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segunda-feira, 30 de março de 2026

Kant, uma revolução no pensamento, de Marcus Willaschek - Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo)

Kant, uma revolução no pensamento

Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo, 29/03/2026

Livro que transita entre comentário e biografia consegue tornar claras ideias do filósofo

Embora seja um autor do século 18, Kant segue sendo referência em temas como ética e direitos humanos

É difícil dizer se Kant: a Revolution in Thinking, de Marcus Willaschek, deve ser classificado como um comentário da obra do filósofo ou como uma biografia. Qualquer que seja o veredicto, Willaschek faz as duas coisas muito bem.

É impressionante como o livro consegue tornar claras as ideias de Kant, uma tarefa em que muitas vezes o próprio filósofo prussiano fracassava. E não porque Willaschek fuja dos pontos mais desafiadores. "Kant..." cobre praticamente toda a obra, sem nos poupar das passagens mais abstratas e difíceis da "Crítica da Razão Pura". É claro que especialistas poderão apontar lacunas, mas o livro resolve bem os problemas de leitores comuns, movidos só pelo "sapere aude!" (ouse saber) e sem pretensão de escrever uma monografia sobre o filósofo de Königsberg.

Mais do que apenas explicar, Willaschek também procura mostrar em que medida o pensamento de Kant, um autor do século 18, mudou a filosofia europeia e por que, em certos temas, como ética, direitos humanos e relações internacionais, conserva relevância até hoje.

Se o item mais valioso em "Kant..." são as explicações, a parte mais divertida está nos apontamentos biográficos. A passagem dos séculos legou a Kant a imagem de um filósofo impenetrável, sisudo e metódico, que morreu virgem. Metódico ele era. Willaschek conta como surgiu a lenda segundo a qual a população de Königsberg acertava seus relógios pela hora em que Kant saia para seu passeio. Mas ele também era, contra as expectativas, uma figura sociável, que chegou a ser perseguido pelas mulheres. Também era um bom contador de piadas. O livro reproduz algumas, mas já alerto que o humor do século 18 não envelheceu muito bem.

Willaschek resiste à tentação de endeusar seu objeto de estudo. Ele não se furta a levantar pontos fracos de Kant, que aparecem em declarações antissemitas, racistas e misóginas. Não cai nos anacronismos típicos de nossa época, mas observa que são um problema para quem defendia uma noção radical de igualdade.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Diplomacia em Frangalhos - Hélio Schwartsman (FSP)

DIPLOMACIA EM FRANGALHOS

Quando fala de improviso, Lula parece mais diretor de grêmio estudantil do que presidente da República

Hélio Schwartsman

FOLHA DE S. PAULO, 19/02/2924


"Ah, Luiz Inácio Lula da Silva... 

Quando ele segue o roteiro preparado pelo Itamaraty, ainda é possível enxergar uma posição minimamente coerente com a tradição diplomática brasileira. Foi o caso do discurso que ele fez no sábado (17) na abertura da cúpula da União Africana em Adis Abeba. Ali, sem deixar de criticar Israel, também condenou os ataques do Hamas e pediu a libertação imediata de todos os reféns.

Basta, porém, que Lula comece a falar de improviso para comportar-se não como presidente da República mas como diretor de grêmio estudantil, desfiando os mais ignorantes chavões da esquerda. Foi o que ele fez no domingo (18), ao equiparar as operações de Israel em Gaza ao Holocausto nazista. É difícil até listar o número de instâncias em que a comparação é errada. Hitler, com base numa concepção essencialista de hierarquias raciais, se pôs a eliminar todos os judeus da Europa. Israel reage, ainda que desproporcionalmente, a um ataque terrorista.

Não estou sugerindo que Israel seja inimputável. Eu mesmo critico quase que semanalmente a mão pesada do governo Netanyahu. Penso que imperativos morais e legais exigiriam que as ações militares fossem muito mais cuidadosas, mesmo que isso implique retardar o objetivo legítimo de reduzir a capacidade do Hamas de atacar Israel.

Lula, ao dizer que Tel Aviv repete Hitler, desfere contra os israelenses um golpe abaixo da cintura. É algo que contradiz o argumento que o próprio presidente sempre invoca para justificar a mansidão com que trata violações cometidas por aliados seus, como Maduro e Putin: não se pode ser muito veemente nas declarações para não perder o poder de influenciar.

Na administração Bolsonaro padecíamos do problema oposto, que era a adesão automática às mais extremas posições do governo Netanyahu. Para quem olha de fora esse zigue-zague, a conclusão inescapável é que o Brasil não mantém uma política externa séria.


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