Venezuela
Neste momento tem muita mas muita gente analisando o que acontece na Venezuela.Vivi este país como turista, correspondente estrangeiro, empresário e diplomata.E com essa complexidade não tenho ousadia de analisar o futuro do país. Só conto alguns episódios.
Stefan Šalej
DA VENEZUELA QUERIDA E COMPLEXA
A primeira vez que esse país caribenho me a chamou atenção foi quando um industrial esloveno radicado lá se casou com a estrela de cinema norte-americana e sonho da nossa juventude Natalie Woods. Então lá há milionários que se casam com estrelas? E depois, alguma Miss Universo.
E daí fiz a primeira visita lá, quando o barril de petróleo saltou de 1 dólar para 3 e foi fundado o cartel de petrodólares OPEC com a Venezuela liderando o aumento de preços, com os países árabes. Em Caracas, só automóvel grande. No Brasil, Fusca. Lá, gasolina mais barata do que água mineral. E projetos grandiosos como a hidroelétrica Guri, de onde expulsaram a empreiteira brasileira Camargo Correia, e o complexo minero siderúrgico Orinoco, construído pelos alemães, algo que o Brasil não conseguiu fazer, apesar de Carajás, que só extrai, mas não processa minério de ferro.
Empresas do mundo inteiro corriam para lá, onde se ganhava dinheiro, apesar da complexidade das operações. A Venezuela emprestava dinheiro, o custo de vida era alto, tudo importado, a democracia sempre ameaçada por golpes, e uma aliança firme com os EUA, onde os ricos investiam. A complexidade de negócios exigia muito dos executivos, que depois de lá eram capazes de dirigir empresas no Brasil. Assim foi com o legendário Wolfgang Sauer, que veio depois dirigir a VW no Brasil. E muito mais tarde um outro executivo da Mercedes, que foi dirigir a fábrica em Juíz de Fora.
Essa bonança ilusória levou a Tecnowatt a abrir uma filial, em cooperação com a GE. Tudo ia bem no papel até o gerente de lá, galego, visitar Contagem e me enrolar com uma compra de champanhe no freeshop. Mandamos a nossa gerente de BH para lá e descobrimos um rolo nunca visto. Ninguém trabalhava, os relatórios e recibos eram falsos, mas existia mercado. Ficamos alguns anos com a gestão brasileira e saímos quando faltaram dólares para para pagar as contas. Havia vários tipos de câmbio e obter dólar para pagar importação era complicado. Até quando visitávamos Caracas, para sair precisávamos de uma certidão da Receita, complicada de obter. Entenda-se por complicada sempre pagar alguém.
Na fase seguinte da minha vida foi nomeado Enviado especial, Embaixador para Am.Latina da Eslovênia que presidia o Conselho da EU.
Ou seja, responsável pelas relações da UE com o continente. E coordenador de uma reunião de 60 chefes de estado e de governo, em Lima, dos dois continentes. Diplomatas experientes me avisaram que Cuba e a Venezuela seriam problema. Já numa reunião de embaixadores em Lisboa, o representante português que presidiu a sessão perdeu a paciência com os venezuelanos e disse claramente que se eles não queriam colaborar que se retirassem. Depois foi o Rei da Espanha que mandou Chavez se calar numa reunião em Santiago do Chile.
Os diplomatas venezuelanos eram mais chavistas do que Chaves. A solução era tratar direto com o Comandante. Convenci então o Presidente da Eslovênia, que quando Secretário-geral adjunto da ONU ajudou Celso Amorim a manter Chavez no poder, a visitarmos Caracas. A programação mudava de minuto a minuto. Com o avião se aproximando do aeroporto avisaram que teríamos uma reunião com 18 ministros. Quando chegamos, não havia nenhum. Na reunião com Chavez, a guarda presidencial cantou o hino esloveno melhor do que qualquer coral de lá. Sem sotaque. Chavez com seus ministros, inclusive Maduro, do exterior, perguntou ao seu amigo Presidente da Eslovênia o que veio fazer. Aí ele passou palavra para mim, dizendo que ele veio só visitar o amigo Chavez. Expliquei que era necessária a cooperação da Venezuela etc. Chavez: você quer que eu me “calle” como disse o Rei da Espanha. Não, pelo contrário. E aí fomos conversando amavelmente até ele dar ordem para que Maduro cumprisse o que o Embaixador pedir. E assim foi. Nenhum problema mais, e nem com seus aliados, como Bolívia e Cuba. No final da reunião em Lima, depois de um discurso inflamado, Chavez passou por mim dizendo, cumpri como prometi Embajador? Muchas gracias, Comandante.
Depois acompanhei a doença de Chavez, Maduro, a tentativa da UE e dos EUA de colocar Guaido, e a miséria que o povo de lá viveu. Diria que a maldição do ouro negro. Mas, também o que o chavismo fez pelo país, como orquestras juvenis, das quais saiu um dos mais destacados regentes deste século, Gustavo Dudamel. Um contraste atrás dos contrastes de um país só de contrastes e suas complexidades.
STEFAN SALEJ
Publicado no Diário do Comércio, 9.1.2026.
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