Opinião: Diplomacia em tempos de mudança
A diplomacia é que deve respaldar a política externa
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 25/08/2026
Em tempos de grandes mudanças e transformações geopolíticas, econômicas e comerciais, a diplomacia, como instrumento para a promoção da paz, da ordem e da estabilidade internacional, tem perdido espaço relativo nas relações internacionais.
Essas novas realidades, porém, não significam que a diplomacia tenha deixado de ser importante. Apesar dessas transformações e limitações, os diplomatas têm funções importantes justamente em momentos de crise: negociar discretamente, interpretar posições do outro país, evitar mal-entendidos, preservar canais de diálogo e construir compromissos. Quanto maiores as tensões entre países, mais necessária pode ser a atuação diplomática para evitar conflitos e construir acordos.
Vários fatores podem ser apontados como responsáveis pelo papel menos relevante que a diplomacia e os diplomatas passaram a desempenhar nos últimos anos:
1) Ascensão da comunicação direta: presidentes e ministros negociam diretamente por telefone, reuniões, redes sociais e videoconferências, reduzindo a intermediação dos diplomatas;
2) Personalização da política externa: decisões passam a depender mais da relação pessoal entre líderes e de seus interesses políticos;
3) Velocidade das crises: redes sociais e meios de comunicação exigem respostas imediatas, enquanto a diplomacia tradicional costuma depender de análise e negociação cuidadosas;
4) Maior influência de outros atores: empresas multinacionais, organizações internacionais, ONGs, bancos e grupos de pressão também participam das negociações internacionais;
5) Polarização política: governos podem priorizar discursos e demonstrações de força para seu público interno em vez de negociações discretas;
6) Diplomacia econômica e tecnológica: comércio, investimentos, energia, tecnologia e sanções ganharam enorme importância, fazendo com que negociações internacionais envolvam cada vez mais ministérios e atores além das chancelarias;
7) Redes sociais: líderes podem falar diretamente com a população de outros países, tornando a diplomacia pública mais importante e, às vezes, substituindo negociações reservadas.
O que ocorre hoje é que a diplomacia, além de ceder espaço ao uso da força, como expressão de poder para a defesa dos interesses nacionais, passou a ser exercida por outros agentes, não funcionários diplomáticos. O exemplo mais paradigmático dessa tendência é o que está ocorrendo nos EUA, desde o início do segundo mandato de Donald Trump. O Departamento de Estado, o ministério do exterior dos EUA, perdeu espaço na formulação e execução da política externa norte-americana. Mais de 25% dos membros do serviço exterior dos EUA saíram, se aposentaram, foram afastados de seus postos ou viram agências vinculadas à chancelaria serem extintas. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, escreveu que deseja reorganizar o departamento e sua força de trabalho para “responder aos imensos desafios do século 21 e colocar a América em primeiro lugar”.
Em 1997, George Kennan, diplomata, conhecido por ter sido o arquiteto da política de contenção dos EUA na guerra fria, já havia observado a transformação do serviço exterior norte-americano desde o início do século 20, influenciado por novas forças que moldaram e restringiram a ação dos diplomatas, fazendo com que o Departamento de Estado perdesse seu papel tradicional de porta-voz e coordenador da política externa, como está sendo acentuado nos dias de hoje.
Os negociadores dos EUA nas guerras do Irã, na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza e nas conversações com a Rússia, no tocante à guerra na Ucrânia, não são diplomatas, mas o genro de Trump, que não é nem funcionário do governo, e um empresário do setor imobiliário. Com o Departamento de Estado alijado do processo decisório e dos entendimentos, centrados na Casa Branca – com o presidente Trump – , as dificuldades do governo americano para a defesa de seus interesses via negociações estão cada vez mais evidentes.
A situação nos EUA, como superpotência e um dos atores na atual competição bipolar com a China, tem influência determinante nos rumos da diplomacia global. Reconhecendo os novos desafios, algumas chancelarias ao redor do mundo começam a se ajustar a essas realidades, procurando defender da melhor forma possível seus interesses. O exemplo e a experiência de outros países para reforçar o papel das chancelarias e melhorar a eficiência de sua diplomacia nos tempos de mudança são relevantes. Surgem soluções inovadoras, como postos virtuais, aprimora-se a política de pessoal, modernizam-se os métodos de trabalho, ultrapassados pela rapidez das comunicações, sofisticam-se a aplicação das tecnologias de informação e o treinamento adequado às novas demandas e redefinem-se os meios oferecidos no exterior aos diplomatas.
A diplomacia é que deve respaldar a política externa. Quando a política externa passa a depender excessivamente dos líderes políticos e pouco dos canais diplomáticos profissionais, cresce a possibilidade de decisões baseadas em considerações ideológicas – que pouco têm de ver com o interesse nacional – sem uma visão estratégica de médio e longo prazo.
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)
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