quarta-feira, 8 de julho de 2026

Uma nova Internacional Autoritária? - Paulo Roberto de Almeida

                   Uma nova Internacional Autoritária?

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre a grande divisão mundial entre autocracias e democracias


Existe, isso está claro, uma certa solidariedade por diversos motivos, entre regimes e líderes autoritários.

Sempre houve esse tipo de coalizão entre, de um lado, governos que atuam mais pela força do que pelo Direito, e, de outro lado, aqueles Estados, não muitos, regidos constitucionalmente, buscando atuar guiados por princípios e valores que tomaram inspiração no Iluminismo europeu do século XVIII e em algumas normas liberais que foram se afirmando ao longo dos tempos, várias materializadas em regimes liberais e burgueses que tomaram forma e consistência a partir do século XIX.

Regimes autoritários costumam ser agressivos, vis-à-vis sua própria população, em primeiro lugar, mas também em seu entorno imediato, mas também em direção de paragens mais distantes.

Os regimes democráticos e liberais, por sua vez, buscam agir por meio de consensos possíveis, pelo diálogo e por normas escritas ou consuetudinárias dos instrumentos constitucionais e por tratados internacionais. Não se tem notícias de regimes liberais lançarem guerra contra outros regimes democráticos, fora de impulsos imperiais por governos disfuncionais ou dirigidos por personalidades autoritárias.

Na atualidade, existem alguns exemplos dessas disfuncionalidades. Os EUA de Trump, desbancando tradições liberais e democráticas de sua origem como democracia agropastoril, já no passado industrializante, começou a impor sua vontade sobre vizinhos menores, antes de se lançar, desde 2017, numa ofensiva contra regimes autoritários, a exemplo de Venezuela e Cuba.

A despeito de laços de amizade e até de acordos formais nenhum dos impérios autocráticos mais visíveis veio em socorro desses regimes atacados pelo novo Estado autoritário de Trump, dotado de uma nova doutrina de segurança nacional claramente autoritária e agressiva, pretendendo se apossar unilateralmente de territórios sob jurisdição soberana de outros Estados. A Rússia porque está enredada em suas próprias aventuras imperiais no seu entorno — aliás desde a Georgia em 2008, culminando com a Ucrânia, em 2014 e 2022 — e não pode sequer fazer valer sua solidariedade plena com a Síria de Hassad, a Venezuela de Maduro ou o Irã da teocracia militarizada. A China porque não pretende exercer nenhuma projeção imperial fora dos estritos limites de sua soberania histórica, e porque simplesmente não é um Estado militarista expansionista, buscando estender sua influência pelo sistema multilateral de comércio e pelas normas existentes, flexíveis, do Direito Internacional.

O governo Trump, um regime apenas temporário, destoa dos princípios liberais dos governos democráticos e de economias de mercado avançadas.

O Brasil dos governos lulopetistas parecer ser uma das poucas democracias de países ditos em desenvolvimento que apoiam abertamente regimes autocráticos, na companhia da Índia e da África do Sul, primeiro consorciados no IBAS, depois dando um salto paradigmático para se agruparem no bloco do BRICS, um Frankenstein improvisado, atuando como se fosse um grupo oposto ao G7 (do qual a Rússia já fez parte, nos tempos do G8) e à OCDE. 

Tenho procurado nas notas do Itamaraty, sempre tão frequentes a propósito de quaisquer eventos externos dignos de registro, alguma manifestação de solidariedade, até formal, a respeito dos inúmeros, frequentes, constantes ataques terroristas da Rússia contra alvos civis na Ucrânia, provocando muitas mortes e destruições massivas por meio de mísseis balísticos, e NÃO TENHO ENCONTRADO. Só posso explicar como o resultado de alguma conivência com o agressor, o que me parece francamente inaceitável. Eu não esperava isso de uma diplomacia em favor da qual trabalhei incansavelmente durante mais de quatro décadas.

Não creio que o Brasil digno mereça fazer parte de uma Internacional Autoritária. Seria extremamente decepcionante para todo brasileiro defensor de certos valores e princípios que sempre enfeixaram a sua política externa, aliás consolidados na própria Constituição do Brasil.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5392, 8 julho 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/uma-nova-internacional-autoritaria.html).

 

 

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