Transcrevo abaixo notas preparadas parra uma entrevista concedida nesta data a um jornalista, Leonardo Macachero, da agência citada abaixo, que costuma defender os pontos de vista da Rússia nsa relações internacionais
Liderança pessoal no contexto diplomático
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Notas para entrevista telefônica concedida a jornalista da agência de notícias Sputnik Brasil, em 13/07/2026.
Recebi novo convite da agência de notícias Sputnik Brasil para tratar de uma série de questões relativas à diplomacia, em geral e com relação ao Brasil. Transcrevo as questões apresentadas e formulo a priori minhas ideias a respeito de cada uma delas.
1) Quando falamos em diplomacia, a gente pensa, em um primeiro momento, na relação entre Estados. Qual é o peso da figura do líder nesse processo? Também pesa?
PRA: Diplomacia é o termo genérico para as relações internacionais; é um universo composto de três esferas interconectadas e interpenetráveis: a política internacional, ou seja, o contexto mais amplo no qual atuam os Estados soberanos, comportando um sistema político multilateral (por exemplo, a ONU), um sistema de relações econômicas internacionais (Gatt-OMC, Bretton Woods etc.); em segundo lugar, a política externa dos Estados soberanos (com relações bilaterais, plurilaterais, entre blocos e grupos de países); e, finalmente, a diplomacia estrito senso, que é a ferramenta pela qual e com a qual se articulam as relações diplomáticas, de cooperação (econômicas, culturais, ou até militares), inclusive eventuais conflitos entre os países, podendo redundar em enfrentamentos bélicos, o que representaria o fracasso da diplomacia.
Os Estados são entidades reconhecidas, mas atuam e se relacionam por meio de governos constituídos, que são liderados por representantes eleitos democraticamente ou que são dominados por ditadores geralmente não eleitos (mas alguns assumem a postura depois de eventualmente eleitos). Líderes podem ser, portanto, temporários, ou mais ou menos “estáveis”, no caso de reeleições contínuas ou autocracias.
Os líderes têm importância nesse quadro, pois são eles que determinam as diretrizes ou grandes orientações para a política externa dos Estados, nos planos bilateral, plurilateral, regional ou multilateral, de forma mais determinativa nos sistemas presidencialistas ou ditatoriais, de forma mais consensual e coletiva nos casos de regime parlamentaristas. O peso dos líderes depende, portanto, da estrutura e do funcionamento dos governos respectivos, sendo ele mais relevante no caso de regimes personalistas, mais diluído nos sistemas de tipo parlamentar. Exemplos concretos: líderes autoritários como Putin, Xi Jinping, Kim Jon-Un, Trump detêm um poder indisputado na formulação e execução da política externa de seus respectivos Estados, sendo inclusive responsáveis pela forma de operar a diplomacia. Líderes democráticos, como na maior parte dos sistemas parlamentares em regimes de mercados livres, precisam negociar com seus respectivos parlamentos, outros líderes partidários e a própria sociedade as orientações a serem dadas à política externa e à diplomacia.
2) Existe, na Ciência Política e nas Relações Internacionais, um conceito para explicar a influência das relações pessoais entre chefes de Estado?
PRA: Não exatamente um conceito formalizado, mas se pode falar de uma diplomacia presidencialista ou de cúpula, quando as relações entre Estados são conduzidas diretamente pelos chefes de governo ou de Estado, podendo também existir relações de confiança, de amizade ou até de alianças formais estabelecidas no plano pessoal entre eles. Em sistemas democráticos tais relações pessoais se submetem ao escrutínio dos demais membros do governo – entre os partidos de uma coalizão, por exemplo – e ganham maior consistência, ao passo que nos regimes autocráticos essas relações pessoais podem envolver considerações de mais curto prazo, ou de interesse oportunista, cabendo também certa dose de hipocrisia, uma vez que os humores ou interesses pessoais desses autocratas podem variar significativamente em função de circunstâncias específicas e de interesses temporários. Regimes personalistas costumas ser mais instáveis do que sistemas políticos caracterizados, na terminologia weberiana, por tipos de dominação racional-legal, em contraste com os tipos tradicionais ou carismáticos.
3) Uma boa relação entre dois presidentes pode acelerar negociações que normalmente levariam meses ou anos?
PRA: Sem dúvida, pois eles podem superar certos temores corporativos ou dificuldades burocráticas superficiais, mas existe também um grande risco embutido nesse tipo de situação, pois que um líder político – presidente, primeiro ministro, ditador – pode até ser um experiente e sofisticado administrador, competente nas principais áreas de governo, mas isso é mais raro, e a verdade é que nenhuma personalidade pública, eleita ou não, pode dominar toda a complexidade funcional de um moderno Estado inserido plenamente na política global.
4) Isso já aconteceu em algum momento na história? Poderia citar quais casos?
PRA: Sim, em diversos momentos, reis, ditadores, presidentes, chefes de gabinete podem chegar a dirimir dificuldades que perduraram durante décadas ou até mais. Inglaterra e França se combateram durante séculos no contexto europeu, mas num determinado momento, no âmbito do império bonapartista, decidiram estabelecer um acordo de livre-comércio entre ambos os países – o tratado Cobden-Chevalier – que lançou uma onda de acordos similares de liberalização tarifária entre vários outros países. Alemanha e França se combateram em três grandes guerras, uma exclusiva, duas conflitos globais, entre 1870 e 1945: em 1950, o Memorando Schuman lançou a semente do primeiro tratado supranacional entre os dois Estados, envolvendo ainda Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo e Itália, o Tratado de Paris de 1951 criando a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, base dos tratados ulteriores de Roma, em 1957, criando o Mercado Comum Europeu e outras instituições baseadas no mesmo princípio da supranacionalidade. Mais tarde, De Gaulle e Ludwig Erhard, a despeito de diferentes visões políticas, consolidaram a construção das comunidades europeias.
Outro exemplo, de caráter ainda mais pessoal, foi a relação de confiança construída entre Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, no contexto do enfrentamento contra as potências fascistas militaristas e expansionistas, com a assinatura da Carta do Atlântico (em agosto de 1941), que estabeleceu a base doutrinal da futura Carta das Nações Unidas.
5) Até onde vai a influência da afinidade pessoal? Ela pode superar divergências ideológicas ou interesses estratégicos?
PRA: Eventualmente sim, dependendo da gravidade dessas divergências, que podem ser de origem personalista, ou da extensão dos interesses estratégicos, que dependem de fatores mais estruturais, portanto, menos contingentes. Churchill era um liberal, Roosevelt um socialdemocrata; o Reino Unido fazia discriminação comercial contra os EUA e mantinha um império fechado ao comércio e investimentos americanos, o que não os impediu de construir uma relação especial que se manteve durante décadas, sendo terminada mais recentemente, por obra do unilateralismo trumpista. Na redemocratização argentina e brasileira dos anos 1980, a confiança entre Alfonsin e Sarney em muito contribuiu para acelerar o processo de integração entre os dois países. Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso mantiveram uma amizade pessoal que permitiu superar certos entraves diplomáticos e militares entre os dois países, inclusive um acordo para o uso da Base de Alcântara, depois sabotada no âmbito do Congresso brasileiro (mas também visto com desconfiança pelos “falcões” de Washington. Personalidades que se conheceram durante guerras e conflitos entre seus respectivos países podem criar pontes de confiança e de amizade que depois frutificam em situações de normalidade democrática (inclusive entre colonizador e colonizado, por exemplo).
6) É possível que dois países tenham divergências importantes, mas mantenham uma boa cooperação graças à relação entre seus líderes?
PRA: Perfeitamente possível, mas os impulsos pessoais precisam ser muito fortes para superar barreiras burocráticas ou situações geopolíticas contrastantes. As relações entre a França e a Alemanha, por exemplo, sempre foram muito difíceis, dado um passado de guerras e até um presente com visões divergentes sobre a união europeia, enquanto projeto de caráter supranacional, e os compromissos atlantistas de cada um dos países; mas, as reuniões de consulta, institucionalizadas, desde muito tempo permite aos respectivos líderes se entenderem sobre a agenda a ser apresentada aos demais membros da União Europeia. Nem sempre isso é possível: o Reino Unido se esforçou durante décadas por ingressar nas CEE, mas as péssimas relações entre os líderes britânicos (desde Margaret Thatcher) e os demais europeus o mantiveram fora do projeto de moeda comum e, subsequentemente, criaram a decisão de se retirar do projeto comunitário.
7) Donald Trump afirmou recentemente que tem "química" com Lula. Em termos diplomáticos, uma declaração como essa tem algum significado prático ou é apenas um gesto político?
PRA: Não tem nenhum significado prático, nem se trata de um gesto político; é pura hipocrisia, de ambas as partes, para fingir que as coisas podem ir bem entre os dois líderes, a despeito de um oceano de distância entre ambos, radicalmente opostos em tudo, menos talvez no populismo, do qual são ambos adeptos, embora de tipos e por motivos diferentes. Essa suposta “química” não tem nenhuma consistência, pois o personalismo de cada um supera quaisquer outros fatores de possível aproximação. A hostilidade entre os dois presidentes subjaz a quaisquer posturas que pretendam assumir publicamente, para consumo da mídia.
8) Ao mesmo tempo, Trump mantém uma relação próxima com Jair Bolsonaro e sua família. Como isso pode influenciar a relação entre Washington e Brasília?
PRA: Trump não mantém nenhuma relação próxima com Bolsonaro, apenas pretende usar a predisposição à submissão do brasileiro para seus objetivos pessoais, aliás sempre confusos e sem uma estratégica clara ou eficiente de liderança hemisférica. Trump não tem nenhum respeito por qualquer líder estrangeiro, a não ser de forma suspeita em relação a Putin (por motivos que talvez algum dia venham a público) e em relação a Xi Jinping, pois se trata de um “cachorro muito grande” para impor sua dominação, como tenta fazer com todos os demais líderes democráticos. Portanto, estamos falando de um líder egocêntrico, que só pretende a submissão dos Bolsonaros, envolvendo não a relação institucional entre os dois países, mas negócios nos quais Trump e sua tropa possam tirar vantagens exclusivas. Trump não trabalha para os Estados Unidos, mas para si próprio, o que é exatamente o caso da família subserviente que busca agradá-lo, envolvendo o Brasil nessa relação assimétrica.
9) Essa proximidade com Bolsonaro pode criar algum constrangimento para a diplomacia brasileira ou o governo tende a separar as relações institucionais das relações pessoais?
PRA: Difícil dizer, pois Trump e Bolsonaro não atuam como estadistas, mas sim como chefes de gangues políticas motivadas por interesses pessoais, não nacionais. As duas diplomacias corporativas são constrangidas de forma constante pelo arbítrio pessoal dos dois autocratas, o primeiro bem mais poderoso, obviamente, do que foi o segundo por ocasião de seu horroroso mandato: teve de recuar várias vezes na sua hostilidade para com a China, no seu endeusamento de Israel e em diversos outros dossiês da agenda externa, pois que estava prejudicando os interesses de importantes setores da economia brasileira. Bolsonaro, por exemplo, foi praticamente obrigado a demitir o seu primeiro chanceler acidental porque ele estava prejudicando os interesses do agronegócio nas relações com a China. Personalidades autocráticas como Trump e Bolsonaro (e seu rebento candidato) ignoram por completo as relações institucionais de cada um dos países, assim como o impacto do arbítrio pessoal sobre as respetivas diplomacias nacionais. Governos personalistas, e arbitrários, como no caso dos dois autocratas em sistemas formalmente democráticos, costumam justamente misturar e confundir as relações de Estado a Estado com suas relações pessoais esquizofrênicas.
10) O Itamaraty costuma trabalhar justamente para evitar que mudanças de governo ou afinidades pessoais comprometam a política externa?
PRA: Pode tentar, mas por vezes é difícil. Bolsonaro atuou em favor de Trump durante a contestação que este fez contra a vitória de Biden nas eleições de 2020, inclusive no triste episódio do 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio (que provavelmente serviu de exemplo e modelo para a preparação do putsch tentativo de 8 de janeiro de 2023 contra os três poderes em Brasília). Nunca pretendeu enviar um telegrama de cumprimentos pela vitória de Biden e não tinha nenhuma intenção de reconhecer sua presidência: o Itamaraty, já sem o fanático olavista da primeira fase, envidou o máximo esforço para evitar maiores constrangimentos nas relações entre os dois Estados e governos. O mesmo ocorreu já sob Lula, que cometeu a impropriedade – e tremendo equívoco constitucional – de declarar seu apoiou à candidata democrata nas eleições de 2024, o que o Itamaraty jamais recomendaria. Ou seja, Trump já começou o seu segundo mandato com uma disposição negativa em relação a Lula, o que seria totalmente dispensável se o presidente fosse melhor instruído pelo corpo diplomático profissional. Diplomacias excessivamente personalistas, como são, ou foram, as três – Trump, Bolsonaro e Lula – sempre causam problemas, seja à direita ou à esquerda.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5397, 11 julho 2026, 6 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (13/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/lideranca-pessoal-no-contexto.html).
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