Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais

O Estado pantagruélico
Uma coisa me incomodava bastante, quando eu finalmente me instalei, com todos os meus apetrechos e bagagens, nestas terras que me eram prometidas desde que aqui aportou uma tropa de navegantes no caminho das Índias. Os navegadores, todos buscando as riquezas que Marco Polo tinha visto em Cathay, mas que sabíamos de outras, mais prosaicas, nas Índias, buscavam justamente confirmar o que um dos meus patrícios da terrinha, tinha antevisto ainda antes de Tordesilhas: havia terras mais além daqueles mares nunca de antes navegados. Mas tínhamos de agir rápido, contra as pretensões dos furbos espanhóis, ajudados por aquele papa corrupto e fornicador, que tinha antes feito uma partição muito em nosso prejuízo. O que tinha ficado de Tordesilhas era pouco, comparado à vastidão das novas terras, mas essa limitação foi sanada dois séculos e meio depois, quando mais um daqueles espertos brazilienses, servindo na Corte de Lisboa, foi a Madri tratar de alargar minhas paragens. E não é conseguiu, traficando alguns mapas feitos por um francês experiente nessas matérias?
O fato é que as terras era muitas, e passaram a atrair muitos lusitanos, ocorrendo inclusive uma invasão exagerada deles, quando por aqui começou a aparecer ouro, pedras de diamante, e outras preciosidades. Eu já estava afeiçoado aos novos ermos e achava que estas paragens bravias deveriam pertencer prioritariamente àqueles mestiços que realmente desbravaram os sertões desconhecidos e selvagens. A invasão se repetiu, já com gente de mais fino trato, quando, a pretexto de fugir daquele imperador dominador à outrance, tinham vindo para cá levas e mais levas de fidalgos incapazes sequer de defender o reino contra os trôpegos soldados de Junot, além de centenas de cortesãos que só sabiam viver às expensas do Tesouro Real.
Bem, mas eu já contei essa história, assim que vamos passar adiante. O rapazote que fazia figuração de imperador vivia cercado desses cortesãos que por aqui haviam ficado, depois que o seu augusto pai tinha sido recambiado para a minha antiga metrópole (o que ele jamais aceitou de bom grado, pois se afeiçoara aos modos daqui). Afinal de contas, tinha sido um diplomata de um porto paulista que tinha alargado os meus domínios sobre algumas terras pretensamente espanholas, e tinham sido aqueles caçadores de índios da mesma capitania que foram abrindo caminhos nos ermos do planalto central, fazendo filhos com as índias das quais se apossavam. Quando veio a separação, era o caso de os lusitanos partirem, para que eu assim ficasse com os meus brasilienses, que tanto haviam lutado para tomar a si o comando do Estado. Mas muitos lusitanos teimavam em ficar, a mando do príncipe convertido abusadamente em imperador nos meus domínios. Bem fizeram os bravos pernambucanos que, por duas ou três vezes, andaram atacando aqueles que os exploravam no comércio e nos demais negócios, com a consigna até exagerada de “mata marinheiro!” Eles até tentaram a república, umas duas vezes, mas estavam muito longe da capital para serem bem-sucedidos. Foi uma pena, pois um Brasil pernambucano teria sido muito melhor.
Enfim libertos dos antigos reinóis – não sem antes deixarem o meu primeiro banco totalmente carente de lingotes e patacões –, passei a governar o que era finalmente o Brasil, mas tendo de me valer de uma nova malta de aproveitadores pretensamente patriotas: eram os velhos traficantes locais, os latifundiários que herdaram as antigas sesmarias, os arrivistas de toda espécie, alguns até de boa índole, que tinham estado nas Cortes, na Constituinte, e que depois se ajeitaram nos novos encargos do Estado em construção. Como não quiseram romper com o sistema monárquico – a pretexto de defender a unidade nacional, então sob ameaças separatistas de várias revoltas provinciais, ao norte e ao sul –, se arranjaram num sistema muito instável de regências, enquanto o rebento da dinastia bragantina não deixasse a tenra infância para alcançar a maioridade. Que só veio por um golpe, mais um, como parece ter virado um costume nestas terras de paixões desabridas.
Nas brigas entre os dois clãs políticos, liberais e regressistas, acabaram por fazer um ajuste próprio aos arranjos exóticos numa terra dada a todo tipo de expediente: promoveram o rapaz a imperador antes do tempo, com a vantagem de que ele tinha sido educado por aquele velho Andrada, que era tido por um dos “pais da pátria”. Pelo menos parece ter lhe dado um bom conhecimento da literatura e das coisas da natureza, por tinha sido membro de diversas academias europeias. E assim me instalei, de manto e coroa, ainda aprendendo esse ofício de governar, que não parece ser tão difícil numa terra em que se plantando tudo dá, como dizia um daqueles escrevinhadores dos primeiros tempos. Parece que se acertaram com aquela fruta etiópica, chamada de café, que me trouxe muita riqueza durante mais de 200 anos.
Não tardou quatro anos do início do novo reinado, para que eu, instruído por alguns oligarcas experimentados, me decidisse por dar fim aos tratados desiguais que nos prendiam aos astutos ingleses desde as priscas eras dos Braganças, muito em especial com o espoliador tratado comercial de 1810. O marquês de Caravelas – sim, todos os oligarcas bajuladores viraram barões, marqueses ou duques, vários mediante pagamento – arranjou uma nova pauta aduaneira que começou a sugar libras-ouro, patacões ou mil-réis para as minhas caixas exauridas, na tributação dos bens importados e, também, das matérias primas exportadas, com destaque para o café, que começava a desbancar os velhos produtos da terra, o açúcar, os couros e os demais. Fiquei à larga por alguns anos, com saldos crescentes nas contas externas, até que alguns malditos vizinhos, primeiro um tal de Rosas, ditador do Prata, depois um pretendente a Napoleão paraguaio, o tal de Lopez, viessem acabar com minhas reservas, em duas guerras sucessivas, que nos deixaram com o duvidoso epíteto de “imperialistas”.
Também tivemos vários entreveros com os arrogantes ingleses, que se acreditavam os donos do Atlântico e de outras paragens, apresando nossos navios negreiros, até em águas territoriais, nos forçando por todos os meios a terminar com o rendoso comércio. O tal de Lorde Aberdeen chegou inclusive a equiparar o tráfico à pirataria, com o que pretendiam jogar pela prancha, aos tubarões, os honrados capitães dos navios negreiros. Aquilo foi um verdadeiro absurdo, como argumentaram em notas ao Foreign Office os meus diplomatas, pois que o tráfico escravo era perfeitamente legal (pelo menos para nós) e ele não ameaçava o comércio legítimo como os verdadeiros piratas, microempresários do crime em causa própria. Tudo muito diferente dos corsários, médios empresários a serviço das coroas, sem esquecer que eles dividiam o botim com os soberanos que lhes davam cartas patentes. Sim, cabe não esquecer que foram corsários ingleses – Fulton, Drake, Cavendish – que infestaram as nossas costas durante séculos, saqueando portos e navios, antes de se aventurarem nos portos mais ricos do Pacífico e das ilhas do Caribe, de onde saíam ouro e prata nos galeões espanhóis.
Além do fato que os ingleses nos espoliavam mais sutilmente pelos empréstimos na City, o que éramos seguidamente compelidos a fazer, também com lucros extorquidos no próprio ato dos contratos de financiamento (e que nunca relutamos em pagar); antes de começar o meu segundo reinado houve até um empréstimo dito “ruinoso”, do qual só nos veio a metade do que foi contratado, pois isso foi logo depois que tive de encerrar o primeiro Banco do Brasil, completamente inadimplente em 1829.
Minha diplomacia não era sobranceira, nem descortês com os enviados que aqui arribavam, mas alguns dos ministros que por aqui chegavam como representantes de Sua Majestade Britânica se comportavam da forma mais arrogante possível. Tive até de romper relações diplomáticas, por esse mesmo motivo, com a Corte de St. James, por infelicidade ao mesmo tempo em que eu era obrigado a me meter em novas aventuras no Prata, o que nos privou de acesso à praça londrina durante algum tempo. Mas, quando se instalou a “maldita guerra” voltamos para novas contratações, inclusive sob a forma de funding loan, que era quando não podíamos resgatar o principal, e tínhamos de jogar tudo para a frente..
O fato é que os mesmos oligarcas que se locupletavam nos gabinetes (muitos) do meu Estado não fizeram quase nada para estimular novos negócios, além do café e poucos outros produtos de exportação. Não só eram inoperantes, como entravavam os negócios dos que queriam abrir novas frentes de trabalho, como o ativíssimo banqueiro e empresário Mauá (que chegou inclusive a atuar como provedor informal de empréstimos para nossos amigos no Prata, depois ressarcido com concessões na capital e em províncias longínquas). Tiveram até a petulância de expropriar o segundo Banco do Brasil que ele tinha criado com o seu alto tino de financista, sendo que o segundo e o terceiro banco do mesmo nome foram à falência ainda antes do final do meu reinado, pelos acintosos atos de corrupção que esses novos banqueiros de araque praticavam nos conluios políticos. Suspeito que essa mania perdurou…
Valendo-me do dispositivo constitucional do Poder Moderador – esperteza que o primeiro imperador buscara num dos manuais de Direito de um tal de Benjamin Constant –, eu não hesitava em acabar extemporaneamente com um ou outro gabinete de ministros, não importando que fossem Liberais ou Conservadores, e dele fiz tanto uso que meus críticos diziam que eu vivia numa monarquia presidencialista. Não me importavam os ataques, desde que eu consentisse que eles pudessem conservar a maldade mais renitente que assegurava a paz do reino, que era o nefando regime da escravidão. Tanto foi assim, que enquanto durou a iniquidade, a monarquia se manteve; foi só terminarem com esse esteio da nação produtora que o Império veio abaixo, num complô entre republicanos sonhadores e militares vingativos.
Mas como o Estado opressor é eterno – como eu já afirmei nestas minhas memórias, a que chamam de autobiografia – os mesmos oligarcas patrimonialistas continuaram, como de hábito, mandando no país, controlando todos os gabinetes do meu Estado, apenas que, depois de mais um golpe, terminou por ser o início de um novo regime. O velho monarca, que dizia me representar dignamente, foi embarcado às pressas para a Europa, deixando muitos monarquistas saudosistas, à espera de algum novo golpe regressista (essa mania nunca terminou por aqui, mas os Braganças que sobraram não prestavam para muita coisa).
Os nossos jacobinos quiseram imitar os franceses, introduzindo como saudação o slogan ridículo de “Saúde e Fraternidade” nas novas comunicações oficiais. Os republicanos ilustrados também quiseram imitar a grande república do Norte, trocando o meu nome para “Estados Unidos do Brasil”, num exagero de federalismo que tive de cortar mais adiante, pois os estados começaram a gastar à tripa forra, tomando empréstimos e mais empréstimos com os banqueiros da belle époque, o que logo se revelou insustentável (e tome mais funding loans, com a garantia das alfândegas, as únicas a produzir alguma receita).
Monarquistas saudosos, sobretudo os aristocratas da Armada, ainda tentaram um golpe, mas um segundo presidente militar, apodado de “Marechal de Ferro”, mandou combatê-los a ferro e a fogo. Tudo isso junto a uma tremenda crise econômica provocada pelo ministro da Fazenda inaugural do novo regime, chamada de “Encilhamento”, que deu início um ciclo de insolvências que perdurou por quase toda a extensão da República do “café-com-leite”. O “meu” Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5347, 9 junho 2026; revisão 8 julho 2026, 5 p.
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