sexta-feira, 17 de julho de 2026

Como o Pix foi para o centro da guerra tarifária de Trump - Michael Pooler e Beatriz Langella (Financial Times)

Como o Pix foi para o centro da guerra tarifária de Trump
Ameaça alfandegária por tratamento "injusto" causa tempestade em ano eleitoral
Michael Pooler e Beatriz Langella
Financial Times, 14/07/2026

No cerne da nova ameaça dos Estados Unidos de impor tarifas alfandegárias contra o Brasil há uma fonte de irritação de aparência inofensiva: um sistema de pagamentos instantâneos utilizado por milhões de pessoas todos os dias na maior economia da América Latina.
O Pix, serviço administrado pelo governo, tornou-se praticamente onipresente no território continental do país, das regiões remotas da floresta amazônica às favelas nas cidades.

Gratuita para os consumidores e de baixo custo para as empresas, a ferramenta de transferência digital de dinheiro é saudada por ter suscitado um grande impulso à inclusão financeira em uma das sociedades mais desiguais do mundo desde seu lançamento, no fim de 2020.

Integrado aos aplicativos de telefone celular dos bancos e das firmas de tecnologia de serviços financeiros, o sistema permite transferências diretas entre contas bancárias sem necessidade de cartões de crédito ou de débito. O Banco Central do Brasil informa que a ferramenta trouxe mais de 70 milhões de pessoas ao sistema financeiro.

"O Pix é ótimo porque você não precisa levar dinheiro [físico], você pode fazer tudo só com seu telefone", diz Cícero Alves, taxista de 79 anos, no Rio de Janeiro.

No entanto, apesar de ser um êxito do governo - ou talvez justamente por isso -, o Pix está entre as principais justificativas para a taxa de 25% que Washington ameaçou em junho impor sobre vários dos produtos que importa do Brasil.

Segundo apoiadores do governo de esquerda em Brasília, o motivo é que o popular instrumento de pagamento representa um desafio para as redes de cartões da Visa e da Mastercard, dos EUA, assim como para outras empresas de pagamentos e de tecnologia do país.

Uma investigação do Gabinete do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) em junho sobre as supostas práticas comerciais injustas acusou o Brasil de dar tratamento preferencial à "campeã nacional" à custa das empresas de meios de pagamento dos EUA, pois limita as tarifas cobradas para encorajar o uso do Pix, em vez dos sistemas concorrentes. Todas as instituições financeiras com mais de meio milhão de clientes são obrigadas a oferecer a ferramenta a eles.

O relatório descreveu as políticas relacionadas ao Pix como "injustas e discriminatórias". Também sustentou que há conflito de interesses pelo fato de o Banco Central (BC) atuar ao mesmo tempo como operador do sistema e seu regulador.

Embora nenhuma medida tenha sido proposta diretamente contra o Pix, as críticas a um patrimônio nacional tão apreciado desencadearam uma controvérsia política no Brasil, que deverá estar presente nas próximas eleições.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou o principal adversário na disputa de outubro, o senador Flávio Bolsonaro - filho do ex-presidente Jair Bolsonaro,
atualmente preso -, de ter feito um convite para que houvesse interferência externa.

"Querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele", publicou Lula nas redes sociais.

Flávio Bolsonaro, que visitou Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca poucos dias antes da divulgação do relatório do USTR, nega as acusações e pediu ao governo Trump para não impor novas tarifas antes da eleição. Ele argumenta que isso beneficiaria Lula politicamente.

Na semana passada, em Washington, Flávio defendeu o Pix. Disse que o instrumento "beneficiou diretamente empresas americanas, uma vez que o volume de transações processadas via cartões emitidos por redes dos EUA continuou a crescer".

No entanto, em um documento enviado ao USTR, ele também se dispôs a impedir que o Pix seja integrado a sistemas transfronteiriços de liquidação financeira de países não ocidentais - um aparente aceno às preocupações do governo Trump quanto a possíveis iniciativas para que o comércio internacional passe a depender menos do dólar, como defende Lula.

À medida que se aproxima o fim do prazo para o USTR tomar medidas contra o Brasil, que vai até 15 de julho, Lula vem recorrendo ao sentimento local de patriotismo para tentar repetir o impulso na popularidade que ganhou quando a investigação foi aberta pela primeira vez, há um ano. Na ocasião, ela veio acompanhada de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros - agora já revogada - que tentou sem sucesso impedir o processo contra Jair Bolsonaro, aliado de Trump, por acusações de tentativa de golpe de Estado.

Por sua vez, Flávio tenta creditar ao pai a criação do Pix. Embora o sistema tenha entrado em vigor durante o governo do pai, o projeto foi lançado por técnicos do Banco Central que haviam concebido a ideia anos antes.

"O Pix tem impacto na campanha de Lula porque é uma maneira de levantar o estandarte da soberania nacional", disse Creomar de Souza, fundador da firma de consultoria Dharma Political Risk and Strategy. "Do ponto de vista da campanha de Flávio, existe uma ameaça real de que suas ações sejam interpretadas como uma concessão aos interesses dos EUA."

O relatório do USTR traz ecos de algumas preocupações apresentadas em um documento do grupo lobista Information Technology Industry Council (ITI), que tem sede em Washington e reúne grandes empresas americanas de tecnologia e de meios de pagamento.

"É preciso ter ciência do fato de que o Pix é um substituto do [cartão de] débito. Definitivamente, é um problema para as redes de cartões no longo prazo", disse Dan Dolev, analista do setor financeiro no banco Mizuho.

A Mastercard não quis dar entrevista e a Visa não respondeu aos pedidos para se pronunciar.

Criado como alternativa às transferências entre bancos, que demoravam mais tempo e normalmente cobravam tarifas dos consumidores, o Pix tornou-se o meio de pagamento eletrônico mais utilizado no Brasil em número de operações.

No segundo semestre de 2025, representou mais da metade de todas as transações realizadas no país e pouco mais de um quarto do valor movimentado. Segundo o Banco Central, é usado por mais de 170 milhões de pessoas - cerca de 80% da população. Só em maio, o sistema processou R$ 3,48 trilhões (US$ 650 bilhões), em 7,9 bilhões de transações.

Os pagamentos via Pix são feitos na maioria das vezes pelo celular e requerem uma conexão com a internet e uma conta em banco ou instituição financeira. Para fazer uma operação, o pagador pode digitar a chave exclusiva do destinatário e o valor a transferir, ou o comerciante pode gerar um código QR para o pagamento.

Segundo um estudo de 2022 publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), a tarifa média que os bancos cobram dos comerciantes por operações via Pix é de 0,22%, em comparação aos pouco mais de 1% para cartões de débito e aos 2,2% para cartões de crédito. (No caso de microempreendedores, a tarifa é zero.) O Pix também é mais barato do que as taxas de cartões de crédito cobradas nos EUA, no Canadá e na União Europeia, constatou o estudo.

Brasília rebate as acusações do USTR e argumenta que o Pix é uma infraestrutura pública aberta e não discriminatória, criada para melhorar a eficiência dos pagamentos e reduzir os custos das transações. O governo sustenta que a ferramenta permite às empresas desenvolverem serviços com base no Pix e que empresas estrangeiras também foram beneficiadas. Além disso, acrescenta que o Google Pay é o maior iniciador de pagamentos dentro do Pix e que uma subsidiária da Visa recebeu autorização para operar o sistema.

No entanto, uma decisão anterior do Banco Central também pode ter alimentado as críticas americanas. A autoridade monetária bloqueou uma plataforma de pagamentos do WhatsApp uma semana após seu lançamento, em 2020, por preocupações com a concorrência e a privacidade de dados. Permitiu seu relançamento apenas depois da implementação do Pix.

Hoje, o Pix é o segundo maior sistema de pagamentos em tempo real do mundo em número de transações, atrás apenas da Unified Payments Interface (UPI), da Índia, segundo a ACI Worldwide.

O Banco Central já declarou em outras ocasiões ter discutido a adoção do Pix com países vizinhos. A Colômbia possui um sistema de pagamentos instantâneos inspirado no modelo brasileiro.

O Banco Central do Brasil não quis conceder entrevista, mas declarou que sua "regulamentação tem como foco a abertura e a equidade em todos os segmentos do sistema de pagamentos".

O ambulante Douglas de Souza, de 35 anos, que vendia camisas da seleção brasileira na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, antes da eliminação do Brasil da Copa do Mundo, elogia a ferramenta de pagamentos.

Apesar de ter votado em Bolsonaro em 2022, ele disse não ter uma boa impressão do filho do ex-presidente e afirma que desta vez apoiará Lula. "Você não vê o presidente Lula nem ninguém mais indo aos EUA para entregar o país ou falar mal dele para os americanos."

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