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domingo, 30 de junho de 2019

O papel da mulher na história do Brasil - Paulo Rezzutti

Nada de coadjuvantes: historiador revê papel da mulher na História do Brasil

Biógrafo da Marquesa de Santos e da Imperatriz Leopoldina, historiador conclui monólogo em que Domitila questiona distorções em sua biografia
A marquesa de Santos entrou para a História como amante de D. Pedro I e teve sua atuação política apagada Foto: ReproduçãoA marquesa de Santos entrou para a História como amante de D. Pedro I e teve sua atuação política apagada Foto: Reprodução
RIO – Domitila de Castro Canto e Melo viveu grandes paixões, ganhou títulos de nobreza, militou no Partido Liberal, envolveu-se em grandes debates, liderou a emergente sociedade paulistana no século XVIII e defendeu os mais carentes. Mas passou para a posteridade, simplesmente, como a amante de D. Pedro I. Na peça “Marquesa de Santos Verso e Reverso”, de Paulo Rezzutti, Domitila tem a oportunidade de questionar o escritor por trechos em sua biografia.
O monólogo traz à tona um questionamento sobre o verdadeiro papel das mulheres em nossa História. Normalmente, diminuído ou até apagado. A elas eram reservados apenas dois papéis: o de esposa fiel ou de amante.
– O papel da mulher brasileira foi sendo invisibilizado ou diminuído conforme se conta a História. Quem conta um conto aumenta um ponto. Mas, no caso das mulheres, parece que diminuem vários pontos – observa o escritor e biógrafo Paulo Rezzutti, que finalizou o roteiro da peça que mostra a rica e agitada vida de Domitila.
Rezzutti começou a perceber algo de errado na História de personagens femininas já em sua primeira biografia, lançada em 2013, justamente sobre a marquesa: “Domitila, a verdadeira história da Marquesa de Santos”. Em 2017, o escritor abordou o outro lado do caso. Escreveu sobre a mulher do imperador: “D. Leopoldina. A História não Contada”. Percebeu que, mais uma vez, a personagem recebia uma descrição histórica reduzida. Era a mulher traída e mãe do herdeiro do trono, D. Pedro II. O escritor a define como a mulher que arquitetou a independência do Brasil.
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Rezzutti pesquisou a biografia de mais de 200 personagens marcantes em todas as épocas no País. O esforço culminou no livro “Mulheres do Brasil – A história não contada”, lançado no ano passado.
Para ele, além de uma sociedade sem discriminação de gênero, a mulher tem direito a um novo papel na História. Nesta entrevista, o autor nega que esteja tomando a fala de lideranças femininas. A mudança, ressalta, precisa envolver a todos.
Como você começou a olhar mais para o papel da mulher na nossa História?
Trabalhos anteriores me levaram a notar como o papel da mulher brasileira foi sendo invisibilizado ou diminuído conforme se conta a História do País. Quem conta um conto aumenta um ponto. Mas, no caso das mulheres, parece que diminuem vários pontos. Comecei a minha carreira de biógrafo com a Marquesa de Santos. Estudando a figura de Domitila de Castro Canto e Melo, vi que ela não se resumia a amante do imperador. Viveu quase 70 anos, foi amante de D.Pedro durante sete, e teve uma vida riquíssima, de ações, de amores, de filhos, de processos políticos. Foi militante do Partido Liberal, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. Havia uma participação política dela, em nível nacional e local, em São Paulo, completamente apagada.
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Uma outra biografia que escrevi foi sobre a Imperatriz Leopoldina. Durante o processo de escrita, vi o quanto ela era mais preparada para governar que o próprio D. Pedro I. A visão geopolítica, os contatos internacionais desde a época em que viveu em Viena e a convivência com várias pessoas importantes. Leopoldina estava em Viena, em 1814-15, quando ocorreu o grande Congresso de Viena, que o pai dela (Francisco I, da Áustria) sediou. Estavam lá o czar da Rússia (Alexandre I) e embaixadores britânicos e do mundo todo.
A experiência da imperatriz foi importante em momentos decisivos do País?
A Imperatriz Leopoldina passou para a História como mulher traída, mas teve participação importante nos eventos que culminaram na independência do Brasil Foto: ReproduçãoA Imperatriz Leopoldina passou para a História como mulher traída, mas teve participação importante nos eventos que culminaram na independência do Brasil Foto: ReproduçãoA imperatriz tinha uma rede de sociabilidade que permitiu, inclusive, o reconhecimento do Brasil como nação independente. Antes disso, Leopoldina preparara basicamente o "Dia do Fico". O fato de D. Pedro I ter ficado no Brasil, e outras questões relativas à Independência, mostram que ela estava por trás o tempo todo. Entra na História como a mulher traída, que teve de aguentar a amante do marido. Mas isso não resume sua vida. Leopoldina morreu antes de completar 30 anos, mas teve uma vida, principalmente política, muito forte e muito importante para a independência brasileira. Foi a primeira mulher a governar o Brasil, em várias ocasiões, quando D. Pedro I viajava. E isso também foi apagado.
Foi daí que veio o estalo sobre a diminuição do espaço da mulher na História brasileira?
Vendo essas duas mulheres, comecei a pensar: "Quem mais?" Quais foram as outras personagens que, também, não tiveram a história contada integralmente? Por que essas que a gente conta integralmente a vida estão na nossa história? Por que se fala da Anna Nery, a enfermeira que cuidou dos feridos na Guerra do Paraguai, que montou hospitais e laboratórios? Por que se fala da Maria Quitéria, uma mulher que pegou em armas durante a Guerra da Independência? Porque elas se encaixam em papéis que o homem permite. A Maria Quitéria só virou um soldado porque o País estava precisando. Ela se tornou um exemplo até mesmo para cutucar os homens: "A mulher está indo para a guerra, e você não vai ajudar o seu país?" E, depois, ela sumiu da História porque virou mãe e filha obediente.
Como as mulheres conseguiram ser vistas por outro ângulo?
A Anna Nery esteve na Guerra do Paraguai. Os filhos eram militares, e ela, viúva. Não tinha mais o que fazer da vida e seguiu os filhos. Depois que voltou da guerra, esta imagem sumiu. Portanto, estas mulheres eram figuras que serviam como exemplos históricos, de benemerência, exemplo disso ou daquilo. Mas, aí, há as vivandeiras, mulheres que seguiam o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Como a Anna Nery, outras mães, esposas e amantes seguiram os seus respectivos. Essas mulheres lavavam, passavam, cozinhavam e ajudavam o esforço de guerra. E muitas dessas mulheres, como Florisbela e Maria Curupaiti, quando os maridos caíram mortos, pegaram em armas e enfrentaram os paraguaios. Isso não aconteceu uma, mas várias vezes. Algumas continuaram seguindo o Exército como soldados. Essas mulheres não entraram na História.
O papel da mulher já estava definido ao nascer?
Durante séculos, o espaço da mulher foi interno, ela era a rainha do lar. Se saísse de casa, precisava da companhia do marido, do irmão ou do pai. Não podia ter acesso ao espaço público sem alguém que tomasse conta. O homem, não. Era o homem público, o cara ilibado. Mulher pública não era ilibada. Muito pelo contrário. Na época do Segundo Reinado, mulheres expunham quadros e ganhavam medalhas nas exposições imperiais da Academia de Belas Artes. Só que eram quadros de natureza morta, paisagens e bichinhos. A mulher não tinha acesso ao estudo do nu artístico. Para a mulher, era limitante, também, a expressão da arte.
E como surgem os primeiros quadros que mostram a mulher em posição fora dos padrões?
Georgina de Albuquerque se tornou a primeira mulher a pintar uma temática histórica envolvendo outra mulher: Leopoldina presidindo o conselho de Estado que determinou a independência do Brasil Foto: ReproduçãoGeorgina de Albuquerque se tornou a primeira mulher a pintar uma temática histórica envolvendo outra mulher: Leopoldina presidindo o conselho de Estado que determinou a independência do Brasil Foto: ReproduçãoAs primeiras a terem acesso ao estudo do corpo foram pintoras e escultoras da virada do século XIX para o XX. Georgina de Albuquerque estudou no exterior. Muitas delas acabavam complementando os seus estudos de nu artístico, de modelo-vivo, na Academia Julian, em Paris. No Brasil, era complicado: a legislação permitia, mas elas não se sentiam bem com os homens. Havia hostilidade contra mulheres nas classes de modelo-vivo. Georgina foi uma das que trabalharam o modelo-vivo e se tornou a primeira mulher a pintar uma temática histórica envolvendo outra mulher: Leopoldina sentada, presidindo o conselho de Estado que determinou a independência do Brasil. Nesse mesmo período, isso é 1921 e 1922, ocorreu o Centenário da Independência. Muitos artistas plásticos voltaram com esta temática histórica na pintura. Ao mesmo tempo, o italiano Domenico Failutti também pintou Leopoldina, mas sob encomenda do Museu Paulista (Museu do Ipiranga). Só que, pela encomenda do diretor do museu, é como? Ela sentada, rodeada de filhos. Assim, o homem viu Leopoldina como a mãe de D. Pedro II, esposa de D. Pedro I, e outra mulher a viu como estadista, participando do conselho de Estado.
Com o olhar de outra mulher, a História é diferente?
A gente tem a imagem da Maria Quitéria graças a uma inglesa, Maria Graham. Ela foi a preceptora da Maria da Glória – a filha mais velha de Leopoldina e D. Pedro I, rainha de Portugal. Maria Graham era uma mulher muito culta. Escreveu um livro a respeito da viagem ao Brasil. Relatou conversa com Maria Quitéria, ilustrada por gravura da personagem (com saia em cima da calça) feita pelo inglês Edward Finden. Por isso, sabemos que Maria Quitéria existiu. A questão é que ela havia brigado com o pai para ingressar no Exército. E o pai foi atrás dela, mas o Exército não a devolveu porque era boa atiradora. Naquele momento da independência, precisavam de gente com o mínimo de noção de arma, e Quitéria, criada pelo pai junto com um monte de irmãos, sabia caçar, atirar, montar, tudo o que homem sabia.
Mesmo no período colonial, as mulheres já apresentavam papel relevante?
A gente esquece das mulheres do Brasil Colônia. Duas capitanias hereditárias deram muito certo, São Vicente e de Pernambuco. Ambas foram governadas por mulheres. São Vicente foi fundada por Martim Affonso de Souza. Quando ele voltou para Portugal e recebeu uma ordem para partir rumo às Índias, passou uma procuração para a mulher, Anna Pimentel, administrar a capitania a partir de Portugal. Ela enviou os primeiros colonos para a região, além de gado, arroz, laranja e várias outras coisas. Martim Affonso de Souza havia determinado que a capitania se desenvolvesse apenas no litoral, mas ela descumpriu a ordem e permitiu que os colonos pudessem subir a Serra do Mar. Em última instância, São Paulo foi fundada graças a Ana Pimentel.Em Pernambuco foi uma viúva que perdeu os filhos e, sozinha, fez a capitania dar certo.
As mulheres sempre encontraram resistência a uma maior participação?
Julieta de França foi uma das primeiras escultoras do Brasil e a primeira a ganhar uma bolsa de estudos do governo, já nos anos iniciais da República. Em Paris, estudou com Rodin e participou de vários salões de arte. Como sua bolsa era pequena, ela não tinha recursos para fundir as peças em bronze e as apresentou em gesso. Mesmo assim, foi reconhecida e seu trabalho ficou em terceiro lugar em uma lista de esculturas feita por um crítico importante da época.

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Ao voltar ao Brasil, participou de um concurso para homenagear a república brasileira. Apresentou a maquete do monumento, mas a comissão de jurados considerou que aquilo não servia para nada e a desclassificou. O que esta mulher fez? Levou a maquete à Europa e conseguiu laudo positivo de grandes escultores europeus, inclusive Rodin. De volta ao Brasil, protocolou isso no Senado, afrontando toda a elite artística do País. Ninguém mais a contratou.
A luta pelos direitos das mulheres é muito antiga no Brasil?
Teresa Margarida da Silva e Orta é considerada a primeira romancista no Brasil. Nasceu em São Paulo, em 1711, e morou em Portugal. Escreveu: "Os homens nasceram primeiro que as mulheres e aproveitaram para pega todos os direitos. E para a gente não sobrou nada." As mulheres já se ressentiam há muito tempo de não ter acesso aos mesmos direitos dos homens. A professora Leolinda Daltro criou, no início do século passado, no Rio, o Partido Republicano Feminino. Depois veio a Bertha Lutz (bióloga e uma das primeiras ativistas feministas). O Rio Grande do Norte foi o primeiro estado a liberar o voto das mulheres. Foi de lá, também, a primeira prefeita, Alzira Floriano, em Lajes, eleita em 1928. Nacionalmente, o voto feminino só se concretizou em 1932. Mesmo assim, a brasileira obteve direito a voto antes das francesas, que só passaram a votar depois da Segunda Guerra Mundial.
Como foi a decisão de incluir Marielle Franco em "Mulheres do Brasil, a história não contada"?
Marielle entrou no meio da produção do livro. Os originais já tinham sido entregues e, na época, a editora-chefe com quem trabalho chamou a atenção sobre o crime. Aí, vi o quanto a vereadora havia trabalhado pelos direitos humanos. Pensei que o livro ficaria datado porque logo resolveriam o assassinato dela. Já faz mais de um ano e não vai ser amanhã que vão resolver o caso Marielle.
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Há um capítulo que tem mulheres de poderes e poderes das mulheres. Falo das mulheres que governaram o Brasil, das primeiras políticas e, aí, encaixei a Marielle na questão como vereadora, da participação no movimento popular, de onde ela veio e o que se tornou.
Você traça o perfil de mulheres que marcaram a nossa História?
Explico porque algumas mulheres não fazem parte da História. Modifico um pouco o discurso padrão de outras, como falar que a Dilma é a primeira mulher a governar o Brasil. Não. Não foi. A gente tem exemplos antes da República. Duas mulheres governaram o Brasil antes da presidente Dilma. Temos a Leopoldina e a própria Princesa Isabel, que governou o Brasil, no mínimo, por quase cinco anos. Ela assumia quando o pai viajava.
O senhor voltou à Marquesa de Santos com o monólogo em que ela mostra insatisfação com o que contaram em sua biografia.
Tenho uma peça a respeito da Marquesa de Santos. Brinco com a questão do árduo trabalho de ser biógrafo. A gente tem de trabalhar com documentação e, às vezes, faltam dados. Mas não podemos criar porque vira ficção. Acabamos deixando lacunas. Neste monólogo, faço uma inversão. A marquesa discute com o biógrafo imaginário, do mesmo jeito que tive a personagem imaginária dela na minha frente durante os dois anos em que escrevi a biografia.
A marquesa é um bom exemplo para entendermos como a mulher foi relegada na História?
Essa história da marquesa envolve muito a questão de gênero, absurdamente ainda comum. Uma questão pouco falada é que ela foi esfaqueada pelo marido. Ele jogava cartas e perdia muito dinheiro. Falsificou a assinatura de Domitila para vender terras que tinha herdado e conseguir o dinheiro. Chego ua tentar matá-la. Quer dizer, o cara tentou se livrar da marquesa, de ter tentado matá-la, alegando legítima defesa da honra. A quantidade de feminicídios no Brasil tem aumentado cada vez mais. Tem coisas que aconteceram há 200 anos, mas que continuam acontecendo até hoje.
Essa nova maneira de olhar para a História gerou polêmicas?
Uma coisa que me questionaram é se eu não estava tirando o lugar da fala da mulher. As mulheres estão inseridas na sociedade, mas ela snão vão conseguiram mudar tudo sozinhas. A sociedade precisa mudar. O homem, também, tem de fazer isso.
O monólogo "Marquesa de Santos" será apresentado no dia 17 de agosto, pela atriz Beth Araújo.
Solar da Marquesa de Santos (Museu da Cidade de São Paulo), às 10h
Rua Roberto Simonsen 136, Sé, Centro de São Paulo.

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