sábado, 25 de julho de 2026

O Leviatã sem rosto - João Francisco Lobato (Inteligência Democrática)

O Leviatã sem rosto

Alinhamento autocrático global, a metamorfose chinesa e a erosão da democracia liberal

João Francisco Lobato 



João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (25/07/2026)

“É a própria banalidade do mal que o torna tão aterrorizante” — Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém

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Péter Magyar subiu na sacada às 23h47 do dia 12 de abril de 2026. Abaixo, a Praça da Liberdade era um mar de bandeiras azuis e flashes de celular. Dezoito meses antes, ele fundara o Tisza. Agora o partido acabava de conquistar 141 dos 199 assentos do parlamento húngaro — maioria de dois terços.

Viktor Orbán, o primeiro-ministro que durante dezesseis anos chamara seu regime de “democracia iliberal”, já havia fugido do palácio pela porta dos fundos. Sem discurso. Sem banda. Sem tanques.

Para muitos, a cena era a prova de que a democracia ainda podia vencer.

Mas a prova era local, não global.

O Leviatã do século XXI não tem rosto único. Não se encarna num Führer, nem num partido com ideologia definida, nem numa potência hegemônica com projeto imperial clássico. Manifesta-se como uma holding difusa — rede descentralizada de interesses cleptocráticos, vigilância algorítmica e alianças de conveniência, cuja força reside justamente em sua ausência de rosto.¹

O ensaio que segue investiga a metamorfose chinesa, a coordenação inédita entre regimes autoritários e os mecanismos pelos quais este sistema corrói as democracias liberais por dentro.

Uma virada de época

O que a cena húngara escondia, porém, era um cenário global que se movia na direção oposta. Em 2026, pela primeira vez desde 1978 — quando o V-Dem Institute iniciou sua série histórica — as autocracias superaram numericamente as democracias no planeta. O dado marca o fim simbólico do ciclo que se expandira a partir da “terceira onda” democratizante dos anos 1970. A novidade não é apenas numérica: pela primeira vez, esta superioridade vem acompanhada de coordenação inédita entre regimes — transferência de tecnologia de vigilância, alinhamento diplomático e militar.

O Democracy Report 2026 do V-Dem documenta 92 regimes autocráticos contra 87 democracias. Cerca de 74% da população mundial — 6 bilhões de pessoas — vive sob regime autoritário, o nível mais alto da série histórica. Apenas 7% da humanidade reside em democracias liberais. As autocracias respondem por 46% do PIB global. São números ponderados por população — distinção importante porque China e Índia, juntas, concentram mais de um terço da humanidade.²

A trajetória sepulta uma profecia. Durante décadas, a “teoria da modernização” — formulada por Seymour Martin Lipset em O Homem Político — sustentava que o desenvolvimento econômico levaria inevitavelmente à democratização. Przeworski e Diamond já a contestavam antes do “desmentido chinês”. Ela permanecia, ainda assim, uma narrativa de conforto: o futuro pertencia à liberdade.

A China demonstrou que esta correlação não é uma lei da história, mas uma contingência. Crescer a taxas elevadas por quatro décadas enquanto se aperfeiçoam o controle político, a vigilância em massa e a repressão de toda dissidência — o “capitalismo autoritário” chinês criou um polo de atração para quem prefere ordem sem liberdade ao que percebe como o caos da democracia.

A Freedom House, em Freedom in the World 2026, registra o vigésimo ano consecutivo de declínio da liberdade global. O número de países classificados como “livres” está no menor nível desde 1973.

O V-Dem chama de “episódios de autocratização” os processos em que regimes se tornam progressivamente menos democráticos por erosão gradual — não por golpe súbito. Em 2025, 62 países estavam em transformação de regime, a maioria no sentido autocrático. Seis dos dez novos países em autocratização estão na Europa e na América do Norte: Itália, Reino Unido, Croácia, Eslováquia, Eslovênia e Estados Unidos. O Liberal Democracy Index dos EUA caiu 24% em um ano (de 0,75 para 0,57), fazendo o país perder seu status de democracia liberal — deterioração que os pesquisadores suecos descrevem como sem precedentes para uma democracia ocidental consolidada.

Houve reversões, também. A Polônia reverteu o retrocesso do PiS em 2023; o Brasil reverteu o autoritarismo pela via eleitoral sem ruptura; a Hungria seguiu caminho similar em 2026. O quadro não é um colapso linear, mas uma contração em ondas.

O que se observa não é acidental nem cíclico. É a emergência de uma rede autoritária global coordenada, que erode as democracias liberais por dentro e por fora — por guerra híbrida, coerção econômica, desinformação em massa, exportação de tecnologias de vigilância e sedução intelectual de um modelo alternativo de governança. É neste cenário que a ascensão chinesa adquire seu significado mais profundo: não apenas como potência econômica, mas como principal expoente desse sistema autocrático.

A metamorfose chinesa: como o partido abraçou o capitalismo sem abandonar a ditadura

As reformas de Deng Xiaoping, no final dos anos 1970, marcam o ponto de inflexão. Deng entendeu o comunismo econômico não como pilar de sustentação do Partido, mas como obstáculo. A estratégia foi engenhosa: abandonar o socialismo na economia, preservar o monopólio político.

A “economia de mercado socialista” é uma contradição que a retórica oficial nunca resolveu. A agricultura foi descoletivizada; empresas estatais foram privatizadas em massa — o premier Zhu Rongji demitiu mais de 30 milhões de trabalhadores entre 1998 e 2002. O capital estrangeiro foi recebido em larga escala. Emergiu uma classe de bilionários privados — uma das mais prósperas do mundo.

Yasheng Huang (MIT), em Capitalism with Chinese Characteristics, demonstra que a China adotou a economia de mercado mais rapidamente que muitas nações que sempre se consideraram liberais — com a diferença de que seu modelo é político: o Estado e o Partido mantêm controle sobre os setores estratégicos. Minxin Pei, em China’s Crony Capitalism, argumenta que o país desenvolveu uma vertente de compadrio na qual as conexões políticas determinam o sucesso econômico. O Partido não é mais o representante do proletariado; tornou-se a própria burguesia.

Por que ainda se chama “comunista”? O nome é uma âncora de legitimidade histórica, não uma descrição do programa econômico. O PCC deriva sua legitimidade da revolução que trouxe unidade e soberania à China após um século de humilhação colonial. Abandonar o nome seria abandonar esta fonte de legitimidade — e abrir espaço para questionamentos sobre seu monopólio do poder. “Socialismo com características chinesas” é uma fórmula propositalmente vaga, que acomoda qualquer transformação econômica sem jamais enfrentar a questão democrática. Martin Wolf observa que o PCC aprendeu a lição da queda da URSS com clareza implacável: o erro de Gorbachev foi a abertura política, não a reforma econômica. A China faria o oposto: reforma econômica total, controle político absoluto. O nome “comunista” é o penhor de que o capitalismo chinês jamais se tornará democrático.

Evitemos, no entanto, um essencialismo: Pequim opera como revisionista seletiva. Em tecnologia, governança digital, Tibete e Taiwan, busca mudar as regras; em comércio, clima e saúde global, aceita e depende das regras existentes. A China opera dentro da OMC, do FMI e de mecanismos multilaterais — sua economia depende dos mercados ocidentais. Esta dualidade — cooperativa em algumas dimensões, conflitiva em outras — torna a resposta ocidental complexa.

O retrato do Leviatã chinês seria incompleto sem suas rachaduras internas. A bolha imobiliária — a maior da história — deixou um rastro de dívidas podres (Evergrande, Country Garden) que o Partido administra com injeções controladas de liquidez, sem resolver a causa. A população chinesa encolheu pela primeira vez em 2022 — o primeiro declínio desde a fome do Grande Salto Adiante — e, em 2024, registrou o terceiro ano consecutivo de queda (2022, 2023 e 2024); a força de trabalho diminui enquanto a pirâmide etária se inverte. O 20º Congresso do PCC (outubro de 2022) eliminou os últimos contrapesos internos ao poder de Xi Jinping — o que estabiliza o regime no curto prazo, mas o torna refém de uma única liderança sem sucessão desenhada. Em Xinjiang, o maior programa de vigilância étnica do mundo produziu eficiência repressiva e isolamento diplomático. A contradição do modelo chinês é esta: para sustentar a estabilidade que vende como produto, o regime precisa de um crescimento que não consegue mais garantir. O Leviatã chinês é forte enquanto a economia cresce. Quando desacelera — e os sinais estão todos ali — a holding descobre que controle político não substitui produtividade.

Autocracia, Inc.: a rede de sobrevivência mútua

Anne Applebaum publicou em 2024 o livro Autocracia, Inc.: Os Ditadores Que Querem Governar o Mundo. A tese central: as autocracias contemporâneas não operam isoladamente; formam uma holding integrada que compartilha técnicas de repressão, transfere recursos, vende tecnologia de controle social e se protege mutuamente em organismos internacionais. “Uma autocracia que observa outra autocracia sendo derrubada por uma revolução democrática sabe que pode ser a próxima”, escreve Applebaum. Esta consciência da vulnerabilidade compartilhada cria uma solidariedade negativa que transcende diferenças ideológicas, culturais e históricas.

O livro não está imune a críticas. A tese da coordenação consciente pode superestimar o quanto há de estratégia centralizada e subestimar o quanto há de simples difusão por imitação — software de vigilância não precisa de conspiração para se espalhar; basta mercado. Tampouco a perspectiva pós-colonial encontra espaço na análise: para muitos países do Sul Global, a “exportação de democracia” soa como repetição de uma ingerência histórica, não como ruptura. Isto não legitima as autocracias — ajuda a explicar por que o discurso antiliberal encontra audiência onde o Ocidente queimou sua credibilidade.

Apesar das ressalvas, a intuição central permanece. Se o poder autocrático clássico tinha um rosto (o ditador, o partido, a ideologia), o contemporâneo opera como holding sem presidente visível, cujas subsidiárias atuam em mercados diferentes, mas compartilham o balanço. A China fornece o capital e a tecnologia de vigilância; a Rússia, as operações de desinformação; o Irã, a desestabilização regional; a Coreia do Norte, a proliferação de armas; Venezuela e Cuba, a retórica antiamericana e os votos multilaterais. Juntos, formam um sistema autoritário que se retroalimenta.

Esta rede não é nova — a URSS e a China já se coordenavam contra o Ocidente. A novidade é a escala, a complexidade tecnológica e a ausência de competição ideológica clara. Durante a Guerra Fria, o conflito era entre dois sistemas de crenças. Hoje, a coalizão autocrática não oferece ideologia positiva: oferece apenas a negação — antiliberalismo, antiocidentalismo, antipluralismo. O denominador comum não é uma visão do que o mundo deve ser, mas um consenso sobre o que não deve ser. É esta ausência de ideologia positiva que torna o Leviatã contemporâneo escorregadio: não se pode derrotá-lo no campo das ideias porque ele não oferece ideias — oferece interesses e ressentimentos.

O alinhamento CRINK e a arquitetura do poder autocrático

A queda de Orbán foi real — e foi local. O quadro global, no mesmo instante, seguia na direção oposta. Analistas geopolíticos cunharam o acrônimo CRINK — China, Rússia, Iran, North Korea — para designar o núcleo duro deste bloco. “Eixo” é impreciso: sugere coordenação formal tipo Pacto de Varsóvia. Mais preciso é falar em alinhamento tático — coordenação bilateral e temática entre países com agendas próprias, frequentemente divergentes. Estudos do CSIS e do CNAS (2025) documentam o aprofundamento do alinhamento em múltiplas dimensões.

Na dimensão militar: exercícios conjuntos, transferência de tecnologia — drones iranianos para a Rússia, mísseis norte-coreanos para o Irã, componentes chineses para a indústria de defesa russa — e compartilhamento de inteligência. A guerra da Ucrânia, já no quarto ano em 2026, catalisa o processo: a Coreia do Norte enviou projéteis e cerca de 11 mil soldados; o Irã forneceu centenas de drones Shahed; a China forneceu componentes eletrônicos e mercado de exportação.

Na economia: sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT — o CIPS chinês, o SPFS russo. O comércio bilateral China-Rússia atingiu US$ 228 bilhões em 2025, com queda de 6,9% em relação a 2024 — a primeira contração desde 2020, sugerindo tetos estruturais.

Na diplomacia: coordenação de votos na ONU, com “veto cruzado” no Conselho de Segurança. Cada país vota segundo seus interesses — que coincidem, mas não são idênticos.

Na tecnologia — e aqui a abstração ganha carne — a cena se passa num escritório da Huawei em Daca. Um engenheiro mostra ao ministro do Interior bengali o painel que identifica rostos em tempo real. O software custou 12 milhões de dólares. O ministro sorri.

A cena se repete em mais de 700 cidades em mais de 100 países. O Strauss Center (China’s Authoritarian Exports, 2025) documenta que a Huawei fornece “soluções de cidade segura” que incluem reconhecimento facial, censura algorítmica, firewalls nacionais e bancos biométricos para Rússia, Irã e dezenas de outros regimes. As agendas de cada membro seguem direções próprias — a sobreposição é parcial, o que torna o alinhamento tático, não duradouro.³

Na fronteira entre Índia e China, os soldados não precisam de permissão dos generais para se enfrentar. Desde 2020, em passes de alta altitude no Himalaia — Galwan, Depsang, Gogra —, eles trocam golpes de barra de ferro, pedras e cassetes. Não há tiros — os dois lados sabem que uma escalada real fugiria ao controle. O que há são ossos quebrados, dedos amputados pelo frio, e o silêncio diplomático de Pequim e Nova Déli, que preferem não nomear o que acontece lá em cima. É o CRINK por dentro: a China e a Índia são parceiros no BRICS e adversários na crista do mundo, e a holding não tem mecanismo para resolver a contradição.

A América Latina costuma ser subestimada na literatura sobre o CRINK. Cuba, Venezuela e Nicarágua — o “triângulo autoritário” latino-americano — funcionam como satélites diplomáticos do bloco.

A Fundação Pulaski (Varsóvia, 2025) documenta no relatório The Axis of Upheaval como a guerra da Ucrânia aprofundou o alinhamento: a Rússia isolada voltou-se para a China como fonte de crédito e tecnologia; a China extraiu concessões da dependência russa; o Irã tornou-se fornecedor de drones em troca de tecnologia nuclear e caças Sukhoi; a Coreia do Norte trocou mísseis por alimentos, combustível e tecnologia espacial.

A USCC, em seu relatório anual de 2025, denominou o fenômeno Axis of Autocracy.

A este núcleo somam-se círculos concêntricos de diferentes graus de adesão. No círculo mais próximo, satélites consolidados: Bielorrússia, satélite russo; Cuba, Venezuela e Nicarágua; Síria; Mianmar, Laos e Vietnã. Num segundo círculo, regimes que oscilam entre o bloco autocrático e o Ocidente conforme a conveniência — entre eles, as monarquias do Golfo (Arábia Saudita, Emirados), além de Egito e Argélia. São autoritários em casa — e dependem de alianças ocidentais para segurança e comércio, o que os torna parceiros táticos do CRINK, não satélites permanentes. Na África, Angola, Uganda, RDC, Ruanda e Guiné Equatorial. Na Ásia Central, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão e Tajiquistão. Na Europa, a Turquia de Erdoğan atua como cavalo de Troia do autoritarismo dentro da OTAN.

A queda de Orbán foi um revés para a coalizão autocrática, mas não alterou a trajetória do núcleo CRINK.

O BRICS como arena diplomática

A principal ferramenta de articulação política do bloco autocrático é o BRICS, que passou por expansão dramática a partir de 2024. Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados tornaram-se membros plenos em janeiro daquele ano; a Indonésia aderiu em 2025.

O bloco representa 49,5% da população mundial, cerca de 40% do PIB global (em PPP) e 26% do comércio internacional. Números que pedem cautela: em PIB nominal e tecnologia avançada, o bloco é menor que sua retórica sugere — a China sozinha responde por mais da metade do PIB do BRICS em PPP. Dos onze membros plenos, nove são regimes abertamente autoritários. As duas únicas democracias — a África do Sul e o Brasil — são democracias eleitorais sob forte tensão. O Brasil vive em clima permanente de polarização que contamina cada decisão de política externa. Sob Lula (2023-2026), o país ocupa uma posição ambivalente: participa do BRICS ao lado de autocracias sem romper as alianças ocidentais que parte expressiva do eleitorado e do Congresso defende com fervor. A aposta no multilateralismo pragmático é real; a coesão interna para sustentá-la, frágil.

O BRICS funciona menos como bloco coeso do que como arena diplomática. As divergências internas são profundas: Irã e Arábia Saudita competem por hegemonia no Oriente Médio; Egito e Etiópia disputam os recursos do Nilo.⁴

A desdolarização tem realização modesta — o comércio intrabloco ainda usa o dólar em mais de 80% das transações.

O “Sul Global” é o nome novo de uma realidade que o Ocidente chamava de Terceiro Mundo — o rebranding trocou a definição pela carência por uma identidade geopolítica. Hoje, esta retórica tornou-se o véu ideológico do realinhamento autoritário. Para Applebaum, o clube tornou-se, para muitos de seus membros, não um projeto de libertação — um negócio.

Esta crítica, no entanto, corre o risco de soar tão unilateral quanto a retórica que combate. Intelectuais como o camaronês Achille Mbembe e o indiano Pankaj Mishra lembram que o Ocidente liberal tem um histórico real de intervenções militares, golpes patrocinados e hipocrisia diplomática — do Iraque à Líbia, do apoio a ditaduras anticomunistas à seletividade com que aplica seus próprios valores. Este histórico não justifica o autoritarismo: explica por que o discurso antiliberal encontra audiência no Sul Global. Ele não vence pelo mérito intrínseco, mas porque explora mágoas reais. Ignorar esta camada é fazer uma análise tão empobrecedora quanto a que reduz o mundo a “democracia versus tirania” sem perguntar quem financiou os tiranos.

Reconhecer a hipocrisia ocidental, no entanto, não é o mesmo que absolver o autoritarismo. É precisamente esta zona de ambiguidade moral que o bloco autocrático explora: enquanto o Ocidente se enreda em suas próprias contradições, a erosão avança por dentro das democracias — por mecanismos que não dependem de justificação moral para operar.

A arquitetura da erosão

O sistema autocrático não precisa conquistar as democracias pela força militar. A estratégia mais eficaz é a erosão molecular das instituições democráticas por dentro.

Levitsky e Ziblatt, em Como as Democracias Morrem (2018), mostraram que as democracias contemporâneas não morrem com tanques nas ruas, mas pela eleição de líderes autoritários que usam o aparato democrático para desmantelá-lo. Desse processo, quatro mecanismos merecem destaque.

O primeiro é a exportação de tecnologia de vigilância e censura. Polyakova e Meserole (Brookings) chamam o fenômeno de “autoritarismo digital”. Huawei, ZTE e Dahua vendem sistemas para mais de 100 países. O software Pegasus, da NSO Group, é vendido a regimes que o usam contra opositores, jornalistas e ativistas.

O segundo é a captura cognitiva por plataformas digitais. Num prédio sem placa em São Petersburgo, a Agência de Pesquisa da Internet ocupa um andar inteiro de concreto cinzento — cortinas sempre fechadas, ar-condicionado ligado mesmo no inverno siberiano, o zumbido baixo de servidores e monitores. Dentro, duzentas pessoas dividem turnos de doze horas numa sala de luz fluorescente que não vê o sol. Cada uma opera dezenas de perfis falsos: fotos roubadas de perfis reais de Oregon e Ohio, biografias copiadas de cidadãos que nunca saberão que existem num banco de dados russo. Escrevem comentários, fabricam indignação, semeiam discórdia entre americanos que discutem vacinas, imigrantes, eleições. O algoritmo do TikTok e do X faz o resto: amplifica, viraliza, polariza. O produto final não é uma mentira específica — é a destruição da própria categoria de verdade. O objetivo não é convencer ninguém de coisa alguma; é tornar impossível saber no que acreditar. Timothy Snyder capturou a lógica: “A pós-verdade é pré-fascismo.” Este ecossistema de desinformação, porém, não opera no vácuo — encontra nas big techs ocidentais um amplificador involuntário, mas estrutural, que constitui o terceiro mecanismo.

O terceiro é o papel das big techs ocidentais — capítulo que a literatura sobre erosão democrática frequentemente ignora. As plataformas sediadas no Vale do Silício são cúmplices objetivas do fenômeno que descrevem: seus algoritmos de engajamento maximizam a indignação, não a informação; seu modelo de negócio remunera a viralização da mentira; sua moderação errática oscila entre o laissez-faire e a censura arbitrária. Não se trata de má-fé — trata-se de arquitetura. O design das plataformas acelera a erosão que regimes autocráticos exploram, com ou sem coordenação direta. Um ensaio sobre a morte lenta da democracia que olha apenas para Pequim e Moscou está contando metade da história; a outra metade está num escritório em Menlo Park cujo produto é a atenção radicalizada. Big techs ocidentais e aparelhos de desinformação autocráticos não precisam de coordenação — o resultado é o mesmo: a morte lenta da democracia por dentro.

O quarto mecanismo é a sedução intelectual do “modelo chinês”: crescimento acelerado, ordem social estável, ausência de conflitos políticos. Opera por demonstração, não por conspiração.

O que funciona: democracia como resiliência

A força do Leviatã sem rosto é também sua fragilidade. Uma holding difusa não tem lealdade — tem conveniência. Quando os interesses divergem — e divergem, como demonstram os golpes de barra de ferro na fronteira indochinesa e a competição saudita-iraniana — a coordenação se desfaz mais rápido que se formou. O CRINK não sobreviveria a uma crise que exigisse sacrifício real de seus membros: a China quer expansão comercial; a Rússia quer segurança territorial; o Irã quer influência regional; a Coreia do Norte quer a sobrevivência do regime. São quatro agendas que se cruzam, mas não se fundem. O Leviatã sem rosto é forte enquanto ninguém lhe pedir que mostre o rosto.

A queda de Orbán não foi acidental, nem produto de fatores externos. O regime húngaro implodiu pelo mesmo mecanismo que o sustentara por dezesseis anos: a concentração de poder. Ao eliminar todos os contrapesos, Orbán tornou o Estado refém de seu próprio desempenho — e quando a economia desacelerou e os escândalos se acumularam, não havia instituição que o protegesse. A Polônia em 2023 e o Brasil no mesmo ano ensinaram a mesma lição: a via eleitoral funciona quando a sociedade civil, o judiciário e a imprensa resistem o suficiente para que o voto ainda signifique alguma coisa. A Ucrânia sob invasão mostrou algo mais profundo: democracias mobilizam lealdade voluntária; autocracias extraem obediência forçada. Uma sustenta exércitos; a outra, exércitos de vigilância.

O Brasil, em particular, é um caso que merece atenção. Em 2023, o país reverteu um projeto autoritário em curso pela via eleitoral — e, diferentemente de outras democracias que enfrentaram retrocesso semelhante, fê-lo sem ruptura institucional, sem intervenção militar, sem mediação internacional. O Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral funcionaram como contrapesos que grande parte da literatura de ciência política, muitas vezes cética quanto ao papel do Judiciário em democracias jovens, não previa (exceções como Tom Ginsburg e Diana Kapiszewski à parte).⁵ Essa atuação, porém, não esteve isenta de controvérsias: constitucionalistas como Conrado Hübner Mendes e Oscar Vilhena Vieira apontam que o STF adotou postura ativista, extrapolando competências constitucionais em decisões monocráticas e na interpretação de regras eleitorais, alimentando o discurso de deslegitimação que dizia combater. O contraponto institucional funcionou — mas o preço foi a judicialização da política e o tensionamento adicional entre os Poderes. A democracia brasileira não saiu fortalecida do processo — mas não sucumbiu. O que, em 2026, já é uma forma de vitória.

Applebaum oferece três frentes de resposta. A primeira é cognitiva: nomear o fenômeno não como “competição entre potências”, mas como confronto entre sistemas políticos fundamentalmente distintos. A segunda é estratégica: reconstruir uma política de contenção. A terceira é doméstica: reconstruir a democracia em casa. Martin Wolf, por sua vez, lembra que a maior ameaça à democracia liberal não vem de fora, mas de dentro — e que nenhuma política externa de contenção substitui a saúde das instituições domésticas.

A holding difusa se desfaz quando alguém pede que ela mostre o rosto. O que estava em jogo na Praça da Liberdade em Budapeste, na madrugada de 12 de abril de 2026, não era apenas a derrota de Orbán. Era a demonstração de que sociedades livres, quando lembram o que são, ainda podem vencer. Resta saber se esta geração terá memória — e, mais do que memória, instituições à altura do que está sendo lembrado.

Notas

¹ O Leviatã, na obra de Hobbes (1651), é a metáfora do Estado como gigante artificial. O uso aqui é deliberadamente irônico: o Leviatã contemporâneo não é uno, mas difuso. O autor escreve de dentro da tradição democrática liberal ocidental, e esta posição tem limites que reconhece: leitores de outras tradições — pós-coloniais, realistas, não ocidentais — podem identificar pressupostos que não estão aqui explicitamente problematizados.

² Os dados do V-Dem e da Freedom House, embora criticados por possível viés eurocêntrico, permanecem como os padrões mais rigorosos disponíveis.

³ Cada membro do CRINK persegue objetivos próprios que frequentemente colidem — a sobreposição é parcial, o que torna o alinhamento tático, não duradouro.

⁴ A classificação da Índia como autocracia eleitoral pelo V-Dem é controvertida: o país mantém eleições competitivas, judiciário atuante e imprensa vibrante — características que muitos classificariam como democracia imperfeita.

⁵ A literatura especializada não é unânime no ceticismo: autores como Tom Ginsburg (University of Chicago) e Diana Kapiszewski (Georgetown University) estudaram o papel contramajoritário do Judiciário em democracias jovens e em transição, oferecendo contraponto ao diagnóstico predominante que o texto descreve.

Referências

APPLEBAUM, Anne. Autocracia, Inc.: Os Ditadores Que Querem Governar o Mundo. Lisboa: Bertrand Editora, 2024.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

HUANG, Yasheng. Capitalism with Chinese Characteristics. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

LIPSET, Seymour Martin. O Homem Político. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

PEI, Minxin. China’s Crony Capitalism. Cambridge: Harvard University Press, 2016.

POLYAKOVA, Alina; MESEROLE, Chris. “Exporting Digital Authoritarianism”. Brookings Institution Policy Brief, 2019.

SNYDER, Timothy. Sobre a Tirania. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

WOLF, Martin. A Crise do Capitalismo Democrático. Lisboa: Gradiva, 2023.

Relatórios

CSIS. A New CRINK Axis of China, Russia, Iran and North Korea? 2025.

CNAS. The Axis of Upheaval: Military Cooperation Among Russia, China, Iran, and North Korea. 2025.

FREEDOM HOUSE. Freedom in the World 2026: The Growing Shadow of Autocracy. 2026.

PULASKI FOUNDATION. The Axis of Upheaval: Russia, PRC, DPRK, and Iran. 2025.

STRAUSS CENTER. China’s Authoritarian Exports. Austin, 2025.

USCC. “Axis of Autocracy”. Relatório Anual, nov. 2025.

V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era? 2026.

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.

 

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