A crise mundial explicada por fatores contingentes que agravam os fatores estruturais pré-existentes a ela
Paulo Roberto de Almeida
O mundo tem dois grandes problemas: eles se chamam, respectivamente, Putin e Trump. O primeiro por ter a justa precedência no desmantelamento da ordem política global estabelecida 41 anos atrás ao invadir uma nação soberana, contra a Carta da ONU e as normas mais elementares do Direito Internacional (que tampouco é respeitada por uma imensa maioria dos países do assim chamado Sul Global, entre eles o Brasil). O tirano de Moscou também tem precedência na crise atual pelo fato de ter herdado e expandido um Estado mafioso, controlado por órgãos internos de repressão, que recrutaram, no passado, e passaram a controlar na última década, um narcisista imbecil que desgoverna o país mais poderoso do mundo, que está na origem da mais grave crise estrutural do mundo, o desmantelamento da ordem econômica global, começando pelo sistema multilateral de comércio.
O segundo personagem, e segundo problema, deu continuidade à crise mundial, ao pretender gerir como um administrador incompetente um país que ele pretendia reverter aos tempos da segunda revolução industrial da história econômica global, aquela do petróleo, do motor à explosão, até do carvão e da era telegráfica. Não há nenhuma dúvida de que é controlado por, e obedece submissivamente, ao primeiro personagem, ambos abrindo involuntariamente todos os espaços para o fortalecimento econômico, politico e diplomático do terceiro elemento contingente na atual crise politica e econômica global, o novo imperador cercado de mandarins competentes, que administram de maneira racional a reconstrução de um Estado weberiano avant la lettre, que combina, num formato heterodoxo, as três modalidades de dominação política teorizadas pelo sociólogo alemão.
Esse terceiro personagem, que combina fatores estruturais e contingentes, tem habilidades institucionais para assistir ao declínio auto-infligido aos impérios respectivos pelos dois citados autores e fatores personalistas da atual crise global, ou seja, o desmantelamento da ordem mundial construída sobre os escombros do maior conflito planetário da era pré-atômica, daí sua postura responsável de interditar ao primeiro personagem, seu quase vassalo, o uso da ferramenta nuclear para “resolver” o imbroglio no qual deliberadamente e estupidamente se meteu com sua guerra de agressão contra o vizinho.
O segundo personagem é ainda mais estúpido, ao se meter numa confusão que não lhe dizia respeito em primeiro lugar, mas na qual se envolveu como um aprendiz de feiticeiro absolutamente incompetente e fraco dos miolos.
Esses fatores contingentes explicam a crise atual, mas não fornecem, longe disso, os instrumentos para superar a crise atual, que tem fatores estruturais subjacentes à evolução da dinâmica politica e econômica global registrada nas últimas décadas, e cujo desenlace talvez tenha de aguardar o término, legal ou forçado, do afastamento dos dois primeiros personagens do comando respectivo dos seus impérios em declínio relativo.
O terceiro personagem talvez possa oferecer uma solução parcial à crise atual, mas depende justamente do afastamento dos dois primeiros, que não possuem mais ferramentas para remediar a crise existente, que é mais política do que civilizatória. Enquanto isso, o assim chamado Sul Global permanece enredado em suas próprias contradições, com o prolongamento de sua letargia política e econômica nos fatores estruturais de um eventual desenvolvimento em bases sólidas, que deveria ter fundamentos educacionais para um novo estilo de governança.
O mundo caminha muito lentamente, quando não se tem estadistas à altura das necessidades globais.
Era o que eu tinha a dizer.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 6/07/2026
P.S. A crise mundial vai além dos aspectos políticos, econômicos ou geopolíticos; ela alcança também o lado futebolístico da coisa:
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