sábado, 4 de julho de 2026

Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824 - Paulo Roberto de Almeida

 Hoje é 4 de julho de 2026: 250 anos da Declaração de independência das 13 colônias americanas com respeito à monarquia britânica. Abaixo um trabalho sobre as relações dos Estados Unidos com o Brasil desde a nossa independência, sob a forma de respostas a questões de um jornalista.


Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

1) De 1824 até agora, seria possível selecionar até cinco eventos, fatos, acordos ou tratados que envolveram o Brasil e os Estados Unidos que marcaram as relações entre os dois países?

PRA: O próprio reconhecimento precoce da independência de uma monarquia constitucional pelo governo americano, em 1824, antes das monarquias europeias, e da própria metrópole, representa um gesto importante no plano político hemisférico, mas enquadrado conjunturalmente na proclamação, um ano antes, da chamada Doutrina Monroe, uma postura de oposição à eventual reconquista das antigas colônias ibero-americanas pelas monarquias europeias da Santa Aliança.
Mais adiante, a entrada pelo rio Amazonas, em 1851, sem prévia autorização do Império, de um tenente da Marinha americana foi objeto de reclamações formais por parte do governo imperial, por ter havido fraude a pretexto de “expedição científica”. Desde o final da guerra civil americana, os EUA se converteram no maior importador de café brasileiro, cuja venda sempre representou um saldo significativo para o Brasil na sua balança bilateral.
Em 1889, o Império havia respondido ceticamente à proposta americana de uma união aduaneira hemisférica, tal como formulados pelo governo americano, por desejo de conservar relações privilegiadas com países europeus. A mudança de regime, no curso da conferência, alterou as instruções da delegação brasileira num sentido americanista.
A mudança de governo e de regime, em 1889, suscitou uma primeira onda de americanização na jovem República do Brasil, tanto é assim que o novo regime passou a se chamar de “Estados Unidos do Brasil”, e sua primeira constituição republicana, em 1891, espelhou diversos dispositivos da Carta americana, sob influência do federalismo de Rui Barbosa. Um acordo de comércio favorável amplamente aos EUA foi negociado logo ao início do novo regime, mas derrogado poucos anos depois pelo protecionista McKinley.
A revolta da Armada, em 1893, no governo de Floriano Peixoto, com o bloqueio da Baía da Guanabara, contou com o apoio decisivo de uma armada americana, mobilizada para permitir a passagem de barcos cargueiros, mobilizados justamente para furar o bloqueio.
A longa gestão Rio Branco, de quase dez anos à frente da chancelaria (1902-1912), representou uma nova orientação da política externa. no sentido de refletir a ascensão dos EUA sobre os assuntos do mundo. As boas relações não impediram uma denúncia contra o Brasil em cortes americanas contra o “comércio desleal” do Brasil no setor do café, ação motivada pela política de valorização do produto, ou seja, retenção de estoques para empurrar os preços para cima. Na mesma época, bancos de NY começaram a participar na emissão de títulos externos da dívida oficial brasileira.
Os anos 1930 representaram os maiores desafios para o que se poderia chamar de primeiro envolvimento do Brasil na geopolítica mundial, com pressões dirigidas pela Alemanha e pelos Estados Unidos em prol de relações econômicas e financeiras preferenciais no quadro da Grande Depressão, e da retração protecionista em quase todos os mercados. O Brasil contraiu um acordo de comércio liquidado não em divisas, mas em mercadorias, com a Alemanha, sob protestos americanos. Ao mesmo tempo conseguia renegociar algumas de suas dívidas com os credores americanos, com o apoio do Tesouro. Mais adiante, no curso da guerra, o chanceler Oswaldo Aranha conseguiu consolidar uma precoce aliança em apoio aos EUA, logo após Pearl Harbor (7/12/1941), convocando uma reunião extraordinária dos chanceleres hemisféricos, hipotecando solidariedade ao país atacado, em janeiro de 1942. Foi também um dos primeiros beneficiários dos Lend-Lease Agreements, de cessão de material e equipamentos militares americanos e programas de apoio econômico durante a guerra, no quadro das Nações Unidas. Mesmo tendo a Alemanha oferecido ajuda na construção de uma siderúrgica, foram os EUA que viabilizaram o grande investimento da U.S. Steel na construção de Volta Redonda, um primeiro grande marco na industrialização brasileira. Roosevelt se entreteve com Vargas, num encontro em Natal, que marcou o ingresso efetivo de forças brasileiras na guerra europeia contra o nazismo.
O imediato pós-guerra representou uma segunda americanização do Brasil, bem mais afirmada, pois os EUA eram os únicos países dotados de recursos para viabilizar programas de reconstrução (nos países europeus e no Japão) e de desenvolvimento, nos aliados da primeira Guerra Fria. Uma Comissão Mista Brasil-EUA, firmada por Truman e Dutra, em 1949, oferece um primeiro mapeamento completo da economia brasileira.
Em duas oportunidades, o governo brasileiro sugere a criação de uma espécie de novo Plano Marshall para a América Latina, sem sucesso porém: na conferência de criação da OEA, em Bogotá, em 1948, e já no governo Juscelino Kubitschek, em 1958, por meio da primeira iniciativa da diplomacia multilateral do Brasil, a Operação Pan-Americana (o único resultado foi a fundação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em 1960).
Seu relatório, divulgado já no governo Vargas constitucional, sugere a criação de um banco de desenvolvimento, de um banco central e de diversos outros empreendimentos nessa área. Foi ainda no governo Vargas (1953) que se firmou um acordo de assistência militar que selou a vinculação entre os dois países, só suspendido pelo Brasil no governo Geisel (1977), por “interferência americana” nos assuntos internos do Brasil, no caso, relatório sobre direitos humanos requerido pelo Congresso para programas de ajuda. As relações, antes amigáveis, nos governos Nixon-Medici (inclusive pela participação do Brasil no golpe de Pinochet contra Allende, em 10973), se deterioram sob Geisel, a despeito de um acordo de consultas mútuas entre Azeredo da Silveira e Henry Kissinger.
Os EUA, seus bancos e funcionários do Tesouro, desempenharam um papel positivo durante a primeira crise da dívida latino-americana, nos anos 1980, quando o Brasil precisou de vários acordos stand-by com o FMI, o que continuou nos anos 1990. Os governos Lula, a despeito de uma aparente cordialidade com Bush filho, foram discretamente antiamericanos, não só formulando esquemas puramente latino-americanos de consulta e coordenação (a exemplo da Unasul, excluindo a OEA e os EUA), mas abertamente sabotadores de uma grande iniciativa americana, a Alca, sabotada em 2006 na conferência de cúpula de Mar del Plata, numa aliança Chávez-Lula-Kirchner. Antes disso, Lula se movimentou para impedir a invasão americana no Iraque, mas recebeu alertas do governo Bush para não se mostrar muito ativo nessa matéria: para realizar seu intento, o governo Bush conseguir “expelir” o diretor brasileiro da OPAQ, ainda no final do governo FHC.
As relações foram superficialmente cordiais durante o governo Obama, a despeito das revelações sobre espionagem da NSA sobre comunicações do governo e de empresas estatais do Brasil, o que causou a suspensão da visita de Estado que Dilma Rousseff pretendia fazer aos EUA em sua primeira gestão (2013). Michel Temer, por sua vez, se surpreendeu, numa de suas participações na Assembleia Geral da ONU, com um convite, formulado por Trump 1, num jantar oferecido a presidentes da América Latina, para participarem de um golpe contra o regime chavista da Venezuela: a diplomacia brasileira obviamente sabotou essa tresloucada aventura militar (que foi novamente tentada ao início de Bolsonaro).
As relações do governo Bolsonaro com Trump 1 foram de vergonhosa submissão, tanto é que nem cumprimentou Joe Biden por sua vitória em 2020, e até colocou em dúvida a lisura dessas eleições, tanto quanto o fez, sistematicamente, em relação aos pleitos brasileiros conduzidos por votação eletrônica. Altos funcionários americanos – Jake Sullivan, do NSA, e William Burns, da CIA – visitaram o Brasil em 2021 e 2022 para demonstrar abertamente a oposição do governo americano a qualquer tentativa de golpe continuísta de Bolsonaro.
Lula perpetrou o gesto indelicado, antidiplomático e até contra as regras expressas das convenções internacionais e da própria Constituição brasileira, ao interferir abertamente nas eleições americanas de 2024, apoiando a candidata democrata, derrotada por Trump 2. As relações entre ambos nunca foram de amizade, sequer de aproximação formal, no contexto das insanidades tarifárias do segundo governo Trump e da sua interferência direta no direito interno do Brasil, ao pleitear extinção do processo contra os golpistas da tropa Bolsonaro, chegando a escrever essa intromissão em carta aberta dirigida a Lula. Diplomatas e homens de negócios atuaram para permitir um primeiro entendimento para minimizar os conflitos econômicos e políticos – totalmente ilegítimos, pois que baseados em legislação unilateral dos EUA ou a expressando arrogância imperial da administração Trump – mas as ameaças de imposição de sobretaxas abusivas continuam pairando numa relação bilateral que pode ser considerada a pior possível em mais de dois séculos de relações diplomáticas. No momento presente, parece ser visível o programado apoio do governo Trump a um governo de extrema-direita nas eleições de outubro, preferencialmente o candidato ungido por Bolsonaro. Tudo indica que as relações possuem grandes chances de se deteriorarem ainda mais no futuro previsível.

2) Como o senhor avalia a qualidade e a importância atual dessa relação?

PRA: Ela sempre foi, no plano histórico, a mais importante relação diplomática, econômica, financeira, cultural e geopolítica, desde praticamente o final do século XIX, quando os EUA se convertem no principal parceiro brasileiro em todas essas vertentes, o grande fornecedor de financiamento, tecnologia e de assistência militar durante o último século, com altos e baixos no plano econômico comercial relativamente administráveis. No plano geral, elas não foram só basicamente corretas, no estrito plano diplomático, como substancialmente benéficas, aos dois países, ao permitir o acesso pelo Brasil a padrões superiores nos planos econômico, educacional, tecnológico e até “geopolíticos”, em todas as áreas abertas à cooperação bilateral e até regional, mas igualmente aos EUA, ao oferecer uma interface hemisférica que jamais representou algum tipo de ameaça aos interesses dos EUA.
A situação atual indica uma séria deterioração dessa relação, sendo que o governo Trump é o responsável direto e irrecusável pela presente situação, não exclusivamente dirigida contra o Brasil – pois que as insanidades tarifárias e o desrespeito a regras mínimas de correção diplomática, de cortesia ou de simples falta de desejo de qualquer entendimento razoável sobre as relações erga omnes, dirigidas contra todos os países, à exceção da Rússia de Putin –, mas com o potencial de atingir mais fortemente o Brasil, tanto por ser, aparentemente, o país mais irredutível do hemisfério, como pelos efeitos de uma diplomacia presidencial excessivamente personalista conduzida por Lula, em seus arroubos improvisados.
As turbulências no sistema internacional já tinham começado com as aventuras militares russas na Crimeia e na Ucrânia, em 2014 e a partir de 2022 até aqui, mas elas conheceram uma complacência pouco conhecida segundo os padrões diplomáticos do Brasil, desde o governo Dilma (invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, sem qualquer postura compatível com a doutrina jurídica nacional, de absoluto respeito às normas mais elementares do Direito Internacional), mas foram acentuadas extraordinariamente a partir do governo Lula, que não só apoiou resolutamente a postura ilegal do governo Putin, como continuou sustentando objetivamente seu esforço de guerra, ao aumentar em níveis exponenciais as importações de fertilizantes e combustíveis russos, em total desacordo com o espírito e a letra da Carta da ONU, que comanda solidariedade e apoio a um governo sujeito a uma usurpação territorial ilegal e agredido brutalmente ao longo de todos esses anos.
Pode parecer paradoxal, mas o indisfarçável desapreço do lulopetismo diplomático pelo “imperialismo americano” encontra um terreno comum de convergência entre Lula e Trump, quando ambos atuam, de modo claro, em apoio às ações e objetivos de Putin, não apenas na Ucrânia, mas em várias outras vertentes das relações internacionais, pois os dois grandes dirigentes autocráticos parecem empenhados, por vias diversas, ao objetivo de se conformar uma “nova ordem global multipolar”, consigna à qual Lula já emprestou por diversas vezes seu apoio claro e aberto. Ninguém sabe, se, como ou quando será possível alcançar tal projeto lunático, mas Trump alimenta certamente o sonho de se sentar com os três grandes líderes imperiais, numa espécie de Yalta 2, conformando uma nova divisão do mundo em zonas de influência de cada um dos “impérios”. Xi Jinping certamente não se prestará a esse tipo de paródia, mas Lula sempre buscou se aproximar dos grandes líderes do poder mundial. Não se fazem mais conferências diplomáticas como antes...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5381, 30 junho 2026, 5 p.

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