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quinta-feira, 16 de julho de 2026

A política externa nunca foi tão popular - Carlos Coelho e Paulo Esteves (Valor)

PRA: estou entre os 12% de discordantes, não quanto à popularidade da política externa, mas quanto ao significado dessa concordância de sua substância para uma diplomacia adequada às necessidade do país. Explicarei minhas razões em postagem futura.

A política externa nunca foi tão popular

Pesquisa aponta que a aprovação da comunidade externa à política brasileira atinge 88%

Por Carlos Coelho e Paulo Esteves

VALOR, 15/07/2026

Pesquisa aponta que a aprovação da comunidade externa à política brasileira atinge 88%

A política externa brasileira está vivendo um momento de consenso marcante. Na edição deste ano da Pesquisa de Potências Médias Emergentes1, que entrevistou mais de 1.000 membros da comunidade de política externa no Brasil, Alemanha, Índia, Indonésia e África do Sul, a aprovação da condução da política externa conduzida pelo Executivo brasileiro atingiu 88%, a melhor performance da série histórica. A divergência praticamente desapareceu, com aproximadamente um em cada dez experts expressando alguma reserva.

Esse é um número extraordinário e acreditamos que também é um equívoco celebrá-lo. Uma análise mais próxima dos resultados da pesquisa sugere que este consenso é menos um veredito de uma doutrina particular e mais uma reação a um ambiente que se tornou hostil. O consenso é, portanto, mais reativo que substantivo.

Consideremos, por exemplo, como os experts brasileiros enxergam os Estados Unidos da América. Somente 12% consideram a influência americana positiva. Porém, na mesma pesquisa, aquele país continua sendo identificado como a segunda relação bilateral mais importante do Brasil, atrás apenas da China. Ou seja, temos um ambiente no qual dependência e desaprovação são registradas simultaneamente. Isso não é, por si só, incoerência: trata-se do mais antigo e identificável instinto da política externa brasileira, qual seja, uma acomodação pragmática com os mais poderosos, combinada com a proteção contra uma eventual deterioração do relacionamento. O que mudou é que a busca por proteção é agora visível a todos, pois Washington a tornou inevitável, através de tarifas, declarações e ações normalmente reservadas aos seus adversários.

A parte mais saudável da narrativa é o que o Brasil fez em resposta. Ao invés de se encolher, o país passou o último ano tentando expandir suas opções. O acordo Mercosul-União Europeia, apesar das dificuldades, está em vigor desde maio. Acordos com a EFTA e Cingapura foram enviados ao Congresso e negociações com o Canadá estão em curso. Juntos, esses movimentos fizeram com que a parcela das exportações brasileiras cobertas por preferências tarifárias tenha aumentado de 12% para 31%, caracterizando a maior expansão da sua história.

Trata-se de diversificação como estratégia e não como improvisação. Num mundo onde a política comercial é cada vez mais refém de ansiedades securitárias e presa da competição entre superpotências, multiplicar as apostas é certamente o caminho racional.

Subjacente a tudo isso está um conceito muitas vezes repetido ao longo da pesquisa: não-alinhamento. Aqui, é cabível esclarecimento: trata-se da busca por autonomia e não neutralidade. O Brasil não está tentando posicionar-se de maneira equidistante entre Washington e Pequim, mas de preservar a liberdade de decidir caso a caso. Esta é uma distinção importante, pois estabelece um sarrafo mais alto. A neutralidade apenas requer que se recuse a optar. A autonomia requer que o país construa as capacidades (econômica, diplomática e institucional) necessárias para que seja capaz de fazer escolhas nos seus próprios termos. A primeira é uma postura, a segunda, um projeto.

    As potências médias hoje são companheiros de viagem quanto à reforma da ordem internacional, mas não são mercados e fontes de capital relevantes para si mesmas. Qualquer ambição brasileira de liderar ou de se juntar a uma coalizão delas precisa lidar com essa realidade

E é em relação ao projeto que os resultados da pesquisa anunciam uma advertência silenciosa. Apesar da evidente afinidade entre os países pesquisados, estes não se enxergam como parceiros essenciais. Existem poucos fluxos de comércio, finanças ou mobilidade ligando Brasília à Jacarta, ou Pretória à Nova Déli. O relatório é explícito quanto às lacunas de conectividade: uma perspectiva comum em relação à política internacional não se transformou em infraestrutura comum. As potências médias hoje são companheiros de viagem quanto à reforma da ordem internacional, mas não são mercados e fontes de capital relevantes para si mesmas. Qualquer ambição brasileira de liderar ou mesmo de se juntar a uma coalizão de potências médias emergentes precisa lidar com essa realidade.

Existe uma lição mesmo em área onde o Brasil supostamente deveria liderar. Questões climáticas e relacionadas ao meio ambiente registraram queda quanto às prioridades da política externa brasileira, na opinião dos experts entrevistados, apesar do país ter sediado a COP30 e ter recebido recentemente tanto a cúpula dos Brics como do G20. Nos parece que a leitura mais precisa não é a de regressão, mas a de naturalização: questões climáticas se tornaram tão enraizadas na diplomacia brasileira que agora esta assegura espaço prioritário entre outras, ao vez de espaço determinante, o que é um sinal de maturidade. Também é uma lembrança de que a liderança, uma vez conquistada, precisa ser continuamente reforçada, sob pena de recuo.

Então, o que devemos inferir sobre uma pesquisa que dá ao governo sua melhor nota histórica na seara da política externa? Esperemos que a resposta não seja a complacência. A aprovação reflete habilidade genuína na navegação de um ano difícil e a busca por diversificação é uma conquista real, mas os números são impulsionados por uma ameaça externa e ameaças podem retroceder. A tarefa mais difícil é converter uma postura defensiva em uma posição duradoura. O Brasil precisa transformar a diversificação em parcerias profundas, lastreando institucionalmente a autonomia e garantindo que as lacunas existentes entre as potências médias parceiras sejam efetivamente preenchidas por conexões concretas.

A última mensagem da pesquisa é o alerta de que numa ordem fragmentada, a confiança se torna um recurso poderoso e, confiança, ao contrário de um resultado de pesquisa favorável, não pode ser herdada. Deve ser construída, sustentada e estendida a espaços e dinâmicas em que se mostra frágil. A política externa brasileira raramente foi mais admirada domesticamente do que nos últimos anos, mas a sua régua de aprovação futura será caracterizada pela capacidade do país de construir novas pontes enquanto a admiração recente perdurar.

1. Os resultados completos da pesquisa citada nesse artigo podem ser encontrados em: shre.ink/jj60

Carlos Frederico Coelho é professor da PUC-Rio e da ECEME.

Paulo Esteves é professor da PUC-Rio.

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