segunda-feira, 20 de julho de 2026

O Holodomor ucraniano, antes e depois; Madame IA analisa o que foi a grande fome na Ucrânia promovida por Stalin e agora por seu seguidor Putin

Madame IA discorre, no texto abaixo, a pedido de nosso gerente comum, Airton Dirceu Lemmertz, sobre o Holodomor, com base em conceitos comumente utilizados por mim no Diplomatizzando, mas ela provavelmente não leu, pois que pouco divulgada, uma nota que elaborei em 2023 sobre o Holodomor do Putin contra o povo ucraniano, inclusive responsabilizando a diplomacia brasileira pelo silêncio em face da mortandade promovida pela guerra de agressão da Rússia contra o povo ucraniano (transcrito in fine). PRA 

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ADL a Madame IA: Apresente um texto sobre "Holodomor" ("A Grande Fome Ucraniana"). O texto deverá ter, no mínimo, 7700 caracteres; deverá usar apenas frases e parágrafos; deverá utilizar, como base (ou seja, como fonte), os textos correlatos em postagens do blog Diplomatizzando; deverá usar o estilo de escrita do diplomata Paulo Roberto de Almeida. 

O fenômeno histórico conhecido como Holodomor, termo derivado das palavras ucranianas para fome e extermínio, representa um dos capítulos mais sombrios e meticulosamente ocultados do século XX. A análise rigorosa desse morticínio deliberado exige o afastamento completo das paixões ideológicas e a adoção de uma perspectiva firmemente ancorada nos fatos documentais, tal como amiúde propugnado nas reflexões analíticas do embaixador e historiador diplomático Paulo Roberto de Almeida em seu espaço de debate intelectual, o blog Diplomatizzando. Longe de constituir um mero acidente climático ou uma disfunção passageira nas forças produtivas da agricultura soviética, a Grande Fome Ucraniana revelou-se um autêntico genocídio planejado, operado e executado por estruturas estatais hipertrofiadas sob o comando direto de Joseph Stalin. Examinar esse episódio crucial à luz da história diplomática e das relações internacionais contemporâneas desvela os mecanismos perversos por meio dos quais regimes totalitários instrumentalizam a escassez alimentar absoluta para subjugar o nacionalismo, erradicar dissidências políticas e reformar compulsoriamente a estrutura socioeconômica de uma nação inteira.
A gênese da catástrofe humanitária remonta diretamente à virada da década de 1920 para a década de 1930, quando o comitê central do partido comunista da União Soviética deliberou pela aceleração brutal dos planos quinquenais de industrialização pesada. O financiamento dessa modernização urbana e fabril dependia crucialmente da capacidade do Estado soviético de extrair excedentes agrícolas do campo para exportação global e abastecimento dos grandes centros urbanos russos. Diante desse imperativo puramente ideológico e centralizador, o regime stalinista desencadeou o programa de coletivização forçada da agricultura em 1929 e 1930, extinguindo sumariamente a propriedade privada rural e empurrando a massa camponesa para as estruturas coletivas dos kolkhozes. A resistência a esse processo foi generalizada e feroz, manifestando-se de forma particularmente intensa na Ucrânia, região historicamente caracterizada por uma sólida tradição de pequenos proprietários agrícolas independentes conhecidos pela alcunha pejorativa de kulaks. A resposta do aparato repressor de Moscou não tardou, inaugurando uma escalada de violência que combinava deportações em massa para o arquipélago do Gulag, execuções sumárias perpetradas pela polícia política e o confisco sistemático de sementes e ferramentas.
À medida que os agricultores ucranianos reagiam à expropriação violenta reduzindo o plantio ou abatendo seus próprios rebanhos para evitar a entrega ao Estado, a liderança bolchevique interpretou essa postura não como uma reação natural à destruição de seus meios de subsistência, mas como uma sabotagem contrarrevolucionária orquestrada por elementos nacionalistas. Em consequência, o governo soviético elevou as cotas obrigatórias de entrega de grãos a patamares matematicamente impossíveis de serem atingidos pela lavoura devastada. No ano fatídico de 1932, a imposição da famigerada lei das cinco espigas criminalizou severamente qualquer indivíduo, inclusive crianças famintas, que recolhesse restos de trigo deixados nos campos coletivizados, aplicando penas que variavam do fuzilamento imediato a longos anos de trabalhos forçados. Brigadas de ativistas urbanos e agentes da polícia secreta foram despachadas para o interior da Ucrânia com ordens expressas de revistar cada residência rústica, confiscando não apenas os grãos remanescentes, mas todo e qualquer alimento estocado, incluindo vegetais domésticos, animais de criação e sementes reservadas para o ciclo de plantio subsequente.
O isolamento geográfico e administrativo da Ucrânia completou o cerco mortífero desenhado pelos planejadores stalinistas na virada para o ano de 1933. Fronteiras internas foram rigidamente bloqueadas por tropas do exército vermelho e agentes de segurança pública para impedir o êxodo da população rural desesperada em direção às grandes cidades ou a outras repúblicas soviéticas menos castigadas pela requisição de víveres. O sistema de passaportes internos, introduzido justamente naquele período de agonia, negou sistematicamente o direito de livre circulação aos camponeses ucranianos, confinando-os a vilarejos transformados em verdadeiros campos de extermínio ao ar livre. O resultado dessa engenharia social punitiva foi uma mortandade em escala industrial, cujas estimativas demográficas mais rigorosas apontam para a perda direta de quase quatro milhões de vidas ucranianas, embora cálculos que computam o colapso na natalidade e as perdas em regiões periféricas sugiram cifras ainda mais assustadoras, alcançando os sete milhões de mortos. Relatos contemporâneos resgatados de arquivos confidenciais descrevem cenas dantescas de inanição extrema, degradação do tecido social elementar, episódios generalizados de loucura coletiva e manifestações esporádicas de canibalismo decorrentes do desespero absoluto.
Para além do horror puramente humano ocorrido no solo ucraniano, o Holodomor constitui um estudo de caso fundamental sobre a cumplicidade internacional e a manipulação deliberada da informação jornalística e diplomática global. Enquanto milhões de seres humanos pereciam silenciosamente na Europa Oriental, o regime soviético montou uma formidável operação de relações públicas e cortinas de fumaça para enganar observadores estrangeiros e preservar a reputação do socialismo real perante as democracias ocidentais. Intelectuais simpáticos à causa bolchevique, diplomatas ocidentais e correspondentes de jornais de prestígio, notadamente Walter Duranty do The New York Times, engajaram-se ativamente na negação da fome, classificando notícias sobre a tragédia como propaganda antissoviética. Essa farsa internacional impediu a mobilização de ajuda humanitária externa que poderia ter atenuado o sofrimento da população civil, demonstrando como o pragmatismo geopolítico e a cegueira ideológica frequentemente conspiram para obscurecer a consumação de crimes contra a humanidade.
O debate contemporâneo em torno do reconhecimento jurídico do Holodomor como genocídio permanece vivo nas chancelarias e academias mundiais, refletindo-se diretamente nas discussões hospedadas por intelectuais no ambiente do Diplomatizzando. Historiadores de renome e juristas alinhados com o legado de Raphael Lemkin, o formulador do conceito de genocídio, sustentam que o Holodomor preenche todos os requisitos estabelecidos pelo direito internacional para tal tipificação. O argumento central repousa na intencionalidade do regime stalinista de destruir, no todo ou em parte, o grupo nacional ucraniano enquanto entidade política e cultural distinta, utilizando a fome como arma biológica seletiva. Em contrapartida, correntes revisionistas e as narrativas oficiais emanadas de Moscou tentam diluir a especificidade da tragédia ucraniana, rotulando o evento como uma infelicidade climática geral que afetou indiscriminadamente outras regiões soviéticas, omitindo o fato de que apenas na Ucrânia o confisco de alimentos foi acompanhado pelo fechamento militarizado de fronteiras e pela decapitação sistemática das elites intelectuais e eclesiásticas locais.
A relevância do Holodomor estende-se para além do mero registro historiográfico, projetando sombras longas sobre a geopolítica europeia contemporânea. A persistente recusa do atual governo russo em admitir o caráter genocida da grande fome stalinista liga-se diretamente à sua tentativa contemporânea de reescrever a história e negar a legitimidade da soberania nacional ucraniana. Como observa de forma perspicaz a melhor literatura de relações internacionais, a guerra travada no campo de batalha é frequentemente precedida e legitimada por uma guerra contra a memória histórica. O resgate da verdade factual sobre o massacre de 1932-1933 converteu-se em pilar fundamental para a consolidação da identidade nacional da Ucrânia independente, servindo como advertência permanente contra os perigos decorrentes do totalitarismo e do messianismo estatal.
Compreender o Holodomor à luz da racionalidade diplomática e econômica expõe a fragilidade dos arranjos internacionais que negligenciam os direitos humanos em nome de imperativos comerciais ou de equilíbrios de poder artificiais. O sacrifício de milhões de camponeses no altar da coletivização agrícola soviética permanece como um monumento trágico à miséria intelectual e moral de regimes que subordinam a dignidade intrínseca da pessoa humana a abstrações ideológicas totalizantes. A leitura atenta das postagens correlatas no blog Diplomatizzando oferece um subsídio indispensável para quem deseja aprofundar-se no exame crítico das ditaduras do século passado, municiando diplomatas, acadêmicos e cidadãos com as ferramentas analíticas necessárias para identificar e combater as novas roupagens do autoritarismo que ameaçam a estabilidade internacional e a convivência democrática entre as nações no presente século.

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Madame IA não relata que o jornalista inglês Gareth Jones percorreu a Ucrânia em pleno Holodomor e fez uma série de relatos sobre as atrocidades que contemplou, gente morrendo de fome, nas ruas e nas casas. Existe uma edição brasileira dos seus textos, pelo jornalista Duda Teixeira: 

Fome na Ucrânia - Os relatos do front do Holodomor: Os relatos do front do Holodomorpor Gareth Jones e Duda Teixeira | 18 out. 2022 (link).

Tem também esta nota: 

4416. “O Holodomor de Putin”, Brasília, 13 junho 2023, 1 p. Nota sobre o morticínio russo contra o povo ucraniano. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/06/o-holodomor-de-putin-paulo-roberto-de.html).

 

O Holodomor de Putin

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre o morticínio russo contra o povo ucraniano.

  

O tirano de Moscou já constatou que ele não poderá mais anexar a Ucrânia pela força.

Ele agora só está empenhado em destruir o país e matar o maior número possível de pessoas, inclusive velhos e crianças. 

A diplomacia brasileira já perdeu qualquer resquício de moralidade?

Se revela incapaz de expressar pelos ucranianos os mesmos cuidados que o governo diz manter em relação aos “povos originários”? 

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia é apenas um detalhe nos planos de Lula para uma “nova ordem mundial”?

O Brics continuará, como no ano passado, absolutamente indiferente ao morticínio deliberado que ocorre na Ucrânia?

E sua Declaração de cúpula ainda terá a petulância (e a ignomínia) de afirmar, como foi o caso em 2022, que todos os países respeitam a Carta da ONU e os DH?

Confesso meu asco em pensar que meus colegas diplomatas possam negociar os termos de um documento final recheado de mentiras escabrosas.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4416, 13 junho 2023, 1 p.

Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/06/o-holodomor-de-putin-paulo-roberto-de.html).

  

 

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