Recentemente recebi uma proposta de voltar a "reviver" um livro que publiquei por uma "editora" inventada, a Diplomatizzando, em 2021, depois da demissão do chanceler acidental no início do ano, o primeiro dos dois que teve o mandato do capitão golpista, e que eu esperava que fosse o meu último de um ciclo dedicado aos horrores do bolsolavismo diplomático, como eu designei os inacreditáveis anos da maior deformação de nossa política externa e de nossa diplomacia.
Não sei se vou retomar esse livro, mas reproduzo aqui seu frontispício, seu índice, e a primeira explicação do prefácio, antes de pensar em refazer o caminho da resistência novamente. Aguardo os resultados das eleições de 2026 para decidir o que fazer.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 29 de setembro de 2026
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Do livro:
O Itamaraty sequestrado: a destruição da diplomacia pelo bolsolavismo, (Brasília: Diplomatizzando, 2021, 130 p. ISBN: 978-65-00-22215-9; ASIN: B094V28NGD)
Frontspício:
Navegar é preciso, como prescreve a conhecida frase vinda da Antiguidade clássica.
Correto, em sua singela atitude, mas não basta meramente seguir adiante, em meio à borrasca, ou contemplando a violência arrogante que se abate sobre nós.
Resistir também é necessário, em face do arbítrio, do desgoverno, da mentira, da fraude, da sordidez, da desumanidade, da ignorância, da perversidade, do sectarismo, do fundamentalismo, da intolerância, da burrice e, sobretudo, da prepotência e da estupidez.
É preciso não só resistir, mas antepor a tudo isso o diagnóstico correto, assim como prescrever o tratamento adequado, segundo os melhores valores da ética pública, acompanhada de sólidos princípios morais, fundamentados na razão e derivados do conhecimento.
Tal é o sentido de minhas reflexões e tais são as motivações de minha postura, de meus escritos, de minhas ações.
Refletir, resistir, navegar...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30 de abril de 2021
Este livro é dedicado aos meus colegas do corpo da diplomacia profissional do Serviço Exterior brasileiro, que tiveram de suportar, durante dois anos e alguns meses, a mais esquizofrênica das diplomacias imagináveis, seja na já longa trajetória da política externa brasileira, desde a Independência, seja no plano da diplomacia mundial, absolutamente sem precedentes em nossa história (e, espera-se, sem sucedâneas), ou na comparação com qualquer outra diplomacia nacional, no contexto regional ou em âmbito mundial.
A todos os colegas, de todas as classes, condições e opiniões que possam ter sobre a substância do que deveria ser a política externa brasileira, meus cumprimentos pela resiliência, pela persistência e pela resistência, ainda que de maneira silenciosa e discreta. Creio ter interpretado o sentimento da maioria, mesmo quando alguns discordaram de minha postura e de meu posicionamento em face da miséria diplomática e da destruição da inteligência que vivemos desde o final de 2018 até o início de 2021.
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Índice
Prefácio , 9
1. Ascensão e queda do bolsolavismo diplomático, 2018-2021 , 14
1.1. O assalto dos novos bárbaros ao Itamaraty , 14
1.2. Novamente no limbo, analisando o bolsolavismo diplomático , 18
1.3. A patética carta de demissão do chanceler acidental , 20
2. Degradação democrática e demolição diplomática , 22
2.1. O destino da nação: declínio ou renovação da democracia brasileira? , 22
2.2. A História não se repete, nem mesmo como farsa , 24
2.3. O que fazer na ausência de um estadista circunstancial? , 25
2.4. Uma inédita ruptura nos padrões tradicionais da política externa , 26
2.5. O alinhamento automático ao presidente Trump: um escândalo temporário . 27
2.6. A hostilidade em relação à China como critério da identidade comum , 28
2.7. O isolamento na esfera internacional e no contexto regional , 29
2.8. O caso da tecnologia 5G: prejuízos reais em qualquer hipótese , 30
2.9. O caso da Amazônia: uma extraordinária vocação para o erro , 31
2.10. A postura no caso da pandemia da COVID: negacionismo em toda a linha , 31
2.11. Uma nova Idade das Trevas? , 32
3. Submissão ao Império e relações com os vizinhos regionais , 34
3.1. A importância da descontinuidade, em circunstâncias inéditas , 34
3.2. A importância histórica das relações regionais e hemisféricas , 34
3.3. Da aliança não escrita aos impasses políticos e econômicos , 35
3.4. Bolsonaro e uma inédita relação de alinhamento sem barganha , 36
3.5. A desintegração regional e o desalinhamento com os vizinhos , 39
3.6. Qual o futuro da integração, do Mercosul, da política externa brasileira? , 40
4. Um novo animal na paisagem: o globalismo e os seus descontentes , 42
4.1. O espectro do globalismo: a emergência da irracionalidade oficial ,42
4.2. Dos antiglobalizadores aos antiglobalistas?, 43
4.3. À la recherche du globalisme perdu , 44
4.4. Os nacionalismos canhestros: genitores do antiglobalismo irracional , 48
5. Um “balanço” desequilibrado: a despedida do chanceler acidental , 50
5.1. Ascensão e queda de um capacho exemplar , 50
5.2. O “balanço” e o seu oposto: mentiras, falácias e falcatruas , 51
5.3. A justificativa prolixa e a declaração de política objetiva , 75
6. Quo vadis, Brasil? , 76
6.1. Estaríamos enfrentando uma fase tendencial de declínio? , 76
6.2. O que é verdadeiramente estratégico na vida da nação? , 77
6.3. Quão baixo, quão fundo, uma sociedade pode descer? , 78
6.4. Um “exército de ocupação” interno? , 81
6.5. Sobre os descaminhos do Brasil atual , 83
Apêndices , 84
Sumários dos livros do ciclo do bolsolavismo diplomático , 84
(1) Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty , 84
(2) O Itamaraty num labirinto de sombras: ensaios de política externa e de diplomacia brasileira , 85
(3) Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira , 85
(4) O Itamaraty Sequestrado: a destruição da diplomacia pelo bolsolavismo, 2018-2021 , 88
(5) Apogeu e demolição da política externa: itinerários da diplomacia brasileira , 89
Livros publicados pelo autor , 91
Nota sobre o autor , 95
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Prefácio
Pretendo que este seja o meu “último” livro, não absolutamente, mas relativamente, e isto a dois títulos: ele pretende circunscrever um período determinado da trajetória do Itamaraty contemporâneo, tal como evidenciado nos anos extremos de seu subtítulo, e tem, sobretudo, o objetivo de concluir a série dos livros de debate, ou de “combate”, do ciclo que chamei de “diplomacia bolsolavista”, iniciada de maneira improvisada e que assim continuou por mais quatro exemplares da série, agora aparentemente vindo a termo. Espero não ter de voltar mais ao período que se encerrou em março de 2021 – salvo algum novo “acidente de percurso” – e voltar a dedicar-me a trabalhos de pesquisa menos marcados por aspectos conjunturais como os que aqui são enfocados, em especial aposentando definitivamente esse adjetivo pouco recomendável que marcou a diplomacia “bolsolavista” do Brasil nesses anos.
(...)