Embargos Culturais
O Adversário, de Emanuel Carrère
Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy
Consultor Jurídico,
19 de julho de 2026, 8h00
https://www.conjur.com.br/2026-jul-19/o-adversario-de-emanuel-carrere/
Emanuel Carrère é um escritor francês que tem se notabilizado por livros que tratam de crimes e outras tragédias da vida. Em Outras Vidas que Não a Minha, narra um tsunami ocorrido em Sri Lanka. Carrère presenciou os fatos. Estava com a família hospedado em um resort.
A tragédia ocorreu em 2004. Em V 13 (na minha opinião seu livro mais arrebatador, resenhado nesta coluna em 2024) Carrère acompanha o julgamento de extremistas do Estado Islâmico responsáveis pela morte de 130 pessoas. São os dolorosos fatos ocorridos em Paris, em 13 de novembro de 2015. Em O Adversário, tema desta semana, o autor acompanha o julgamento de um homem que matou a esposa, dois filhos, o pai e a mãe, que ateou fogo na própria casa e que tentou o suicídio. Que defesa poderia haver?
Nos livros de Carrère o que liga as narrativas é a compaixão com a qual o autor trata vítimas e assassinos. Na impressão de Carrère, vítimas e assassinos são vítimas dos fatos da vida. Do ponto de vista criminológico, uma inusitada vitimologia, que escapa aos cânones da vitimologia tradicional. A vitimologia é um ramo da criminologia que estuda a figura da vítima, analisando sua personalidade, vulnerabilidades, o papel que desempenha na ocorrência do crime e o impacto da violência em sua vida.

Carrère amplia o escopo da definição e insere o criminoso no campo da vítima. É o que incomoda muita gente. Nas entrelinhas, o leitor percebe uma obcecada tentativa de compreensão do criminoso, que de algum modo (na percepção de Carrère) é vítima de sua trajetória e de suas escolhas. Tem-se a impressão de que o autor questiona os dogmas do livre-arbítrio, inferindo do mundo um determinismo mefistofélico que ronda todas as tragédias. Um livro que provoca.
Nenhum comentário:
Postar um comentário