional” daqueles dois países.
Isto porque, é possível concluir que, na medida em que os seres humanos se apropriam de maior riqueza e educação, suas diferenças culturais se tornam mais pronunciadas – não menos. Nesse processo, diferentes grupos perseguem visões distintas de bem-estar, bem como reagem de formas agressivas a ameaças perceptíveis a sua dignidade cultural.
As pessoas, agora, aparecem menos como indivíduos egoístas, voltados para a satisfação material, e mais como seres inseridos em suas respectivas sociedades.
Melhor direcionamento de foco, no que diz respeito à atual emergência da China e da Índia, deveria levar em conta, portanto, que o grande desafio do século atual é o entendimento de como as culturas evoluem, adaptam-se ou permanecem estáveis.
Verifica-se, finalmente, que, na medida em que se consolide a emergência da China e Índia, que possuem laços de vizinhança milenares, bem como se desenvolvam cooperação mais intensa e troca de ensinamentos sobre como administrar seus respectivos processos de crescimento exponenciais, haverá, sem dúvida, impacto significativo no ordenamento político internacional.
Isto ocorrerá, tanto pela maior inserção de ambos na economia mundial, quanto por suas diferentes formas de atrair e influenciar novos e velhos amigos.
Nesse contexto e utilizando a metáfora aviária asiática, proponho, modestamente, que o papagaio verde-amarelo (cores da bandeira brasileira) faça o esforço de pensar um Projeto Nacional Brasileiro, que inclua parcerias com a eficiência e necessidades chinesas e indianas de acesso a insumos para seu continuado crescimento econômico. Para tanto, poderíamos contar com a nossa capacidade de promover o diálogo entre diferentes culturas, bem como procurar soluções comuns para problemas compartilhados, enquanto se busca a geração de benefícios mútuos.
Desnecessário lembrar que ao Brasil interessa ter uma visão própria sobre aquela parte do mundo, pois, no começo, nossa inserção internacional deu-se, com as caravelas de Pedro Alvarez Cabral, no século XVI, na busca da “Rota das Índias”. Mais tarde, também por influência portuguesa – em função da presença de Portugal em Macau - costumes, crenças e saberes de origem chinesa foram introduzidos, logo no início de nossa História, na maneira brasileira de ser.
Reitero que é importante, quando se reflete sobre teorias a respeito do progresso recente de países asiáticos, relembrar-se do descrito no vídeo de referência:

https://youtu.be/L1Svu7P8Pfg?si=zM3rWNNG2bEQpJVw

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