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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Stefan Bogdan Salej tenta compreender a Venezuela (acho que ninguém consegue, nem García Marquez, nem Kafka, só Orwell)

 Venezuela

Neste momento tem muita mas muita gente analisando o que acontece na Venezuela.Vivi este país como turista, correspondente estrangeiro, empresário e diplomata.E com essa complexidade não tenho ousadia de analisar o futuro do país. Só conto alguns episódios.

Stefan Šalej 



DA VENEZUELA QUERIDA E COMPLEXA

A primeira vez que esse país caribenho me a chamou atenção foi quando um industrial esloveno radicado lá se casou com a estrela de cinema norte-americana e sonho da nossa juventude Natalie Woods. Então lá há milionários que se casam com estrelas? E depois, alguma Miss Universo.

 E daí fiz a primeira visita lá, quando o barril de petróleo saltou de 1 dólar para 3 e foi fundado o cartel de petrodólares OPEC com a Venezuela liderando o aumento de preços, com os países árabes. Em Caracas, só automóvel grande. No Brasil, Fusca. Lá, gasolina mais barata do que água mineral. E projetos grandiosos como a hidroelétrica Guri, de onde expulsaram a empreiteira brasileira Camargo Correia, e o complexo minero siderúrgico Orinoco, construído pelos alemães, algo que o Brasil não conseguiu fazer, apesar de Carajás, que só extrai, mas não processa minério de ferro.

Empresas do mundo inteiro corriam para lá, onde se ganhava dinheiro, apesar da complexidade das operações. A Venezuela emprestava dinheiro, o custo de vida era alto, tudo importado, a democracia sempre ameaçada por golpes, e uma aliança firme com os EUA, onde os ricos investiam. A complexidade de negócios exigia muito dos executivos, que depois de lá eram capazes de dirigir empresas no Brasil. Assim foi com o legendário Wolfgang Sauer, que veio depois dirigir a VW no Brasil. E muito mais tarde um outro executivo da Mercedes, que foi dirigir a fábrica em Juíz de Fora.

Essa bonança ilusória levou a Tecnowatt a abrir uma filial, em cooperação com a GE. Tudo ia bem no papel até o gerente de lá, galego, visitar Contagem e me enrolar com uma compra de champanhe no freeshop. Mandamos a nossa gerente de BH para lá e descobrimos um rolo nunca visto. Ninguém trabalhava, os relatórios e recibos eram falsos, mas existia mercado. Ficamos alguns anos com a gestão brasileira e saímos quando faltaram dólares para para pagar as contas. Havia vários tipos de câmbio e obter dólar para pagar importação era complicado. Até quando visitávamos Caracas, para sair precisávamos de uma certidão da Receita, complicada de obter. Entenda-se por complicada sempre pagar alguém.

 

Na fase seguinte da minha vida foi nomeado Enviado especial, Embaixador para  Am.Latina  da Eslovênia que presidia o Conselho da EU.

 

 

 Ou seja, responsável pelas relações da UE com o continente. E coordenador de uma reunião de 60 chefes de estado e de governo, em Lima, dos dois continentes. Diplomatas experientes me avisaram que Cuba e a Venezuela seriam problema. Já numa reunião de embaixadores em Lisboa, o representante português que presidiu a sessão perdeu a paciência com os venezuelanos e disse claramente que se eles não queriam colaborar que se retirassem. Depois foi o Rei da Espanha que mandou Chavez se calar numa reunião em Santiago do Chile.

Os diplomatas venezuelanos eram mais chavistas do que Chaves. A solução era tratar direto com o Comandante. Convenci então o Presidente da Eslovênia, que quando Secretário-geral adjunto da ONU ajudou Celso Amorim a manter Chavez no poder, a visitarmos Caracas. A programação mudava de minuto a minuto. Com o avião se aproximando do aeroporto avisaram que teríamos uma reunião com 18 ministros. Quando chegamos, não havia nenhum. Na reunião com Chavez, a guarda presidencial cantou o hino esloveno melhor do que qualquer coral de lá. Sem sotaque. Chavez com seus ministros, inclusive Maduro, do exterior, perguntou ao seu amigo Presidente da Eslovênia o que veio fazer. Aí ele passou palavra para mim, dizendo que ele veio só visitar o amigo Chavez. Expliquei que era necessária a cooperação da Venezuela etc. Chavez: você quer que eu me “calle” como disse o Rei da Espanha. Não, pelo contrário. E aí fomos conversando amavelmente até ele dar ordem para que Maduro cumprisse o que o Embaixador pedir. E assim foi. Nenhum problema mais, e nem com seus aliados, como Bolívia e Cuba. No final da reunião em Lima, depois de um discurso inflamado, Chavez passou por mim dizendo, cumpri como prometi Embajador? Muchas gracias, Comandante.

Depois acompanhei a doença de Chavez, Maduro, a tentativa da UE e dos EUA de colocar Guaido, e a miséria que o povo de lá viveu. Diria que a maldição do ouro negro. Mas, também o que o chavismo fez pelo país, como orquestras juvenis, das quais saiu um dos mais destacados regentes deste século, Gustavo Dudamel. Um contraste atrás dos contrastes de um país só de contrastes e suas complexidades.


STEFAN SALEJ


Publicado no Diário do Comércio, 9.1.2026.

www.salejcomment.blogspot.com

domingo, 12 de março de 2017

Brasil: um pais onde o crime compensa (e como) - Josias de Souza

Processo do TSE revela que o crime compensa
Josias de Souza
12/03/2017

Em conversa com um amigo, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, chamou de “kafkiano” o processo que mantém sub judice a Presidência de Michel Temer. A definição é inexata. Na verdade, o processo é pós-kafkiano. O barulhinho que se ouve ao fundo é o ruído de Franz Kafka se contorcendo no túmulo ao perceber que o absurdo perturbador de sua ficção foi superado por uma história fantástica passada num país imaginário. Uma história bem brasileira.

A realidade dos autos relatados pelo ministro Benjamin está cada vez mais inacreditável. O interesse pelo julgamento do processo diminui na proporção direta do aumento das evidências de que a vitória de 2014 foi bancada com dinheiro roubado da Petrobras. Autor da ação que pede a cassação da chapa Dilma Rousseff—Michel Temer, o PSDB anda tão ocupado em salvar o país que já não tem tempo para cobrar a punição dos crimes que apontou.

O tucanato tornou-se o esteio do governo Temer. O derrotado Aécio Neves virou um levantador de ministros. O vice-derrotado Aloysio Nunes Ferreira acaba de ser nomeado chanceler. Na oposição, o PSDB era incapaz de reconhecer a honestidade dos governantes. No governo, esqueceu que o PMDB é incapaz de demonstrá-la. Todo o dinheiro sujo que a Odebrecht investiu em 2014 não daria para vestir 1% das desculpas esfarrapadas dos tucanos para conspirar contra a lógica no TSE.

Devolvida a Porto Alegre e à sua insignificância, Dilma Rousseff entregou-se a duas atividades. Quando não está cuidando dos netos, dedica-se a denunciar o ''golpe''. No TSE, os defensores de madame se juntam aos advogados de Michel Temer numa tabelinha a favor da protelação. Difícil saber se golpeados e golpistas fogem de um julgamento rápido por que são capazes de tudo ou por que são incapazes de todo.

Há mais: Temer, o processado, indicará entre abril e maio, dois dos ministros que o julgarão no TSE. Há pior: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, frequenta o noticiário na condição de conselheiro do acusado. Quando Dilma ainda estava sentada na poltrona de presidente, Gilmar pegou em lanças pela abertura do processo, evitando que a podridão das contas eleitorais descesse para o arquivo. Agora, o mesmo Gilmar afirma: o mais importante é a exposição do lixão, não o resultado do julgamento.

Em meio a este cenário pós-kafkiano, um período excepcional da história do país, a qualquer momento se verá a maioria dos ministros do TSE declarar a respeito dos milhões em verbas sujas que passaram pelas arcas de 2014: “Calma! É só caixa dois, gente!”. E o brasileiro perceberá que não é que o crime não compensa. É que, quando ele compensa, muda de nome.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Kafka e a Muralha da China: por favor, me prendam, eu quero ser preso, eu imploro...

Kafkiano, realmente...
Paulo Roberto de Almeida

China: Wanted Exile’s Attempt to Surrender Is Rejected
By THE ASSOCIATED PRESS, November 25, 2013

The second most-wanted student leader from the 1989 Tiananmen Square pro-democracy protests was turned back from Hong Kong on Monday in his latest attempt to surrender to Chinese authorities and return home. It was the fourth such attempt by the former student leader, Wu’er Kaixi, who said his lack of success so far was the result of “absurd” actions by the Chinese government.

Mr. Wu’er, who has lived in exile in the United States and Taiwan for more than two decades, is stuck in a situation in which he is both wanted for arrest and, like many other dissidents who have fled, prevented from returning to China. Mr. Wu’er said in a blog post that he wanted to go back to China to see his ailing parents and other family members, whom he has not seen since he fled into exile 24 years ago. His parents have also been denied permission to visit him. He was named No. 2 on the Chinese government’s list of 21 wanted student leaders (behind Wang Dan) after the military crushed the 1989 protests, killing at least hundreds.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Surrealismo brasileiro: a inacreditavel UnB e o Kafka do cerrado

Bem, quando eu li esta mensagem da UnB, sinceramente eu não sabia se ria, se lamentava a "desnutrição" dos estudantes, ou se me encantava com o estupendo burocratismo dos serviços responsáveis da UnB.
Vejam vocês: 


Informamos à comunidade universitária que o serviço de alimentação especial, oferecido pelo Restaurante Universitário de Brasília/DAC, está temporariamente suspenso devido a falta de nutricionistas para o programa.
Esclarecemos que as necessidades de pessoal já foram encaminhadas ao DGP e tão logo a equipe esteja restabelecida, o serviço retornará a normalidade.
Atenciosamente,
Coordenação de produção do RU

Sinceramente, se Franz Kafka, em lugar de ter nascido (e morrido) em Praga, andasse pelo cerrado central do Brasil, mais especificamente no quadrilátero que responde pelo nome de campus Darcy Ribeiro, ele teria farto, fartíssimo, IMENSO material para mais alguns derivativos do seu mal costurado Processo.
O Brasil é maior (não confundir com algum programa do governo), melhor, muito mais rico do que qualquer romance kafkiano...
Pronto, já terminei minha noite com algum motivo de reflexão (e mais insumo para algum minitratado sobre o surrealismo brasiliense).
Paulo Roberto de Almeida 

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Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...