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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sobre os 35 anos da ADB: Associação dos Diplomatas Brasileiros (agora Sindicato também) - Paulo Roberto de Almeida

Sobre os 35 anos da ADB

Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, professor

Nunca fui um admirador incondicional do General De Gaulle, mas já li muito sobre ele, inclusive um livro sobre suas leituras que eu comprei no Memorial De Gaulle em Colombey-Les-Deux-Églises, quando fui visitar esse museu em algum momento dos anos passados. Mas sempre gostei de uma postura do General, que dizia que mantinha “une certaine idée de la France’, tanto que escolhi esse título para um dos meus quatro ou cinco livros digitais contra o bolsonarismo diplomático, uma diminuição inaceitável da credibilidade de nossa diplomacia no exterior, chamando-o de Uma certa ideia do Itamaraty (2020). Eis a ficha completa desse livreto, feito num dos momentos mais angustiosos da vida do Itamaraty, diminuído por fora, atemorizado por dentro, sob a direção alucinada de um chanceler acidental, singularmente despreparado para o cargo, pois que desprovido de poder real, já que vivia que submetido a amadores ignorantes em política internacional:
Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira, Brasília, 7 setembro 2020, 169 p. Livro sobre a nossa diplomacia, em tempos obscuros. Anunciado no blog Diplomatizzando (link:
https://www.academia.edu/44037693/Uma_certa_ideia_do_Itamaraty_A_reconstrucao_da_politica_externa_e_a_restauracao_da_diplomacia_brasileira_2020_), e também na plataforma Research Gate (link:

Um dia vou relatar uma tentativa que fiz, discreta e reservadamente, entre os colegas diplomatas, para tentar elaborar ideias para a reconstrução política, funcional e moral do Itamaraty, depois do desgoverno Bolsonaro, numa fase extremamente angustiante da vida da Casa de Rio Branco, já que terrivelmente diminuída pela ação irresponsável daquilo que eu chamei de “bolsolavismo diplomático”, já que várias das posturas absurdamente antidiplomáticas tinham sido sugeridas por autodenominado filósofo, alucinado e ridículo, que foi ele mesmo o responsável pela indicação do nefasto chanceler acidental para nossa Casa.
Por enquanto gostaria de comemorar condignamente os 35 anos de vida da Associação dos Diplomatas Brasileiros, tornada efetiva em 1991, mas cuja ideia já vinha de alguns anos antes, na segunda metade da década dos 80, na redemocratização. Eu havia recém voltado de minha primeira “excursão diplomática” ao exterior, uma primeira remoção para a capital da Suíça, em Berna, em 1979, seguida de um segundo posto em Belgrado, capital da então Iugoslávia, em 1982, durante a qual eu finalmente conseguiu terminar e defender minha tese de doutoramento na Universidade de Bruxelas, deixada inconclusa quando resolvi voltar ao Brasil, em 1977, depois de quase sete anos de autoexílio na Europa, nos chamados “anos de chumbo”, os mais sombrios de nossa história política do final do século passado.
Um dos motivos para minha decisão de prestar o concurso para a carreira diplomática, foi que, além de eu não ter um emprego fixo, imediatamente após meu retorno ao Brasil em marco de 1977, pois não havia concursos abertos para alguma universidade federal – e eu era um acadêmico iniciante –, eu queria testar a minha “ficha” nos registros da repressão policial depois de ter passado anos lutando contra a ditadura brasileira, escrevendo sob outros nomes artigos contra o regime militar. Eu estava aparentemente limpo, aos olhos dos aparelhos de informação do Estado autoritário, tanto que fui admitido e comecei a trabalhar. Mas, acabei sendo fichado pouco depois, como diplomata subversivo, tendo trabalhado na campanha do candidato do MDB, general Euler Bentes Monteiro, contra o candidato da ditadura, o último, o general João Figueiredo, nas últimas eleições indiretas para presidente, em 1978. Mas isso só vim a descobrir anos depois, ao consultar o diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília, que eu estava fichado desde 1978, inclusive tendo tido um trabalho sobre uma política externa alternativa à da ditadura salvo pelos informantes e disponível digitalmente no referido diretório. Mas isso é uma outra história.
O fato é que conjuntamente ao trabalho de reconstrução constitucional do país, a partir de 1987, os diplomatas começaram simultaneamente a tentar construir uma representação associativa da categoria, como sinônimo de uma reconstrução funcional e política de uma instituição respeitável e respeitada, como uma das grandes corporações do Estado brasileiro, junto, aliás, das Forças Armadas e das outras tecnocracias do Estado, como as do Banco Central, da Receita, dos demais corpos do Estado. Debates se acirraram naquele período de reconstrução democrática do Brasil, e aproveitei meus conhecimentos de sociologia política (e aulas na UnB e no próprio Instituto Rio Branco) para escrever alguns trabalhos sobre a interação entre os partidos políticos, a diplomacia e a política externa do Estado brasileiro, textos que foram mais tarde também reunidos numa brochura consolidando esse material:
Estrutura Constitucional e Interface Internacional do Brasil: Relações internacionais, política externa e Constituição, Brasília, 29 janeiro 2018, 146 p. Compilação seletiva de ensaios sobre essa temática, elaborados depois de 1996, como complemento ao livro Parlamento e Política Externa (1996). Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/35779830/Estrutura_constitucional_e_interface_internacional_do_Brasil ), em Research Gate (9/03/2018; link: https://www.researchgate.net/publication/323675789_Estrutura_Constitucional_e_Interface_Internacional_do_Brasil_Relacoes_internacionais_politica_externa_e_Constituicao_Brasilia_Edicao_do_Autor_2018), informado no Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2018/01/as-relacoes-constitucionais-e-estrutura.html).

Por esses acasos da vida diplomática acabei saindo novamente, para minha segunda “incursão exterior”, para o segundo e o terceiro postos que tive na carreira: primeiro Genebra – onde tive o privilégio de servir com o embaixador Ricupero em vários dos temas de desenvolvimento econômico e relações econômicas internacionais (que acabaram permanecendo como minha especialização ulterior) – logo em seguida Montevidéu-Aladi, quando assisti ao processo integracionista e ao nascimento do Mercosul (que constituiu o tema de meu primeiro livro publicado e de centenas de outros trabalhos nessa problemática). Não participei, assim, nem da promulgação de uma nova Constituição para o Brasil (a atual), nem da fundação da Associação dos Diplomatas Brasileiros, a não ser indiretamente.
Mas comecei imediatamente a trabalhar em prol da dimensão cultural da ADB, ao praticamente assumir, durante quase duas décadas, a seção Prata da Casa de seu boletim (depois revista), efetuando resenhas, algumas grandes, outras reduzidas, sobre os livros publicados pelos diplomatas. Persisti durante anos nessa porfia que sempre me foi extremamente agradável – pois o meu mundo é exatamente esse, o dos livros –, até que uma censura indevida a uma de minhas resenhas me fez desistir de continuar colaborando (não me lembro de alguém ter assumido a tarefa na minha sequência, e tanto a Prata da Casa, como a própria publicação, boletim ou revista, deixaram de existir, em face da concorrência oferecida atualmente pelas redes de comunicação social. Atualmente, o Prata da Casa é apenas uma seção eletrônica, no site da ADB, já transformada em sindicato nos últimos dez anos, em função da concorrência oferecida pelo SindItamaraty, que traduz uma influência maior, acredito, da outra categoria dos funcionários do Serviço Exterior brasileiro, os oficiais de chancelaria.
Minhas reflexões sobre a própria ADB podem ser lidas depois desta primeira parte, mais memorialística sobre as formas de expressão pública da diplomacia brasileira. Tendo ela completado 35 anos de vida, isso me fez lembrar de alguns romances do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre, que dizia que essa era a idade da razão, a que ele próprio enfrentou durante a ocupação alemã de seu país, quando se dedicou mais à literatura do que à política (o que ele faria mais tarde). Coube-me lembrar também de um dos romances de Balzac, La Femme de Trente Ans, mas cujo enredo e temática não têm nada a ver com a ADB, seja pela idade, seja pelas suas preferências relacionais ou sentimentos afetivos.
A ADB sempre teve entre seus objetivos básicos, sem adentrar na definição da política externa, que é tarefa presidencial, a promoção do bom funcionamento da corporação, enquanto serviço de Estado comprometido com os altos interesses da nação, e por isso devotada a sólidos princípios institucionais de alta qualidade no desempenho das tarefas precípuas da diplomacia: a informação, a representação e a negociação. Obviamente que a condição primária para o exercício adequado dessas diversas funções radica naquilo que os alemães chamam de Bildung, isto é, formação de capital humano, constando de recrutamento rigoroso, treinamento regular e a avaliação do desempenho dos diplomatas, ao longo das várias etapas, como requerimento da ascensão funcional.
De certa forma, os diplomatas já vêm em grande medida prontos, em vista dos exigentes requerimentos de ingresso na carreira, por um dos concursos mais rigorosos entre todas as seleções para carreiras de Estado. Na fase seguinte, nossa academia diplomática, o Instituto Rio Branco, se encarrega da profissionalização complementar ao exercício das primeiras funções. A ADB não tem qualquer papel na Bildung, mas ela acompanha com interesse todas essas etapas de formação e qualificação dos diplomatas, tanto é assim que ocorreu, nos dez últimos anos, uma renovação geracional na ADB, com diplomatas jovens assumindo cargos de direção, em contraste com as administrações anteriores da Associação, em grande medida a cargo de diplomatas mais antigos ou até aposentados, como foi o caso até pouco tempo atrás.
Tendo ocupado o cargo de vice-presidente da ADB, em meados dos anos 2000, posso testemunhar de um grande ativismo no diálogo com a Administração do Itamaraty e seu engajamento em atividades paralelas à referida Bildung, chegando até a oferecer bolsas para candidatos de condição social menos favorecida. Durante minha gestão como vice-presidente procurei justamente impulsionar a parte cultural da Associação, mediante convites a personalidades da vida pública para almoços recheados de debates relevantes. O mesmo fiz quando ocupei a diretoria do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais, o IPRI, órgão da Fundação Alexandre de Gusmão, por sua vez vinculado ao Itamaraty, numa programação bastante rica em debates e publicações. Contei com o apoio da ADB e diversos desses empreendimentos.
Desejo ressaltar que minha colaboração com a ADB, muito mais do que executiva, foi basicamente intelectual, sobretudo nessa modalidade já descrita acima de resenhas e miniresenhas dos livros dos diplomatas nas páginas da revista: foram centenas, ao longo de duas décadas, talvez mais, pois existiram outras resenhas e matérias fora do formato estrito do Prata da Casa. A Funag demonstrou, uma vez, interesse em publicar a coleção completa, e assim procedi à montagem de um volume, aliás volumoso, de todo esse material “livresco”. Como pretenderam também censurar uma ou outra resenha minha – o que também tinha sido o motivo da interrupção do meu concurso com a revista nessa modalidade –, eu preferi não publicar pela Funag e eu mesmo montei e disponibilizei alguns volumes editados digitalmente com a coleção completa, em duas ou três modalidades editoriais, como informo abaixo:

- Prata da Casa: os livros dos diplomatas (Hartford: edição para a Funag, 2013, 667 p; não publicada; disponível em Research Gate; 2ª. edição de Autor; 16/07/2014, 663 p.;
Academia.edu; Research Gate).
- Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Kindle edition, 2014, 151 p., 484 KB; ASIN: B00OL05KYG).
- Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros (Kindle, 2014, 326 p.; ASIN: B00P6261X2; Academia.edu; ).
- Rompendo Fronteiras: a Academia pensa a Diplomacia (Kindle, 2014, 414 p.; 1324 KB; ASIN: B00P8JHT8Y).

Ao contemplar os primeiros 35 anos da ADB, agora transformada em Sindicato, quero congratular-me com seus atuais dirigentes, por manter a alta qualidade da representação dos diplomatas, uma corporação especial na tecnocracia de Estado, muito pouco corporativa, e bem mais aberta aos talentos e à dedicação de cada um dos diplomatas ao serviço do Brasil.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5228: 24 de fevereiro de 2026

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