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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco - Edmar Bacha (in: Afonso Arinos de Melo Franco)

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco

Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco*. Org. Arno Wehling e Rogério Faria Tavares. Editora Miguilin, 2026. 

Jurista, político, memorialista, ensaísta — Afonso Arinos de Melo Franco é figura das mais versáteis da cultura brasileira do século XX. Menos lembrado é o fato de que ele deu contribuições duradouras à historiografia econômica do país. São três os livros nesse campo: uma breve síntese da história econômica do Brasil, que chegou aos bancos escolares país afora; um estudo sobre a formação do patrimônio histórico-material do país, que se tornou referência para o Iphan; e uma história do primeiro Banco do Brasil, amplamente considerada o principal registro da fase inicial das finanças brasileiras.

## Das aulas na UDF às conferências em Montevidéu

Em 1936, Arinos aceitou o convite do reitor Afonso Pena para lecionar História do Brasil na recém-criada Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira. Após debater o programa com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, seus colegas na UDF, Arinos estruturou a história do Brasil em ciclos econômicos: pau-brasil, açúcar, ouro, café e, finalmente, indústria. Dois anos depois, em janeiro de 1938, Arinos foi a Montevidéu representar o Brasil num curso internacional de férias organizado pelo Ministério da Instrução do Uruguai. San Tiago Dantas fazia parte da mesma delegação — dois intelectuais, não diplomatas de carreira, como Arinos fez questão de sublinhar. De suas três conferências, baseadas no curso para a UDF, resultou, ainda naquele ano, a *Síntese da história econômica do Brasil*.

Em 1941, Rodrigo Melo Franco de Andrade — primo do autor e criador do Sphan (atual Iphan) — o convidou a ministrar cinco conferências para os técnicos do serviço. Delas nasceu, em 1944, o *Desenvolvimento da civilização material no Brasil*.

O terceiro livro tem origem peculiar. Ao ingressar no Banco do Brasil também em 1936 como advogado, Arinos recebeu, em fins de 1942, a incumbência de escrever a história da instituição. O trabalho foi árduo: dois assistentes pesquisaram jornais, avulsos e publicações do Primeiro Reinado e da Regência. Mas a publicação foi interrompida: Arinos foi um dos idealizadores do *Manifesto dos mineiros* de 1943, que defendia a restauração da democracia, e Getúlio Vargas o aposentou compulsoriamente do banco. O livro só saiu em 1947.

## *Síntese da história econômica do Brasil* (1938): os ciclos que foram à escola

A *Síntese* é um livro enxuto — 65 páginas na edição original —, mas com grande apelo pedagógico. Nela, Arinos propõe que a economia brasileira pode ser considerada em ciclos sucessivos, cada um com um núcleo dominante: pau-brasil, açúcar, ouro, café. A abordagem facilitou a organização da história do Brasil em fases claras, e sua adoção em livros escolares foi ampla.

Arinos acreditava ser pioneiro nessa abordagem. Não era inteiramente: Normano, em 1935, já falava em “produtos-rei”, e Simonsen usava livremente o termo “ciclo” em seu curso na Escola Livre de Sociologia na década de 1930. A originalidade de Arinos foi centrar toda a análise da história econômica brasileira na sucessão desses ciclos.

Seja como for, obras posteriores trilharam caminhos distintos e de maior impacto intelectual. Caio Prado Jr., em *Formação do Brasil contemporâneo* e em *História econômica do Brasil*, deslocou o foco para a evolução dos modos e relações sociais de produção — com a marca marxista que o caracterizava.Celso Furtado, em *Formação econômica do Brasil*, foi ainda mais “economicista”, organizando o livro estritamente em torno de conceitos econômicos, sem qualquer referência a “superestrutura política”.

Ainda assim, a *Síntese* de Arinos foi um marco. Antecipou estudos mais abrangentes, destacou a complexa relação entre economia, sociedade e política na formação do Brasil, e ofereceu uma visão integrada e acessível que permanece de interesse para os estudiosos da historiografia econômica.

## *Desenvolvimento da civilização material no Brasil* (1944): pedra e cal

O título pode enganar o leitor contemporâneo. “Civilização material” hoje remete à obra monumental de Fernand Braudel, que a usou para designar a economia de subsistência e o cotidiano pré-mercantil. Caio Prado Jr. usou a expressão em sentido diferente: o conjunto das atividades econômicas do país.

Arinos a usa em sentido distinto de ambos. Para ele, “civilização material” é o objeto de trabalho do Sphan: o patrimônio histórico material do país — engenhos, igrejas, fortes, armazéns, casas rurais e operárias, câmaras e fazendas de café, caminhos e estradas. “Pedra e cal”, no jargão patrimonialista.

O livro conduz o leitor por uma viagem do século XVI ao século XIX, mostrando o lento povoamento do país, o surgimento de feitorias e cidades, o desenvolvimento das técnicas de produção e dos transportes. O tom coloquial do texto é convite à leitura.

Há um ponto discutível: na primeira conferência, Arinos afirma que o desenvolvimento da civilização material do país é de base portuguesa, pois os elementos negro e indígena seriam de difícil identificação. Essa conclusão soa estranha do ponto de vista econômico, pois desconsidera que foi com a mão de obra escravizada de indígenas e africanos que se construiu, em larga medida, o patrimônio material do país. A arquitetura poderá ter sido portuguesa, mas a engenharia foi obra das três raças — para usar a terminologia inadequada dos anos 1940.

As conferências de Arinos impactaram fortemente a gestão do patrimônio no Brasil. Permitiram visualizar os bens e conjuntos urbanos a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes regiões do país, orientando os técnicos do Sphan na seleção do que deveria integrar o patrimônio histórico e artístico nacional.

## *História do Banco do Brasil (Primeira fase: 1808-1835)* (1947): crônica de um fracasso anunciado

É o mais encorpado dos três livros — 279 páginas, afora cinco grandes tabelas em anexo — e o único que envolveu pesquisa original extensiva. Nas palavras do historiador português José Luís Cardoso, oferece “um dos mais rigorosos e completos registros sobre a primeira fase da história bancária brasileira”. Caio Prado Jr. o definiu como “trabalho minucioso, que oferece um histórico seguro e bem traçado da fase inicial das finanças brasileiras”.

O banco foi criado por D. João VI em 1808 como banco emissor e de crédito — mas, na prática, serviu essencialmente para financiar a Coroa. Os poucos balanços disponíveis demonstram que o grosso de suas atividades consistia em empréstimos ao governo, financiados pela emissão de suas próprias cédulas. Era reduzida a atividade de desconto de letras privadas, o que lhe rendeu pouco apoio político e imprensa francamente desfavorável.

Dado o estado fortemente deficitário das contas do governo — tanto sob D. João VI quanto sob D. Pedro I —, a emissão de cédulas para financiar déficits levou à depreciação progressiva do papel-moeda. Em 1821, as moedas de ouro tinham um prêmio de 28% em relação às cédulas do Banco. Em 1831, por ocasião da liquidação, esse prêmio havia chegado a 210%.

A desvalorização dos bilhetes veio acompanhada de corridas ao banco, intervenções policiais e enorme alvoroço parlamentar. O desfecho foi a liquidação em 1829, processo que se arrastou por mais seis anos.

Arinos acompanha essa odisseia passo a passo, com riqueza de detalhes sobre os debates parlamentares, sua repercussão na imprensa, e algumas histórias paralelas deliciosas. Sua conclusão é que o progresso econômico do país não poderia prescindir de institutos provedores de crédito — e que a liquidação do banco foi um grave erro. Já em 1833 o governo tentou criar um segundo Banco do Brasil, sem sucesso; o segundo banco só viria em 1853, em condições políticas e econômicas mais propícias.

## Conclusões

Cada um à sua maneira, os três livros de Arinos deram contribuições importantes para o conhecimento do passado brasileiro. A *Síntese* mantém seu interesse para os estudiosos da historiografia econômica. O *Desenvolvimento* continua a ser saborosa viagem de descoberta do patrimônio material do país. A *História do Banco do Brasil* impressiona por sua pesquisa original e por nos expor, na pena leve e culta de Arinos, as entranhas financeiras e políticas do turbulento período em que a colônia se fez nação.

Jurista, político, memorialista e ensaista consagrado, Arinos deixou um legado sobre a história econômica do Brasil menos celebrado do que merece. Vale a pena redescobri-lo.


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domingo, 20 de outubro de 2024

Uma declaração de invejável atualidade - Paulo Roberto de Almeida

Uma declaração de invejável atualidade Paulo Roberto de Almeida Parece, de fato, extremamente atual: "É necessário opormo-nos a todas as ideias tendentes à criação de sistemas que possam desfechar na hegemonia de uma nação sobre outras, tanto quanto no domínio dos fortes sobre os fracos. O mundo não mais tolera impérios cesaristas erigidos e suportados pela força e tendo a pretensão de submeter as outras soberanias. Passou o tempo em que a classificação das nações se fazia de acordo com a extensão e a qualidade do seu poderio militar... A força das armas cede caminho à da razão. A violência recua ante as prerrogativas da justiça. O egoísmo nacionalista se desvanece em face do impulso pela política de cooperação, fraternidade e paz." Parece atual, mas não é. A frase foi pronunciada por Afrânio de Melo Franco, pai de Afonso Arinos, ele chanceler do governo provisório de Getúlio Vargas, em 1934, em alocução feita no aniversário do armistício de 1918, em 11 de novembro de 1934, quando ele já tinha deixado a chancelaria brasileira, em cerimônia internacional promovida pela Columbia University, sob os auspícios da Fundação Carnegie para a Paz, para a qual tinha sido convidado em sua condição pessoal de grande estadista. Afonso Arinos de Melo Franco, filho de Afrânio, que também presidiu uma Comissão Constitucional prévia à Constituinte de 1987-88 – o pai tinha feita a sua, também no Itamaraty do Rio, em 1934 –, foi igualmente chanceler duas vezes nos anos 1960, a primeira no governo presidencial de Jânio Quadros, a segunda num dos gabinetes do governo parlamentarista de João Goulart. A despeito do otimismo de Afrânio, o despotismo dos fortes, antes Hitler, agora Putin, continua a prevalecer. Fonte: Afonso Arinos, Um Estadista da República, vol. III – Fase Internacional, 1955, p. 1518.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Afonso Arinos de Melo Franco: suas memórias coletadas num volume da Topbooks


Afonso Arinos de Melo Franco
Todos os livros de memórias reunidos num só volume, pela Topbooks:

Este volume reúne cinco livros de memórias: A alma do tempo – Formação e mocidade (1961), A escalada (1965), Planalto (1968), Alto-mar Maralto (1976) e Diário de bolso (1979). Aqui encontramos, além de passagens admiráveis sobre a história de Minas Gerais, as impressões do autor de suas temporadas em Paris, Roma e Suíça; o desempenho de seu pai como chanceler; perfis de escritores nacionais e estrangeiros com quem conviveu (Stefan Zweig e Bernanos, por exemplo); reflexões sobre a política externa independente que pôs em marcha à frente do Ministério das Relações Exteriores; relatos de seus diálogos com presidentes e diplomatas de relevância internacional, entre outras histórias curiosas. Deixou livros importantes, três publicados pela TopbooksO índio brasileiro e a Revolução Francesa (2000), Evolução da crise brasileira (2005) e Desenvolvimento da civilização material no Brasil (2005). Esta edição das memórias traz, em quatro cadernos, 85 fotos do acervo pessoal que mostram o autor em família, no Senado Federal, chefiando a delegação brasileira na ONU, como ministro das Relações Exteriores, tomando posse na ABL etc. Além do registro de sua convivência com políticos de vulto – Getúlio Vargas, Santiago Dantas, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães – as fotos mostram o autor com amigos como Prudente de Morais Neto, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Sérgio Buarque, Bandeira, Drumond, Schmidt, Portinari e muitos outros.




ISBN: 978-85-7475-279-2; 1179 pgs 

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