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quinta-feira, 19 de março de 2026

Seria a guerra no Irã o começo do fim do Império? - Alfred W. McCoy (CounterPunch, Outras Palavras)

Seria a guerra no Irã o começo do fim do Império?

Se a Crise de Suez, em 1956, marcou o fim do império britânico, talvez a aventura de Washington no Oriente Médio seja sintoma de seu declínio. Tudo saiu ao contrário do planejado. Talvez, no futuro, Trump seja lembrado como o maníaco que afundou os próprios EUA…

Outras Palavras, 17/03/2026 

Por Alfred W. McCoy, no CounterPunch | Tradução: Antonio Martins

No primeiro capítulo de seu romance de 1874, A Era Dourada, Mark Twain ofereceu uma observação reveladora sobre a conexão entre passado e presente: “A história nunca se repete, mas o presente muitas vezes parece ser construído a partir dos fragmentos quebrados de lendas antigas.”

Entre as “lendas antigas” mais úteis para entender o provável desfecho da atual intervenção dos EUA no Irã está a Crise de Suez de 1956, que descrevo em meu novo livro, Guerra Fria em Cinco Continentes. Depois que o líder egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez em julho de 1956, uma armada conjunta franco-britânica de seis porta-aviões destruiu a força aérea egípcia, enquanto tropas israelenses esmagavam tanques egípcios nas areias da Península do Sinai. Em menos de uma semana de guerra, Nasser havia perdido suas forças estratégicas e o Egito parecia indefeso diante do poderio avassalador daquele colosso imperial.

Mas, quando as forças anglo-francesas invadiram a costa norte do Canal de Suez, Nasser já havia executado uma jogada geopolítica magistral, afundando dezenas de navios enferrujados e cheios de pedras na entrada norte do canal. Com isso, ele cortou automaticamente a principal fonte de abastecimento de petróleo da Europa, que ficava no Golfo Pérsico. Quando as forças britânicas se retiraram derrotadas de Suez, a Grã-Bretanha já havia sido sancionada pela ONU, sua moeda estava à beira do colapso, sua aura de poder imperial havia se dissipado e seu império global caminhava para a extinção.

Os historiadores agora se referem ao fenômeno de um império em declínio lançando uma intervenção militar desesperada para recuperar sua glória imperial em declínio como “micromilitarismo”. E, na esteira da influência cada vez menor do império Washington sobre a vasta massa continental da Eurásia, o recente ataque militar dos EUA ao Irã começa a se parecer com uma versão norte-americana desse micromilitarismo.

Mesmo que a história nunca se repita de fato, neste momento parece bastante pertinente questionar se a atual intervenção dos EUA no Irã não seria, de fato, a versão norte-americana da Crise de Suez. E, caso a tentativa de Washington de promover uma mudança de regime em Teerã “tenha sucesso”, não se iluda pensando que o resultado será um novo governo estável e capaz de servir bem ao seu povo.

70 anos de mudança de regime

Vamos retornar ao registro histórico para desvendar as prováveis consequências de uma mudança de regime no Irã. Ao longo dos últimos 70 anos, Washington fez repetidas tentativas de mudança de regime em cinco continentes — inicialmente por meio de ações secretas da CIA durante os 44 anos da Guerra Fria e, nas décadas posteriores ao fim desse conflito global, por meio de operações militares convencionais. Embora os métodos tenham mudado, os resultados — mergulhando as sociedades afetadas em décadas de intensos conflitos sociais e instabilidade política incessante — foram lamentavelmente semelhantes. Esse padrão pode ser observado em algumas das intervenções secretas mais famosas da CIA durante a Guerra Fria.

Em 1953, o novo parlamento iraniano decidiu nacionalizar a concessão petrolífera imperial britânica na região para financiar serviços sociais para a sua democracia emergente. Em resposta, um golpe conjunto da CIA e do MI6 depôs o primeiro-ministro reformista e instalou no poder o filho do antigo Xá, há muito deposto. Infelizmente para o povo iraniano, ele provou ser um líder extremamente inepto, que transformou a riqueza petrolífera do país em pobreza em massa — precipitando, assim, a Revolução Islâmica do Irã em 1979.

Em 1954, a Guatemala implementava um programa histórico de reforma agrária que concedia à sua população indígena, majoritariamente maia, os requisitos necessários para a plena cidadania. Infelizmente, uma invasão patrocinada pela CIA instaurou uma brutal ditadura militar, mergulhando o país em 30 anos de guerra civil que deixou 200 mil mortos em uma população de apenas cinco milhões.

De forma semelhante, em 1960, o Congo emergiu de um século de brutal domínio colonial belga ao eleger um líder carismático, Patrice Lumumba. Mas a CIA logo o depôs do poder, substituindo-o por Josef Mobutu, um ditador militar cuja cleptocracia, ao longo de 30 anos, desencadeou uma violência que levou à morte de mais de cinco milhões de pessoas na Segunda Guerra do Congo (1998-2003) e continua a causar estragos até hoje.

Nas últimas décadas, os resultados das tentativas de Washington de promover mudanças de regime por meio de operações militares convencionais foram igualmente desastrosos. Após os ataques terroristas de setembro de 2001, as forças norte-americanas derrubaram o regime talibã no Afeganistão. Nos 20 anos seguintes, Washington gastou US$ 2,3 trilhões — e não, esse “trilhão” não é um erro de digitação! — em um esforço fracassado de reconstrução nacional, que foi varrido quando o Talibã ressurgente capturou a capital, Cabul, em agosto de 2021, mergulhando o país em uma mistura de patriarcado opressivo e privação em massa.

Em 2003, Washington invadiu o Iraque em busca de armas nucleares inexistentes e mergulhou no atoleiro de uma guerra de 15 anos que levou ao massacre de um milhão de pessoas e deixou para trás um governo autocrático que se tornou pouco mais que um estado cliente do Irã. E, em 2011, os EUA lideraram uma campanha aérea da OTAN que derrubou o regime radical do Coronel Muammar Gaddafi na Líbia, precipitando sete anos de guerra civil e, por fim, deixando o país dividido entre dois estados falidos e antagônicos.

Quando as tentativas de Washington de promover mudanças de regime fracassam, como aconteceu em Cuba em 1961 e na Venezuela no ano passado, esse fracasso muitas vezes deixa os regimes autocráticos ainda mais entrincheirados, com seu controle sobre a polícia secreta do país fortalecido e um domínio cada vez mais sufocante sobre a economia nacional.

Por que, você pode se perguntar, essas intervenções dos EUA invariavelmente parecem produzir resultados tão desastrosos? Para sociedades que lutam para alcançar uma frágil estabilidade social em meio a mudanças políticas voláteis, a intervenção externa, seja secreta ou aberta, parece ser invariavelmente o equivalente a bater em um relógio de bolso antigo com um martelo e depois tentar encaixar todas as suas engrenagens e molas de volta no lugar.

As consequências geopolíticas da guerra com o Irã

Ao explorar as implicações geopolíticas da mais recente intervenção de Washington no Irã, é possível imaginar como a guerra escolhida pelo presidente Donald Trump pode muito bem se tornar a versão de Washington da crise de Suez.

Assim como o Egito arrancou uma vitória diplomática das garras da derrota militar em 1956 ao fechar o Canal de Suez, o Irã agora bloqueou o outro ponto de estrangulamento crítico do Oriente Médio, disparando seus drones Shahed contra cinco navios cargueiros no Estreito de Ormuz (por onde passam regularmente 20% do petróleo bruto e gás natural do mundo) e contra refinarias de petróleo na costa sul do Golfo Pérsico. Os ataques com drones iranianos bloquearam mais de 90% das partidas de petroleiros do Golfo Pérsico e paralisaram as gigantescas refinarias do Catar, responsáveis por 20% da oferta mundial de gás natural liquefeito (GNL), fazendo com que os preços do gás natural disparassem 50% em grande parte do mundo e 91% na Ásia — com o preço da gasolina nos EUA caminhando para US$ 4 por galão e o custo do petróleo provavelmente atingindo a impressionante marca de US$ 150 por barril em um futuro próximo. Além disso, por meio da conversão de gás natural em fertilizante, o Golfo Pérsico é a fonte de quase metade dos nutrientes agrícolas do mundo, com os preços do fertilizante ureia subindo 37% em mercados como o Egito, o que ameaça tanto o plantio da primavera no hemisfério norte quanto a segurança alimentar no hemisfério sul.

A extraordinária concentração da produção de petróleo, do transporte marítimo internacional e do investimento de capital no Golfo Pérsico faz do Estreito de Ormuz não apenas um ponto de estrangulamento para o fluxo de petróleo e gás natural, mas também para a movimentação de capital de toda a economia global. Para começar pelo básico, o Golfo Pérsico detém cerca de 50% das reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em 859 bilhões de barris ou, aos preços atuais, cerca de US$ 86 trilhões.

Para se ter uma ideia da escala da concentração de capital na infraestrutura da região, as companhias petrolíferas nacionais do Conselho de Cooperação do Golfo investiram US$ 125 bilhões em suas instalações de produção somente em 2025, com planos de manter esse ritmo no futuro próximo. Para manter em operação a frota global de 7.500 petroleiros que atende principalmente o Golfo Pérsico, o custo de um único grande petroleiro “Suezmax” é de quase US$ 100 milhões — dos quais existem cerca de 900 normalmente em alto-mar, avaliados em um total de US$ 90 bilhões (com frequentes substituições necessárias devido à corrosão do aço em condições marítimas adversas). Além disso, Dubai possui o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, no centro de uma rede global com 450 mil voos anuais — atualmente fechado devido a ataques de drones iranianos.

Apesar de toda a propaganda da Casa Branca sobre a terrível e rápida ameaça dos recentes ataques aéreos norte-americanos, os 3 mil bombardeios EUA-Israel contra o Irã (que tem dois terços do tamanho da Europa Ocidental) na primeira semana da guerra empalidecem diante dos 1,4 milhão de bombardeios sobre a Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O contraste gritante entre esses números faz com que os atuais ataques aéreos dos EUA contra o Irã pareçam, de uma perspectiva estratégica, como atirar em um elefante com uma espingarda de chumbinho.

Além disso, os EUA possuem estoques limitados de cerca de 4 mil mísseis interceptores, que custam até US$ 12 milhões cada e não podem ser produzidos em massa rapidamente. Em contrapartida, o Irã tem um suprimento quase ilimitado de cerca de 80 mil drones Shahed, dos quais 10 mil podem ser produzidos mensalmente por apenas US$ 20 mil cada. Na prática, o tempo não está a favor de Washington se esta guerra se prolongar por mais de algumas semanas.

De fato, em uma entrevista recente, pressionado sobre a possibilidade de que a vasta frota iraniana de drones Shahed, lentos e de baixa altitude, pudesse em breve esgotar o estoque norte-americano de sofisticados mísseis interceptores, o chefe do Pentágono, general Dan Caine, foi surpreendentemente evasivo, dizendo apenas: “Não quero falar sobre quantidades”.

De quem são as botas no terreno?

Enquanto as pressões econômicas e militares por uma guerra mais curta aumentam, Washington tenta evitar o envio de tropas para terra firme, mobilizando as minorias étnicas do Irã, que representam cerca de 40% da população do país. Como o Pentágono sabe silenciosamente, mas dolorosamente, as forças terrestres norte-americanas enfrentariam uma resistência formidável da milícia Basij, com um milhão de membros, dos 150 mil Guardas Revolucionários (bem treinados para guerra de guerrilha assimétrica) e dos 350 mil soldados do exército regular iraniano.

Com outros grupos étnicos (como os azeris no norte) relutantes ou (como as tribos balúchis no sudeste, longe da capital) incapazes de atacar Teerã, Washington está desesperado para usar sua carta curda, assim como tem feito nos últimos 50 anos. Com uma população de 10 milhões de pessoas ao longo das fronteiras montanhosas da Síria, Turquia, Iraque e Irã, os curdos são o maior grupo étnico do Oriente Médio sem um Estado próprio. Como tal, eles têm sido forçados a participar do Grande Jogo imperial, o que os torna um indicador surpreendentemente sensível a mudanças mais amplas na influência imperial.

Embora o presidente Trump tenha feito ligações pessoais para os principais líderes da região do Curdistão iraquiano durante a primeira semana da guerra, oferecendo-lhes “ampla cobertura aérea dos EUA” para um ataque ao Irã, e os EUA até possuam uma base aérea militar em Erbil, capital do Curdistão, os curdos estão se mostrando, até agora, excepcionalmente cautelosos.

De fato, Washington tem um longo histórico de usar e abusar de combatentes curdos, que remonta aos tempos do Secretário de Estado Henry Kissinger, que transformou a traição deles em uma arte diplomática. Após ordenar à CIA que parasse de ajudar a resistência curda iraquiana contra Saddam Hussein em 1975, Kissinger disse a um assessor: “Prometa a eles qualquer coisa, dê a eles o que eles receberem e que se danem se não souberem levar uma brincadeira na esportiva.”

Enquanto as forças iraquianas lutavam para invadir o Curdistão, matando centenas de curdos indefesos, seu lendário líder Mustafa Barzani, avô do atual chefe do Curdistão iraquiano, implorou a Kissinger, dizendo: “Vossa Excelência, os Estados Unidos têm uma responsabilidade moral e política para com o nosso povo”. Kissinger sequer se dignou a responder a esse apelo desesperado e, em vez disso, disse ao Congresso: “Ações secretas não devem ser confundidas com trabalho missionário”.

Em janeiro passado, numa decisão incrivelmente inoportuna, a Casa Branca de Trump traiu os curdos pela enésima vez, rompendo a aliança de uma década de Washington com os curdos sírios ao forçá-los a ceder 80% do território ocupado. No sudeste da Turquia, o partido curdo radical PKK fez um acordo com o primeiro-ministro Recep Erdoğan e está, de fato, se desarmando, enquanto a região do Curdistão iraquiano se mantém fora da guerra, respeitando um acordo diplomático firmado com Teerã em 2023 para uma fronteira pacífica entre Irã e Iraque. O presidente Trump chegou a pedir a pelo menos um líder curdo iraniano, que representa cerca de 10% da população do Irã, que incentivasse uma revolta armada. Mas a maioria dos curdos iranianos parece mais interessada na autonomia regional do que na mudança de regime.

Enquanto os apelos de Trump para que os curdos ataquem e o povo iraniano se levante são recebidos com um silêncio eloquente, Washington provavelmente encerrará esta guerra com o regime islâmico do Irã ainda mais consolidado, mostrando ao mundo que os Estados Unidos não são apenas uma potência disruptiva, mas uma potência em declínio da qual outras nações podem prescindir. Ao longo dos últimos 100 anos, o povo iraniano se mobilizou seis vezes em tentativas de estabelecer uma democracia real. Neste momento, porém, parece que qualquer sétima tentativa ocorrerá muito depois de a atual frota naval americana ter deixado o Mar Arábico.

Do granular ao geopolítico

Se formos além dessa visão granular da política étnica do Irã e adotarmos uma perspectiva geoestratégica mais ampla sobre a guerra com o Irã, a influência decrescente de Washington nas colinas do Curdistão parece refletir seu declínio geopolítico em toda a vasta massa continental da Eurásia, que permanece hoje o epicentro do poder geopolítico, como tem sido nos últimos 500 anos.

Por quase 80 anos, os Estados Unidos mantiveram sua hegemonia global controlando as extremidades axiais da Eurásia por meio de sua aliança com a OTAN na Europa Ocidental e quatro pactos bilaterais de defesa ao longo do litoral do Pacífico, do Japão à Austrália. Mas agora, à medida que Washington concentra mais sua política externa no Hemisfério Ocidental, a influência norte-americana está diminuindo rapidamente ao longo do vasto arco da Eurásia que se estende da Polônia, passando pelo Oriente Médio, até a Coreia, região que estudiosos de geopolítica como Sir Halford Mackinder e Nicholas Spykman certa vez denominaram “Rimland” ou “zona de conflito”. Como Spykman resumiu sucintamente em certa ocasião: “Quem controla o Rimland controla a Eurásia; quem controla a Eurásia controla os destinos do mundo.”

Desde a ascensão da política externa “América Primeiro” de Donald Trump em 2016, as grandes e médias potências ao longo de toda a orla eurasiática têm se desvinculado ativamente da influência dos EUA — incluindo a Europa (por meio do rearme), a Rússia (ao desafiar o Ocidente na Ucrânia), a Turquia (ao permanecer neutra na guerra atual), o Paquistão (ao se aliar à China), a Índia (ao romper com a aliança Quad de Washington) e o Japão (ao se rearmar para criar uma política de defesa autônoma). Esse desengajamento contínuo se manifesta na falta de apoio à intervenção no Irã, mesmo por parte de aliados europeus e asiáticos outrora próximos — um contraste marcante com as amplas coalizões que se uniram às forças norte-americanas na Guerra do Golfo de 1991 e na ocupação do Afeganistão em 2002. Com o micromilitarismo de Trump no Irã expondo, inadvertidamente, mas claramente, os limites do poder norte-americano, a influência decrescente de Washington na Eurásia certamente se provará catalisadora para o surgimento de uma nova ordem mundial, que provavelmente irá muito além da antiga ordem de hegemonia global dos EUA.

Assim como Sir Anthony Eden é lembrado com pesar hoje no Reino Unido como o primeiro-ministro inepto que destruiu o Império Britânico em Suez, historiadores do futuro poderão ver Donald Trump como o presidente que degradou a influência internacional dos EUA com, entre outras coisas, sua desastrosa aventura militar no Oriente Médio. À medida que impérios ascendem e caem, essa geopolítica permanece claramente um fator constante na definição de seu destino — uma lição que tento transmitir em Guerra Fria em Cinco Continentes.

Em tempos difíceis como estes, quando os acontecimentos parecem confusos e desconcertantes, os “fragmentos quebrados de lendas antigas” de Mark Twain podem nos lembrar de analogias históricas, como o colapso do poder e da influência da Grã-Bretanha ou da União Soviética, que podem nos ajudar a entender como o passado muitas vezes sussurra ao presente — como de fato parece estar acontecendo nestes dias no Estreito de Ormuz.

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sábado, 17 de dezembro de 2022

Lima Barreto torceria pela Argentina? - Maria Salete Magnoni (Outras Palavras)

 

Lima Barreto torceria pela Argentina?

Parte da torcida argentina chama nossos jogadores de macaquitos, ofensa racista que remonta a 1920 – e fator apontado para sempre agourar los hermanos. Mas o escritor negro desconstrói o insulto – e ajuda a destravar o grito: vai Argentina!

Imagem: Arte Revista CULT

Assim que ficou definido que as seleções da Argentina e França disputarão a final da Copa do Mundo 2022, no próximo domingo, teve início, principalmente nas redes sociais, um acalorado debate sobre para qual país os brasileiros devem torcer. Arquirrivais no futebol torcedores brasileiros e argentinos não economizam nas ofensas e insultos mútuos, por isso muitos entre nós vão torcer pela França. Todavia há os que argumentam que torcer pelo país vizinho, nosso parceiro comercial e aliado político, é um gesto de reconhecimento da necessária integração sul-americana, e também de pertencimento à América Latina.

Do outro lado, além da dor de cotovelo de ver a Argentina novamente em uma final de Copa do Mundo, conquista que o Brasil não vive há 20 anos, uma das alegações para que não torçamos pela vitória do time argentino é de que eles são racistas e nos chamam de macaquitos. Sem minorar o comportamento de parte da torcida argentina, temos que nos lembrar que o racismo no futebol, infelizmente, ainda é uma constante, tanto no mundo, como no Brasil e que “incidentes de discriminação racial ainda são comuns nos estádios, assim como restrita presença de negros fora das quatro linhas, nos cargos de treinadores ou nas direções dos principais clubes do Brasil.”[1]

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O insulto, do qual os brasileiros se ressentem, e com razão, teve origem a partir de uma charge, que representava os nossos jogadores como macacos, publicada em 1920, pelo jornal sensacionalista argentino La crítica, quando o time brasileiro voltando do 4º Campeonato sul-americano de futebol, realizado no Chile, passou pela Argentina para jogar um amistoso com a sua seleção. Os ecos do incidente se fizeram sentir em 1921, pois o torneio que daria origem à Copa América seria realizado no país vizinho; o jornal carioca Correio da Manhã publicou, em setembro daquele ano, que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) estaria discutindo não enviar jogadores negros ao certame. O impasse foi levado ao então presidente da República, Epitácio Pessoa, que decidiu pela exclusão dos atletas negros, o que fez com que craques como Arthur Friendenreich que foi o autor do gol que deu o primeiro título internacional à seleção brasileira, em 1919, ao derrotar o Uruguai no 3º Campeonato sul-americano de futebol, ficasse de fora.

Charge no jornal argentino La Crítica, em 1920.

O escritor Lima Barreto, arguto observador do cotidiano político e social do Brasil do seu tempo, e que muito combateu o racismo, do qual também era alvo, comentou de maneira ácida e irônica o veto de Epitácio Pessoa na crônica Bendito footbal, publicada na Revista Careta em 01/10/1921:

“Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não deveria figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano […]. A providência, conquanto perspicazmente eugênica e científica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil […]. P.S – A nossa vingança é que os argentinos não distinguem, em nós, as cores; todos nós, para eles, somos macaquitos.”

Entretanto outra foi sua atitude ao tomar conhecimento, em 1920, da charge publicada no  jornal La crítica, utilizando-se do recurso do humor escreveu a crônica Macaquitos, que pode ser lida como uma refinada provocação aos discursos de superioridade racial vigentes à época, pois ao considerar o macaco, devido à sua inteligência e esperteza, superior aos demais animais, descontruiu a intenção desumanizadora do periódico argentino, combateu a discriminação racial, imprimiu leveza a um tema denso e de quebra, ainda hoje, nos faz rir. Que seja esse o espírito a presidir as torcidas no domingo. E da parte da autora deste breve comentário: #VamosArgentina!

Macaquitos, por Lima Barreto

Um jornal ou semanário de Buenos Aires, quando uma équipe brasileira de football, de volta do Chile, onde fora disputar um campeonato internacional, por lá passou, pintou-a como macacos. A cousa passou desapercebida, devido ao atordoamento das festas do Rei Alberto; mas, se assim não fosse, estou certo de que haveria irritação em todos os ânimos.

Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da série animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno “totem” não nos pode causar vergonha. A França, isto é, os franceses são tratados de galos e eles não se zangam com isto; ao contrário: o galo gaulês, o chantecler, é motivo de orgulho para eles.

Entretanto, quão longe está o galo, na escala zoológica, do macaco! Nem mamífero é! Quase todas as nações, segundo lendas e tradições, têm parentesco ou se emblemam com animais. Os russos nunca se zangaram por chamá-los de ursos brancos; e o urso não é um animal tão inteligente e ladino como o macaco. Vários países, como a Prússia e a Áustria, põem nas suas bandeiras águias; entretanto, a águia, desprezando a acepção pejorativa que tomou entre nós, não é lá animal muito simpático.

A Inglaterra tem como insígnias animais o leopardo e o unicórnio. Digam-me agora os senhores: o leopardo é um animal muito digno? A Bélgica tem leões ou leão nas suas armas; entretanto, o leão é um animal sem préstimo e carniceiro. O macaco – é verdade – não tem préstimo; mas é frugívoro, inteligente e parente próximo do homem. Não vejo motivos para zanga, nessa história dos argentinos chamar-nos de macacos, tanto mais que, nas nossas histórias populares, nós demonstramos muita simpatia por esse endiabrado animal.

Crônica publicada na revista Careta, em 23/10/1920.  Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/11-textos-dos-autores/789-lima-barreto-macaquitos. Acesso em: 15 dez.2022.


[1] CARVALHO, Marcelo Medeiros. O negro no futebol Brasileiro: inserção e racismo. Disponível em: http://movimentoar.com.br/o-negro-no-futebol-brasileiro-insercao-e-racismo/. Acesso em: 15.dez.2022.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

China, a nova globalização e o Brasil pasmado - Diego Paugasso (Bonifácio)

 O autor é um especialista na temática do pós-Guerra Fria, com os vieses ideológicos que são típicos na academia. Importante são as informações objetivas sobre os avanços materiais e os progressos econômicos e sociais realizados pela China nas últimas décadas. 

Descarto completamente as considerações iniciais sobre a "imposição de políticas neoliberais" pelos EUA a outros países, "fragilizando suas estruturas industriais", pois isso não faz nenhum sentido, sendo apenas o reflexo dessa animosidade ideológica contra um inexistente "neoliberalismo", típico na retórica de acadêmicos progressistas. Descarto igualmente as considerações finais sobre a nova Guerra Fria e suas consequências geopolíticas, pois são meras especulações de quem se dedica ao assunto, mas atua nessa questão como astrólogo amador.

Como sempre afirmei, meu blog serve para debates inteligentes a partir de coisas relevantes, e esta matéria preenche vários dos meus requisitos, mas me preservo quanto ao direito de formular observações e comentários iniciais ao que posto.

Paulo Roberto de Almeida 

China, a nova globalização e o Brasil pasmado

Nova potência ascendente, China aposta em novos arranjos geopolíticos, fora dos domínios dos EUA e em tecnologias transformadoras. Momento é histórico, similar ao declínio dos impérios europeus, mas diplomacia brasileira fecha os olhos

Em esforço para compreender em profundidade a China, Outras Palavras publica série de textos do cientista político e geógrafo brasileiro Diego Pautasso, que estuda o país asiático há 15 anos. Uma entrevista com o autor pode ser vista aqui.


O artigo a seguir foi publicado originalmente no site Bonifácio.
Leia todos os artigos da série


Para fechar a série, abordaremos o panorama recente da história das relações internacionais, de forma a iluminar os atuais descaminhos da ordem global. Inicialmente, é preciso destacar que os EUA conseguiram consolidar sua hegemonia após as Guerras Mundiais, a partir da conformação das estruturas de poder vigentes ainda hoje no âmbito multilateral. E, apesar da bipolaridade e rivalidade com a URSS no período da Guerra Fria, os interesses de Washington triunfaram em escala internacional.

Com o colapso do campo soviético, abriram-se margens para a ascensão de narrativas marcadas mais por desejos do que pela objetividade analítica. Tanto os discursos do ‘fim da história’ e do mundo unipolar ignoravam tendências à multipolarização; quanto aqueles que anunciavam o recorrente declínio dos EUA – desde a década de 1970 – ignoravam seu persistente poder econômico e geopolítico.

Dessa forma, o desaparecimento da URSS permitiu a Washington potencializar seus interesses em escala global, ao menos num primeiro momento. De um lado, reafirmou a imposição das políticas neoliberais a diversos desses polos ascendentes, cujo resultado foi a fragilização de parte de seus parques industriais, o estreitamento dos direitos sociais, a eclosão de recorrentes crises financeiras e a potencialização das instabilidades político-institucional. De outro, redefiniu os parâmetros de suas escaladas intervencionistas a partir da agenda de combate ao terrorismo e ao fundamentalismo e/ou sob pretexto de defesa da democracia, do meio ambiente, do livre mercado e dos direitos humanos. Sem falar nas contumazes instrumentalizações de embargos e sanções econômicas, intervenções militares “humanitárias” ou políticas de regime change e revoluções coloridas – novas formas para as velhas práticas de covert actions e golpes de Estado.

Em 2018, a China ultrapassou os Estados Unidos e tornou-se o primeiro país do mundo em número de patentes registradas.

O que os entusiastas da unipolaridade não esperavam era o irrefreável e avassalador processo de desenvolvimento chinês, com importantes desdobramentos geoeconômicos e geopolíticos. Embora o PIB per capita estadunidense ainda seja bastante superior ao chinês, em 2050, segundo a PwC, a China terá nada menos do que 20% do PIB mundial medido em PPP, ante 12% dos EUA. Em termos de produção manufatureira, a China já responde por 28% da manufatura global, tão grande quanto a dos EUA, do Japão e da Alemanha juntos. Em função do peso da sua economia, a China é a principal parceira comercial de 130 países do mundo – o que suscita progressivo efeito gravitacional.

Em 2019, na condição de segunda maior economia do mundo em PIB nominal, a China (U$S 14,1 trilhões) já correspondia a quase Japão, Alemanha, Índia e Reino Unido juntos, com somatório de U$S 14,7 trilhões. Graças ao seu desempenho, a economia chinesa tem contribuído com cerca de 25 a 35% do crescimento mundial na última década (o dobro da participação dos EUA). A China tem 40% do mercado global de contêineres (ante 18% dos EUA), e 7 dos 10 principais portos marítimos mundiais (o maior dos EUA é o de Los Angeles, o 17º). Alguns dados são ainda mais surpreendentes: a China usou mais cimento entre 2011 e 2013 do que os EUA em todo o século XX. Em 2019, a China produziu 996,3 milhões de toneladas de aço bruto, enquanto os EUA produziram 87,9 milhões. O mercado chinês tem ainda uma classe média de cerca de 350 milhões de pessoas (maior que a dos EUA desde 2015), em franco processo de expansão.

e-commerce chinês deste ano detém números quase quatro vezes maiores do que o estadunidense. Também neste ano, a China está chegando à marca de 900 milhões de usuários de Internet. E são mais de 35 mil km de trens de alta velocidade cortando o país, além de uma notável modernização infraestrutural. Em 2018, a China superou os EUA em número de patentes registradas, e já forma anualmente cerca de quatro vezes mais profissionais nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática do que seu rival. A trajetória explicita os ritmos e volumes distintos e superiores com os quais a China vem liderando outros tantos segmentos – como destacamos no artigo sobre inovações em energias sustentáveis.

Assim, a China tem atuado para reformar e/ou influenciar as estruturas hegemônicas introduzidas, construídas e potencializadas historicamente sob a liderança de Washington, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC). E, simultaneamente, Pequim tem promovido novos arranjos econômicos multilaterais, tais como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) dos BRICS e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB); o Sistema de Pagamento Internacional da China, alternativo ao Swift; o China UnionPay, ao invés das bandeiras Visa e Master, e o Centro de Avaliação de Crédito Universal, em detrimento a Moodys ou Standard & Poors; áreas comerciais como a Parceria Regional Abrangente, entre outras. Nesse mesmo sentido, o governo chinês move-se na direção da concertação diplomática, equalizando instrumentos tais como os BRICS, a Organização da Cooperação de Xangai (OCX), o Fórum de Bao para a Ásia e, sobretudo, a Nova Rota da Seda – a mais acabada demonstração do que chamamos de projeto chinês de globalização, alternativo ao paradigma do Consenso de Washington. 

Voltando à história. Mais do que refletir a existência de um mundo bipolar, a Guerra Fria foi também o período de consolidação da hegemonia internacional estadunidense, sob a égide de uma estratégia de contenção ao polo rival socialista, anti-sistêmico. Cada vez mais, os noticiários e analistas ressuscitam o termo, mencionando a existência de uma Nova Guerra Fria. São sabidas as diferenças e semelhanças entre um e outro contexto. É nítido que a URSS e os EUA não detinham a sinergia econômico-comercial bilateral que têm hoje China e EUA; a competição técnico-produtiva não era tão aguda; os blocos possuíam maior coesão político-ideológica (não obstante as fraturas existentes em ambos, como ilustram os casos das relações da URSS com a Iugoslávia, a Albânia e a China). Por outro lado, as semelhanças também são importantes: as duas superpotências, apesar das assimetrias, eram dirigidas por forças políticas que reivindicavam, antagonicamente, o capitalismo e o socialismo; e as disputas entre os dois pólos eram travadas de forma mais clara em terceiros cenários.

Importa notar, pois, que o recrudescimento da retórica anti-chinesa – acirrada com o recente discurso de Mike Pompeo sobre A China Comunista e o Futuro do Mundo Livre – ajuda a iluminar a direção das contradições que se desenham. Ele instou “uma luta entre o mundo livre e a tirania”, e acusou o Partido Comunista Chinês de ser um “opressor nacional” e um “agente internacional desonesto”. Ora, são translúcidos certos elementos de continuidade: a China é, indiferentemente do debate acerca do quão anti-sistêmico é seu modelo, um país desafiante da hegemonia estadunidense, e comandado por um Partido Comunista de tradições marxistas-leninistas. Nesse sentido, os EUA replicam a lógica de contenção como forma de coesionar seus aliados e evitar a expansão do rival. Em suma, a Guerra Comercial, o apoio aos movimentos separatistas na China, o cerco militar, etc. fazem parte de um conjunto mais amplo de ações que obedecem a essa coerência sistêmica.   

É auto-evidente, contudo, que a história não se replica. Desde o final da década de 1960, a China abandonou a antiga política de fomento às revoluções socialistas em terceiros países, ainda que mantenha importantes laços ideológicos com os Estados nacionais onde o socialismo orienta as políticas governamentais. A ênfase da inserção internacional chinesa recai exatamente no pragmatismo, no respeito ao princípio da não-intervenção em assuntos domésticos de outras nações e, mais contemporaneamente, na busca da promoção das chamadas relações win-win. Afinal, diferentemente da URSS, Pequim tem conseguido, como já demonstrado, fazer frente aos competidores nas searas científico-tecnológica e econômico-comercial. Por paradoxal que pareça, a instrumentalização de conflitos internos de terceiros países, as ações voltadas à mudança de regimes políticos e a obstrução das ferramentas de concertação política multilaterais partem exatamente dos EUA, visando impedir o fortalecimento do gigante asiático.

Em suma, o fato é que se configura um período de transição sistêmica, prenhe de contradições. Para além da competição sino-estadunidense, está em curso uma profunda reorganização produtivo-tecnológica e civilizacional, com certos movimentos disruptivos precipitados pelo inesperado panorama da pandemia. E é nesse cenário complexo em que devemos pensar o papel a ser cumprido pelo Brasil.

Inicialmente, algumas lições são importantes: no começo do século XX, o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, percebeu o deslocamento da hegemonia global dos braços da Grã-Bretanha para os dos EUA, e por isso estabeleceu a chamada aliança não-escrita com Washington, crucial para a potencialização de nossa autonomia e interesses nacionais à época. Já durante o ciclo desenvolvimentista, entre a Revolução de 1930 e a década de 1980, o Brasil adentrou seu mais notável período de modernização, sustentando um paradigma de inserção internacional sem alinhamento automático, apesar da interação privilegiada com os EUA.

Na atualidade, contudo, não se pode negar a condição de potência ascendente da China, tampouco o fato de que o principal eixo da economia mundial se desloca, progressivamente, para a Ásia Oriental. Ora, se foi Geisel, no ápice da bipolaridade, quem reatou com Pequim, colocando os interesses nacionais acima das preferências ideológicas, cabe ao Brasil de hoje se movimentar de forma a tirar o melhor proveito da competição sino-estadunidense.

O estabelecimento de um alinhamento automático com a potência declinante e a internalização de polarizações de uma Nova Guerra Fria contribuem apenas para dividir artificialmente o país e turvar a necessária concretização dos interesses nacionais de longo alcance. Resta, pois, a formatação de uma política externa compatível com as demandas, capacidades e responsabilidades de um país da envergadura do Brasil, moldando seus rumos em prol do desenvolvimento e da soberania nacionais. E sem compreendermos as nuances da atual encruzilhada sistêmica e o papel da China no mundo, dificilmente alcançaremos tal empreendimento.

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

China, a nova globalização e o Brasil pasmado - Diego Pautasso (Outras Palavras)

O autor é um especialista na temática do pós-Guerra Fria, com os vieses ideológicos que são típicos na academia. Importante são as informações objetivas sobre os avanços materiais e os progressos econômicos e sociais realizados pela China nas últimas décadas. 

Descarto completamente as considerações iniciais sobre a "imposição de políticas neoliberais" pelos EUA a outros países, "fragilizando suas estruturas industriais", pois isso não faz nenhum sentido, sendo apenas o reflexo dessa animosidade ideológica contra um inexistente "neoliberalismo", típico na retórica de acadêmicos progressistas. Descarto igualmente as considerações finais sobre a nova Guerra Fria e suas consequências geopolíticas, pois são meras especulações de quem se dedica ao assunto, mas atua nessa questão como astrólogo amador.

Como sempre afirmei, meu blog serve para debates inteligentes a partir de coisas relevantes, e esta matéria preenche vários dos meus requisitos, mas me preservo quanto ao direito de formular observações e comentários iniciais ao que posto.

Paulo Roberto de Almeida 

China, a nova globalização e o Brasil pasmado

Nova potência ascendente, China aposta em novos arranjos geopolíticos, fora dos domínios dos EUA e em tecnologias transformadoras. Momento é histórico, similar ao declínio dos impérios europeus, mas diplomacia brasileira fecha os olhos

Em esforço para compreender em profundidade a China, Outras Palavras publica série de textos do cientista político e geógrafo brasileiro Diego Pautasso, que estuda o país asiático há 15 anos. Uma entrevista com o autor pode ser vista aqui.


O artigo a seguir foi publicado originalmente no site Bonifácio.
Leia todos os artigos da série


Para fechar a série, abordaremos o panorama recente da história das relações internacionais, de forma a iluminar os atuais descaminhos da ordem global. Inicialmente, é preciso destacar que os EUA conseguiram consolidar sua hegemonia após as Guerras Mundiais, a partir da conformação das estruturas de poder vigentes ainda hoje no âmbito multilateral. E, apesar da bipolaridade e rivalidade com a URSS no período da Guerra Fria, os interesses de Washington triunfaram em escala internacional.

Com o colapso do campo soviético, abriram-se margens para a ascensão de narrativas marcadas mais por desejos do que pela objetividade analítica. Tanto os discursos do ‘fim da história’ e do mundo unipolar ignoravam tendências à multipolarização; quanto aqueles que anunciavam o recorrente declínio dos EUA – desde a década de 1970 – ignoravam seu persistente poder econômico e geopolítico.

Dessa forma, o desaparecimento da URSS permitiu a Washington potencializar seus interesses em escala global, ao menos num primeiro momento. De um lado, reafirmou a imposição das políticas neoliberais a diversos desses polos ascendentes, cujo resultado foi a fragilização de parte de seus parques industriais, o estreitamento dos direitos sociais, a eclosão de recorrentes crises financeiras e a potencialização das instabilidades político-institucional. De outro, redefiniu os parâmetros de suas escaladas intervencionistas a partir da agenda de combate ao terrorismo e ao fundamentalismo e/ou sob pretexto de defesa da democracia, do meio ambiente, do livre mercado e dos direitos humanos. Sem falar nas contumazes instrumentalizações de embargos e sanções econômicas, intervenções militares “humanitárias” ou políticas de regime change e revoluções coloridas – novas formas para as velhas práticas de covert actions e golpes de Estado.

Em 2018, a China ultrapassou os Estados Unidos e tornou-se o primeiro país do mundo em número de patentes registradas.

O que os entusiastas da unipolaridade não esperavam era o irrefreável e avassalador processo de desenvolvimento chinês, com importantes desdobramentos geoeconômicos e geopolíticos. Embora o PIB per capita estadunidense ainda seja bastante superior ao chinês, em 2050, segundo a PwC, a China terá nada menos do que 20% do PIB mundial medido em PPP, ante 12% dos EUA. Em termos de produção manufatureira, a China já responde por 28% da manufatura global, tão grande quanto a dos EUA, do Japão e da Alemanha juntos. Em função do peso da sua economia, a China é a principal parceira comercial de 130 países do mundo – o que suscita progressivo efeito gravitacional.

Em 2019, na condição de segunda maior economia do mundo em PIB nominal, a China (U$S 14,1 trilhões) já correspondia a quase Japão, Alemanha, Índia e Reino Unido juntos, com somatório de U$S 14,7 trilhões. Graças ao seu desempenho, a economia chinesa tem contribuído com cerca de 25 a 35% do crescimento mundial na última década (o dobro da participação dos EUA). A China tem 40% do mercado global de contêineres (ante 18% dos EUA), e 7 dos 10 principais portos marítimos mundiais (o maior dos EUA é o de Los Angeles, o 17º). Alguns dados são ainda mais surpreendentes: a China usou mais cimento entre 2011 e 2013 do que os EUA em todo o século XX. Em 2019, a China produziu 996,3 milhões de toneladas de aço bruto, enquanto os EUA produziram 87,9 milhões. O mercado chinês tem ainda uma classe média de cerca de 350 milhões de pessoas (maior que a dos EUA desde 2015), em franco processo de expansão.

e-commerce chinês deste ano detém números quase quatro vezes maiores do que o estadunidense. Também neste ano, a China está chegando à marca de 900 milhões de usuários de Internet. E são mais de 35 mil km de trens de alta velocidade cortando o país, além de uma notável modernização infraestrutural. Em 2018, a China superou os EUA em número de patentes registradas, e já forma anualmente cerca de quatro vezes mais profissionais nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática do que seu rival. A trajetória explicita os ritmos e volumes distintos e superiores com os quais a China vem liderando outros tantos segmentos – como destacamos no artigo sobre inovações em energias sustentáveis.

Assim, a China tem atuado para reformar e/ou influenciar as estruturas hegemônicas introduzidas, construídas e potencializadas historicamente sob a liderança de Washington, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC). E, simultaneamente, Pequim tem promovido novos arranjos econômicos multilaterais, tais como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) dos BRICS e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB); o Sistema de Pagamento Internacional da China, alternativo ao Swift; o China UnionPay, ao invés das bandeiras Visa e Master, e o Centro de Avaliação de Crédito Universal, em detrimento a Moodys ou Standard & Poors; áreas comerciais como a Parceria Regional Abrangente, entre outras. Nesse mesmo sentido, o governo chinês move-se na direção da concertação diplomática, equalizando instrumentos tais como os BRICS, a Organização da Cooperação de Xangai (OCX), o Fórum de Bao para a Ásia e, sobretudo, a Nova Rota da Seda – a mais acabada demonstração do que chamamos de projeto chinês de globalização, alternativo ao paradigma do Consenso de Washington. 

Voltando à história. Mais do que refletir a existência de um mundo bipolar, a Guerra Fria foi também o período de consolidação da hegemonia internacional estadunidense, sob a égide de uma estratégia de contenção ao polo rival socialista, anti-sistêmico. Cada vez mais, os noticiários e analistas ressuscitam o termo, mencionando a existência de uma Nova Guerra Fria. São sabidas as diferenças e semelhanças entre um e outro contexto. É nítido que a URSS e os EUA não detinham a sinergia econômico-comercial bilateral que têm hoje China e EUA; a competição técnico-produtiva não era tão aguda; os blocos possuíam maior coesão político-ideológica (não obstante as fraturas existentes em ambos, como ilustram os casos das relações da URSS com a Iugoslávia, a Albânia e a China). Por outro lado, as semelhanças também são importantes: as duas superpotências, apesar das assimetrias, eram dirigidas por forças políticas que reivindicavam, antagonicamente, o capitalismo e o socialismo; e as disputas entre os dois pólos eram travadas de forma mais clara em terceiros cenários.

Importa notar, pois, que o recrudescimento da retórica anti-chinesa – acirrada com o recente discurso de Mike Pompeo sobre A China Comunista e o Futuro do Mundo Livre – ajuda a iluminar a direção das contradições que se desenham. Ele instou “uma luta entre o mundo livre e a tirania”, e acusou o Partido Comunista Chinês de ser um “opressor nacional” e um “agente internacional desonesto”. Ora, são translúcidos certos elementos de continuidade: a China é, indiferentemente do debate acerca do quão anti-sistêmico é seu modelo, um país desafiante da hegemonia estadunidense, e comandado por um Partido Comunista de tradições marxistas-leninistas. Nesse sentido, os EUA replicam a lógica de contenção como forma de coesionar seus aliados e evitar a expansão do rival. Em suma, a Guerra Comercial, o apoio aos movimentos separatistas na China, o cerco militar, etc. fazem parte de um conjunto mais amplo de ações que obedecem a essa coerência sistêmica.   

É auto-evidente, contudo, que a história não se replica. Desde o final da década de 1960, a China abandonou a antiga política de fomento às revoluções socialistas em terceiros países, ainda que mantenha importantes laços ideológicos com os Estados nacionais onde o socialismo orienta as políticas governamentais. A ênfase da inserção internacional chinesa recai exatamente no pragmatismo, no respeito ao princípio da não-intervenção em assuntos domésticos de outras nações e, mais contemporaneamente, na busca da promoção das chamadas relações win-win. Afinal, diferentemente da URSS, Pequim tem conseguido, como já demonstrado, fazer frente aos competidores nas searas científico-tecnológica e econômico-comercial. Por paradoxal que pareça, a instrumentalização de conflitos internos de terceiros países, as ações voltadas à mudança de regimes políticos e a obstrução das ferramentas de concertação política multilaterais partem exatamente dos EUA, visando impedir o fortalecimento do gigante asiático.

Em suma, o fato é que se configura um período de transição sistêmica, prenhe de contradições. Para além da competição sino-estadunidense, está em curso uma profunda reorganização produtivo-tecnológica e civilizacional, com certos movimentos disruptivos precipitados pelo inesperado panorama da pandemia. E é nesse cenário complexo em que devemos pensar o papel a ser cumprido pelo Brasil.

Inicialmente, algumas lições são importantes: no começo do século XX, o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, percebeu o deslocamento da hegemonia global dos braços da Grã-Bretanha para os dos EUA, e por isso estabeleceu a chamada aliança não-escrita com Washington, crucial para a potencialização de nossa autonomia e interesses nacionais à época. Já durante o ciclo desenvolvimentista, entre a Revolução de 1930 e a década de 1980, o Brasil adentrou seu mais notável período de modernização, sustentando um paradigma de inserção internacional sem alinhamento automático, apesar da interação privilegiada com os EUA.

Na atualidade, contudo, não se pode negar a condição de potência ascendente da China, tampouco o fato de que o principal eixo da economia mundial se desloca, progressivamente, para a Ásia Oriental. Ora, se foi Geisel, no ápice da bipolaridade, quem reatou com Pequim, colocando os interesses nacionais acima das preferências ideológicas, cabe ao Brasil de hoje se movimentar de forma a tirar o melhor proveito da competição sino-estadunidense.

O estabelecimento de um alinhamento automático com a potência declinante e a internalização de polarizações de uma Nova Guerra Fria contribuem apenas para dividir artificialmente o país e turvar a necessária concretização dos interesses nacionais de longo alcance. Resta, pois, a formatação de uma política externa compatível com as demandas, capacidades e responsabilidades de um país da envergadura do Brasil, moldando seus rumos em prol do desenvolvimento e da soberania nacionais. E sem compreendermos as nuances da atual encruzilhada sistêmica e o papel da China no mundo, dificilmente alcançaremos tal empreendimento.

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domingo, 7 de julho de 2019

Outras Palavras: o último reduto dos socialistas utópicos? - leituras edificantes

Em meio a tantas bobagens dos derradeiros defensores do socialismo em nossa imprensa alternativa, o que nos faz sorrir de ver quanto tanta tinta e papel (como aos tempos de Marx), ou quantos bits and bytes, em nossa época, se continua a verter em defesa de causas indefensáveis, pode-se sempre ter boas surpresas, como as "chinesices" brasileiras, trazidas pelos Portugueses que também tinham um enclave no gigante asiático, aliás por 500 anos, e que ainda vai perdurar numa autonomia ilusória até 2049, ainda que Macau nunca tenha tido, como Hong Kong, uma verdadeira autonomia em relação aos desejos da corte em Beijing.
Também tem um artigo que faria corar de vergonha qualquer militante da UNE, sobre a submissão de Paulo Guedes aos "mercados", esse demônio eterno dos anti-mercadistas, socialistas ou não, keynesianos ou cepalianos radicais, como é o caso do meu colega Samuel Pinheiro Guimarães. Poucas vezes li coisas de um simplismo tão vulgar, e de um maniqueísmo tão atroz.
No mais, é a cantilena habitual contra os mercados, os acordos "globalistas", como essa entre a União Europeia e o Mercosul, que os socialistas esperam ardentemente que os ecologistas cumpram suas promessas de destruição, e várias outras bobagens de tamanho família ou em volume reduzido.
Como digo sempre, eu leio de tudo, da extrema esquerda à extrema direita, com muitas bobagens pelo caminho. Sempre procurando aprender, mesmo por vias traversas ou equivocadas como a maior parte dos textos aqui presentes.
Quem não tiver nada a fazer num domingo de inverno, pode se divertir, criticamente, com a leitura de alguns textos aqui apresentados a partir do boletim de Outras Palavras...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 7 de julho de 2019

Europa-Mercosul: o acordo de Recolonização
Nada assegura que o pré-compromisso de “livre” comércio assinado em 28/6 torne-se realidade um dia. Se assim for, haverá retrocesso secular. Felizmente, já se anuncia resistência — e não apenas na América do Sul
Por Antonio Martins
Socialismo, utopia inviável?
Paradoxo: há pós-capitalismo latente no Big Datae na Inteligência Artificial. Agora, tornou-se possível superar o mercado e planejar a produção de modo democrático, sem o peso da burocracia estatal. Desta brecha surgirá uma das disputas centrais no século XXI
Por Eleutério F. S. Prado
A esquerda volta a pensar além do capital
Surpresa: nos EUA e Inglaterra, uma nova geração de economistas rejeita a ideia de adaptar-se ao sistema e formula projetos opostos à ditadura das corporações e das finanças. Quem são eles? Que ambiente político favorece esta ousadia?
Por Andy Beckett
O (humaníssimo) Direito ao Reparo
Contra a alienação e a obsolescência programada surge uma reivindicação prosaica, mas cheia de sentido. É preciso recobrar o poder de consertar os aparatos que se danificam -- ao invés de descartá-los e afundar no consumismo
Por Valerie Vande Panne
Sanções, arma brutal de um império em apuros
Enfraquecidos diplomaticamente, EUA apelam a sua supremacia financeira e naval para submeter países “desobedientes”. Lista, pouco conhecida, inclui Irã, Venezuela e mais 18. Ilegal, ação mata dezenas de milhares -- mas é cada vez mais ineficaz
Por Medea Benjamin e Nicolas J. S. Davies
Um “liberal” à moda Pinochet
Paulo Guedes é o ministro do ataque à Previdência, da destruição da indústria e da submissão aos EUA. Mas é também o ex-assessor da ditadura chilena que aprendeu a esconder este projeto por trás de gritos em defesa da família, da moral e dos costumes
Um ensaio de Samuel Pinheiro Guimarães
O crime hediondo de Moro, Dallagnol & Companhia
Em parábola do país contemporâneo, papagaio da Disney encontra um Rio diferente do que apresentou ao mundo e aos próprios brasileiros. Há ufanismo e malandros românticos -- mas também a desigualdade brutal que a idealização oculta
Uma crônica de Gabriel Bayarri
Uma resposta popular à gentrificação
Nos EUA, uma cooperativa de trabalhadores, ameaçada pela alta dos alugueis, enfrenta a especulação de forma instigante. Em rede, e por meio de fundo solidário, conseguiu comprar um prédio e transformá-lo em moradias e comércios populares
Por Oscar Perry Abello
“Chinesices”, traço oculto de nossa história colonial
Em pelo menos 30 cidades brasileiras há influência da China na arte e arquitetura. Trazidas pelo portugueses, obras vão além do exotismo, comungam sagrado e profano e inspiraram escritores como Guimarães Rosa e Cora Coralina
Por Sílvio Reis
Previdência, o retrato de um país desigual -- e cruel
84% dos aposentados e pensionistas recebem menos de 2 salários -- os grandes privilegiados, para Paulo Guedes. Enquanto isso, governo dá tratamento VIP a bancos: vista grossa com sonegação, perdão de dívidas e isenção fiscal em seus lucros obscenos
Por Paulo Kliass 


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Guerra contra o Irã. América First ou Israel First ? - ​​​​Sergio Florencio (Portal Interesse Nacional)

Guerra contra o Irã.  América First ou  Israel First  ? ​ ​ ​ ​ Sergio Florencio Portal Interesse Nacional   A guerra contra o Irã comple to...