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terça-feira, 30 de junho de 2020

Crescimento do neonazismo no Brasil - Deutsche Welle

BRASIL

Dados indicam crescimento do neonazismo no Brasil

Cenário é visto em denúncias recebidas por ONGs, registros em delegacia especializada de São Paulo e pesquisa de antropóloga. Especialistas veem gestos do governo Bolsonaro como gatilho para aumento do extremismo.
 
Botas pretas sobre pedra
Grupos extremistas que propagam discursos de ódio contra minorias, embasados por argumentos nazistas e fascistas, estão aumentando no Brasil. Pesquisadora há 18 anos sobre movimentos do tipo, a antropóloga Adriana Dias, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou um crescimento tanto no número de células neonazistas quanto no engajamento de seus integrantes nos últimos seis meses.
No fim do ano, segundo ela, estavam em atividade 334 grupos no país. Em junho, são 349. Mas o que mais aumentou não foi a quantidade de células, e sim o número de membros de cada grupo. Se há seis meses os engajados nesses grupos não passavam de 5 mil no Brasil, agora já são cerca de 7 mil.
Dias monitora periodicamente o cenário por meio de rastreamento das atividades desses grupos pela internet. "É como se uma parte do país tivesse perdido completamente o contato com a civilização", comenta ela, em conversa com a DW Brasil.
Sua pesquisa vai ao encontro de um levantamento da organização não governamental SaferNet Brasil, entidade brasileira que promove e defende os direitos humanos na internet.
Dados levantados com exclusividade para a DW Brasil mostram que este mês de junho de 2020 foi o período em que a ONG mais recebeu denúncias de neonazismo desde o início da série histórica, em janeiro de 2006. Foram 3.616 denúncias recebidas pela SaferNet sobre o assunto, referentes a 1.614 páginas diferentes, segundo números consolidados no dia 28 de junho.
Em junho de 2019, foram 31 denúncias, referentes a 25 páginas. O aumento, portanto, é de 11.564%. E a curva é ascendente. Em abril, foram 307 denúncias, referentes a 109 páginas; em abril de 2019, 87 denúncias e 46 páginas. Em maio deste ano, foram 498 denúncias e 204 páginas, frente a 53 denúncias e 42 páginas do mesmo mês do ano passado.
De acordo com a administração da ONG, depois de recebidas as denúncias, são coletadas evidências da materialidade dos crimes e disponibilizadas para análise e investigação do Ministério Público Federal, com quem a organização possui convênio.
Nazismo é crime no Brasil. O artigo 20 da lei 7.716/1989 ressalta que "fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo", é passível de "reclusão de dois a cinco anos e multa". O material deve ser recolhido imediatamente, e as mensagens ou páginas respectivas na internet devem ser retiradas do ar.
Conforme ressalta o advogado Rodolfo Tamahana, coordenador de pesquisa e professor da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, o Brasil é signatário de dois acordos internacionais contra discriminações a minorias: a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 1968 – integrada ao ordenamento jurídico brasileiro –; e a Convenção Americana de Direitos Humanos, mais conhecida como Pacto de São José da Costa Rica, de 1992.
"Pessoas que participem ou não de grupos nazistas podem responder por crime caso fabriquem, comercializem, distribuam ou veiculem quaisquer símbolos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, com a finalidade de divulgar o nazismo. Nesse caso, para configurar o referido crime é necessária a intenção específica de divulgar o nazismo, não sendo suficiente, por exemplo, apenas a publicação da cruz suástica em um perfil pessoal do Facebook, de acordo com alguns julgados que encontramos", explica o professor.
"Falta penalização rígida nesse sentido", avalia o advogado criminalista José Beraldo, que atua na área desde 1981. Ele afirma que o atual cenário não favorece a "diminuição" dos casos.
Terreno fértil
Especialistas associam gestos do governo Jair Bolsonaro como gatilhos para essa onda neonazista. Além da política armamentista, atos recentes são associados ao movimento. Em janeiro, o então secretário de Cultura Roberto Alvim divulgou discurso parafraseando Joseph Goebbels (1897-1945), ministro da Propaganda da Alemanha nazista, com o compositor favorito de Adolf Hitler (1889-1945), Richard Wagner (1813-1883), ao fundo.
Ainda ministro da Educação, Abraham Weintraub declarou em reunião ministerial ocorrida em 22 de abril que odeia os termos "povos indígenas" e "povo cigano".
No início de maio, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência divulgou um post em redes sociais com frase que lembra slogan nazista. "Parte da imprensa insiste em virar as costas aos fatos, ao Brasil e aos brasileiros. Mas o governo, por determinação de seu chefe, seguirá trabalhando para salvar vidas e preservar o emprego e a dignidade dos brasileiros. O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil", publicou o órgão, sobre a pandemia de covid-19. "O trabalho liberta" é a frase que os nazistas afixavam nas entradas dos campos de concentração.
Bolsonaro também compartilhou em seu Facebook um vídeo com a citação "melhor um dia como leão do que cem anos como ovelha", atribuída ao líder fascista Benito Mussolini (1883-1945).
Em live transmitida em 29 de maio, o presidente tomou um copo de leite. Ele argumentou que se travava de uma homenagem aos produtores rurais. Mas o gesto é visto como de conotação extremista, já que é adotado por supremacistas brancos.
"O aumento da atividade de células neonazistas no Brasil está diretamente associado à retórica violenta e discriminatória do governo Bolsonaro, que, ao sistematicamente estigmatizar grupos vulneráveis, acaba por legitimar e empoderar pautas do movimento neonazista, como a eugenia e a segregação de pessoas negras, LGBTs e estrangeiros não europeus", afirma, em nota, a organização SaferNet Brasil.
O ativista Agripino Magalhães, da ONG Aliança LGBT+, conta que os ataques em relação a esse grupo, monitorados por ele, aumentaram 90% no último semestre. Ele próprio diz que tem sido ameaçado constantemente, pela internet e por telefone, pelo seu ativismo. "E não somos só nós as vítimas. Eles incitam o ódio aos negros, às mulheres e a outras minorias", afirma.
Geografia neonazi
De acordo com o mapeamento de Adriana Dias, o estado de São Paulo segue sendo a unidade da federação com maior atividade neonazista: são 102 células na localidade, três a mais do que no fim do ano passado.
Segundo dados enviados à reportagem pela Secretaria de Segurança Pública do estado, a Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) registrou 57 boletins de ocorrência e instaurou 31 inquéritos para apurar ocorrências de intolerância na capital paulista, de janeiro a abril deste ano.
Em segundo lugar no levantamento da antropóloga, o Paraná ultrapassou Santa Catarina no último semestre – são 74 grupos paranaenses em atividade, frente a 69 catarinenses.
Foi um crescimento grande no estado, que há seis meses tinha 66 células extremistas. "Isso é preocupante", avalia Dias. De acordo com a pesquisadora, o perfil dos novatos paranaenses é basicamente formado por gente ligada ao meio rural e a igrejas evangélicas fundamentalistas.
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terça-feira, 17 de março de 2020

Bullshitter: um jornalista alemão especialmente furioso com Bolsonaro - Philipp Lichterbeck

COLUNA CARTAS DO RIO

Com um 'bullshiter' no Planalto, covid-19 pode virar a peste negra brasileira

Se o coronavírus infectar milhares de brasileiros nas próximas semanas, o maior culpado já tem nome: Jair Bolsonaro. O Brasil é governado por um psicopata que age de forma criminosa, escreve Philipp Lichterbeck.
     Deutsche Welle
Jair Bolsonaro participa de protestos no dia 15 de março
Em 15 de março, Bolsonaro participou de protestos que havia pedido para serem cancelados
Antes das eleições de 2018, escrevi aqui sobre a hostilidade do bolsonarismo em relação à ciência. Agora, está comprovado aonde isso leva. Direto para a catástrofe. A situação no Brasil pode muito bem ser comparada à Idade Média na Europa. Naquela época, o fanatismo religioso fez com que fossem esquecidos os conhecimentos dos gregos e romanos no campo da higiene. Um resultado: a peste negra atravessou a Europa e matou milhões que nem sabiam como pegaram a doença, porque o veículo de transmissão – pulgas que passavam de ratos para humanos – era desconhecido.
A covid-19 é a peste negra do Brasil. Se o novo coronavírus fizer com que milhares de brasileiros adoeçam nas próximas semanas e levar não apenas o sistema de saúde, mas também a sociedade brasileira à beira do caos, haverá para isso um principal culpado. O nome dele é Jair Bolsonaro, ele é chefe de Estado de 210 milhões de pessoas e disse que não se importa com o coronavírus. Ele age de forma criminosa. O Brasil é liderado por um psicopata, e o país faria bem em removê-lo o mais rápido possível. Razões para isso haveria muitas. Também não parece mais absurdo que os generais já estejam fartos do caos que o presidente está causando, enquanto uma pandemia ameaça o Brasil.
O problema não é apenas a maldade do presidente, que, por vaidade e cálculo político, coloca em risco a vida de centenas de pessoas e desrespeita acintosamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde. É, antes, sua limitação cognitiva. A visão de mundo de Bolsonaro e de seus seguidores é, na sua primitividade, algo difícil de superar. Tudo o que é complexo demais para eles, descrevem como invenção da mídia e dos comunistas. Foi o que o bispo Edir Macedo, chefe da medieval IURD, acabou de dizer, literalmente, sobre o coronavírus.
O colunista da DW Brasil, Philipp Lichterbeck
O colunista da DW Brasil, Philipp Lichterbeck
Já em 2019 foi possível ver até onde a hostilidade à ciência do bolsonarismo pode levar, quando o presidente demitiu um dos cientistas mais respeitados do país ao ficar contrariado com seus dados sobre os incêndios florestais na Amazônia. Isso deveria ter sido um aviso. Porque decisões responsáveis são tomadas com base no conhecimento, e não no delírio. Quando se trata de resolver problemas reais, como a pandemia do coronavírus, a verdade tem uma clara vantagem prática: ela funciona. E, da mesma forma: quem sabe muito, se torna humilde; quem sabe pouco, arrogante. E arrogância é, definitivamente, algo que não falta a este presidente e à sua turma.
Na Europa e, especialmente, na Ásia, vê-se agora como a ciência é importante para lidar com a pandemia do coronavírus. Aumenta novamente a demanda por cientistas e políticos sóbrios, enquanto os populistas, com suas mentiras e teorias da conspiração, são postos de lado. A situação é extrema demais para ser relegada a extremistas. Mas no Brasil, o extremista ocupa o mais alto cargo do Estado.
O governo brasileiro teve tempo suficiente para evitar o pior quando os dois primeiros casos de covid-19 foram notificados em São Paulo. Se o governo cuidasse do bem-estar dos brasileiros, rapidamente teria começado a restringir a vida pública e a preparar a população. Hoje, se conhece, a partir dos exemplos de China, Itália, Espanha e França, a forma rápida e devastadora com que o coronavírus pode se espalhar. Também está claro que isso não interessa ao presidente e a seus seguidores.
O filósofo Harry G. Frankfurt escreve em seu livro On Bullshit (Sobre falar merda) que o "bullshitter" é pior que o mentiroso, porque este último ainda tem pelo menos uma conexão com a verdade que ele nega. Já o bullshitter não se importa com nada. Ele diz qualquer absurdo para agradar seus seguidores e satisfazer sua vaidade.
Se o bullshitter é seu vizinho José ou sua tia Márcia, pode até ser bastante divertido. Mas se o bullshitter é o presidente do Brasil e se, ao mesmo tempo, o país enfrenta uma pandemia, então realmente é possível que venha o pânico contra o qual todos estão alertando. O problema não se chama coronavírus. Ele se chama Bolsonaro. O tempo está voando.
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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais na Alemanha, Suíça e Austria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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quarta-feira, 11 de março de 2020

Nova biografia reinterpreta visões de mundo de Hitler - Joachim Kürten (Deutsche Welle)

HISTÓRIA

Nova biografia reinterpreta visões de mundo de Hitler

Em "Hitler: A Global Biography", historiador afirma que relação de amor e ódio com britânicos e americanos e medo do capitalismo internacional serviram de força motriz para o ditador nazista.
Joachim Kürten, Deutsche Welle, 9/03/2020
   
Adolf Hitler em discurso diante de correligionários do NSDAP em Dortmund, em 1933
"O objetivo de Hitler não era a supremacia mundial, mas sim a sobrevivência nacional", diz historiador
Adolf Hitler é tema de inúmeros livros. Especialmente nos últimos anos, muitas biografias do ditador nazista foram publicadas por historiadores renomados. A tentativa mais recente é Hitler: A Global Biography (Hitler: uma biografia global), do irlandês Brendan Simms, professor de História das Relações Internacionais na Universidade de Cambridge. Com mais de mil páginas, seu livro foi lançado em inglês no fim do ano passado. A versão alemã chega às livrarias da Alemanha nesta segunda-feira (09/03).
Na Alemanha, o lançamento de uma nova biografia de Hitler costuma ser um acontecimento. Uma semana antes da publicação, a revista semanal Der Spiegel fez uma entrevista com Simms, na qual ele reforçou sua tese principal: a de que a força motriz de Hitler, tanto na política interna quanto na externa, surgiu de uma relação de amor e ódio que ele tinha com o mundo anglo-americano. Segundo Simms, não foi o medo do bolchevismo e da União Soviética que impulsionou a guerra e a destruição, mas sim a queda de braço com o Reino Unido e os Estados Unidos e o medo do capitalismo internacional.
O historiador diz que o que mais marcou Hitler nesse contexto foram suas experiências entre 1914 e 1918: "Admiração e respeito surgiram de suas vivências na Primeira Guerra Mundial. Hitler sempre voltava a falar da resistência dos britânicos porque os tinha visto no front", relata.
Até mesmo o antissemitismo, segundo Simms, não teria surgido primeiramente de um ódio profundo aos judeus, mas sim de forma secundária, a partir da concorrência com o "capitalismo mundial" sediado nos EUA. Lá seriam judeus os que dominavam as alavancas do poder. É preciso, então, reavaliar o olhar sobre Hitler e suas motivações?
Nos últimos anos, várias biografias do ditador nazista apresentaram perspectivas diferentes sobre ele. A principal obra de referência continua sendo a de autoria do britânico Ian Kershaw, lançada entre 1998 e 2000. Nos dois volumes, o historiador se concentrou principalmente na relação entre Hitler e o povo alemão.
Segundo a tese de Kershaw, Hitler pôde agir porque os alemães "foram ao seu encontro", ou seja: prepararam o terreno para a ideologia nazista por si mesmos.
Historiadores debatem sobre Hitler até hoje
Durante um longo período, dois grupos de historiadores disputaram como se deveria interpretar Hitler e sua política. Os chamados "internacionalistas" viam em Hitler uma figura de liderança forte e decisiva, cuja lógica e ideologia marcaram fundamentalmente os acontecimentos entre 1933 e 1945.
Do outro lado, estão os chamados "estruturalistas", que se concentraram mais na ação coletiva e antagônica de grupos concorrentes dentro do sistema nazista e menos no peso político de Hitler.
Também houve outras interpretações controversas sobre como o nazismo pôde funcionar sob Hitler e companhia em primeiro lugar: alguns cientistas questionaram se Hitler agia de forma racional. Há igualmente várias publicações sobre o estado mental do ditador nazista.
O novo livro de Simms dividiu opiniões. O diário The Guardian apontou como exagero o encaminhamento para a tese principal de que Hitler agiu somente motivado por sua fixação no Reino Unido e nos EUA.
Na plataforma History News Network, um historiador criticou o fato de o irlandês partir do pressuposto de que Hitler era "mentalmente estável" e ter retratado o ditador nazista como uma pessoa "racional": "Simms o aceita como pessoa impulsionada por uma ideologia que tem uma superestrutura intelectual, e não como um sociopata inseguro e narcisista."
A publicação conservadora National Review foi mais condescendente e julgou que Simms vai longe demais descrevendo a perspectiva americana de Hitler, mas que, mesmo com defeitos, a obra é digna de leitura. Por outro lado, a National Review avalia que a biografia é mais uma contribuição para um debate do que uma interpretação conclusiva da figura de  Hitler. Ou seja: não é, como admite o próprio Simms, "o Hitler completo".
De fato, o próprio Simms escreve no prólogo que "o livro a seguir (...), em muitos aspectos, não pode concorrer com seus antecessores". Segundo ele, "obviamente, não é a primeira obra significativa sobre o assunto, nem será a última". Uma avaliação modesta.
Pouco depois, porém, o autor afirma, autoconfiante: "Se suas [da biografia] afirmações se revelarem sustentáveis, a biografia de Hitler e talvez a história completa do Terceiro Reich precisarão ser basicamente repensadas."
Capa da versão em inglês de Hitler: uma biografia global, de Brendan Simms
Versão em inglês de "Hitler: uma biografia global", de Brendan Simms
Além da fixação de Hitler pela política, a sociedade e a cultura anglo-saxã – Simms volta a Hitler e suas reflexões sobre britânicos e americanos quase como numa oração recorrente –, outros focos na interpretação histórica do irlandês chamam atenção. Entre eles o de que a França e a União Soviética desempenharam papel apenas secundário para Hitler – até porque o alemão não via esses países como concorrentes e, no caso da União Soviética, passou muito tempo sem vê-los como ameaça.
Olhar crítico de Hitler sobre o povo alemão
Simms aponta ainda que Hitler teria pensado de forma bastante negativa sobre o próprio povo, também após 1933: "Ele continuou não tendo uma opinião muito boa sobre a população alemã e sua composição. Tinha uma consciência dolorida da pobreza e da ignorância do povo", escreve o historiador.
Dois anos após o início da guerra, Hitler já teria dado como perdida a concorrência com o mundo anglo-americano, do ponto de vista do padrão de vida dos países. "Em maio de 1937, basicamente, Hitler admitiu a derrota", escreve Simms.
O autor também interpreta que Hitler era antissemita especialmente por causa de sua profunda aversão contra a potência mundial capitalista dos EUA: "De fato, em grande parte, ele se tornou antissemita por causa de seu ódio aos poderes capitalistas anglo-americanos."
De acordo com Simms, a relação de Hitler com o mundo anglo-americano era cheia de contradições. Anos antes da guerra, o alemão já teria demonstrado inveja: "Um dos principais objetos de seu interesse eram os Estados Unidos, que ele, talvez até mais que o Império britânico, começou a enxergar como Estado-modelo", escreve Simms.
Para o autor, essa visão teria relação principalmente com o olhar de Hitler sobre supostas vantagens geográficas dos americanos – e também porque os Estados Unidos seriam uma nação cuja existência devia a imigrantes alemães. 
Por muito tempo, Hitler teria "apenas" tido a ambição de estabelecer uma potência alemã na Europa – sem maiores aspirações. Para Simms, o ditador queria fazer um contrapeso à potência mundial dos EUA: "O objetivo de Hitler não era a supremacia mundial, mas sim a sobrevivência nacional."
"Até o final, a estratégia completa de Hitler consistia em utilizar a ameaça do bolchevismo para influenciar politicamente a Alemanha, a Europa e, especialmente, o mundo anglo-americano", conclui Simms. A tese é ousada e deverá ocupar historiadores pelo mundo a partir de agora – e não só na Alemanha.
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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Brasil: um país fechado ao mundo - Philip Lichterbeck (Deutsche Welle)

Brasil, uma grande aldeia isolada do mundo 
Produtos de baixa qualidade, delitos ambientais, sexismo, provincianismo, governos disfuncionais. O isolamento comercial e intelectual brasileiro tem razões geográficas e históricas, e acabar com ele faria bem ao país.
Philip Lichterbeck
DW, 31.10.2019

O Brasil é um país fechado. Aqui vive gente de todas as partes do mundo, mas os brasileiros não estão abertos para o mundo.
Por um lado, isso tem a ver com as dimensões continentais deste país, que forçosamente dirigem o olhar para dentro. Por outro lado, a culpa é de décadas de protecionismo econômico. Durante um certo tempo, isso fazia sentido: assim como os "tigres asiáticos", o Brasil queria proteger sua economia da concorrência dos Estados Unidos e da Europa.
A ideia era que se desenvolvessem empresas brasileiras fortes, as chamadas campeãs nacionais. Mas quando isso acabou acontecendo, as barreiras comerciais, na forma de taxas de importação altas e uma burocracia kafkiana, não foram suspensas, mas mantidas. 
O resultado dessa proteção do Estado é que se criaram quase monopólios no país, como o conglomerado Ambev, que inundou o país com uma bebida feita de água, milho e química, a qual teve permissão de chamar de "cerveja", sem discussões – e sem o perigo de outra empresa colocar em risco o seu domínio.
É óbvio que monopólios são ruins. Em primeiro lugar, para o consumidor, pois permitem a uma única companhia ditar a oferta e os preços. Em segundo, para a economia nacional, pois firmas protegidas de concorrência não estão expostas a pressões inovadoras, e não investem seus lucros na melhoria dos seus produtos.
Colunista Philipp Lichterbeck
Colunista Philipp Lichterbeck vive no Rio desde 2012
Isso resulta em maus produtos brasileiros, que não correspondem mais ao padrão tecnológico internacional. Qualquer um que já tenha estado numa loja de ferragens brasileira pode confirmar: não se acha sequer uma tomada decente. A única alternativa hoje são artigos importados, os quais, no entanto, são absurdamente caros.
Isso também fez com que a maioria das casas e apartamentos tenha aparências semelhantes. Por exemplo: as trêmulas, rangedoras e emperradas janelas de correr de alumínio. Muitos brasileiros aprenderam a se contentar com pouco, pois não têm ideia de tudo o que seria possível.
Para essa constatação, não é preciso comparar o Brasil com a Europa. Basta uma olhada em países como Colômbia ou México. Quem voa do Rio de Janeiro para Bogotá ou a Cidade do México, logo tem a sensação de ter viajado de um país do passado para a atualidade. Não tem só a ver com a oferta mais variada de mercadorias, mas também com o maior profissionalismo.
Já se nota isso na diferença entre aeroportos. O Terminal 2 do Galeão é uma catástrofe de planejamento, com uma arquitetura que força passageiros e tripulações a caminharem vários quilômetros por corredores vazios. 
Isso tudo nem seria tão grave, se o protecionismo econômico do Brasil não tivesse também resultado numa rejeição mental contra muito do que é novo. Pode-se observar isso especialmente bem no Rio. Em geral, os cariocas consideram sua cidade insuperável: de fato, é difícil encontrar uma metrópole tão provinciana.
Um exemplo ao acaso? Numa área urbana de 12 milhões de habitantes, o metrô para de funcionar à meia-noite. A oferta gastronômica é comparativamente pobre. E nos supermercados do Rio, continuam se promovendo orgias de sacolas plásticas – as quais atualmente já são proibidas até em diversos países africanos. No Quênia, sua produção e venda é punida com 19 mil dólares de multa e quatro anos de prisão. No Rio, assim como no resto do Brasil, sacolas plásticas ainda são vistos como um direito humano.
A falta de visão exterior igualmente marca a política brasileira. Em Bogotá, acaba de ser eleita prefeita uma mulher abertamente lésbica; em numerosos países, políticos homossexuais não são mais nenhuma raridade. Mas no Brasil eles têm que temer pela própria vida. Aqui se elege antes um evangélico incapaz do que um gay competente.
Aliás, o país com mais mulheres no Parlamento é Ruanda, onde elas são 64%. O Brasil, por sua vez, figura nessa estatística no nível da República Islâmica do Irã; nenhum outro país da América Latina tem uma percentagem tão pequena de deputadas.
Portanto aqui falta declaradamente uma percepção de common sense. É como uma pessoa que viveu sozinha a vida toda, e não percebe quão excêntrica se tornou. Ela se considera normal e todos os outros, esquisitos. Isso fica óbvio especialmente no atual pessoal do governo.
Ministros como Abraham Weintraub, Ernesto Araújo e Damares Alves têm óbvias deficiências cognitivas. Eles vivem em mundos paralelos e paranoicos. Em sociedades saudáveis jamais teriam chegado a posições de poder. Mas o Brasil é como uma comunidade de aldeões isolada, que escolheu como seus líderes justamente os habitantes mais agressivos, inescrupulosos e loucos.
Um indicador de quanto o Brasil está separado do próprio continente é o fato de, no momento, outros países da região parecerem estar avançando. No Equador e no Chile, milhões se levantaram contra as injustiças sociais. Os argentinos se cansaram dos experimentos neoliberais de Mauricio Macri. E a Bolívia se revolta contra o caudilhismo de esquerda de Evo Morales, o que atesta a favor do processo de amadurecimento da democracia local.
No Brasil, em vez disso, a população se acomoda em letargia, resignação e uma restauração conservadora. Um fim do protecionismo comercial e intelectual faria bem ao país.
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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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