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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um novo livro sobre a política externa e a diplomacia brasileira - Paulo Roberto de Almeida


Ainda estou revisando e ultimando a preparação editorial de um novo livro que representa uma compilação de artigos meus sobre a política externa e a diplomacia brasileira.
Eu não o considero um "scholarly work", como se diz na academia americana, ou seja, ensaios dotados de consistência analítica, de aparato bibliográfico, consistindo num acréscimo ao estado da arte no terreno da política externa e da diplomacia brasileira.
Não, não pretendo que ele seja isso: trata-se de um livro de combate, contra o estado lamentável no qual se encontra atualmente tanto uma quanto outra.
Um amigo, do exterior, que sabe de meus escritos, me escreveu o que segue a propósito de meu trabalho. Ele primeiro comentou a minha listagem de trabalhos – apenas para fins de seleção para algum livro futuro, lista que já coloquei aqui https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/05/listagem-de-trabalhos-sobre-relacoes.html
– e depois se refere ao novo livro: 


Votre sélection de travaux scientifiques est une vraie encyclopédie de l'analyse sur la politique extérieure du Brésil à travers les temps ! C'est très impressionnant. Un véritable "outil de référence" pour les chercheurs sur la diplomatie brésilienne. Je vais m'y "plonger" (comme on dit en français...). Même si j'en connais déjà, avec une grande joie intellectuelle, un certain nombre.

Quant à votre nouvel ouvrage, je comprends bien entendu fort bien votre état d'esprit... C'est celui d'un patriote, d'un universitaire, d'un diplomate, d'un chercheur qui travaille depuis des décennies au profit du rayonnement international du Brésil. Et qui voit tout cela être détruit systématiquement avec des effets catastrophiques. C'est donc ce que l'on peut appeler un "ouvrage de combat" ! Combat contre la bêtise, l'ignorance, la vilénie (un mot assez "vieille France"...), la méchanceté...

Transcrevo o índice deste livro, sem o seu título e sem o capítulo que deu origem ao título, o que deixo para depois.
Dentro em breve o livro estará disponível..
Paulo Roberto de Almeida

Subtítulo:
ensaios de política externa e de diplomacia brasileira

Índice
Prefácio ,   11

1. A política externa e a diplomacia em tempos de revolução cultural  ,  15
2. De uma diplomacia a outra no Itamaraty: conceitos e práticas  ,  21
3. A destruição da inteligência no Itamaraty  ,  27
4. A ideologia da diplomacia brasileira ,  31
5. Os desastres da política externa do olavo-bolsonarismo  ,  35
6. Questões de diplomacia e de política externa do Brasil ,  41
7. Desafios da diplomacia no Brasil, do lulopetismo ao bolsonarismo ,  49
8. O espectro do globalismo: a emergência da irracionalidade oficial ,  53
9. Manifesto Globalista ,  57
10. (...) ,  69
11. O Itamaraty e a diplomacia brasileira em debate  ,  73
12. Política externa e diplomacia brasileira no século XXI , 81
13. A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo ,  99
14. A diplomacia brasileira na corda bamba, sem qualquer equilíbrio , 109
15. Dogmas da diplomacia bolsolavista ,   123
16. Meu ‘manifesto’ diplomático ,  125

Apêndices:
Um darwinista heterodoxo: Stephen Jay Gould e a sobrevivência dos (cientistas) 
       mais aptos  , 129
Livros publicados pelo autor  ,  147
Nota sobre o autor  ,   153


There are, if not universal values, at any rate a minimum without which societies could scarcely survive. Few today would wish to defend slavery or ritual murder or Nazi gas chambers or the torture of human beings for the sake of pleasure of profit or even political good – or the duty of children to denounce their parents, which the French and Russian revolutions demanded, or mindless killings. There is no justification for compromise on this. But on the other hand, the search for perfection does seem to me a recipe for bloodshed, no better even if it is demanded by the sincerest of idealists, the purest of heart. No more rigorous moralist than Immanuel Kant has ever lived, but even he said, in a moment of illumination, ‘Out of the crooked timber of humanity no straight thing was ever made.’ To force people into the neat uniforms demanded by dogmatically believed-in schemes is almost always the road to inhumanity.

Isaiah Berlin, “On the pursuit of ideal”, New York Review of Books (17/03/1988), In: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind: an anthology of essays (London: Chatto & Windus, 1997), p. 15-16. 


Este livro é dedicado a todos os meu colegas de carreira que conseguem preservar a alta qualidade intelectual dos padrões de trabalho e o sentido de profissionalismo exemplar no desempenho de suas tarefas correntes no âmbito do Itamaraty, assim como aos que, além disso, se preocupam em pensar o passado, o presente e o futuro da política externa brasileira.

Projeto de livro (2010) sobre o Brasil no mundo, diplomacia, política externa, economia, integração - Paulo Roberto de Almeida

Em 2010, já tendo acumulado certo número de trabalhos - este projeto de livro, por exemplo, levou o número 2195 da lista de originais – agrupei os trabalhos mais significativos em duas listas, possivelmente pensando numa publicação de autor. A primeira, de caráter mais conjuntural, ou formada por artigos mais leves, e uma segunda, com ensaios de caráter mais estrutural, ou analítico.
Eis o esquema do segundo livro projetado.
Talvez aproveite alguns, ou a maioria, numa nova publicação, em 2020, ou seja, dez anos depois. O problema é que, neste intervalo de tempo, dezenas de novos itens foram agregados à lista, e que poderão, portanto, integrar novos projetos de livros.
Eis a nova lista: 
3677. “Listagem de ensaios de relações internacionais, de política externa e de história da diplomacia brasileira e sobre personalidades nessas áreas (para fins de seleção)”, Brasília, 21 maio 2020, 4 p. Para elaborar seleção de trabalhos a serem publicados. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/05/listagem-de-trabalhos-sobre-relacoes.html).

Ou seja, de 3667 a 2195, são quase 1.500 trabalhos novos, dos quais certamente 5 ou 10% merecerão compilação em algum novo volume.
Paulo Roberto de Almeida

Diplomatizando 2
Sumário:

Prefácio: O Brasil, na região e no mundo...                                                                            9

Parte I:
O Brasil, na região e no mundo
1. Le Brésil à deux moments de la globalisation capitaliste et à un siècle de distance (1909-2009) (2020)
2. A ordem mundial e as relações internacionais do Brasil, 63 p (1960); Economia Internacional, Globalização e Regionalização”, 164 p. (1899); O Brasil nas relações internacionais do século 21: fatores externos e internos de sua atuação (1858) 
3. O Brasil e as relações internacionais no pós-Guerra Fria (2018) 
4. O Brasil no contexto da governança global (1946)
5. Obsolescência de uma velha senhora?: a OEA (2011)
6. A Estratégia Nacional de Defesa e a União das Nações Sul-Americanas (2151)
7. Convergências e divergências no regionalismo econômico e político da América do Sul: evolução histórica, dilemas atuais e perspectivas futuras”, 59 p. (1927)
8. O regionalismo latino-americano no confronto com o modelo europeu: uma perspectiva histórica de seu desenvolvimento”, Brasília, 17 maio 2008, 34 p. Resumo do trabalho 1844. (1889); As experiências de integração regional na América Latina”, Brasília, 13 maio 2008, 23 p. Revisão, redutora, do trabalho 1844, para fins de publicação (1887)
9. Mercosul, 1991-2011: percurso histórico, desafios e perspectivas (2179)
10. O Mercosul não é para principiantes: sete teses na linha do bom senso 
11. Por que a América Latina não decola: alguma explicação plausível?
12. Por que o Brasil avança tão pouco: sumário das explicações possíveis
13. Brasil: o que poderíamos ter feito melhor, como sociedade, e não fizemos?
14. Qual a melhor política econômica para o Brasil?: algumas opções pessoais
15. O que podemos aprender com a experiência dos demais países?
16. Nossa contribuição para o mundo: onde o Brasil poderia ser melhor (2144)

Parte IV: 
Política Externa e diplomacia do Brasil
17. A herança portuguesa e a obra brasileira: balanço e avaliação de dois séculos (1857)
18. A política comercial do Brasil no contexto internacional, 1889-1945 (1991)
19. Estratégia Nacional de Defesa (END): comentários dissidentes (1984)
20. A Arte de NÃO Fazer a Guerra: novos comentários à END (2066)
21. As crises financeiras internacionais e o Brasil desde 1929: 80 anos de uma história turbulenta (2013)
22. Finanças internacionais do Brasil na segunda metade do século XX
23. Relações econômicas internacionais do Brasil dos anos 1950 aos 1980
24. As relações Brasil-Estados Unidos do século XX ao século XXI (1918)
25. Non-Intervention: a political concept, in a legal wrap: a historical and juridical appraisal of the Brazilian doctrine and practice (2023)
26. O Brasil e a (finada) Alca: doze questões para um debate racional 
27. Pensamento e ação da diplomacia de Lula: uma visão crítica (2168 ?)
28. Política exterior do Brasil: potência regional ou ator global? (2134)
29. A dinâmica da relações exteriores do Brasil (2068)
30. Qual a melhor política externa para o Brasil?: algumas preferências pessoais
31. Dez novas regras de diplomacia

Posfácio: O que o Brasil pode ser, daqui para a frente                                                                    

Obras do autor

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Das vantagens de ser um diplomata acidental - Paulo Roberto de Almeida (2017)



A melhor diplomacia não se sustenta sem uma boa governança doméstica.
Seria a diplomacia brasileira um ponto fora da curva?
Paulo Roberto de Almeida
Apresentação ao livro
Quinze anos de política externa: ensaios sobre a diplomacia brasileira, 2002-2017
Brasília: Edição do Autor, 2017, 366 p. 
Disponível na plataforma Academia.edu; link:


Este livro de ensaios foi montado de maneira improvisada, e pode sofrer de alguma repetição, sobretudo nos trabalhos voltados para a análise dessa coisa que eu chamei de lulopetismo diplomático. Mas ele reflete, com certa acuidade, minha produção intelectual sobre a diplomacia brasileira ao longo desta primeira década e meia do século XXI. Tentando terminar rapidamente esta assemblagem de alguns dos muitos artigos que elaborei, desde 2002, não contei com o tempo adequado para escrever uma apresentação formal. Consoante, entretanto, meu forte espírito contrarianista, permito-me revelar aqui – o que não é exatamente uma confissão – que sou uma espécie de contestador das verdades reveladas, aquilo que os franceses chamam de idées reçues, ou seja, o pensamento banal, aceito como correto nos mais diferentes meios em que essas ideias se aplicam, mas geralmente de forma equivocada ou, talvez, ingênua.
E por que digo isto, ao iniciar a apresentação de um livro de “ideias já recebidas”, ou pelo menos de ensaios já publicados? É porque eu já fui chamado, certa vez, de accident prone diplomat, ou seja, alguém que busca confusão, o barulho, no meu caso, de fato, mais a expressão de um ceticismo sadio do que uma simples provocação ou a contestação gratuita. Com efeito, eu não me deixo convencer com certas idées reçues nos meios que frequento, e estou sempre à busca de seus fundamentos, justificações, provas empíricas, testemunhos de sua adequação e funcionamento no ambiente em que deveriam operar, em condições normais de pressão e temperatura, enfim, o entendimento convencional de como é ou de como deve funcionar a diplomacia, em especial, a nossa, esta tida por excelente e que, aparentemente, não improvisa. Talvez devesse fazê-lo, em certas ocasiões...
Na verdade, antes de ser um accident prone diplomat, se isto é correto (o que duvido), creio ser um diplomata acidental, alguém que se dava bem na academia, e que resolveu, num estalo, ser diplomata. Posso até recomendar esta profissão, aos que gostam de inteligência, de cultura, de viagens, de debates sobre como consertar este nosso mundo tão sofrido, aos que são nômades por natureza (como é o meu caso e, mais ainda, o de Carmen Lícia), menos talvez aos que pouco apreciam um ambiente meio estilo Vaticano, meio espírito Forças Armadas. Com efeito, hierarquia e disciplina são os dois princípios que estão sempre sendo lembrados aos jovens diplomatas como sendo a base de funcionamento desta Casa aparentemente tão austera, tão correta, tão eficiente no tratamento das mais diversas questões da nossa diplomacia. Confesso, também, que nunca fui um adepto zeloso desse rigorismo no trato de pessoas segundo convenções estabelecidas.
Atenção, acima eu disse diplomacia, que é uma técnica, e não política externa, que pode ser qualquer uma que seja posta em marcha pelas forças políticas temporariamente dominantes no espectro eleitoral do país. Política externa pertence a um governo, a um partido; a diplomacia pertence a um Estado, que possui instituições permanentes, entre elas essa que aplica a política externa de um governo por meio da diplomacia. E por que então o conceito de “acidental” que inaugura esta apresentação? Não preciso responder agora, e provavelmente nem depois, mas a resposta talvez esteja em cada um dos ensaios reunidos nesta coletânea de artigos escritos desde o início do milênio. Ninguém, por exemplo, há de recusar o fato de que, desde 2003 pelo menos, o Brasil vive tempos não convencionais, nos quais assistimos coisas nunca antes vistas na diplomacia, que por acaso é o título de meu livro mais recente: Nunca antes na diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Appris, 2014). Aliás, nossos tempos são decididamente não convencionais menos pela diplomacia do que por uma série de práticas exacerbadas naquele terreno que pertence ao domínio da moral.
Pois bem, reunindo tudo o que eu escrevi nos parágrafos anteriores – diplomata acidental, hierarquia, disciplina, ideias de senso comum, etc. – e juntando tais conceitos aos ensaios aqui compilados, os leitores terão uma explicação para o sentido geral de minha obra, anárquica, dispersa, contestadora, por vezes contrarianista, mas explorando o lado menos convencional da diplomacia, aquele que destrincha certas verdades reveladas e ousa apresentar outras ideias que não necessariamente fazem parte do discurso oficial. Esta talvez também seja a razão de eu apreciar, muitíssimo, uma seção da revista Foreign Policy, desde a sua reorganização por Moisés Naím, que se chama “Think Again”, ou seja, reconsidere, ou pense duas vezes, pois a resposta, ou a explicação pode não estar do lado que você costuma encontrar, mas que talvez esteja escondida em alguma dobra da realidade, por uma dessas surpresas do raciocínio lógico, por alguma astúcia da razão ou por algum outro motivo que se encontra enterrado, e quase esquecido, na história.
A vantagem de ser um diplomata acidental está justamente no fato de poder perseguir (nem sempre impunemente) o outro lado das coisas, e de poder contestar algumas dessas idées reçues que passam por certezas consagradas, ou pela única postura possível no funcionamento convencional da grande burocracia vaticana, que também leva jeito de quartel (mas acordando um pouco mais tarde). Durante todos estes anos em que venho escrevendo sobre política externa, tenho podido exercer meu lado irreverente e pouco convencional para tratar de aspectos muito pouco convencionais de nossa diplomacia nestes anos do nunca antes (agora, felizmente, terminados). 
Atenção: muitos dos ensaios aqui coletados não brotaram, originalmente, de trabalhos de pesquisa, ou daquilo que se chama, usualmente, de scholarly work, isto é, o produto derivado de estudos meticulosos, ou objeto de revisão cega por pares, material que está mais propriamente coletado em meus livros publicados. Eles são, eu diria, peças de simples divertimento intelectual, ainda que vários deles contenham aparato referencial (notas de rodapé, bibliografia, citações doutas, etc.) e também sejam o reflexo de muitas leituras sérias e anotadas ao longo de meus anos de estudo e trabalho. Mas, destinados a veículos mais leves, e não a revistas científicas, eles constituem reflexões de um momento, de um problema, de uma conjuntura, de algum evento que valia a pena registrar em um artigo mais curto.
Vários ensaios foram publicados em veículos como Mundorama ou Meridiano 47, ambos dirigidos por meu amigo Antonio Carlos Lessa, do IRel-UnB. Mas o que vai aqui compilado foi retirado de meus próprios arquivos, em processador usual de texto, para contornar os problemas de formatação de texto em suporte digital, mas corresponde, em princípio, aos originais, embora não necessariamente ao que foi publicado. Nem tudo o que publiquei vai aqui reproduzido, em ordem cronológica sequencial. Ficaram de fora diversos artigos circunstanciais, todas as resenhas de livros – já coletadas em outras publicações digitais que organizei – e alguns textos de menor importância.  Coloquei uma listagem seletiva dos ensaios mais importantes num apêndice, ao final do volume, onde também figuram os respectivos links para revisão eventual das publicações. Essa lista representa uma pequena parte de uma produção mais ampla, que se dedica também às relações econômicas internacionais do Brasil, à globalização, a temas regionais (como a integração, e dentro desta ao Mercosul), questões diversas da política internacional e da economia mundial.
O lado divertido de ser um diplomata acidental está justamente na possibilidade de se poder escrever livremente sobre assuntos sérios e menos sérios, com a liberdade editorial que só existe nos veículos leves, sem precisar cumprir todo o ritual passavelmente aborrecido dos requisitos acadêmicos ligados às revistas “sérias” – como a RBPI, por exemplo, com a qual também colaboro, de diversas maneiras – e sem precisar atentar para a langue de bois normalmente associada às publicações oficiais, onde aquele lado Vaticano inevitavelmente predomina. Foi nestes ensaios que eu explorei o lado meio escondido de certas verdades reveladas do meio profissional, uma atividade que sempre me deu imenso prazer por combinar com meu jeito contrarianista de ser. 
Dito isto, preciso voltar minhas energias para coisas mais sérias, como por exemplo o segundo volume de minha história das relações econômicas internacionais do Brasil, que me espera desde vários anos a partir da conclusão do primeiro volume (Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império; 2001, 2005, 2017). Em todo caso, sempre que posso estou me divertindo com este tipo de exercício intelectual, aqui representado por uma dezena e meia de textos supostamente “diplomáticos”, vários publicados apenas em revistas digitais, alguns outros em publicações mais sérias, inclusive em meus próprios veículos de divulgação. Tenho como regra coletar no blog Diplomatizzando (que me serviu de “quilombo de resistência intelectual” nos anos patéticos do lulopetismo), tudo o que encontro de inteligente circulando pelo mundo, o que também compreende vários dos textos aqui reproduzidos. Espero que eles sirvam a um debate igualmente inteligente.
Vale!

Paulo Roberto de Almeida

domingo, 12 de abril de 2020

Uma cronologia diplomática: 75 anos de leituras, de 1945 a 2020

O documento total, mas ainda claramente incompleto e parcial, encontra-se neste link: 

https://www.academia.edu/42707131/Bibliografia_Diplomatica_Cronologica_1945-2020

Fiz um apelo, na plataforma Academia.edu, para que me enviassem novas entradas, dentro dos critérios estabelecidos: livros, cobrindo as áreas do título, menos teoria do que história e política da atuação do Brasil nas relações Internacionais, com algumas saídas para o resto do mundo, ou ROW, como dizem os americanos, para sinalizar tudo o que não é exclusivamente EUA.

O trabalho continua, mas acho que já oferece um bom guia; eliminei todos os dados editoriais, para não sobrecarregar a listagem, que aumentaria tremendamente com esses dados. Ofereci, nos meus livros dedicados às obras dos diplomatas e acadêmicos próximos, resenhas de muitos desses livros.
Espero estar ajudando nos estudos de muitos, mas também espero não desesperar aqueles muito perfeccionistas, que acham que precisam ler tudo. Não sejam malucos como eu...

3630. “Relações internacionais, relações exteriores, política externa, história diplomática e diplomacia do Brasil, 75 anos de livros e leituras: um guia bibliográfico cronológico, 1945-2020”, Brasília, 11 abril 2020, 22 p. Guia parcial e incompleto da bibliografia em formato de livros, brasileiros e estrangeiros, sobre as temáticas do título; divulgado em caráter preliminar na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42707131/Bibliografia_Diplomatica_Cronologica_1945-2020 e https://www.academia.edu/s/135002abe2).

Relações internacionais, relações exteriores, política externa, história diplomática e diplomacia do Brasil, 75 anos de livros e leituras: um guia bibliográfico cronológico, 1945-2020

Compilação efetuada por Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de abril de 2020

1945: 
Barão do Rio Branco: Obras do Barão do Rio Branco (em 9 vols., 1945-1948); 
Álvaro Lins: Rio Branco
Renato de Mendonça: História da Política Exterior do Brasil: 1500-1825

1946: 
Valentim Bouças: História da Dívida Externa da União
Claudionor Lemos: Dívida Externa: análise, legislação e documentos elucidativos
M. Franchini Netto: A Evolução da Diplomacia: antiga e nova técnica;

1947: 
Aluízio Napoleão: Rio Branco e as relações entre o Brasil e os Estados Unidos
Getúlio Vargas: A Nova Política do Brasil (11 vols. publicados entre 1938 e 1947)
Luis Gurgel do Amaral: O meu velho Itamaraty;

1948: 
Hélio Vianna: História das Fronteiras do Brasil
Gilberto Freyre: Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil;
Gilberto Freyre: Joaquim Nabuco;
Rubens Ferreira de Mello: Gênese e evolução da diplomacia;
Rubens Ferreira de Mello: Tratado de direito diplomático (1a. ed.; 2 vols.);

1949: 
José Honório Rodrigues: Teoria da História do Brasil;
Rubens Ferreira de Mello: Tratado de direito diplomático (2a. ed. Aumentada; 2 vols.);

(...)

2019: 
João Ernesto Christófolo: Princípios Constitucionais de Relações Internacionais: significado, alcance e aplicação;
Paulo Roberto de Almeida: Contra a corrente: Ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais do Brasil (2014-2018);
Paulo Roberto de Almeida: Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty
Gustavo Marques Bezerra: O Livro Negro do Comunismo no Brasil
Paulo Roberto de Almeida: Marxismo e socialismo no Brasil e no mundo: trajetória de duas parábolas da era contemporânea
Oliveira Lima: O movimento da independência (1821-1822) (edição fac-similar); 
Marcos Romero: História da organização administrativa da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores (1808-1951)
Francisco Adolfo de Varnhagen: História da Independência do Brasil (edição fac-similar); 
Oliveira Lima: Dom João VI no Brasil (1808-1821) (edição fac-similar; 2 vols.); 
João Dunshee de Abranches Moura: Rio Branco e a Política Exterior do Brasil (1902-1912) (edição fac-similar; 2 vols.); 
Camilo Negri; Elisa de Sousa Ribeiro (coords.): Retratos Sul-Americanos: perspectivas brasileiras sobre história e política externa;
Elisa de Sousa Ribeiro (coord.): Direito do Mercosul (2ª ed.);
Jorge Ferreira; Lucilia de Almeida Neves Delgado (orgs.): O Brasil Republicano 4: o tempo do regime autoritário; ditadura militar e redemocratização; Quarta República (1964-1985);
Paulo Roberto de Almeida: Paralelos com o Meridiano 47: Ensaios Longitudinais e de Ampla Latitude;
Henrique Sartori de Almeida Prado: A cooperação descentralizada e a política para a fronteira no Brasil;
Paulo Roberto de Almeida: O panorama visto em Mundorama: ensaios irreverentes e não autorizados;
Paulo Roberto de Almeida: Pontes para o mundo no Brasil: minhas interações com a RBPI;

2020: 
Fabio Rocha Frederico: Política externa e guerrilha no Cone Sul: o “Plano Satã” e o sequestro do diplomata brasileiro Aloysio Mares Dias Gomide; 
Antonella Mori (ed.): Latin America and the New Global Order: dangers and opportunities in a multipolar world
José Alexandre Altahyde Hage (org.): Política energética no Brasil: sua participação no desenvolvimento e no relacionamento internacional


Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de abril de 2020

Guia parcial e incompleto; o organizador agradeceria receber sugestões, comentários e acréscimos, no que se refere a livros publicados sobre as temáticas do título.

Documento completo neste link: 




domingo, 15 de março de 2020

Guerra do Paraguai: 150 anos do seu término - Rubens Ricupero

A tradição diplomática brasileira de não intervenção nos assuntos  internos de outros países— interrompida agora pela canhestra diplomacia ideológica olavo-bolsonarista — começou com o final da desgraçada guerra que o Paraguai do ditador Solano Lopez deslanchou contra o Brasil, isso por intervenções nossas na política interna do Uruguai e outros problemas de fronteiras. A regra da não-intervenção foi seguida escrupulosamente na longa trajetória da diplomacia brasileira desde então – embora parcialmente desrespeitada sob o regime lulo-petista, se envolveu em diversos episódios eleitorais na região –, até que o inepto presidente atual e seu chanceler acidental deslanchassem ataques inacreditáveis ao então candidato argentino, depois eleito presidente. Poucas vezes em nossa história, tivemos exemplos tão baixos de incompetência diplomática.
Paulo Roberto de Almeida
15/03/2020

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/03/trauma-da-guerra-do-paraguai-iniciou-aversao-brasileira-a-conflitos.shtml

Trauma da Guerra do Paraguai iniciou aversão brasileira a conflitos

Episódio encerrado há 150 anos inspirou tradição diplomática de paz e não intervenção, diz Rubens Ricupero


Rubens RicuperoFolha de S. Paulo, 13 de março de 2020
[resumo] Último conflito armado do Brasil com países da América Latina, a Guerra do Paraguai chegava ao fim há 150 anos. Episódio ainda controverso, a batalha encerrou o período de choques na bacia da Prata, iniciou a derrocada da monarquia e inspirou uma tradição diplomática de paz e não intervenção.
No dia 1º de março, o Brasil completou 150 anos ininterruptos de paz com seus dez vizinhos. Nenhum outro país com tão vasta vizinhança ostenta essa tradição pacífica.
Em 1º de março de 1870, terminava, com a morte do ditador paraguaio Francisco Solano López, a Guerra do Paraguai contra a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. Em Assunção, manifestações oficiais relembraram a efeméride; no Brasil, passou em brancas nuvens.
Detalhe da pintura "A Batalha do Avaí" (1877), de Pedro Américo
Repetiu-se o que ocorrera no centenário do fim do conflito (1970). Nos cinco anos anteriores à data, os jornais guaranis recordaram dia a dia o que acontecera um século antes. O Brasil guardou silêncio, fiel à lição do barão do Rio Branco de que há vitórias que não se devem comemorar.
Somente no aniversário do fim do conflito, o ministro do Exército emitiu nota exemplar, afirmando que o Brasil tinha preferido esperar para comemorar cem anos de paz a um século de guerra. Era, e é, a melhor maneira de celebrar a maior tragédia da história sul-americana.
Passado tanto tempo, a Guerra do Paraguai continua a suscitar acusações e dúvidas que merecem esforço de elucidação. A quem cabe, por exemplo, a culpa pelo conflito?
As hostilidades começaram em 11 de novembro de 1864, quando, sem declaração de guerra, os paraguaios capturaram o vapor brasileiro que conduzia o presidente (espécie de governador) designado para Mato Grosso. Em fins de dezembro, duas colunas invadiram o território mato-grossense.
López protestara em agosto de 1864 contra a intenção brasileira de intervir na guerra civil uruguaia e advertira o Brasil das consequências de um ataque a seus aliados do Partido Blanco. Não houve, no entanto, nenhuma ameaça ou agressão direta contra o Paraguai da parte da Corte do Rio de Janeiro.
Não existia, assim, justificativa para o Paraguai invadir o Mato Grosso, em seguida o Rio Grande do Sul e ocupar Uruguaiana. Aliás, a fim de atacar o território gaúcho, López violou o território argentino, possibilitando a aliança com o Brasil que não teria ocorrido sem essa provocação.
Como se explica que um país cuja população em 1860 se estimava em cerca de 400 mil habitantes desafiasse a Argentina, com 1,7 milhão, o Brasil, com 9 milhões, e o Uruguai, com 250 mil, num total de menos de meio milhão contra 11 milhões?
A explicação emerge da comparação dos efetivos dos exércitos prontos a entrar em combate, em que o Paraguai levava vantagem de quase três contra um (77 mil homens contra 18.300 do Brasil, 6 mil da Argentina e 3.100 do Uruguai, totalizando 27.400 aliados).
Daí a estratégia de López de tentar, por meio do efeito surpresa de uma ofensiva fulminante, vitória que lhe permitisse resolver em favor de seu país as questões fronteiriças e de liberdade de navegação pendentes com o Brasil. Fracassada a guerra-relâmpago com a derrota guarani na batalha naval do Riachuelo e a capitulação das forças de ocupação de Uruguaiana (setembro de 1865), só então a luta se deslocou para o território paraguaio, invadido pelo Passo da Pátria (abril de 1866).
Reprodução de foto de Francisco Solano López
Reprodução de foto de Francisco Solano López - Ministerio de Defensa/AFP
Seguiu-se vagaroso avanço aliado até que, já sob o comando do Duque de Caxias, a guerra entrou na decisiva fase das batalhas da dezembrada (dezembro de 1868), culminando na ocupação de Assunção (1/1/1869).
Doente, Caxias retornou ao Rio, convencido de que o conflito acabara. Temendo que o perigo só cessaria com o fim de López, dom Pedro 2º resolveu continuar a luta, numa decisão controvertida, análoga à tomada pelos Aliados contra Hitler.
A guerra se prolongaria ainda por 15 meses, durante os quais se concentrou boa parte do pior em matéria de devastação, atrocidades, morte em combate de crianças e da maioria da população masculina paraguaia. Os números dessa época são incertos, mas o Paraguai pode ter perdido 250 mil vidas, mais da metade de seus habitantes.
Dos 140 mil brasileiros que participaram da guerra, morreram cerca de 50 mil, mais de um terço, aos quais se somam 18 mil dos 30 mil argentinos e 5 mil dos 5.500 uruguaios. Mais de dois terços pereceram não em combate, mas em consequência de doenças, fome, exaustão e migrações forçadas da população civil obrigada a seguir o ditador.
O esforço de guerra custou ao Brasil o equivalente a 11 anos do Orçamento anual, gerando déficit contínuo nas duas décadas seguintes. Foi o que inspirou o célebre desabafo do barão de Cotegipe: “Maldita guerra, atrasa-nos meio século”.
Iniciada quando findava a Guerra de Secessão americana, a do Paraguai se assemelha a ela na duração e ferocidade da luta, antecipando o estilo de conflito total do futuro. Guardadas as proporções, os danos em vidas e destruição foram também devastadores.
Para o Império brasileiro, ela encerra o ciclo de choques militares com os vizinhos da bacia do Prata, iniciado logo depois da Independência com a Guerra da Cisplatina (1825 a 1828) e prosseguido com as intervenções no Uruguai e na Argentina após 1850. Sequência dos atritos coloniais entre Espanha e Portugal, essa fase instável termina com a consolidação dos Estados nacionais e de suas fronteiras nas décadas finais do século 19.
Joaquim Nabuco julgou que a Guerra do Paraguai teve importância tão decisiva para os destinos dos países do Cone Sul que pode ser considerada o “divisor de águas” da história dessas nações. Ela teria marcado o “apogeu do Império, mas dela também procedem as causas principais da decadência e da queda da dinastia”.
O triunfo da monarquia representou o brilho final de uma estrela que se apagava. Por volta de 1880, a política exterior do Brasil atingira todos seus objetivos: afastara do poder seus inimigos em Assunção, Montevidéu, Buenos Aires; evitara a eventual reconstituição de uma união dos demais contra o Império; obtivera a livre navegação dos rios e as fronteiras que desejava com uruguaios e paraguaios.
Depois de 30 anos de variados conflitos, era como se a monarquia, exausta, tivesse perdido a energia para reformar-se a si própria, modernizando a estrutura social do país, debilitada pela escravidão.
Nessa mesma época, a Argentina e, em menor grau, o Uruguai logravam pôr fim à longa instabilidade da fase formativa, atraíam capitais ingleses e imigrantes europeus que as transformariam em nações mais modernas e prósperas que o Brasil.
A Guerra do Paraguai é tema histórico que se presta a controvérsias e geração de mitos a serviço de interesses ideológicos e políticos. O revisionismo argentino inventou a tese fantástica de que a causa de tudo seria a influência da Inglaterra imperialista. Entre os absurdos da fábula, omite-se que, no começo do conflito, o Brasil estava de relações rompidas com Londres desde a Questão Christie (1862 a 1865).
A tese deu origem no Brasil a panfletos como o que denunciou o suposto genocídio que teria provocado 1 milhão de vítimas num país cuja população não atingia nem a metade desse número. A pior distorção, obra tardia de partido político paraguaio, consistiu na metamorfose do tirano sanguinário que foi Solano López num estadista sacrificado no altar da pátria.
Quem desejar pisar em terreno firme nessas questões, dispõe de reconstituição primorosa da terrível tragédia, “Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto, maior conhecedor brasileiro de história paraguaia. Livro até agora definitivo pela solidez da análise dos documentos, dele extraí dados e análises deste artigo.
A Guerra do Paraguai e as intervenções no Prata nos legaram herança amarga de perdas humanas e atraso econômico e social. Data da guerra encerrada um século e meio atrás a “questão militar”, a tendência do Exército de intervir na política, um dos fatores da queda da monarquia e fenômeno perturbador da democracia que se prolonga até nossos dias.
Os brasileiros como Rio Branco e Nabuco, que viveram na juventude as angústias da luta contra o Paraguai, adquiriram horror à guerra e às intervenções em países estrangeiros. Passaram a cultivar diplomacia avessa a julgar publicamente os demais, escrupulosa na observância do princípio de não se imiscuir na política interna dos vizinhos.
O esquecimento dessas lições de nossa história abriu caminho à volta da prática lamentável de condicionar a amizade com os vizinhos a distorções ideológicas. Não surpreende que isso tenha provocado perigosa deterioração do relacionamento com a Venezuela, a ponto de gerar tensão militar na fronteira e grave retrocesso na relação com a Argentina, nosso principal vizinho.
A República inseriu em sua Constituição a proibição da guerra de conquista. Posto à prova na crise do Acre, quando o país chegou perto do conflito, o compromisso com a paz foi mantido graças ao gênio diplomático de Rio Branco, que não se cansava de repetir que “o recurso à guerra é sempre desgraçado”. Mais tarde, nos anos 1970, o Tratado de Itaipu deu impulso ao projeto bilateral para ajudar o Paraguai no seu desenvolvimento econômico-social.
Finalmente, o ex-presidente José Sarney inaugurou com o ex-presidente argentino Raul Alfonsín processo de edificação de confiança mútua que culminaria em duas das maiores conquistas da política externa: o Mercosul e o abandono dos projetos secretos para construir a bomba atômica.
Superando dois séculos de confrontos, essas duas realizações complementares transformaram a bacia do Prata de antigo cenário de guerras em espaço de integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Nosso dever é não permitir que desvarios ideológicos ponham em risco a tradição de paz com os vizinhos, maior título de glória do povo brasileiro.

Rubens Ricupero, foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, ministro do Meio Ambiente e da Fazenda (Governo Itamar Franco) e embaixador em Genebra, Washington e Roma.