Interessante essa afirmação: pelas palavras do embaixador do Brasil em Pequim, os dois dirigentes vão tratar da questão teoricamente, ou seja, cada país respeita dos direitos humanos, segundo seus princípios constitucionais e segundo suas realidades sociais, políticas e econômicas.
Segundo ele, "Os dois países enfrentam uma série de problemas nessa área, que refletem em parte o estágio de desenvolvimento em que se encontram".
Teoricamente, a polícia não deveria torturar presos nas delegacias brasileiras. Teoricamente, a China não deveria censurar a internet ou prender simples manifestantes políticos, expressando pacificamente sua opinião quanto ao regime em vigor no país, a falta de eleições diretas para os cargos dirigentes, o monopólio do Partido Comunista, etc.
Teoricamente, os dois dirigentes vão se felicitar pelo bom estado das relações bilaterais e vão continuar proclamando sua vontade de respeitar e defender os direitos humanos de seus cidadãos.
Teoricamente está tudo bem, tendo em vista o nível de desenvolvimento em que se encontram os dois países. Praticamente, esse nível de desenvolvimento dificulta a que os direitos humanos sejam plenamente respeitados em cada um deles.
Teoricamente, o mundo é perfeito, na visão panglossiana de certos dirigentes (e comentaristas).
Paulo Roberto de Almeida
Dilma vai tratar de direitos humanos em viagem oficial à China
Cláudia Trevisan - CORRESPONDENTE / PEQUIM
O Estado de S.Paulo, 09 de abril de 2011
Embaixador brasileiro em Pequim diz que assunto estará em pauta, em meio a onda de repressão do Partido Comunista - Governo prendeu pelo menos 27 dissidentes
A questão dos direitos humanos estará na agenda da visita da presidente Dilma Rousseff a Pequim, na próxima semana. A líder brasileira desembarca na China no momento em que o Partido Comunista empreende a mais violenta onda de repressão a críticos e dissidentes em dez anos, que levou à detenção ou ao desaparecimento de 27 pessoas e a dezenas de ordens de prisão domiciliar. A ênfase que Dilma dará ao tema será mais um teste para a política externa do governo, que elevou ao primeiro plano o respeito aos direitos humanos.
O embaixador do Brasil em Pequim, Clodoaldo Hugueney, disse que a presidente não deve tratar de casos específicos, como a prisão de Ai Wei Wei, um dos mais célebres artistas e dissidentes chineses. Mas ressaltou que o assunto estará na pauta. Para ele, a questão dos direitos humanos é importante para o Brasil e também para a China. "Os dois países enfrentam uma série de problemas nessa área, que refletem em parte o estágio de desenvolvimento em que se encontram", avaliou.
A atual onda repressiva teve início em meados de fevereiro, em resposta à convocação anônima para realização de protestos na China semelhantes aos que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe. Além de prender dissidentes, o governo aumentou a censura na internet e restringiu a atuação de jornalistas estrangeiros no país - um retrocesso em relação a regras mais liberais adotadas na época da Olimpíada de 2008.
Diálogo. O diálogo na área de direitos humanos está previsto no Plano de Ação Conjunta para o período 2010-2014, assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega Hu Jintao. A China já tem diálogos desse tipo com outros países - o mais amplo é com os Estados Unidos. Representantes dos dois países se reúnem periodicamente para discutir o tema.
A questão dos direitos humanos também é tema permanente da agenda dos encontros entre presidentes norte-americanos e seus pares chineses. O assunto foi tratado, por exemplo, durante a reunião que Jintao e Barack Obama tiveram em Washington, em janeiro.
O primeiro sinal de mudança da política externa brasileira nessa área veio no mês passado, quando o Brasil votou na Organização das Nações Unidas (ONU) a favor do envio de um relator ao Irã para investigar a situação dos direitos humanos no país. No domingo, o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, afirmou ao Estado que a política externa mudou em relação aos direitos humanos.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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