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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Celso Furtado, Contista, Livro organizado por Rosa Freyre d'Aguiar - Paulo Gustavo

Livro organizado por Rosa Freyre d'Aguiar 

Celso Furtado, Contista

Expedicionários

Expedicionários

No livro “O tenente: cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial”, de Celso Furtado, lançado recentemente, a tradutora e jornalista Rosa Freire d’Aguiar, viúva do autor, continua um valioso trabalho de memória já iniciado, em 2019, com os “Diários intermitentes”. Conquanto o livro apresente um variado conjunto de textos autógrafos e fotos referentes à experiência do grande economista como “expedicionário” da FEB, prendo-me aqui a tão somente analisar o livro que há dentro do livro e que Rosa Freire, ao torná-lo o primeiro capítulo, usou como uma espécie de pórtico para a obra organizada. Refiro-me a “De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária”, apressando-me a dizer que coloco o contista Celso Furtado no mesmo alto nível literário, apesar da diferença de gêneros, de Rubem Braga e suas extraordinárias crônicas de guerra.

Os dez contos foram publicados em livro em 1946. Posteriormente, Furtado, a exemplo de muitos autores, deixou para trás essa obra de estreia. Nada, como costuma acontecer, que o desabonasse, muito pelo contrário. É o que tentarei mostrar.

Julio Cortázar, citado por Nádia Batella Gotlibb em seu estudo “Teoria do conto”, desdobrando um conceito já expresso por um mestre do gênero, Edgar Alan Poe, sentenciou: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse”. Leia-se: um bom conto. Daí que necessite, por conta da sua brevidade, de uma compactação, como dirá o não menos magistral Tchekhov, pois “O excesso de detalhes desorientaria o leitor, lançando-o em múltiplas direções”. Por sua vez, o contista e teórico Mario Lancelotti, em sua obra “De Poe a Kafka: para una teoría del cuento”, pondera: “Por su forma y temporalidad, el cuento es el asiento ideal de la situación trágica del hombre antecipada en Kierkegaard […]. Fiquemos, por espírito de síntese, com essa breve moldura teórica.

Os contos “da vida expedicionária” são todos praticamente ambientados na Itália e antecipam uma das tendências que prosperariam no Brasil na segunda metade do Novecentos: o conto-crônica. Tendência abordada pelo crítico Alfredo Bosi em seu conhecido livro “O conto brasileiro contemporâneo” (1982).

Curiosamente, e suponho que pelos motivos certos, Furtado não quis escrever crônicas, aliás neste campo ele teria assumido participar de uma concorrência da pesada, a começar pelo citado Rubem Braga. Sob o escudo da ficção, ele abre espaço a algo mais universal e indefinível e tem mais liberdade para criar, mas isso retendo a lição de Poe de buscar um efeito único e integrado. O “acontecimento” ficcional, ou “episódio”, ainda é tradicionalmente externo, mas já comporta vê-lo, conforme dito por Mario Lancelotti, como uma “situação”. É a essa situação que Furtado se volta para, aqui e ali, fazer observações psicológicas que afastam quaisquer lugares-comuns de seu texto tão fluente e sutil. É o escritor que segura a pena do soldado, assim como é igualmente um elegante foco brasileiro que se abre sobre o diálogo e o encontro de culturas que a guerra, em terras italianas, proporcionava aos seus diversos atores: alemães, americanos, italianos e brasileiros. Furtado, como escritor, compõe, arquiteta, mas “os traços gerais”, embora verdadeiros, “não pertencem a ninguém”, porque há a “certeza de que as experiências couberam a todos”, como diz ele numa nota prévia que parece antever críticas ou pretender, como num sucedâneo de uma vivência compartilhada, a solidariedade do leitor a uma coletiva sensibilidade.

O realismo de nosso autor, embora exista e possa ser debitado à sua natureza apolínea, está longe de qualquer secura. Daí que o narrador (protagonista e/ou coparticipante) vá suavemente pontuando sua reflexão. Como neste trecho do conto “Dois cigarros”: “Cada um sabia que os outros estavam a recordar a sua terra. Mas um pudor quase místico nos coibia de  pronunciar sequer o nome daqueles lugares sagrados […] E a precariedade do futuro dava ao passado uma significação e um valor que nunca lhe suspeitáramos”. Esse tipo de observação é recorrente e atravessa quase todos os contos.

De par com esse realismo psicológico calibrado pela brevidade da forma, o lirismo, tal qual acontece em Rubem Braga, cria hiatos poéticos na aflição da guerra, como lemos neste outro trecho: “À minha esquerda, uma janela aberta mostrava um pedaço desse belo céu italiano, onde as estrelas parecem que se reproduzem à proporção que o contemplamos”. Esse lirismo vai estar presente até mesmo numa descrição de  personagem, como no início do conto “Um intelectual em Florença”. Reparem: “O meu amigo Mário era desses rapazes altos e de elegância natural, mãos vastas e gestos medidos, que pela bondade nos dão sempre a impressão de meninos grandes”. Só um grande autor consegue certas sínteses e a convocação de sugestivos opostos como nas expressões “mãos vastas” e “gestos medidos”. Não precisa, o narrador, mais do que isso para que Mário surja inteiro da sua cartola de mágico. Eis, de inúmeros, um último e magistral exemplo de análoga forma semântica: […] tinha olhos ao mesmo tempo vivos e lânguidos, como os olhos dessas jovens pudicas que escondem a curiosidade nas pálpebras semicerradas”.

Quanto aos temas e subtemas principais, diga-se que ficam praticamente todos sob a redoma compreensiva de uma sociologia da cultura. A guerra, como entrevemos no livro de Furtado, favorecia uma espécie de cosmopolitismo aos provincianos de ambos os continentes, da América e da Europa. Em todos os momentos, um narrador culto (duplo ou alter ego do autor) ousa pensar filosoficamente. Mas isso, diga-se aos menos “metafísicos”, nada tem de entediante. Porque os contos de Furtado são como devem ser: ágeis, breves e até bem humorados, cada um se fechando sobre si mesmo, mas encadeados numa só corrente. De resto, quem pensa também pensa em meio à guerra; quem é poeta o é igualmente na turbulência mortal das trincheiras. Alain chegou a dizer que “Uma batalha é, sem dúvida, uma das circunstâncias em que menos se pensa na morte”.

Não são crônicas como parecem à primeira vista os contos de Furtado, não obstante haver neles altas doses de verdade factual. A verdade estética, tão vilipendiada ontem e hoje, eterno alvo da inveja, é o que mais parece importar ao eu lírico que move personagens, diálogos e cenários. A rigor, é uma estrutura pertinente a esse difícil gênero que faz com que tudo se erga, da mesma forma que é uma estrutura romanesca que faz existir  “Em busca do tempo perdido”, que não é só “memórias” como inicialmente se pensou: uma visão equivocada que, no Brasil, foi brilhantemente refutada pelo crítico pernambucano Álvaro Lins. Em suma, o que faz os textos de Furtado uma ficção é a intencionalidade autoral,  o domínio virtuoso da linguagem e elementos técnicos muito bem concatenados.  Tudo isso por um escritor que, apesar de sua juventude de então, sabia muito bem o que estava fazendo.

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