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terça-feira, 25 de junho de 2019

A China e a crise econômica de 2008 - entrevista a jornalista chinês - Paulo Roberto de Almeida

A crise de 2008, provocada pela crise imobiliária americana de 2007, e logo disseminada pelo sistema bancário americano e mundial, atingiu fortemente a China: suas exportações tiveram uma súbita redução de quase um terço, o que motivou um pacote de estímulo superior a meio trilhão de dólares. Fui contatado, no final de 2008, por um jornalista chinês, colocando-me várias perguntas basicamente de economia interna chinesa, sendo que eu não me considerava especialmente habilitado para me pronunciar extensamente a respeito. Ainda assim, respondi o melhor que pude, mas desconheço completamente se essas minhas considerações foram ou não aproveitadas.
Como nunca houve publicação de minhas respostas, faço-o agora, esperando que ainda ofereçam interesse aos leitores deste blog. Esclareço que dei muitas outras entrevistas sobre a crise no Brasil (em 2009 tivemos crescimento zero, a despeito do presidente Lula ter desprezado a dimensão da crise no ano anterior, chamado-a de simples "marolinha), assim como sobre as várias crises europeias, com destaque para a Grécia.
Dois anos depois, com o início do desastroso terceiro mandato do lulopetismo, começa a montagem da mixórdia econômica que nos levaria ao que eu chamei de "Grande Destruição", quando os países capitalista já tinham saído da Grande Depressão.
Eis o que escrevi no final de 2008:


A China e a crise econômica mundial

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15 de dezembro de 2008
Respostas a questões colocadas por
jornalista chinês.

1. The Chinese stimulus package not only seeks an increase in consumer’s spending but also improvements in infrastructure. Besides the economic changes, what consequences will this package bring to China in a long-term basis?

PRA: O pacote econômico de reestruturação da economia chinesa possui elementos coincidentes com outros pacotes de inspiração keynesiana, que estão sendo implementados por outros países em situação de crise, e alguns elementos apenas válidos para a economia chinesa. O extraordinário crescimento econômico da China, nos últimos vinte anos, foi baseado na mobilização de suas vantagens comparativas primárias – abundância de mão-de-obra, fraca organização laboral, mas forte organização política – para atender à demanda mundial por mercadorias baratas, no quadro da grande transformação acarretada pelo fim do socialismo e pela aceleração do processo de globalização. Foram as exportações que puxaram, em grande medida, o grande crescimento chinês, muito embora ela também esteja desenvolvendo, aceleradamente, o seu mercado interno, já que ela precisava absorver, a cada ano, algumas dezenas de milhões de novos (e alguns velhos) trabalhadores no mercado de trabalho. O setor da construção civil – e, portanto, da infra-estrutura – é extremamente relevante não apenas em termos de emprego, mas também como multiplicador – efeitos em cadeia, backward and forward linkages – econômico e como suporte físico do extraordinário crescimento chinês.
Não devemos, no entanto, esquecer, que grande parte do assim chamado “pacote de estímulo” chinês se compõe de programas já existentes, que foram reclassificados como programa de auxílio neste momento de crise. A China, realmente, encontra-se numa situação dramática, uma vez que ela PRECISA produzir empregos e crescimento, apenas para manter a paz social e a tranqüilidade econômica no país. Esse pacote visa, ao menos, compensar em parte as perdas inevitáveis, em termos de produção, emprego e renda, que se configuram como certas em face da crise financeira que já atingiu a economia real. O volume envolvido é expressivo, considerando-se que o PIB chinês, em PPP, já alcançou 4 ou 5 trilhões de dólares, mas, como dito acima, parte do dinheiro já estava comprometida com desembolsos previstos no orçamento do ano.

2. SiChuan communities devastated by May’s earthquake will be rebuilt with money provided by the stimulus package. In one hand, it will create jobs and demand construction material, which all represent a stimulus to the economy. However, should the rebuilt of a city destroyed by an earthquake be part of an economic, social or political plan?

PRA: Pode-se dizer que sim, por um lado, pois se trata, além de uma boa política de reconstrução, em geral, de um dever moral, uma demonstração de solidariedade nacional, nesse caso particular do terremoto e as zonas destruídas. Por outro lado, talvez não, pois se supõe que, num Estado moderno, o orçamento normal do país, em bases anuais, já deveria prever dotações específicas para casos de catástrofes naturais, defesa civil, enfim, fatores imponderáveis, mas que estão sempre presentes na vida dos países. Talvez, apenas motivações políticas dos próprios dirigentes chineses, tenham determinado que essa reconstrução se faça no quadro do pacote de estímulo, eventualmente com o objetivo de “inflar” um pouco artificialmente o montante total do pacote e assim dar a impressão de que a China está fazendo um grande esforço de recuperação e de superação da atual crise econômica.

3. Are investments in rural areas and social welfare projects reasonable solutions to increase GDP per capita in China? If so, how long will it take? How much increase?

PRA: Não apenas razoáveis, como absolutamente necessários para essa elevação da renda per capita e para a diminuição das desigualdades distributivas que são sempre inevitáveis, entre as rendas respectivas do setor rural e urbano. Entretanto, seria preciso ter consciência de que as políticas distributivas – em oposição a investimentos produtivos – são extremamente limitadas na elevação dos patamares de renda em bases permanentes, já que a assistência direta pode ser temporária e incapaz de aumentar a qualidade da oferta de mão-de-obra produtiva. Por outro lado, investimentos diretos, sobretudo em infraestrutura, saúde, educação e treinamento e capacitação técnico-profissional, são sempre a melhor opção para se conseguir essa melhoria no PIB per capita.
Dito isto, não tenho a menor ideia – por desconhecer os dados fundamentais da China – de quanto tempo isso poderia levar e do grau de elevação dessa renda. De toda forma, sabe-se que no ritmo anterior – à crise – de crescimento do PIB per capita da China (em torno de 8% ao ano), a renda pode duplicar em menos de uma geração, e provavelmente em menos de 20 anos. Como isso se distribui desigualmente entre o campo e a cidade, pode-se presumir que a renda urbana cresça mais rapidamente – talvez o dobro – do que a renda rural. O ritmo e a intensidade do crescimento da renda per capita no setor rural dependeriam, em grande medida, da capacidade dessas políticas de investimentos elevarem substancialmente a produtividade do trabalho humano nesse setor, pois este é o principal diferencial de renda que possa existir. Essa produtividade, por sua vez, depende basicamente de uma educação de qualidade, que tende a ser menos positiva nas zonas rurais, justamente. Assim, desse ponto de vista, se justifica esse investimento maior, ou mais focado, nas zonas rurais.

4. Because the US demand for commodities has decreased, Brazilians experts believe the stimulus package is good news. How optimistic can Brazil be towards the Chinese demand?

PRA: Não muito, pois que a demanda chinesa por commodities está em grande medida vinculada à demanda americana por bens manufaturados e outros produtos mais sofisticados. Assim, ao cair a demanda americana, seria inevitável uma queda no fornecimento brasileiro em matérias-primas, desde que vinculados a essa produção manufatureira.
Apenas que, parte dessas commodities são destinadas ao mercado interno chinês, como por exemplo alimentos e minério de ferro para a construção civil. Desse ponto de vista, o pacote chinês pode ser um elemento positivo na demanda externa por exportações brasileiras.

5. It is visible that this stimulus package will boost economic growth in China. What about its consequences for other countries, especially for the US?

PRA: Eu não diria isto, pois o pacote chinês vai apenas compensar parte do decréscimo de crescimento derivado da demanda americana. Ou seja, a queda no crescimento, inevitável, pode não ser mais tão dramática e prejudicial como se espera, à economia chinesa, apenas com base na implementação do pacote de estímulo, mas esse pacote pode não ser suficiente.
Por outro lado, os EUA também exportam muitos bens à China, além da própria interface dos investimentos diretos (ou seja, concepção e marketing dos EUA, e fabricação e demais operações feitas na China). O impacto do pacote chinês pode assim ser limitado para os EUA, mas ainda assim adaptado e adequado à atual conjuntura de recessão, quiçá de depressão.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15 de dezembro de 2008

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