O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

Mostrando postagens com marcador livros Paulo Roberto de Almeida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros Paulo Roberto de Almeida. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de janeiro de 2018

Oliveira Lima Library, em Washington: a caminho da recuperacao? (OESP 21/01/2018)

Matéria deste domingo no Estadão (Caderno 2, p. C5, 21/01/2018), por Roberta Jensen, aborda a situação atual da Biblioteca Oliveira Lima, junto à Universidade Católica da América, em Washington, que muito frequentei, atualmente necessitada de um bom plano de recuperação, passando por significativo apoio financeiro.
Recentemente, com meu colega André Heráclio do Rego, publicamos um livro sobre Oliveira Lima, cuja informação trasncrevo ao final desta postagem.
Paulo Roberto de Almeida 


Astrofísica da Nasa assume reitoria de universidade nos EUA e resgata acervo de diplomata brasileiro

Duília de Mello quer recuperar a biblioteca do diplomata, historiador e jornalista Manoel de Oliveira Lima (1867-1928)


Roberta Jansen
O Estado de S. Paulo, 21 Janeiro 2018, p. C5.

RIO - Pesquisadora da Nasa, especialista na análise de imagens do Telescópio Espacial Hubble, Duília de Mello acaba de assumir a vice-reitoria da Universidade Católica da América, em Washington. Por ser brasileira, recebeu de seu chefe uma incumbência inusitada para uma astrofísica: recuperar a biblioteca do diplomata, historiador e jornalista Manoel de Oliveira Lima (1867-1928). No porão da universidade, ela encontrou nada menos que 58 mil itens, entre livros raros, manuscritos, cartas, mapas e obras de arte, que formam um dos mais importantes acervos do mundo de história do Brasil. Uma autêntica ‘brasiliana’ – como são chamadas as grandes coleções sobre o País.
Além de livros raros, como a primeira edição dos Lusíadas, fazem parte da coleção milhares de cartas trocadas com intelectuais da época, como Lima Barreto, Euclides da Cunha e Monteiro Lobato. De dentro de um livro aberto aleatoriamente, surgiu uma carta assinada por Machado de Assis. “Toda hora encontramos algo novo”, afirma a pesquisadora, entusiasmada com o projeto inesperado. Diversos quadros de Taunay (1755-1830) e Antonio Parreiras (1860-1937), e um Frans Post (1612-1680) avaliado em nada menos que US$ 4 milhões, também pertencem ao acervo.


Manoel de Oliveira
Duília de Mello. Formando uma autêntica ‘brasiliana’  
Foto: TOMMY WIKLIND
Toda a coleção foi legada à universidade pelo diplomata, enterrado em Washington, sob lápide onde se lê apenas “aqui jaz um homem que ama os livros”. Um epitáfio à altura do intelectual corpulento, bigodudo e polêmico, que colecionava livros e desafetos.  

A biblioteca estava fechada e praticamente abandonada até o início deste ano, quando foi reaberta por Duília. Agora, ela busca patrocínio para criar um Centro Oliveira Lima onde todo o acervo possa ser acomodado de forma correta e acessível a pesquisadores e ao público. 
Formado no Curso Superior de Letras de Lisboa em 1897, o pernambucano Oliveira Lima começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil em 1890. Trabalhou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Venezuela e Estados Unidos. Foi o encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão e um dos primeiros brasileiros a escrever um livro sobre o país. 
Como historiador, escreveu a biografia de d. João VI, tida até hoje como uma obra de referência sobre o rei português que transferiu a corte para o Brasil. Como jornalista, escreveu para o Estado entre 1904 e 1923, assinando inclusive uma série de colunas sobre a Primeira Guerra Mundial, enviadas da Europa. Foi professor da Universidade Harvard, nos EUA, e da Sorbonne, em Paris. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Amigo de grandes intelectuais da época, como Gilberto Freyre, Machado de Assis, Lima Barreto, entre outros, Oliveira Lima tinha uma profícua correspondência com vários deles. Também se notabilizou por seus grandes inimigos públicos, como Joaquim Nabuco e o Barão do Rio Branco. Sobretudo, foi um bibliófilo, um grande colecionador de livros raros, obras de arte, manuscritos e recortes de jornais.
“Apesar de toda a sua produção e do reconhecimento que tinha na época, Oliveira Lima não é tão conhecido no País quanto deveria ser”, afirma o professor do Departamento de Literatura Brasileira da USP Ricardo Souza de Carvalho. “Mas é um dos mais importantes historiadores brasileiros dos séculos 19 e 20”, atesta. 


Manoel de Oliveira Lima
Trajetória. De Pernambuco, onde nasceu, a Washington, um homem que amava os livros
Coordenador do Laboratório Líber de Tecnologia da Informação, da Universidade Federal de Pernambuco, Marcos Galindo destaca a importância de Oliveira Lima como jornalista. “Ele escrevia sobre política internacional, sobre literatura, artes”, enumera o especialista. 

“Fui para Washington estudar as cartas, ele tinha cerca de 1.500 correspondentes, praticamente toda a intelectualidade do Brasil e da América Latina”, conta a socióloga Nathalia Henrich, biógrafa de Oliveira Lima, que ajuda Duília na catalogação do material. “Mas aí eu me deparei com os scrapbooks, os álbuns de recortes em que ele reunia notícias de jornais, cópias de artigos, cartas, fotos, cartões-postais, menus; uma janela para entender o que estava acontecendo no Brasil e no mundo.”
Já Duília confessa não conhecer Oliveira Lima, mas destaca a importância do acervo.
“Eu sou uma astrofísica, não entendo muito disso”, diz Duília. “Mas sei que não posso deixar um tesouro histórico desses num porão, sem catalogação e preservação adequadas: quero criar um espaço que seja uma biblioteca, um centro de estudos e também um local de reunião de intelectuais brasileiros na capital americana.” 


QUEM É - Manoel de Oliveira, escritor
 Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) foi um diplomata, historiador e jornalista brasileiro. Viveu no Japão, na Europa e nos EUA e legou à Universidade Católica, em Washington, um acervo de 58 mil itens. 




Flora, a parceira que ficou em segundo plano
Mulher de Oliveira Lima falava cinco idiomas, era arquivista e escrevia as cartas e os manuscritos do diplomata
A astrofísica Duília de Mello, vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington, quer dar um destaque especial ao papel fundamental da mulher de Manoel de Oliveira Lima, Flora Cavalcanti de Albuquerque (1863-1940), na construção do acervo da biblioteca. O Centro Oliveira Lima terá, entre seus grandes alicerces, homenagear a memória de Flora e seu legado.
Filha da aristocracia de Pernambuco, Flora falava cinco idiomas fluentemente. Era fotógrafa, arquivista, bibliotecária, responsável pela organização de todo o acervo de Oliveira Lima e como o marido também amava os livros.
“Se não houvesse a Flora, não haveria a produção do Oliveira Lima”, garante a socióloga Nathalia Henrich, que está escrevendo a biografia do diplomata e trabalhando na catalogação do acervo. Segundo a especialista, todas as cartas de Oliveira Lima eram escritas por Flora, bem como os manuscritos originais de seus livros. “Imagino que ela desse muito palpite enquanto ele ditava, mas nunca recebeu a devida coautoria.”
 =================
Nosso livro sobre o Oliveira Lima, recentemente publicado: 

Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo:
 Oliveira Lima: um historiador das Américas 
(Recife: CEPE, 2017, 175 p.; ISBN: 978-85-7858-561-7). 
Anunciado no Diplomatizzando 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os trabalhos mais acessados em Academia.edu - Paulo Roberto de Almeida

Your Impact from January 01, 2017 to December 31, 2017

10,439  Unique Visitors


3,693  Downloads


19,545  Views


115  Countries


1,402  Cities


512  Universities


85,031  Pages Read


Os trabalhos mais acessados em Academia.edu - em 13/01/2018
Apenas os que tiveram volume superior a 500 acessos, para não encompridar a lista: 

Title
All-Time Views
All-Time Downloads
5,179
1,053
4,249
427
1,986
97
1,567
41
1,094
116
991
273
942
93
916
100
844
120
639
79
614
81



592
83
530
164
528
108
501
67

 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Via Politica: acesso a um trabalho em 5 dias


No dia seguinte ao Natal terminei uma compilação de trabalhos publicados numa revista digital editada em Porto Alegre, com a qual colaborei entre 2006 e 2009, esta aqui:



3219. Um contrarianista no limbo: artigos em Via Política, 2006-2009 (Brasília: Edição do Autor), Brasília, 26 dezembro 2017, 247 p. Compilação de três dezenas de escritos publicados em Via Política, dentro as oito dezenas constantes do registro. Feito em formato pdf, e divulgado através de Academia.edu (https://www.academia.edu/35509310/3219ViaPoliticaBook2006a2009.pdf), informado no blog Diplomatizzando (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/12/um-contrarianista-no-limbo-artigos-em.html) e no Facebook (https://www.facebook.com/paulobooks/posts/1759904837406292), ou via Twitter (https://shar.es/1MV892).

Nesta data, 1 de janeiro de 2018, recebi este alerta de Academia.edu: 

Robert Kagan recently added your paper, 3219ViaPoliticaBook2006a2009.pdf to their mentions.

 Se não for o scholar americano, pode ser uma contrafação. Em todo caso, fui verificar no Analytics e não achei nenhum registro em nome dele, mas nunca existem nomes, como se pode verificar abaixo.

https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida/Analytics/activity/documents/35509310

5 dias em dezembro:
32 Unique Visitors (201 do Brasil)
20 Downloads
48 Views
8 Countries
17 Cities
0 Universities

O Analytics segue abaixo. 
Date
Role
University
City & State
Country
Pages Read
17:06 Dec 31
Graduate Student
Piracicaba
Brazil

16:38 Dec 31
Undergraduate
Porto Alegre
Brazil
3
2:37 Dec 31
Undergraduate
Porto Alegre
Brazil
7
21:43 Dec 30

Colombo
Brazil
2
21:42 Dec 30


Colombo
Brazil

15:04 Dec 30
Undergraduate
Porto Alegre
Brazil
7
8:59 Dec 30
Graduate Student
Salvador
Brazil

12:38 Dec 29



Unknown
9
10:39 Dec 29
Alumnus

Unknown

5:08 Dec 29



Poland
204
2:09 Dec 29


Manaus
Brazil

0:31 Dec 29


Manaus
Brazil
6
22:19 Dec 28

Brasília
Brazil
3
22:19 Dec 28

Brasília
Brazil

20:58 Dec 28
student

Petrolina
Brazil
19
20:57 Dec 28
student

Petrolina
Brazil

17:38 Dec 28
student of international relations and diplomacy

Maputo
Mozambique
2
17:37 Dec 28
student of international relations and diplomacy

Maputo
Mozambique
2
15:12 Dec 28


Caxias Do Sul
Brazil
36
10:06 Dec 28
Department Member

Brazil
19
22:47 Dec 27


Cuiabá
Brazil
3
22:44 Dec 27


Cuiabá
Brazil

13:14 Dec 27



Brazil
2
10:15 Dec 27
Graduate Student
Porto Alegre
Brazil

23:23 Dec 26
Department Member
Recife
Brazil
11
21:20 Dec 26


Recife
Brazil

21:19 Dec 26


Recife
Brazil

21:19 Dec 26


Recife
Brazil

20:13 Dec 26


Caxias Do Sul
Brazil
168
20:11 Dec 26


Recife
Brazil

18:51 Dec 26
Faculty Member
Caracas
Venezuela

17:31 Dec 26
Undergraduate
Porto Alegre
Brazil

16:37 Dec 26
Emeritus
Buenos Aires
Argentina
2
16:37 Dec 26
Emeritus
Buenos Aires
Argentina

16:23 Dec 26


Belfast
the United Kingdom

16:13 Dec 26


Guarujá
Brazil

15:54 Dec 26


Brasília
Brazil

15:52 Dec 26
Undergraduate

Brazil

15:39 Dec 26
researcher

Maputo
Mozambique
2
15:36 Dec 26


Belfast
the United Kingdom

15:34 Dec 26
researcher

Maputo
Mozambique

15:02 Dec 26


Glew
Argentina

13:21 Dec 26



Israel

12:54 Dec 26



Israel

12:31 Dec 26
Alumnus


Unknown
16
11:06 Dec 26


Rio De Janeiro
Brazil

11:04 Dec 26



Brazil


Para ler o trabalho downloadar deste link: https://www.academia.edu/35509310/3219ViaPoliticaBook2006a2009.pdf

O Sumário e a apresentação seguem abaixo: 

Índice



Apresentação: Resquícios de um quilombo de resistência intelectual                              11

O Brasil e os problemas brasileiros
1. Dicionário político dos novos pecados capitais                                                           17
2. Prioridades possíveis em uma administração racional                                                 19
3. Uma verdade inconveniente: pode o Brasil crescer 5% ao ano?                                  24
4. Reflexão pessoal sobre as relações entre Estado e governo                                       30
5. Pequeno manual prático da decadência                                                                       33
6. Prometeu acorrentado: o Brasil amarrado por sua própria vontade                             45
7. Algumas coisas simples que deveríamos ter no Brasil                                                52
8. Como criar uma nação de assistidos                                                                           54
9. Duro de crescer: obstáculos políticos ao crescimento no Brasil                                  57
10. Presença da universidade no desenvolvimento: perspectiva histórica                        68
11. O afundamento da educação no Brasil                                                                     73
12. O problema da universidade no Brasil: do público ao privado?                                81
13. Fim de consenso na diplomacia?                                                                              87

O mundo e seus problemas
14. O Brasil no índice dos Estados falidos                                                                     91
15. América do Sul: desintegração política e à fragmentação econômica?                      97
16. O papel dos BRICs na economia mundial                                                                106
17. Fórum Social Mundial: propostas idealistas, grandes equívocos                              112
18. Socialismo do século XXI?: apenas para os incautos...                                      123
19. Sete teses impertinentes sobre o Mercosul                                                               127
20. Terrorismo islâmico-fundamentalista: uma quarta guerra mundial?                         132
21. Duzentos anos da vinda da família real: o que Portugal nos legou?                          136
22. Um outro Fórum Social Mundial é possível…                                                         151
23. O império americano em sete teses rápidas                                                              159
24. O império e sua segurança: quatorze novas teses                                                     164
25. O Brasil e o cenário estratégico mundial: breves considerações                               173
26. O legado de Henry Kissinger                                                                                  177
27. Pequena lição de Realpolitik                                                                                    182
28. Bric: anatomia de um conceito                                                                                 187
29. Fórum Surreal Mundial: globalizados contra a globalização                                    217


Apêndices
30. Relação dos artigos publicados em Via Política, 2006-2009                                    237
31. Livros de Paulo Roberto de Almeida                                                                        242
32. Nota sobre o autor                                                                                                   245



Resquícios de um quilombo de resistência intelectual


Considero os trabalhos reunidos neste volume, que de outra forma poderiam ser chamados de “crônicas do limbo,” como remanescentes de alguns dos meus quilombos de resistência intelectual, quando eu estava reduzido a um ostracismo funcional, ou seja, confinado a uma espécie de limbo institucional por razões que muitos sabem quais foram, mas que talvez não seja o caso de discutir aqui. Em todo caso, basta informar que, convidado no início de 2003 a assumir a coordenação do mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco, fui “desconvidado” logo em seguida, por motivos obscuros mas que podem ser deduzidos mediante uma simples consulta à lista de minha produção acumulada desde muitos anos. O fato é que, desde então, e pelos 13 anos seguintes, permaneci sem qualquer função na Secretaria de Estado, uma travessia do deserto que apenas foi interrompida com o impeachment de certa senhora. Tudo coincidência, claro.
Enterrado um regime, iniciado um outro, retomei meus trabalhos, não exatamente na Secretaria de Estado, mas numa função de corte acadêmico, que por acaso coincide com meus interesses intelectuais. Durante aquele longo período – do início de 2003 a meados de 2016 –, frequentei, ou criei, vários tipos de “quilombos”, que eu chamei de “resistência intelectual”, em geral sob a forma de blogs, que eu mantinha e alimentava com objetivos variados: resenhas de livros, transcrição de escritos alheios, usos tópicos diversos (por ocasião de eleições presidenciais, por exemplo), e mais frequentemente para finalidades pessoais (como o DiplomataZ, entre vários outros), ou blogs de caráter geral, dos quais o mais constante, e até hoje em uso, é o Diplomatizzando.
Num desses quilombos, ou fora deles, a verdade é que eu estava no limbo, o que até pode parecer anacrônico, uma vez que a Cúria do Vaticano parece ter extinguido esse “território” muitos anos atrás. Enfim, sempre podem subsistir limbos virtuais. O limbo, segundo os dicionários, representa, na teologia cristã, uma região próxima do inferno, um refúgio para as almas dos homens bons, que viveram antes da chegada de Cristo, e para as almas das crianças falecidas não batizadas. Num sentido civil, pode aproximar-se de uma espécie de prisão, ou confinamento, o que deve ter sido o meu caso. No sentido mais comum do termo, seria um lugar ou a condição de  negligência ou de esquecimento aos quais seriam relegadas coisas ou pessoas não desejadas. Estas são, em todo caso, as definições que retiro do Webster's New Universal Unabridged Dictionary (2nd edition; New York: Simon and Schuster, 1979), p. 1.049. Os muito curiosos por outras significações, ou por explicações mais detalhadas, podem procurar o verbete na Wikipédia.
Retomemos o meu caso. Consciente do ostracismo que me foi imposto, por decisões provavelmente políticas (ainda que não declaradas), continuei a fazer o que sempre fiz, no decorrer de toda uma vida dedicada a uma atividade fundamental: ler, refletir, escrever, eventualmente divulgar meus escritos pelos meios disponíveis. Estes meios não eram muitos; ao início, na verdade, nenhum, uma vez que eu só dispunha, em 2003, de meu próprio site pessoal (www.pralmeida.org), que se destinava unicamente a divulgar alguns trabalhos acadêmicos, em temas sobre os quais eu era frequentemente consultado por estudantes, jornalistas ou colegas acadêmicos: integração regional, política externa brasileira, relações internacionais de modo geral. O site pessoal era um instrumento passivo, pois nunca fiz dele um instrumento de comunicação, ou plataforma para qualquer outro objetivo, senão a compilação de trabalhos de natureza intelectual, que refletiam essa minha produção de tipo acadêmico. A partir de certo momento, para facilitar o trabalho de carregamento e disponibilização de trabalhos mais curtos, passei a utilizar a ferramenta dos blogs, o único free lunch real, conhecido sob o capitalismo.
Por inépcia pessoal, incompetência técnica notória, tive vários deles, sucessivos, até conseguir estabilizar no Diplomatizzando, sem que todos os demais tivessem sido desativados; foram apenas sendo deixados de lado, para não complicar muito a vida. O fato é que comecei a postar um volume crescente de materiais suscetíveis de atrair a atenção de um número maior de leitores, e até de “editores” de ferramentas semelhantes ou até de instituições de ensino e pesquisa espalhadas pelo Brasil. De várias recebi convites para colaborar, o que procurei atender na medida de minhas possibilidades e, sobretudo, interesse no tipo de veículo, seu perfil social e nicho de interesse intelectual.
Um deles foi a revista eletrônica Via Política (Porto Alegre), animada pelos jornalistas gaúchos Omar Luiz de Barros Filho e Sylvia Bojunga, que me localizaram em algum momento do início de 2006 e formularam o convite para que eu colaborasse. Refleti por algum tempo, sobre se deveria aceitar ou não, e resolvi colaborar, tanto porque havia sido contatado quase simultaneamente por dois outros veículos online de comunicação, e também porque, desde 2001, já contribuía mensalmente com a revista digital Espaço Acadêmico, um bem sucedido empreendimento editorial mantido em condições quase artesanais pelo professor Antonio Ozaí, da Universidade de Maringá, no Paraná. Depois de ter inaugurado minhas colaborações mensais nessa revista por um texto – “Dez novas regras de diplomacia” – que deve ter sido o mais acessado de toda a minha produção acadêmica (na verdade diplomática), continuei durante dez anos com meus artigos provocadores (ao ambiente de gramscismo disseminado), até que o corpo editorial deve ter se cansado de meus ataques à nossa miséria acadêmica e resolveram dispensar-me dos colaboradores regulares. Ufa! Poupou-me uma obrigação adicional.
Em Via Política, com total liberdade de colaboração, cheguei até a dispor de uma coluna dedicada e especial, que reproduzia o título de um dos meus blogs na ocasião – a “Diplomatizando”; link: http://www.viapolitica.com.br/diplomatizando – e mandava minhas contribuições a intervalos regulares, embora sem uma periodicidade fixa. No total, salvo engano de registro, contei 87 publicações, mas pelo menos duas delas foram longos artigos divididos em postagens diferidas ao longo de algumas semanas, como foi o caso de um ensaio sobre o Brics e uma análise das parvoíces do Fórum “Surreal” Mundial (que parecem ter desaparecido da paisagem, mais por falta de dinheiro oficial do que de besteirol à disposição dos incautos).
Nesta minha seleção ilustrativa, escolhi três dezenas de trabalhos, reproduzidos neste volume de compilação (nem sempre fiel aos textos efetivamente publicados, pois que buscados nas minhas pastas de “originais”, organizadas ano a ano. Creio que podem ser considerados os trabalhos mais representativos, e ainda válidos, de minhas reflexões e de minha produção intelectual nesses anos em que me encontrava afastado de qualquer atividade funcional na Secretaria de Estado ou de postos no exterior. Depois da decisão de efetuar o “renascimento” desta colaboração com um blog infelizmente já desaparecido, comecei a pensar em como intitular esta nova série de trabalhos atinentes às minhas pesquisas, reflexões e escritos. Diferentes opções estavam à disposição deste autor: crônicas do deserto, do cerrado, do agreste, ou qualquer outro conceito denotando uma situação áspera, difícil, de isolamento ou de dificuldade, enfim, algo conforme às minhas condições naquele período.
Resolvi então adotar o que era mais característico quanto ao autor e sua situação: um “contrarianista” – ou seja, alguém não absolutamente contrário a tudo o que vê, ou encontra, mas praticando o que eu sempre chamei de “ceticismo sadio” – ,“no limbo”, pois esta era, efetivamente, a minha situação naquele momento. Esta foi, pois, a decisão de deixar registrados trabalhos de uma fase já passada, mas que ainda pode voltar a ocorrer novamente, pois nunca se sabe que tipo de complicações esses contrarianistas profissionais podem criar para si mesmos, em termos de projetos de vida, tanto pelo lado profissional, como pelo lado acadêmico ou pessoal. Acredito que as pessoas são responsáveis, em grande medida, pelo seu próprio destino, na medida em que fazem escolhas, adotam posturas, assumem atitudes que as colocam em maior ou menor conformidade com o seu meio social, com o seu ambiente profissional, com o seu universo de relacionamentos e interações. Sou o resultado de minhas próprias escolhas, ainda que outros possam ter contribuído, direta ou indiretamente, para minha condição, em determinados momentos de minha carreira profissional ou itinerário acadêmico.
Não pretendo lamentar nada, ainda que exercícios de autorreflexão e revisões críticas de trajetórias passadas e presentes sejam sempre desejáveis, na perspectiva de corrigir o que está errado e impulsionar caminhos mais atrativos, ou interessantes. Ao refletir sobre esse tipo de situação, em dezembro de 2006, ao confirmar-se o limbo no qual eu andava metido, escrevi num dos textos pessoais: “Vou estabelecer, neste final de ano [2006], um plano de trabalho para enfrentar os próximos meses, talvez anos, de travessia do meu deserto particular”. Não sabia, naquela momento, que o limbo teria a exata duração de dez anos, durante os quais preferi ficar com minha consciência e em defesa de certos princípios e valores, do que aderir a um governo que sempre considerei um desastre no plano econômico, político, institucional, e até ético e moral. Acho que eu não estava errado a este respeito, como constatamos pelos incontáveis processos, delações, investigações sendo feitas e casos sendo julgados atualmente no Judiciário.
O Brasil atual, de certo modo, me dá vergonha, pelo aspecto de corrupção impune a que se assiste. Mas, por outro lado, existem pessoas e instituições lutando para que tal vergonha seja corrigida, punida, senão eliminada, pelo menos limitada. É isso que eu sempre procurei fazer através de meus escritos e publicações. Eles não são fortuitos, ou puramente circunstanciais. Eles traduzem um compromisso com certos princípios de vida, com certos valores que julgo importantes, para minha geração e as que se seguirão nas décadas seguintes, agora representadas por meus filhos e netos.
A palavra limbo talvez não é mais adequada à minha situação atual. Ela fica, em todo caso, como conceito chave destas minhas crônicas de um período especial, hoje felizmente superado, mas que talvez possa voltar pelo lado de um contrarianismo sempre presente em meus textos. Nesse caso, eu talvez tenha de escolher algum substantivo mais apropriado. No momento este é o que me convém para expressar estas contribuições a um dos muitos veículos com os quais colaborei ao longo dos anos.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 26 de dezembro de 2017