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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sobre os 35 anos da ADB: Associação dos Diplomatas Brasileiros (agora Sindicato também) - Paulo Roberto de Almeida

Sobre os 35 anos da ADB

Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, professor

Nunca fui um admirador incondicional do General De Gaulle, mas já li muito sobre ele, inclusive um livro sobre suas leituras que eu comprei no Memorial De Gaulle em Colombey-Les-Deux-Églises, quando fui visitar esse museu em algum momento dos anos passados. Mas sempre gostei de uma postura do General, que dizia que mantinha “une certaine idée de la France’, tanto que escolhi esse título para um dos meus quatro ou cinco livros digitais contra o bolsonarismo diplomático, uma diminuição inaceitável da credibilidade de nossa diplomacia no exterior, chamando-o de Uma certa ideia do Itamaraty (2020). Eis a ficha completa desse livreto, feito num dos momentos mais angustiosos da vida do Itamaraty, diminuído por fora, atemorizado por dentro, sob a direção alucinada de um chanceler acidental, singularmente despreparado para o cargo, pois que desprovido de poder real, já que vivia que submetido a amadores ignorantes em política internacional:
Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira, Brasília, 7 setembro 2020, 169 p. Livro sobre a nossa diplomacia, em tempos obscuros. Anunciado no blog Diplomatizzando (link:
https://www.academia.edu/44037693/Uma_certa_ideia_do_Itamaraty_A_reconstrucao_da_politica_externa_e_a_restauracao_da_diplomacia_brasileira_2020_), e também na plataforma Research Gate (link:

Um dia vou relatar uma tentativa que fiz, discreta e reservadamente, entre os colegas diplomatas, para tentar elaborar ideias para a reconstrução política, funcional e moral do Itamaraty, depois do desgoverno Bolsonaro, numa fase extremamente angustiante da vida da Casa de Rio Branco, já que terrivelmente diminuída pela ação irresponsável daquilo que eu chamei de “bolsolavismo diplomático”, já que várias das posturas absurdamente antidiplomáticas tinham sido sugeridas por autodenominado filósofo, alucinado e ridículo, que foi ele mesmo o responsável pela indicação do nefasto chanceler acidental para nossa Casa.
Por enquanto gostaria de comemorar condignamente os 35 anos de vida da Associação dos Diplomatas Brasileiros, tornada efetiva em 1991, mas cuja ideia já vinha de alguns anos antes, na segunda metade da década dos 80, na redemocratização. Eu havia recém voltado de minha primeira “excursão diplomática” ao exterior, uma primeira remoção para a capital da Suíça, em Berna, em 1979, seguida de um segundo posto em Belgrado, capital da então Iugoslávia, em 1982, durante a qual eu finalmente conseguiu terminar e defender minha tese de doutoramento na Universidade de Bruxelas, deixada inconclusa quando resolvi voltar ao Brasil, em 1977, depois de quase sete anos de autoexílio na Europa, nos chamados “anos de chumbo”, os mais sombrios de nossa história política do final do século passado.
Um dos motivos para minha decisão de prestar o concurso para a carreira diplomática, foi que, além de eu não ter um emprego fixo, imediatamente após meu retorno ao Brasil em marco de 1977, pois não havia concursos abertos para alguma universidade federal – e eu era um acadêmico iniciante –, eu queria testar a minha “ficha” nos registros da repressão policial depois de ter passado anos lutando contra a ditadura brasileira, escrevendo sob outros nomes artigos contra o regime militar. Eu estava aparentemente limpo, aos olhos dos aparelhos de informação do Estado autoritário, tanto que fui admitido e comecei a trabalhar. Mas, acabei sendo fichado pouco depois, como diplomata subversivo, tendo trabalhado na campanha do candidato do MDB, general Euler Bentes Monteiro, contra o candidato da ditadura, o último, o general João Figueiredo, nas últimas eleições indiretas para presidente, em 1978. Mas isso só vim a descobrir anos depois, ao consultar o diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília, que eu estava fichado desde 1978, inclusive tendo tido um trabalho sobre uma política externa alternativa à da ditadura salvo pelos informantes e disponível digitalmente no referido diretório. Mas isso é uma outra história.
O fato é que conjuntamente ao trabalho de reconstrução constitucional do país, a partir de 1987, os diplomatas começaram simultaneamente a tentar construir uma representação associativa da categoria, como sinônimo de uma reconstrução funcional e política de uma instituição respeitável e respeitada, como uma das grandes corporações do Estado brasileiro, junto, aliás, das Forças Armadas e das outras tecnocracias do Estado, como as do Banco Central, da Receita, dos demais corpos do Estado. Debates se acirraram naquele período de reconstrução democrática do Brasil, e aproveitei meus conhecimentos de sociologia política (e aulas na UnB e no próprio Instituto Rio Branco) para escrever alguns trabalhos sobre a interação entre os partidos políticos, a diplomacia e a política externa do Estado brasileiro, textos que foram mais tarde também reunidos numa brochura consolidando esse material:
Estrutura Constitucional e Interface Internacional do Brasil: Relações internacionais, política externa e Constituição, Brasília, 29 janeiro 2018, 146 p. Compilação seletiva de ensaios sobre essa temática, elaborados depois de 1996, como complemento ao livro Parlamento e Política Externa (1996). Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/35779830/Estrutura_constitucional_e_interface_internacional_do_Brasil ), em Research Gate (9/03/2018; link: https://www.researchgate.net/publication/323675789_Estrutura_Constitucional_e_Interface_Internacional_do_Brasil_Relacoes_internacionais_politica_externa_e_Constituicao_Brasilia_Edicao_do_Autor_2018), informado no Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2018/01/as-relacoes-constitucionais-e-estrutura.html).

Por esses acasos da vida diplomática acabei saindo novamente, para minha segunda “incursão exterior”, para o segundo e o terceiro postos que tive na carreira: primeiro Genebra – onde tive o privilégio de servir com o embaixador Ricupero em vários dos temas de desenvolvimento econômico e relações econômicas internacionais (que acabaram permanecendo como minha especialização ulterior) – logo em seguida Montevidéu-Aladi, quando assisti ao processo integracionista e ao nascimento do Mercosul (que constituiu o tema de meu primeiro livro publicado e de centenas de outros trabalhos nessa problemática). Não participei, assim, nem da promulgação de uma nova Constituição para o Brasil (a atual), nem da fundação da Associação dos Diplomatas Brasileiros, a não ser indiretamente.
Mas comecei imediatamente a trabalhar em prol da dimensão cultural da ADB, ao praticamente assumir, durante quase duas décadas, a seção Prata da Casa de seu boletim (depois revista), efetuando resenhas, algumas grandes, outras reduzidas, sobre os livros publicados pelos diplomatas. Persisti durante anos nessa porfia que sempre me foi extremamente agradável – pois o meu mundo é exatamente esse, o dos livros –, até que uma censura indevida a uma de minhas resenhas me fez desistir de continuar colaborando (não me lembro de alguém ter assumido a tarefa na minha sequência, e tanto a Prata da Casa, como a própria publicação, boletim ou revista, deixaram de existir, em face da concorrência oferecida atualmente pelas redes de comunicação social. Atualmente, o Prata da Casa é apenas uma seção eletrônica, no site da ADB, já transformada em sindicato nos últimos dez anos, em função da concorrência oferecida pelo SindItamaraty, que traduz uma influência maior, acredito, da outra categoria dos funcionários do Serviço Exterior brasileiro, os oficiais de chancelaria.
Minhas reflexões sobre a própria ADB podem ser lidas depois desta primeira parte, mais memorialística sobre as formas de expressão pública da diplomacia brasileira. Tendo ela completado 35 anos de vida, isso me fez lembrar de alguns romances do filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre, que dizia que essa era a idade da razão, a que ele próprio enfrentou durante a ocupação alemã de seu país, quando se dedicou mais à literatura do que à política (o que ele faria mais tarde). Coube-me lembrar também de um dos romances de Balzac, La Femme de Trente Ans, mas cujo enredo e temática não têm nada a ver com a ADB, seja pela idade, seja pelas suas preferências relacionais ou sentimentos afetivos.
A ADB sempre teve entre seus objetivos básicos, sem adentrar na definição da política externa, que é tarefa presidencial, a promoção do bom funcionamento da corporação, enquanto serviço de Estado comprometido com os altos interesses da nação, e por isso devotada a sólidos princípios institucionais de alta qualidade no desempenho das tarefas precípuas da diplomacia: a informação, a representação e a negociação. Obviamente que a condição primária para o exercício adequado dessas diversas funções radica naquilo que os alemães chamam de Bildung, isto é, formação de capital humano, constando de recrutamento rigoroso, treinamento regular e a avaliação do desempenho dos diplomatas, ao longo das várias etapas, como requerimento da ascensão funcional.
De certa forma, os diplomatas já vêm em grande medida prontos, em vista dos exigentes requerimentos de ingresso na carreira, por um dos concursos mais rigorosos entre todas as seleções para carreiras de Estado. Na fase seguinte, nossa academia diplomática, o Instituto Rio Branco, se encarrega da profissionalização complementar ao exercício das primeiras funções. A ADB não tem qualquer papel na Bildung, mas ela acompanha com interesse todas essas etapas de formação e qualificação dos diplomatas, tanto é assim que ocorreu, nos dez últimos anos, uma renovação geracional na ADB, com diplomatas jovens assumindo cargos de direção, em contraste com as administrações anteriores da Associação, em grande medida a cargo de diplomatas mais antigos ou até aposentados, como foi o caso até pouco tempo atrás.
Tendo ocupado o cargo de vice-presidente da ADB, em meados dos anos 2000, posso testemunhar de um grande ativismo no diálogo com a Administração do Itamaraty e seu engajamento em atividades paralelas à referida Bildung, chegando até a oferecer bolsas para candidatos de condição social menos favorecida. Durante minha gestão como vice-presidente procurei justamente impulsionar a parte cultural da Associação, mediante convites a personalidades da vida pública para almoços recheados de debates relevantes. O mesmo fiz quando ocupei a diretoria do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais, o IPRI, órgão da Fundação Alexandre de Gusmão, por sua vez vinculado ao Itamaraty, numa programação bastante rica em debates e publicações. Contei com o apoio da ADB e diversos desses empreendimentos.
Desejo ressaltar que minha colaboração com a ADB, muito mais do que executiva, foi basicamente intelectual, sobretudo nessa modalidade já descrita acima de resenhas e miniresenhas dos livros dos diplomatas nas páginas da revista: foram centenas, ao longo de duas décadas, talvez mais, pois existiram outras resenhas e matérias fora do formato estrito do Prata da Casa. A Funag demonstrou, uma vez, interesse em publicar a coleção completa, e assim procedi à montagem de um volume, aliás volumoso, de todo esse material “livresco”. Como pretenderam também censurar uma ou outra resenha minha – o que também tinha sido o motivo da interrupção do meu concurso com a revista nessa modalidade –, eu preferi não publicar pela Funag e eu mesmo montei e disponibilizei alguns volumes editados digitalmente com a coleção completa, em duas ou três modalidades editoriais, como informo abaixo:

- Prata da Casa: os livros dos diplomatas (Hartford: edição para a Funag, 2013, 667 p; não publicada; disponível em Research Gate; 2ª. edição de Autor; 16/07/2014, 663 p.;
Academia.edu; Research Gate).
- Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Kindle edition, 2014, 151 p., 484 KB; ASIN: B00OL05KYG).
- Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros (Kindle, 2014, 326 p.; ASIN: B00P6261X2; Academia.edu; ).
- Rompendo Fronteiras: a Academia pensa a Diplomacia (Kindle, 2014, 414 p.; 1324 KB; ASIN: B00P8JHT8Y).

Ao contemplar os primeiros 35 anos da ADB, agora transformada em Sindicato, quero congratular-me com seus atuais dirigentes, por manter a alta qualidade da representação dos diplomatas, uma corporação especial na tecnocracia de Estado, muito pouco corporativa, e bem mais aberta aos talentos e à dedicação de cada um dos diplomatas ao serviço do Brasil.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5228: 24 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Prata da Casa: finalmente o último trimestre, mas ainda não publicado

Como prometido no post anterior, reproduzo aqui as mini-resenhas do último trimestre de 2014, que devem estar sendo publicadas incessantemente, como diriam os franceses.

Prata da Casa - Boletim ADB: 4ro. trimestre 2014
Hartford, 1 outubro 2014, 3 p. 
Notas sobre os seguintes livros: (1) Mesquita, Paulo Estivallet de: A Organização Mundial do Comércio (Brasília: Funag, 2013, 105 p.; ISBN 978-85-7631-472-1; Coleção Em Poucas Palavras); (2) Mariz, Vasco: Nos bastidores da diplomacia: memórias diplomáticas (Brasília: Funag, 2013, 296 p.; ISBN 978-85-7631-471-4; Coleção Memória Diplomática); (3) Florencio, Sergio: Os Mexicanos (São Paulo: Contexto, 2014, 240 p.; ISBN 978-85-7244-827-7); (4) Goertzel, Ted; Almeida, Paulo Roberto de (eds.): The Drama of Brazilian Politics: From Dom João to Marina Silva (Amazon; Kindle Book, 2014, 278 p.; ISBN: 978-1-4951-2981-0); (5) Almino, João: Free City (Londres: Dalkey Archive Press, 2013, 206 p.; ISBN 978-1-56478-900-6; trad. De Rhett McNeil, de Cidade Livre; Rio de Janeiro: Record, 2010); (6) Escorel, Lauro: Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel (3a. ed.; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, FGV, 2014, 344 p.; ISBN: 978-85-88777-59-0). Publicado no Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros – ADB ano 21, n. 87, outubro-novembro-dezembro 2014, p. xx-xx; ISSN: 0104-8503). Relação de Originais n.  2682.
 
Prata da Casa - Boletim ADB: 4ro. trimestre 2014

Paulo Roberto de Almeida
Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros
(ano 21, n. 87, outubro-novembro-dezembro 2014, p. xx-xx; ISSN: 0104-8503)

(1) Mesquita, Paulo Estivallet de:
A Organização Mundial do Comércio
(Brasília: Funag, 2013, 105 p.; ISBN 978-85-7631-472-1; Coleção Em Poucas Palavras)


            Parece difícil resumir em menos de 100 pequenas páginas a teoria do comércio internacional, a evolução prática do próprio, o estabelecimento do sistema multilateral de comércio, desde o Gatt e seus caminhos tortuosos, até chegar na OMC e todos os seus acordos e funcionamento. Uma proeza realizada por este engenheiro agrônomo que se fez diplomata, e que aplica o rigor da sua ciência de origem à análise dos problemas das relações econômicas internacionais, com ênfase no comércio e nos seus conflitos. O sistema parece uma bicicleta: é preciso avançar, pois qualquer parada pode significar retrocesso, não estabilidade. A interrupção da Rodada Doha, o recuo no protecionismo em alguns grandes países (alguns até próximos) são desafios graves, mas os acordos de livre comércio não são a resposta ideal. Só faltou a bibliografia para uma obra perfeita.

(2) Mariz, Vasco:
Nos bastidores da diplomacia: memórias diplomáticas
(Brasília: Funag, 2013, 296 p.; ISBN 978-85-7631-471-4; Coleção Memória Diplomática)



(3) Florencio, Sergio:
Os Mexicanos
(São Paulo: Contexto, 2014, 240 p.; ISBN 978-85-7244-827-7)
  

            Você sabia que os mexicanos têm uma lista dos mais amados (Benito Juarez e Pancho Villa, entre eles), mas também dos mais odiados (Cortez, obviamente, e também Porfírio Díaz) personagens da sua história? Sabia que somos parecidos com eles? Este livro, por quem foi embaixador no México, apresenta uma história diferente do país que é apresentado como competidor do Brasil; de fato é, mas não como esperado: buscam os dois a prosperidade, a partir de bases sociais e comportamentos econômicos similares. Uma análise exemplar, feita do ponto de vista de um brasileiro que é fino observador das qualidades e idiossincrasias de um povo dotado de uma rica história de realizações, mas também de frustrações. Os desafios parecem semelhantes; serão também as soluções? Descubra um México diferente num livro em que o Brasil está presente.

(4) Goertzel, Ted; Almeida, Paulo Roberto de (eds.):
The Drama of Brazilian Politics: From Dom João to Marina Silva
(Amazon; Kindle Book, 2014, 278 p.; ISBN: 978-1-4951-2981-0)


            O ebook, editado por um brasilianista, já autor de biografias dos presidentes FHC e Lula, e por um diplomata conhecido por seus muitos outros livros, parece aproveitar a conjuntura para reunir artigos sobre a política brasileira. Não é bem assim; a despeito da maioria dos capítulos tratar da situação presente, desde as manifestações de 2013, o capítulo inaugural por Goertzel cobre o que o subtítulo promete: o drama político brasileiro desde o Império até as eleições atuais. O segundo capítulo, pelo diplomata Almeida, segue as mudanças de regime econômico em função das políticas econômicas adotadas desde a abertura dos portos até o atual baixo crescimento. De certa forma, constitui uma continuidade de seus outros trabalhos de pesquisa histórica sobre as relações econômicas internacionais do Brasil, aliás, um país muito introvertido.

(5) Almino, João:
Free City
(Londres: Dalkey Archive Press, 2013, 206 p.; ISBN 978-1-56478-900-6; trad. De Rhett McNeil, de Cidade Livre; Rio de Janeiro: Record, 2010)


            Depois de ter iniciado uma carreira de “escritor” de ciência política, João Almino enveredou pela arte da novela (As Cinco Estações do Amor) e pelo ensaísmo literário – Escrita em contraponto: ensaios literários, por exemplo – mas é nos romances semi-biográficos que ele se expressa melhor, como nesta tradução de seu aclamado relato em torno da construção de Brasília. Trata-se, na verdade, de uma ampla obra, enfeixada sob o rótulo comum de Quarteto de Brasília, talvez para aproximá-lo do autor do Quarteto de Alexandria. Free City é o terceiro do ciclo, um romance vibrante, no qual coexistem tanto os modestos construtores da cidade quanto personagens da política mundial ou do universo literário (vinculadas de alguma forma a Brasília), em idas e vindas entre o passado e o presente. Um dos melhores novelistas diplomatas...

(6) Escorel, Lauro:
Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel
(3a. ed.; Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, FGV, 2014, 344 p.; ISBN: 978-85-88777-59-0)


            Escrito em 1956, publicado pela primeira vez em 1958, novamente em 1979, este clássico da maquiavelística brasileira é agora apresentado por um acadêmico e complementado por uma conferência de 1980 do autor, que se tornou “maquiavélico” ao servir na capital italiana em meados dos anos 1950. Para Escorel, “as observações de Maquiavel sobre a política externa dos Estados continuam a apresentar... uma extraordinária atualidade” (329-30). O florentino foi o primeiro grande teórico da política do poder.  Mas no plano interno também, Escorel segue Maquiavel em que a política é um “regime de precário equilíbrio entre as forças do bem e as forças do mal, em que estas muitas vezes superam aquelas...” (34). Os dois colocam o “problema cruciante das relações da política com a moral”, que está no centro da obra do italiano.

Paulo Roberto de Almeida
Hartford, 1 Outubro 2014

Prata da Casa: ainda o terceiro trimestre de 2014, mini-resenhas de livros de diplomatas

Eu já havia postado esta coletânea aqui (neste link), mas como efetuei uma substituição de última hora de um dos livros (que ficou para o último trimeste de 2014), volto a postar estas mini-resenhas, cujos livros também já figuram neste e-book:

Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Amazon Digital Services: Kindle edition, 2014, 151 p. 484 KB; ASIN: B00OL05KYG; disponível na Amazon; link: http://www.amazon.com/dp/B00OL05KYG; e na plataforma Academia.edu; link: https://www.academia.edu/8815100/23_Polindo_a_Prata_da_Casa_mini-resenhas_de_livros_de_diplomatas_2014_). Prefácio e Sumário disponíveis no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/10/mini-resenhas-de-livros-de-diplomatas.html). Relação de Originais n. 2693. Relação de Publicados n. 1145.

“Prata da Casa - Boletim ADB: 3ro. trimestre 2014”, Notas sobre os seguintes livros: 
(1) Paulo Roberto de Almeida: Nunca Antes na Diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Appris, 2014, 289 p.; ISBN: 978-85-8192-429-8); 
(2) José Ricardo da Costa Aguiar Alves: O Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e suas propostas de reforma (Brasília: Funag, 2014, 535 p.; ISBN 978-85-7631-504-9; Coleção CAE);  
(3) Rogério de Souza Farias: A palavra do Brasil no sistema multilateral de comércio (1946-1994) (Brasília: Funag, 2013, 885 p.; ISBN 978-85-7631-477-6; Coleção Política Externa Brasileira);  
(4) Renato L. R. Marques: Memorábilia (Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2013, 378 p.; ISBN 978-85-914949-1-0);  
(5) José A. Lindgren Alves: Os novos Bálcãs (Brasília: Funag, 2013, 161 p.; ISBN 978-85-7631-478-3; Coleção Em Poucas Palavras);  
(6) Francisco Doratioto: O Brasil no Rio da Prata (1822-1994) (Brasília: Funag, 2014, 190 p.; ISBN 978-85-7631-489-9; Coleção Em Poucas Palavras). 
Publicado no Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros – ADB (ano 21, n. 86, julho-agosto-setembro 2014, p. 30-32; ISSN: 0104-8503). 
Relação de Originais n. 2634. Relação de Publicados n. 1140. 


Prata da Casa - Boletim ADB: 3ro. trimestre 2014

Paulo Roberto de Almeida
Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros
(ano 21, n. 86, julho-agosto-setembro 2014, p. 30-32; ISSN: 0104-8503)

(1) Paulo Roberto de Almeida:
Nunca Antes na Diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais
(Curitiba: Appris, 2014, 289 p.; ISBN: 978-85-8192-429-8)


            Tudo o que você sempre quis saber sobre a diplomacia companheira e nunca teve a quem perguntar? Agora talvez já tenha, sobre quase tudo. Em todo caso, figura aqui uma avaliação do que representaram, para a política externa, os anos do lulo-petismo, com a independência de um acadêmico que também integra a diplomacia. Existem episódios que ainda vão requerer pesquisa em arquivos para saber como foram exatamente decididos, e provavelmente lacunas subsistirão, tendo em vista justamente as características especiais de uma diplomacia que não partiu essencialmente de sua casa de origem, mas andou combinada a outros estímulos, não arquivados. Parece que ela foi ativa, altiva e soberana, como nunca antes tinha acontecido. Outros traços emergirão num futuro balanço, ainda sem data. A História a absolverá? A ver...

(2) José Ricardo da Costa Aguiar Alves:
O Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e suas propostas de reforma
(Brasília: Funag, 2014, 535 p.; ISBN 978-85-7631-504-9; Coleção CAE)


            Prefaciada pelo ex-ministro Pedro Malan, que já trabalhou na ONU, a tese representa a mais ambiciosa análise, histórica e estrutural, do papel do Conselho desde sua origem até 2007, período em que foram empreendidas 42 reformas. A revisão das Metas do Milênio, em 2015, provavelmente exigirá novas reformas. O órgão consome mais de dois terços dos recursos da ONU, comprometidos com o desenvolvimento, ao lado daqueles destinados à paz e segurança, no âmbito do seu Conselho de Segurança. A obra é minuciosa no exame dessas propostas de reforma, sem conter, porém, uma avaliação sobre a eficácia dos recursos investidos nessa missão, o que requereria um outro tipo de estudo, feito por economistas. É uma obra importante para o Itamaraty, que está sempre demandando mais recursos para o desenvolvimento, justamente.

(3) Rogério de Souza Farias:
A palavra do Brasil no sistema multilateral de comércio (1946-1994)
(Brasília: Funag, 2013, 885 p.; ISBN 978-85-7631-477-6; Coleção Política Externa Brasileira)


Um empreendimento de alta qualidade, que completa, com louvor, uma coletânea do gênero feita pelo Embaixador Seixas Corrêa para os discursos de abertura da AGNU. Ele é, aliás, o prefaciador da compilação seletiva dos mais importantes pronunciamentos feitos por representantes brasileiros desde o início do Gatt, passando pela Unctad, até a criação da OMC, e destaca a relevância dos materiais como instrumento de trabalho para os negociadores de hoje. O livro vem acompanhado por informações e fotos dos representantes e de notas de rodapé explicativas de cada contexto negociador. O denso prefácio e a longa introdução merecem leitura atenta; os temas abordados em cada capítulo constituem matéria prima indispensável para conhecer a história econômica e diplomática brasileira no plano do comércio internacional. Parece que pouco mudou... 

(4) Renato L. R. Marques:
Memorábilia
(Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2013, 378 p.; ISBN 978-85-914949-1-0)


            Como diplomata, Renato Marques é bom um escritor, com sua prosa elegante, frases em latim, vasto conhecimento da cultura humanista, sobretudo da história, e grande tino para a observação dos seres humanos, como Balzac, Dickens ou Flaubert. Como escritor, ele não é um diplomata, já que escreve sem os trejeitos típicos dos colegas, falando tudo com grande sinceridade. Nestas suas memórias sentimentais, ele vai desde as origens familiares nos pagos gaúchos, até os últimos postos, que eram, não muito tempo atrás, partes do império soviético. Mais do que um recorrido pela sua vida em vários continentes, elas são reflexões intelectuais sobre países, pessoas, processos e eventos a que assistiu, de que participou, sobre os quais leu; a referência aos grandes escritores é constante, e as fotos são um complemento agradável ao seu texto cortante. 

(5) José A. Lindgren Alves:
Os novos Bálcãs
(Brasília: Funag, 2013, 161 p.; ISBN 978-85-7631-478-3; Coleção Em Poucas Palavras)


            Os “novos Bálcãs” talvez se pareçam um pouco com os “velhos”, no sentido em que os muitos povos eslavos – católicos, ortodoxos, ou islamizados – voltaram a se dividir em meio a conflitos por vezes sanguinários. Depois de algumas décadas de socialismo, quando eles estavam “unidos” pela razão ou pela força, eles estão prontos para receber novamente o Orient Express, que ia das terras cristãs ao império dos otomanos justamente atravessando essas terras complicadas. Lindgren Alves esclarece como a fragmentação étnica reconstruiu a balcanização, com alguns massacres no caminho. Um alerta de como a Europa também pode recriar os velhos demônios da guerra e da violência étnica. O chauvinismo está na origem dessa utopia estilhaçada. Uma síntese que se apoia na melhor bibliografia e num conhecimento direto da região.

(6) Francisco Doratioto:
O Brasil no Rio da Prata (1822-1994)
(Brasília: Funag, 2014, 190 p.; ISBN 978-85-7631-489-9; Coleção Em Poucas Palavras)


            Metade, ou quase, de toda a política externa brasileira, das origens aos dias de hoje, se fez e se faz no Rio da Prata. Daí a escolha deste “semi-diplomata” para escrever uma história que começa na contenção de Buenos Aires, passa pela guerra do Paraguai – sobre a qual o autor publicou o clássico Maldita Guerra –, avança do americanismo ingênuo para o pragmatismo conciliador, nutre desconfiança e cautela (de 1930 a 1955), retoma o aprendizado da cooperação e da superação de divergências, para finalmente chegar à integração no Mercosul (pelo menos até 1994, numa fase ainda feliz). Mesmo “em poucas palavras”, o autor usou fontes primárias, mas várias das secundárias são de autores hermanos: eles são a nossa “circunstância”. A história trata mais de diplomacia do que de comércio e desenvolvimento; parece que é a política que move a economia.


Paulo Roberto de Almeida
[Hartford, 28/07/2014]
Revisão: Twin Falls, Idaho, 5/09/2014

No próximo post, tem mais mini-resenhas, as últimas do ano. Já estou pensando na seleção para o primeiro trimestre de 2015. Livros não faltam, mas tenho de escolher os melhores, para ler e resenhar.
Paulo Roberto de Almeida  

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