A obra mais recente do intelectual francês especializado no mundo árabe e especialmente no terrorismo muçulmano, Gilles Kepel, é analisada, como sempre, por Madame IA:
Em seu novo livro, Holocausto (Plon), o professor universitário descreve o novo cenário geopolítico que emergiu após 7 de outubro e o início da guerra em Gaza. Ele aponta para os becos sem saída de um "Sul Global" cujos defensores não compartilham nada além do ódio ao Ocidente. LE FIGARO - O título do seu livro, Holocausto, pode dar a impressão de que o senhor está equiparando os pogromistas de 7 de outubro à guerra travada pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza. O mesmo termo pode ser usado para ambos os eventos? GILLES KEPEL. O objetivo não é estabelecer uma equivalência entre o massacre em Gaza e os ataques do Hamas, que lembram pogroms, mas sim mostrar que, com o 7 de outubro e suas consequências, estamos testemunhando uma tentativa de remodelar completamente a ordem moral mundial. Após o extermínio dos judeus pelos nazistas, houve um consenso entre o bloco soviético e o Ocidente — os julgamentos de Nuremberg, em 1947, sendo sua expressão mais significativa. Contudo, hoje, em muitos países do "Sul Global", e até mesmo em certos círculos europeus e entre estudantes universitários, vemos o apagamento da memória do 7 de outubro devido ao subsequente massacre em Gaza. O fundamento ético da ordem mundial não é mais o "nunca mais" após os horrores de Hitler, mas a luta contra a colonização, retrospectivamente redefinida como genocídio. Isso altera o cenário geopolítico, uma vez que o confronto entre o Ocidente e o bloco soviético é substituído por um conflito essencializado entre um Norte que supostamente personifica todo o horror moral e o "Sul Global", que supostamente carrega todas as virtudes positivas. Para efetivar essa inversão epistemológica — e especialmente ideológica —, invoca-se o Holocausto. A África do Sul, portanto, levou um caso de genocídio contra Israel ao Tribunal Internacional de Justiça, insinuando que o povo judeu, vítima do genocídio nazista que levou a ONU a criar o Estado de Israel em 1947, tornou-se um povo genocida e, consequentemente, que seu Estado é desprovido de legitimidade. Você fala de uma nova Guerra Fria entre o "Sul Global" e o Ocidente. Não deveria esse conceito de "Sul Global" ser questionado, especialmente após o ataque jihadista que atingiu a Rússia? De fato. A noção abrangente de "Sul Global" ignora o fato de que esses estados, supostamente personificando o bem e a lei, são em sua maioria governados por regimes iliberais e repressivos e, sobretudo, que uma parcela significativa da população do Sul Global em questão, oprimida por potências autoritárias ou sofrendo com sua falência e corrupção, deseja vir viver no supostamente odiado, porém democrático e próspero, Norte Global. O exemplo mais recente foi a decisão de Ursula von der Leyen e dos demais chefes de Estado da União Europeia de pagar 7,5 bilhões de euros ao Marechal Sisi para evitar um ataque israelense a Rafah e uma possível entrada de palestinos fugindo para o Egito, o que resultaria em travessias ilegais para países europeus. Portanto, estamos lidando com um grande engano ideológico, mas também com uma aberração geopolítica. Isso porque esse chamado "Sul Global" engloba o antigo Terceiro Mundo e a maior parte do antigo bloco soviético que não foi integrada à União Europeia, ou seja, a China de Xi Jinping e a Rússia de Putin. Este último tentou a reconciliação palestina, sem sucesso, unindo o Hamas e o Fatah e estendendo o tapete vermelho para o presidente iraniano Khamenei, líder do "eixo da resistência" contra Israel. Mas ele sofreu um golpe terrível com o ataque em Moscou, reivindicado pelo Estado Islâmico no Khorasan. Este grupo é composto por sunitas ultrarradicais originários do sul muçulmano — da Rússia à Ásia Central, Afeganistão e o nordeste sunita do Irã, o Baluchistão. Eles aprimoraram suas habilidades na Síria, nas fileiras do ISIS, onde lutaram contra Bashar al-Assad e os russos que o apoiavam. Assim, são assombrados por seu próprio "Sul global". O Kremlin, apesar de se autoproclamar campeão do BRICS+, enfrenta uma ameaça jihadista em seu próprio território. A população étnica da Rússia é extremamente pequena, ainda menor que a da União Europeia, enquanto a população muçulmana da Rússia, do Cáucaso à Ásia Central, representa atualmente 20% da Federação e chegará a 30% em dez anos. Isso alterará drasticamente o equilíbrio de poder, e Moscou está lidando com a situação de forma bastante inadequada. Esse defensor do "Sul Global", paradoxalmente, possui as características internas de um país do Norte! Você fala de um "choque de civilizações inverso", um termo adotado pelos inimigos do Ocidente. Que "civilização" o "Sul Global" alega defender? Não existe uma única civilização do "Sul Global"; isso é uma fantasia. Samuel Huntington, em seu artigo de 1994 "Choque de Civilizações?", citou meu livro *A Vingança de Deus*, e posteriormente almocei com ele em Harvard. Disse-lhe que, no entanto, não compartilhava de sua visão essencialista de civilizações e religiões. Isso se deve, em particular, ao fato de que, em nosso país, temos inúmeros exemplos de cidadãos de origem muçulmana e imigrante que compartilham os valores da cidadania e até mesmo se consideram parte de nossas elites econômicas, culturais ou políticas. Eles abominam o separatismo defendido pelo movimento islâmico, que, além disso, os estigmatiza como "apóstatas". Contudo, hoje, encontramos essa visão essencialista novamente, mas sendo promovida de forma inversa pelos proponentes do "Sul Global". Para eles, todo indivíduo do "Sul Global" é moralmente bom, e o Norte é reduzido à mancha ética do colonialismo. Essa é a teoria de Huntington de cabeça para baixo! É tudo uma farsa ideológica, da qual a África do Sul, onde o ANC enfrenta dificuldades, se tornou o principal exemplo. Com a acusação de genocídio contra Israel feita pela África do Sul, você diria que a ONU também está cedendo a essa retórica? A ONU está atualmente em uma crise bastante profunda. Os Estados que afirmam representar o "Sul Global" querem que a França e o Reino Unido, antigas potências em declínio demográfico e emblemáticas culpadas de crimes coloniais, sejam expulsas do Conselho de Segurança e substituídas por países emergentes mais populosos, como a Índia ou o Brasil. A ONU se encontra em um estado de impotência sem precedentes devido à desconexão entre suas instituições e essas demandas. Isso pode ser visto, por exemplo, no caso da UNRWA, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina: um escândalo irrompeu quando os israelenses conseguiram comprovar que 12 de seus funcionários estavam entre os autores dos ataques de 7 de outubro. Philippe Lazzarini, chefe da agência, foi questionado sobre este assunto precisamente no dia em que outro órgão da ONU, o Tribunal Internacional de Justiça, emitiu sua decisão sobre o pedido da África do Sul e indicou, não que Israel era "culpado de genocídio" — como Pretória esperava — mas pediu ao Estado judeu que "tomasse medidas para prevenir quaisquer práticas genocidas". Para Israel, isso foi, portanto, uma forma de contradizer a ONU, que não tinha controle sobre a UNRWA, no exato momento em que o Tribunal Internacional de Justiça proferia um veredicto que Israel não apreciou. Mas não é apenas a ONU que é afetada por essa reconfiguração da ordem moral mundial. Os Estados Unidos também são impactados. Tradicionalmente, a política americana no Oriente Médio era ditada, antes de tudo, pelo lobby pró-Israel, tanto democrata quanto republicano. No entanto, hoje, um grupo de árabes-americanos que se uniram em Dearborn, Michigan, conseguiu estabelecer uma espécie de lobby anti-Israel em todo o estado, que influencia a eleição presidencial graças aos seus votos eleitorais. Nesse estado decisivo, que Joe Biden venceu em 2020 por apenas 150 mil votos, 100 mil eleitores votaram em candidatos indecisos nas primárias democratas, punindo o então presidente por fornecer a Israel as bombas usadas para devastar Gaza. Biden, portanto, está numa situação delicada: ou ele se alinha com as minorias árabes e africanas nos Estados Unidos, bem como com os jovens democratas, e perde os votos dos judeus americanos, que ainda o apoiam de forma esmagadora [...].
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Esta análise crítica processa as teses de Gilles Kepel em seu livro Holocausto, confrontando-as com a reconfiguração da ordem moral e geopolítica global contemporânea.
1. A Inversão Epistemológica: Do "Nunca Mais" ao "Anticolonialismo"
A observação central de Kepel é a substituição do paradigma ético que sustentou o pós-Guerra.
O Deslocamento do Eixo: Se em 1947 o consenso de Nuremberg estabeleceu o genocídio nazista como o "mal absoluto", hoje o "Sul Global" (e setores da academia ocidental) elege o colonialismo como o pecado original.
A Instrumentalização do Holocausto: A análise de Kepel sugere que o uso do termo "genocídio" contra Israel pela África do Sul no TIJ não é apenas uma disputa jurídica, mas uma tentativa de anular a legitimidade moral do Estado judeu, invertendo os papéis de vítima e agressor históricos para validar uma nova hierarquia de virtudes.
2. A Falácia da Civilização do "Sul Global"
Kepel desconstrói o "Sul Global" como uma entidade coesa, classificando-o como uma farsa ideológica:
Regimes Iliberais: Ele aponta a contradição de regimes autoritários e corruptos (como a Rússia e o Irã) se apresentarem como defensores da "justiça" contra um Ocidente "decadente".
O Paradoxo Migratório: O autor destaca o "plebiscito dos pés": as populações do Sul Global, embora teoricamente ensinadas a odiar o Norte, buscam refúgio e prosperidade nas democracias liberais, evidenciando a superioridade prática das instituições ocidentais sobre a retórica de seus líderes.
A Ameaça Interna Russa: A análise sobre a Rússia é perspicaz ao notar que Moscou, ao tentar liderar o BRICS+, enfrenta sua própria insurgência islâmica interna. A Rússia possui características de um país do "Norte" (demografia declinante e elite étnica minoritária) tentando gerir um "Sul" interno explosivo.
3. O Choque de Civilizações Inverso
Ao citar Huntington, Kepel propõe que vivemos uma versão essencialista invertida.
Reducionismo Moral: Enquanto Huntington via o Ocidente sob ameaça, os ideólogos do Sul Global agora veem o Norte como intrinsicamente maligno.
A Crise das Instituições Multilaterais: A paralisia da ONU e os escândalos da UNRWA são vistos como sintomas de uma organização que perdeu sua bússola moral ao tentar acomodar as exigências de potências emergentes (como Brasil e Índia) que buscam substituir a hegemonia europeia no Conselho de Segurança.
4. A Geopolítica Doméstica dos EUA
Kepel identifica o impacto direto desse "choque inverso" na política interna americana. A pressão de minorias e jovens democratas em estados-chave como Michigan (Dearborn) força Joe Biden a um equilibrismo precário: manter a aliança estratégica com Israel ou ceder à pressão de uma base eleitoral que identifica a causa palestina com a luta antirracista e anticolonial doméstica.
Síntese Crítica
A tese de Kepel sugere que o mundo não está apenas dividido por interesses econômicos, mas por uma guerra de narrativas morais. O perigo reside na perda de um padrão universal de direitos humanos em favor de um julgamento baseado na "identidade política" das nações. O Sul Global, ao se definir puramente pelo "ódio ao Ocidente", corre o risco de ignorar suas próprias contradições e o radicalismo que cresce em suas fronteiras internas.
* Comando [texto original de 2024]:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/gilles-kepel-le-sud-global-est-une.html
https://www.lcrs-politica.com/research/gilles-kepel-le-sud-global-est-une-grande-imposture-ideologique-et-une-aberration-geopolitique
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